quinta-feira, 15 de junho de 2017

A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, by Pico Iyer

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Já escolhi a melhor leitura que fiz nesse semestre: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum, do Pico Iyer. Para quem não o conhece, já escrevemos sobre esse autor aqui no Odepórica, num post duplo intitulado Por que viajamos, um texto que merece a leitura.

Dessa vez, a viagem é outra, mas também tem tudo a ver com nossas aventuras, deambulações, perambulações, passeios e perdições; como diz o Pico, a aventura a lugar nenhum.

Vão dizer que está na moda esse lance de meditar, aquietar a mente, sentar em silêncio, observar a respiração... inspira, expira, relaxa e viaja. Sim, uma moda com mais de cinco mil anos, dirão os entendidos, mas o que importa? Sempre é hora de aprender uma coisa nova, mesmo que essa coisa nova seja muito antiga.



Foi o que o Pico Iyer fez e é o que ele nos conta nesse breve relato de viagem que na verdade é um aprofundamento de uma palestra que ele proferiu na plataforma do TED, uma entidade sem fins lucrativos que se destina a divulgar ideias e que dispõe online centenas de palestras sobre tudo o que se possa imaginar.

Voltemos ao livro. São noventa páginas, capa dura, 6 capítulos curtos, gostosos de ler, o que nos dá tempo para refletir sobre cada passagem ou frase que toca fundo em algum lugar dentro de nós. Coisas que já sabíamos, na maior parte do tempo, mas que nos reconfortam porque percebemos que, sim, há outras pessoas que pensam e sentem como nós, há algo mais além daquilo que temíamos ser apenas uma bobagem, uma visão tola e romântica da vida...



No final de cada capítulo, uma surpresa: uma fotografia de natureza que toma duas páginas e que tem o poder de nos transportar para aquele cenário por alguns segundos, um feitiço imagético-literário. As imagens são de autoria de uma fotógrafa islando-canadense, Eydís Einarsdóttir, sobre quem escreverei no próximo post.

O texto começa em grande estilo. Pico dirige por montanhas da Califórnia rumo aos desertos do oeste; chega a um conjunto de chalés espalhados ao longo de uma encosta e um homem de pequeno porte, curvado e de cabeça raspada o espera em um estacionamento improvisado. Esse homem era Leonard Cohen. 



Foi Cohen, nome monástico Jirkan (uma referência ao silêncio entre dois pensamentos), quem parece ter aberto os olhos de Pico para a beleza e a felicidade que se pode encontrar quando se viaja a lugar nenhum.

“Sentar em silêncio era uma forma de se apaixonar pelo mundo e por tudo o que há nele. Eu nunca havia pensado nisso. Ir a lugar nenhum era uma maneira de atravessar o ruído e encontrar tempo e energia renovados para compartilhar com os outros. Algumas vezes eu me aproximara dessa ideia, mas nunca a compreendera tão claramente como no exemplo daquele homem que, embora parecesse ter uma vida completa, desistiu de tudo e foi procurar a felicidade e a liberdade. (...) Viajar para lugar nenhum, como Cohen havia me mostrado, não tinha a ver apenas com austeridade; era uma forma de se aproximar dos sentidos.” 



Depois dessa introdução, Pico começa a rememorar sua juventude e volta ao ano de 1986 quando, já tendo a vida feita, carreira, casa, esposa e prestes a completar 30 anos, abandona a rotina e vai viver um ano numa ruela de Quioto, a antiga capital japonesa.

“Ir a lugar nenhum, como Leonard Cohen enfatizaria mais tarde, não era virar as costas para o mundo, mas sim sair de fininho de vez em quando para poder enxergá-lo de forma mais clara e amá-lo mais profundamente”. 



Todo o resto da obra é uma reflexão mais aprofundada sobre esse pensamento acima. É importante notar que o autor, notório viajante, não quis passar a mensagem de que viajar, no sentido comum da palavra, seja algo obsoleto, ultrapassado; na verdade, só depois de muita estrada percorrida é que seremos capazes de entender a importância fundamental da quietude e dos momentos solitários.

Separei algumas passagens que me tocaram e deixei muitas outras, tão boas quanto, de fora dessa pequena seleção, na esperança de que você depois de ler essa breve resenha, compre o livro e se inspire o tanto quanto eu me inspirei ao lê-lo. 

Toda vez que faço uma viagem, a experiência só adquire significado para mim depois que volto para casa e, sentado em silêncio, transformo as paisagens que vi em revelações permanentes.




(...) é bom lembrar que o espírito pode nos levar tão longe quanto o movimento físico. Henry David Thoreau, um dos grandes exploradores do século XIX, relata em seu diário de viagens: “O mais importante não é a distância para onde você viaja – em geral quanto mais longe, pior -, mas sim quão vivo está”.



Em minhas viagens pelo mundo, uma das maiores surpresas que tive foi ver que as pessoas mais interessadas em por limites no avanço das novas tecnologias são justamente as que ajudaram a criá-las, derrubando muitos dos limites antigos. As pessoas que trabalharam para acelerar o mundo são as que estão hoje mais empenhadas em desacelerá-lo.



Programara viagens longas e emocionantes pelo Vietnã e pela Islândia e me sentia feliz com a escolha, que me permitiria reforçar meu engajamento com o mundo em poucas semanas. No entanto, a certa altura, todas essas viagens horizontais mundo afora não conseguiam mais suprir minha necessidade de ir além, rumo a um lugar desafiador e surpreendente. O movimento adquire um sentido mais rico quando baseado na quietude.



Leonard Cohen tornou-se o poeta predileto dos viajantes, recusando-se a criar raízes em qualquer lugar, um “garoto cigano” que não admitia que tivessem nenhum tipo de expectativa em relação a ele. Entretanto, como muitos viajantes sem destino, ele parecia saber que é somente quando paramos que podemos despertar em nível muito mais sutil e profundo. (...) Quando ele falava sobre si mesmo, reconhecia que suas viagens mais impressionantes foram as interiores.



No mundo de hoje, onde impera a velocidade, nada é mais revigorante do que ir devagar.
Numa época de distração, nada é mais enriquecedor do que prestar atenção.
E numa época de movimento constante, nada é mais urgente do que permanecer parado, sentado em silêncio.

Leia: A arte da quietude: aventuras rumo a lugar nenhum. Pico Iyer. Editora Alaúde. São Paulo, 2016 (Ted Books)
Assista: Pico Iyer no TED:  The Art of Stillness (com legenda para o português)

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