segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhando, by Linda Hogan

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Finalizei há pouco a leitura de uma coletânea de textos sobre caminhadas, ou melhor, sobre a experiência do caminhar. A obra The Walker’s Literary Companion, (O Companheiro Literário do Caminhante) foi editada por três professores universitários que têm em comum a paixão pela caminhada e pela literatura de caminhada (usam o termo Walking Literature) e todos publicaram livros dentro dessa temática. Há de tudo um pouco nessa coletânea: ensaios, poemas, contos e excertos de romances. Muita coisa boa para garimpar.

Dos textos que li, me chamou a atenção o de uma autora desconhecida aqui no Brasil: Linda Hogan.  Linda é poeta, romancista, acadêmica e ambientalista e seu trabalho tem uma relação muito estreita com os povos nativos americanos, sendo ela mesma descendente, por parte de pai, dos índios Chickasaw.

O texto que traduzi abaixo carrega essa energia dos povos nativos, essa conexão que possivelmente só os índios, nos dias de hoje, são capazes de vivenciar. Mas nem tudo está perdido: as divagações da autora, que descobre uma nova maneira de observar o mundo depois de se deparar com um girassol numa caminhada na montanha, mostram que se estivermos abertos às coisas que nos rodeiam, ainda podemos resgatar, nem que seja por um breve momento, essa conexão com a natureza que tanto estimamos. Basta exercitar o olhar, abrir o coração e seguir os passos dos nossos ancestrais. 

Teve início em um ambiente escuro e subterrâneo, um ser faminto se movendo lentamente em direção à luz. Ela cresceu em um barranco seco ao lado da estrada de onde eu vivo, um lugar onde as encostas às vezes ficam amarelas, por conta das esvoaçantes marés de girassóis. Mas essa planta era diferente.  Estava sozinha e era maior do que as inúmeras outras situadas na parte de cima da colina. Essa planta era uma viajante, uma colonizadora, e como um sonho que nasce do conflito, ela cresceu onde a terra havia sido perturbada.  

Eu a vi primeiro no começo do verão, um broto verde adormecido, erguendo-se em direção ao sol. Formigas trabalhavam ao redor do botão de flor fechado, reunindo pulgões e seiva. Alguns dias mais tarde, ela se transformou em uma flor delicada e jovem, com um centro verde pálido e uma tropa de insetos cinza-prateados subindo e descendo seu caule. 

Durante o verão esse girassol se tornou uma planta de incrível beleza, voltando sua face diariamente em direção ao sol nas maneiras mais sutis, seu centro negro escuro e vivo com uma luz azul profunda, como se uma pederneira houvesse provocado uma faísca de fogo elementar lá dentro, em comunhão com a chuva, os minerais, o ar da montanha e a areia.


Com o verão mudando o cenário do verde para o amarelo, novos visitantes chegavam diariamente; os insetos de asas rendadas, as abelhas com pernas gordas de pólen, e os gafanhotos com suas asas tagarelas e fome desesperada. Sentia falta de outras formas de vida, aquelas muito pequenas ou escondidas da vista. Era como se essa planta, uma anfitriã de vidas, formasse uma sociedade em que, a cada momento, dependendo da luz e da umidade, acontecia uma grande e diversa mudança.

Havia mudanças no mundo próximo ao redor da planta igualmente. Um dia eu entrei em uma curva na estrada para encontrar um sinal perturbador de um cavalo morto, negro e ainda largado junto à encosta, seus olhos voltados para trás; num outro dia eu quase fui levada pelo vento e por uma tempestade de areia tão impetuosa que tive que esperar que passasse antes de poder voltar para casa. Nesse dia, as pétalas murchas do girassol foram varridas em direção à terra. Foi quando os pássaros chegaram para carregar as novas sementes para um outro futuro.

Nessa única planta, em uma estação de verão, aconteceu um drama de necessidade e sobrevivência. Os famintos foram satisfeitos. Insetos copularam. Houve fuga, exaustão e morte. Vidas surgiram e depois se foram.



Eu fui uma forasteira. Eu apenas olhei. Nunca aprendi a linguagem dourada do girassol ou a língua de seus cidadãos. Tive uma pequena compreensão, nada mais do que uma observação superficial da flor, dos insetos e dos pássaros. Mas eles sabiam o que fazer, como viver. Uma velha voz de algum lugar, gene ou célula, disse à planta como iludir a força da gravidade e encontrar seu caminho para o alto, seu desabrochar. Foi instinto, intuição, necessidade. Um certo conhecimento guiou os pássaros sementeiros por caminhos ancestrais que eles nunca haviam visto. Eles acreditaram. Eles seguiram.   

Existem outras intimações e chamados, alguns até mais misteriosos do que aqueles comandados aos pássaros ou às viagens de sobrevivência dos insetos. Os bambus, por exemplo, com suas finas copas verdes e caules dourados que rangem ao vento. Uma vez a cada século, todos os bambus de uma certa espécie florescem no mesmo dia. Nem a localidade da planta, na Malásia ou em uma estufa no Minnesota, nem sua idade ou tamanho faz diferença.  Eles florescem. Alguma corrente de linguagem interna passa entre eles, através do espaço e da separação, de uma maneira que nós não conseguimos explicar em nossa língua. Todos são, de algum modo, uma mesma planta, cada qual compartilhando um conhecimento comunal.



John Hay, em The Immortal Wilderness, escreveu: “Há ocasiões onde você consegue ouvir a linguagem misteriosa da Terra, da água, ou atravessando as árvores, emanando dos musgos, escorrendo pelas correntes subterrâneas do solo, mas você tem que estar disposto a esperar e receber”.

Às vezes eu escuto a natureza falar. A luz do girassol era uma linguagem, mas existem outras mais audíveis. Uma vez, na floresta das sequoias vermelhas, eu ouvi uma batida, algo como um tambor ou um coração vindo do chão, das árvores e do vento. Aquela corrente subterrânea remexeu um tipo de conhecimento dentro de mim, um parentesco e uma saudade, um sonho mal lembrado que desapareceu de volta ao corpo.



Uma outra vez, havia a voz crescente de uma tempestade oceânica que acontecia ao longe no mar, contando sobre o que vivia na distância, sobre a violenta água que iria chegar, onda após onda revelando a agitação no centro.

Hoje à noite eu caminho. Estou olhando o céu. Penso nas pessoas que vieram antes de mim e em como elas sabiam das posições das estrelas no céu, como observaram o movimento do sol por um tempo tão grande a ponto de poder testemunhar como um certo ângulo de luz tocaria uma pedra uma vez ao ano. Sem registros escritos, elas conheciam os deuses de cada noite, dos pequenos e mínimos detalhes do mundo que as cercava e da imensidão acima delas.



Caminhando, eu quase consigo ouvir o pulsar, a vibração das sequoias vermelhas. E os oceanos estão acima de mim aqui, nuvens rolantes, pesadas e escuras, trazendo a neve. Na estrada seca e vermelha, passo pelo lugar do girassol, aquela localidade escura e secreta onde ocorreu a criação. Imagino se ele irá retornar nesse verão, se irá se multiplicar e mudar para outro local numa luta de sobrevivência territorial.

É inverno e há fumaça nas chaminés. As janelas quadradas e iluminadas das casas estão embaçadas. É um mundo de atenção elementar, de todas as coisas trabalhando juntas, ouvindo seus ancestrais. Seja qual for a estrada que eu siga, eu ando pela terra de muitos deuses, e eles amam e comem uns aos outros. Caminhando, estou ouvindo de uma maneira mais profunda. Repentinamente, todos os meus ancestrais estão atrás de mim. Fique quieta, eles dizem. Observe e ouça. Você é o resultado do amor de milhares.
The Walker’s Literary Companion. Edited by Roger Gilbert, Jeffrey Robinson, Anne Wallace. Breakaway Books, 2000. First Edition.