quinta-feira, 9 de novembro de 2017

O companheiro amável de viagem, by Irving Tressler

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Há uma expressão em inglês que não encontra tradução à altura na língua portuguesa: belly laugh (belly = barriga; laugh = risada); “morrer de rir” ou “chorar de tanto rir”, expressões bastante comuns, poderiam ser uma opção, mas nem de longe nos levam à imagem gostosa de alguém que ri com as mãos sobre a barriga, lágrimas escorrendo nos cantos dos olhos, bocarra aberta... fui pesquisar e encontrei uma expressão que não conhecia: “rir a bandeiras despregadas”:

“É este o registo da expressão «rir a bandeiras despregadas» do Dicionário de Provérbios e Curiosidades, de R. Magalhães Júnior: «É o mesmo que "rir às gargalhadas", abertamente, ruidosamente; «Bandeiras despregadas» significa «velas (dos navios) ao vento», «bandeiras desfraldadas» ou «bandeiras ao vento». A expressão «rir a bandeiras despregadas» significa «rir aberta e sinceramente como nos dias de festa». É fácil compreender que as bandeiras podem estar atadas antes dos dias festivos para não se rasgarem. Chegado o dia marcado para a festa, as bandeiras são desatadas para serem agitadas pelo vento.”



Colocando em uso o que acabo de aprender com nossos primos lusos, sempre que releio a obra Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas, de Irving D. Tressler, eu rio a bandeiras despregadas. A edição que tenho comigo, folhas soltas e carcomidas, foi editada em 1946 pela Editora Assunção de São Paulo e pertenceu à minha avó materna. Foi numa das férias em Lins que, fuçando os armários da casa, encontrei esse tesouro do humor negro e nunca mais o abandonei.

O Irving já “começa causando” na dedicatória: “Este livro foi dedicado a um homem que não tinha necessidade da sua leitura: ADOLF HITLER”. E tudo piora dali para frente. No bom sentido. O livro de Irving Tressler na verdade é uma paródia da famosa obra de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, publicado um ano antes, em 1936; Tressler resolveu escrever sua obra alegando que o livro de Carnegie estava transformando seus leitores em pessoas muito chatas - e eu concordo com ele (haja em vista o que vivenciamos hoje com a maçante corrente do politicamente correto...).


O livro começa com um “Breve apanhado sobre a impolidez”, escrito por Thomas Lowell (que fez também a introdução da obra de Carnegie) e o legal é que ele entra na brincadeira, escrevendo seu texto dentro dos parâmetros propostos por Tressler quem, em suas palavras, “criou um curso que é um dos mais significativos movimentos na história social dos Estados Unidos, um curso tão real como o mau hálito, e mesmo mais duradouro nos seus resultados.”

Logo depois o autor nos ensina a “Como tirar o máximo proveito deste livro”; só para lhe dar uma ideia: “Para se tirar o máximo proveito deste livro há um requisito indispensável, além do quase lógico de poder ler e compreender as palavras de mais de quatro letras. Qual será este mágico requisito? Apenas isto: um profundo e impulsivo desejo de fazer com que os outros lhe retribuam tanta antipatia quanto a que lhes devota, uma resolução inabalável em reconhecer que a maioria das pessoas é quase tão interessante como um relatório semestral do U.S. Gypsum Co. (Companhia de Gesso dos Estados Unidos)”. “Quem é rico de amigos é pobre de solidão”.



Melhora a cada parágrafo. E o que impressiona é que, embora devamos encarar a leitura como uma sátira, há muitas passagens em que nos pegamos concordando com o que, a princípio, deveria ser tomado como absurdo -  daí a graça. Nos 22 capítulos que compõem a obra, alguns soam disparatados ainda hoje, passados 80 anos de sua publicação: “Como tornar-se antipático à primeira vista”, “Não se esqueça de esquecer nomes”, “Como fazer desistir um hóspede para a noite”, “Encaminhar sempre a conversa de modo que termine em discussão”, só para citar os mais hilários.

E é claro que, dentro da temática do Odepórica, guardo para o final o que de fato me fez escrever essa postagem, porque também das viagens se ocupou Irving Tressler em seu peculiar tratado, no capítulo XI intitulado “O companheiro amável de viagem”, onde aprendemos a lidar com as “pestes-viajeiras” que vez ou outra hão de surgir em nossas deambulações.
O companheiro amável de viagem

Já esteve alguma vez no vestíbulo de um hotel, na poltrona de um Pullman ou no salão de fumar de um navio, e esbarrou com alguém sentado a seu lado que fizesse a observação: “Bem, acho que vamos ter bom tempo na viagem! Prossegue até o ponto final ou vai saltar em...?” Se lhe respondermos, imediatamente ele se agarra a nós para o resto da viagem e qualquer descanso ou distração planejados vão-se como um chapéu em dia de vento. Como nos livrarmos destas sanguessugas viajeiras?

Sempre é possível, quando tais pessoas tentarem apresentar-se-lhe num trem ou navio, apontar para sua boca e ouvidos e fazer sinais com os dedos indicando que é surdo-mudo. Este silêncio, voluntariamente imposto, é sem dúvida difícil de se manter, principalmente quando se dá uma topada na chapa metálica dos degraus da escada que conduz ao refeitório do navio, ou quando a porta do banheiro do Pullman fica fechada durante duas horas.

É um fato muito conhecido que os patos selvagens sempre voam aos bandos e juram proteger uns aos outros contra qualquer outra ave que tente travar conversa com eles. Acredita-se mesmo que a extrema velocidade no voo do pato selvagem seja em parte devida a este desejo perfeitamente natural de fugir das outras aves que sigam o mesmo caminho, já o tendo percorrido uma vez e ansiosas para falar a respeito.

Um amigo meu sempre esfola seu pulso até a carne viva, e besunta-o depois com iodo antes de começar uma viagem. Quando um provável conversador senta-se a seu lado e começa a falar, meu amigo proseia com ele alguns minutos. Depois, casualmente, exibe o pulso com sua chaga hedionda, dizendo com um risinho: “Fico satisfeito por ver que não se impressiona vendo estas coisas. Não posso saber como me aconteceu isto e tem dado um trabalhão para curá-lo!”



Contudo, uma vez esbarrou com um homem que sofria do mesmo mal e que ficou satisfeitíssimo de encontrar alguém com quem pudesse conversar sobre o assunto. Meu amigo viu-se obrigado a deixar o vapor e esconder-se num tambor de óleo que boiou durante dois dias, até que afinal foi interpelado por um homem de Palo, Califórnia, que nadava atrás dele e parou para indagar se se tratava de sua primeira viagem por aquelas bandas, contando depois como se lembrava tão bem da sua, ocorrida em 1897 e... meu amigo afogou-o lentamente e continuou sossegado o seu caminho.

Sempre se pode dizer “Desculpe, mas este lugar está tomado” ou então “Minha tia estava sentada aí e volta já; foi por um momentinho ao toilette”. Isto, é lógico, torna-se pouco plausível quando se está parado em frente à amurada ou lavando as mãos no banheiro.



Conheci um homem que sempre se punha de joelhos e começava a rezar quando via aproximar-se alguém deste tipo, e convidava a pessoa se não se aborrecia de acompanhá-lo nalgumas palavras de agradecimento, isto em geral espantava a léguas, mesmo os mais audaciosos, a menos que, uma vez ou outra, esbarrasse com um devoto verdadeiro. Certa vez teve de rezar uma hora e 35 minutos, até que a peste murmurante resolvesse levantar-se cambaleando e com os membros entorpecidos em consequência do tempo passado de joelhos.

É conveniente saber dizer umas poucas frases nalgum remoto idioma oriental, cuja média das pessoas seja incapaz de entender. Quando interpelado por um estranho, responde-se numa algaravia medonha que acaba por desanimar o que se aproxima.


Na primavera de 1910 fiz uma viagem ao redor do mundo e fui agarrado por uma destas pestes viajeiras logo depois que perdemos a terra de vista. Escapei dele após 18 horas e encafuei-me no compartimento de carvão, onde passei o resto da travessia do Atlântico. No entanto, justamente ao atracarmos em Gibraltar, ele me descobriu outra vez e eu escalei o pico do mastro mais alto. Ali, dentro em pouco ele me desencravou, de modo que tive de deixar o navio em Nápoles e tomar o rápido-expresso para Viena, atravessando depois os Balkans montado em camelo.

Ainda não completara um dia que me achava sobre o sacolejante animal, quando um dos camelos chegou-se para mim, sorriu e com uma tossezinha apresentou-se e perguntou se fazia toda a viagem através dos Balkans, e se se tratava da minha primeira viagem.

Algo na voz do camelo me pôs desconfiado. Reparei mais de perto. Não restava dúvida, era a peste do navio, disfarçado em besta de carga! Imediatamente ele tirou o disfarce e tomamos o navio em Atenas. Tranquei-me na cabine e durante o resto da viagem ele esmurrou regularmente a minha porta com intervalos de meia hora, perguntando se era ou não minha primeira viagem através do mundo, e se estávamos ou não tendo ótimo tempo. Não consegui ver o mundo, mas fiz a sua volta.



Há uma última alternativa neste negócio de peste-viajeira. Sempre se pode, ao iniciar ela o seu amável discursinho de introdução, levantar-se e dizer: “Sim, é minha primeira viagem; não sei onde vou, só sei que desejo ficar só todo o tempo desta excursão; não estou absolutamente interessado em saber de onde vem, quais são as pessoas que conhece na minha cidade, suas experiências de viagem ou suas recomendações para o que se deve fazer quando se tem enjoo de trem, de automóvel ou de mar! Costumo tornar-me extremamente selvagem quando estou de pé e se não sair de minha vizinhança dentro de 10 segundos, não me responsabilizo pelo que lhe poderá acontecer!”.

E o cavalheiro provavelmente começará a rir, dará uma palmada na perna e trovejará: “Amigo, estou vendo que é dos meus – um grande senso de humor! Vamos nos dar muito bem durante esta viagem e vou providenciar para que fiquemos na mesma mesa! É a sua primeira...” Algumas pessoas lançam mão de seixos ou cavilhas espalhados pelo convés; outras empregam apenas os dentes, as unhas e os punhos.

Viajar é alargar as ideias; a maioria dos viajantes é obtusa.
Tome cuidado!


Irving Dart Tresller foi um escritor e jornalista norte-americano nascido em 1908 no estado de Wisconsin. Em 1930 completou seu bacharelado em Artes; de 1934 a 1936 foi co-editor da Life e após esse período teve artigos publicados em diversas revistas. Foi autor de vários livros, mas o que lhe rendeu fama foi seu best-seller de 1937, “Como Perder Amigos e Aborrecer Pessoas”, uma paródia do famoso livro de Dale Carnegie, “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”, publicado um ano antes.

Encontramos pouquíssimas referências sobre a vida de Irving Tresller. É sabido que sofria de epilepsia, na época considerada uma doença mental. Em 1944, um ano antes da popularização dos medicamentos que controlam essa doença, comete suicídio. Contava com 35 anos de idade.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Viagens, by Luiz Carlos Lisboa

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Luiz Carlos Lisboa é um dos meus escritores mais estimados. Suas palavras chegam sempre no momento em que precisamos de um norte, de alguém que nos guie na jornada quando a trilha se apresenta um pouco mais estreita. Vejo Lisboa como um mestre-artesão, que com seu ofício de escritor lapida palavras e as transforma em pensamentos inspirados, ideias que parecem surgir em momentos de profunda meditação.

Sua escrita fragmentária resulta em textos simples e bem elaborados, como em sua obra Nova Era, já resenhada aqui no blog, O Aprendiz da Madrugada e O Som do Silêncio, às vezes classificados como livros de poemas, embora eu os considere mais próximos dos aforismos, porque Lisboa é daqueles escritores que possuem a capacidade de condensar conceitos amplos e profundos em poucas palavras.

Como ensaísta, também se mostra um sábio: veja que belo seu texto intitulado Viagens, que retiro de seu livro de ensaios A Arte de Desaprender, talvez um dos escritos mais profundos que já tenha lido sobre a experiência da viagem.

Viagens

“Quanto mais longe viajamos, menos conhecemos”, dizia Lao-Tsé. A ideia muito divulgada de que é preciso ir longe para alcançar a essência das coisas, ou o transcendental, nasceu do conceito segundo o qual somente através do esforço conseguimos qualquer coisa. Tudo tem seu valor, tudo tem seu preço. Imagina o homem que passa a vida inteira lutando para sobreviver.

A conquista da fortuna pode ser assim – embora nem sempre seja-, mas a conquista do conhecimento e da sabedoria, segundo Santo Agostinho, Nicolau de Cusa, Eckhart. Willian Law, Fénelon, Ansari de Herat, Pascal, Benet de Canfield e o Bhagavad Gita, a conquista da sabedoria não passa absolutamente pelo esforço, pela rigidez, pelo empreendimento duradouro ou pela busca incansável.

Esse é dos capítulos fascinantes da história das religiões, e parte importante do estudo sobre o comportamento humano. Ekhart repetia com método e tranquilidade: “Afirmo e sempre afirmarei que já possuo tudo que me foi concedido na eternidade, pois Deus, na plenitude de sua divindade, mora eternamente em sua imagem, a alma”.


Esse tipo de mensagem afirma, através dos séculos, que o homem não precisa sair de onde está para realizar-se integralmente. Isso não sugere a morte em vida, obviamente, nem qualquer forma do imobilismo tão odiado pelos hiperativos que controlam – ou julgam controlar - a sociedade humana, suas maravilhas e seus horrores. No “não ir à parte alguma” está contido, apenas, o “ficar para não fugir todo tempo”.

A razão pela qual “quanto mais longe viajamos, menos conhecemos” está embutida no fato de empreendermos viagens inúteis simplesmente para não ficar onde estamos. Isso não se refere às viagens reais, mas ao ir e vir de cada dia, dentro de casa ou no serviço, a pretexto de mil puerilidades que executamos com imensa gravidade.

Por que ir lá aprender alguma coisa, se recusamos todo aprendizado aqui e agora, na modéstia deste minuto e desta circunstância? Empreender uma caminhada equivale a adiar o que deve ser feito imediatamente – melhor dizendo, o que só pode ser feito imediatamente, não depois, pouco adiante ou mais tarde.



Caminhar, viajar, proporcionam prazer e são em si inofensivos. O problema está naquilo que fazemos com esse pretexto, ou naquilo que deixamos de fazer porque estamos mudando simplesmente de lugar.

É ainda Mestre Eckhart quem aconselha: "Levante-se, alma nobre. Calce seus leves sapatos, que são a intuição e o amor, e salte por cima da idolatria de si mesmo, salte sobre todos os seus esforços, diretamente no coração de Deus, naquele coração onde estará oculta de todos".

A tradição renana usa constantemente esse simbolismo do movimento para indicar precisamente aquilo que se obtém com "um movimento do coração”. Essas referências hoje são mais difíceis de compreender que nunca, porque é o século de ação e de movimento – em círculos. Tudo o que sugere ficar, aborrece e entedia. Talvez fosse mais exato dizer: desperta um indefinido temor toda forma de permanência.



A palavra de ordem não é inovar? A onda cultural e sua força inconcebível arrasta toda dúvida e sepulta qualquer meditação mais demorada. A época é de certezas, de decisões rápidas, de conceitos formados, de ideias prontas. O que já não vem embalado e rotulado levanta suspeitas, semeia antipatias.

Viajar para aprender é um antigo mito. O prazer inofensivo de percorrer terras não mereceria comentários se não se tornasse um biombo, em alguns casos, atrás do qual nos escondemos. "Descansamos" do que somos, sem conhecer o que somos.

Deixamos tudo para trás, compromissos, conceitos, coerência. Não há lugar para culpa, em tudo isso. É bastante ver o que fazemos, quando fazemos e como fazemos. Esse é um aprendizado insubstituível, que não pode ser encontrado nos livros, nos museus ou nas conferências.



Não aprendemos em algum outro lugar, aprendemos neste lugar aqui, onde estamos no instante em que nos surpreendemos pensando nisso. Há uma frase de Caussade que resume tudo: "Faça o que está fazendo agora, sofra o que está sofrendo agora. Faça tudo com simplicidade, nada precisa ser mudado, a não ser seu coração".

Acrescentar qualquer outra coisa a isso equivale a mudar o que não precisa ser mudado, deixando de conhecer (mudar) precisamente o coração. Para não mudar interiormente, mudamos de lugar no espaço. A inquietação do habitante do século XX é proverbial.

As mãos, os olhos, os pés, viajam todo o tempo, e a atenção está permanentemente dividida. Mudar interiormente não exigiria movimento, a não ser o da percepção, um fluir muito peculiar.



Permanecer, como diz Caussade, para compreender. O que parece complexo é extremamente simples, embora não seja comum. O que parece obscuro é absurdamente claro, embora não seja familiar. O que parece fácil de ser rotulado não pode receber uma designação satisfatória.

A imobilidade atenta (não confundir com imobilismo) é um estado de alerta do qual não está excluída a tranquilidade. O espírito é ágil e não conhece nenhuma forma de esforço ou cansaço. Não há evasão, não há impulsos subterrâneos agindo ocultamente. Apenas a permanência naquilo que fazemos, única forma de conhecer aquele que pretende ser o conhecedor do mundo.

E nisso tudo não há nada de milagroso, de espetacular, de místico ou de sobrenatural. Para citar pela última vez, uma frase de Ansari de Herat: "Andar sobre a água? Uma palha faz melhor. Voar até as nuvens? Um pássaro faz melhor. Conquiste seu coração, e você fará alguma coisa que somente você faz bem".

Leia: A Arte de Desaprender. Luiz Carlos Lisboa. Rio de Janeiro: Edições Antares, 1981.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

À margem da linha, by Paulo Rodrigues

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Muitos são os relatos de viagem que contemplam aquilo que nos estudos antropológicos se conhece como ritos de passagem ou de transformação. Um rito de passagem clássico, bastante estudado e de farta literatura acadêmica, é o da peregrinação, sobretudo a que contempla a visita aos lugares considerados sagrados: templos, mesquitas, catedrais, santuários, grutas, montanhas, rios, formações rochosas, só para citar os mais comuns.

Entretanto, há viagens sem nenhum cunho espiritual ou religioso que têm a particularidade de transformar um vagamundo em outra pessoa, na clássica interpretação de que, ao fim da jornada, aquele que parte jamais será o mesmo ao retornar, uma transformação simbólica e reveladora, um novo ciclo de vida.

Em seu primeiro romance, À margem da linha, Paulo Rodrigues trabalhou com perfeição esse modelo de rito de passagem, contando a trajetória de um menino de dez anos que, ao lado do irmão mais velho, parte de casa numa longa jornada a pé em busca do pai.


  
O menino mais novo é o narrador da história; praticamente um miserável, sua família vive à margem de uma estrada de ferro e pouco sabemos de sua vida a não ser o fato de que, ao partir com Mano (seu irmão e guia) não deixa quase nada para trás, a não ser a mãe, mulher sofrida e abandonada pelo marido e mais dois irmãos, de quem fala com carinho. Uma dicotomia: não deixa quase nada, mas ao mesmo tempo deixa tudo; a decisão de partir provém não só do sofrimento, mas também do amor e da admiração que sente pelo irmão.

A viagem dos garotos se aproxima do drama vivido pelos retirantes nordestinos, igualmente vítimas da miséria, e talvez a busca pelo pai ausente seja apenas uma desculpa para justificar o abandono do lar. Na realidade, esse texto permite múltiplas interpretações e nisso reside seu encanto. O autor não dá nome ao narrador, nem tampouco ao seu irmão, se levarmos em conta que Mano é apenas uma referência, um grau de parentesco e não o nome de fato do seu companheiro de viagem. Dessa forma o texto se abre para que cada leitor se coloque no lugar de um ou de outro (Quem somos nós nessa história? Os que guiam ou os que são guiados?).



Os incidentes que aparecem em capítulos curtos e muito bem escritos (o autor costura lindamente as palavras) não irão surpreender o leitor, uma vez que quase nada de extraordinário transcorre na narrativa. Mas o pouco que acontece, nessa economia de emoções, se traduz numa enorme transformação na vida dos garotos, resultando em um final surpreendentemente belo.

A linha de trem, que serve de orientação aos meninos nessa viagem, pode ser entendida como uma metáfora da vida; é preciso tomar coragem para, em algum momento, desviar-se da rota e abandonar o ninho, estar aberto ao acaso e às surpresas escondidas nos caminhos. Quando isso acontece, um ciclo se fecha e a vida se renova. Algumas pessoas se arriscam (toda jornada implica riscos), outras não. E só no final da vida, naquele momento em que já não nos resta mais nada a não ser viver das lembranças, é que saberemos se tomamos as decisões certas quando o destino nos ofereceu seus desvios incertos e cheios de possibilidades.



“(...) Diante da agitação em que eu me encontrava, o Mano decidiu me explicar o quanto seria bom, dali pra frente, a gente se manter afastado das coisas desconhecidas. Com isso, eu refletia, ele queria gravar em minha mente a importância da nossa viagem, para que eu pudesse suplantar o medo e as incertezas com a força da convicção. Era como se me dissesse que devíamos manter o olhar firme, fixando num ponto lá adiante, onde os trilhos se juntam, a nossa meta. Do seu jeito confuso, mas preciso, o Mano determinou que seguiríamos em frente, desviando do caminho apenas o estritamente necessário.

Olhando o Mano caminhar alguns metros à minha frente, lembrei-me de um dia em que eu, bem pequeno, garimpando um caco de magnésia, lhe perguntei se aquilo era uma esmeralda. Foi a primeira e única vez que os olhos dele se encheram d’água ao me responder que isso não tinha importância, pois de todo modo, fosse joia ou vidro, era sempre uma beleza. Com isso, ele insinuou que as coisas têm sempre o valor que a gente lhes dá. E era nessa forma, eu intuí, que ele gostaria de moldar o meu espírito.

A partir daí, começamos a sair juntos à procura de tesouros perdidos, mas foi muito, muito tempo depois desse dia que comecei a alcançar a exata medida dos seus pensamentos, e a perceber que os seus ensinamentos iam sempre muito além das parcas palavras. (cap. 6, págs 33-34)”


Leia: À margem da linha. Paulo Rodrigues. Cosaic & Naify, 2001.

domingo, 17 de setembro de 2017

Esperança do mundo, by Albert Camus

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Uma das coisas mais prazerosas para um leitor é ter acesso às correspondências, anotações e esboços de seu autor preferido. Esse voyeurismo literário permite-nos conhecer certos aspectos de um escritor que nem sempre estão explícitos em suas obras, como seus anseios e devaneios, suas inseguranças e angústias, mas também seus sonhos e suas fantasias, o que os tornam mais próximos de nós, que não raro mitificamos aqueles a quem admiramos.

Albert Camus foi um desses escritores que tinham por hábito manter cadernos de anotações que se tornariam um verdadeiro “laboratório de criação”, onde apareceriam esboçadas muitas ideias originais vistas posteriormente em suas obras.


Aqui no Brasil a Editora Hedra publicou três dos nove cadernos que Camus escreveu durante sua vida (de 1935 a 1959): Cadernos (1935-37) – Esperança do Mundo; Cadernos (1937-39) – A Desmedida na Medida; Cadernos (1939-42) – A Guerra Começou. Onde Está a Guerra? O primeiro caderno foi publicado em 1962, dois anos após a morte do escritor, e é dele que trataremos nesse post.

Como apreciador da escrita fragmentária (já escrevemos sobre isso aqui no Odepórica), me surpreendi com o fato de encontrar nas breves anotações de Camus, ainda na juventude de seus 22 anos, visões profundas e belas sobre a vida, prova de sua precoce genialidade filosófico-literária. No posfácio desse primeiro caderno, escrito a quatro mãos pelos tradutores e estudiosos da obra de Camus, Raphael Araújo e Samara Geske, lê-se o seguinte:

O caderno poderia ser considerado a primeira obra de Camus: mais do que uma base para o processo de criação de seus romances e ensaios, é também um espaço de experimentação e de escrita. 

A escrita fragmentada das notas, geralmente ligada à ideia de inacabamento, oferece, ao contrário, um campo de possibilidades ao escritor, que não precisa necessariamente estar ligado ao “todo” de um texto.

Algumas notas podem ser encaradas como fechadas em si mesmas: muitas delas encerram pensamentos, proposições morais e éticas, observações sobre o ser humano e a literatura.

Encontramos até mesmo alguns fragmentos poéticos que se assemelham aos haikus japoneses, quando fixam um momento, uma paisagem, um sentimento: “Florença. No recanto de cada igreja, um espetáculo de flores, grandes e brilhantes, peroladas de água, singelas”.



Há beleza por toda a parte, como sempre nas obras de Camus, um escritor que manejava as palavras como um mago o seu ofício. É fascinante o fato de um jovem de vinte e poucos anos escrever algo assim:

“Os sentidos e o mundo – os desejos se confundem. E neste corpo que eu aperto contra o meu, guardo também essa estranha alegria que desce do céu em direção ao mar”.

É sobretudo quando Camus observa a natureza, o que faz com frequência, que seu texto emociona mais profundamente. Ele possuía o dom de colocar em palavras a poesia que se esconde nas manifestações mais simples da vida, embora essa simplicidade ocultasse um profundo questionamento sobre a existência humana.

Viagens e paisagens camusianas

Nesse primeiro caderno as viagens de Camus aparecem em destaque, assim como seu encanto pela natureza, sua quase obsessão pelo céu e pelo sol - sua luz e calor, como se esses elementos fossem um combustível essencial para sua escrita.

Transcrevo a seguir as notas que considerei mais encantadoras, palavras que poderão lhe inspirar na próxima vez que seus pés tocarem a estrada. Permita-se.

Esse jardim do outro lado da janela, só vejo os muros. E algumas folhagens por onde a luz se espalha. Mais alto, ainda as folhagens. Mais alto, o sol. E de toda essa jubilação do ar que se sente fora, de toda essa alegria espalhada no mundo, eu só percebo as sombras das folhagens que brincam com as cortinas brancas. Cinco raios de sol também despejam pacientemente no cômodo um perfume dourado de capim seco. Uma brisa, e as sombras se animam na cortina. Que uma nuvem cubra e depois descubra o sol, e eis que da sombra surge o amarelo radiante desse vaso de mimosas. É suficiente: esse único raio nascente e eis que me inundo de uma alegria confusa e atordoante. Prisioneiro da caverna, aqui estou sozinho diante da sombra do mundo”.

O que faz o preço da viagem é o medo. É que em dado momento, tão longe de nosso país, de nossa língua, um medo indefinido nos toma, e um desejo instintivo de voltar ao abrigo dos velhos hábitos. É a mais clara contribuição da viagem. Nesse momento, estamos febris mas porosos.

O menor choque nos abala até o fundo do ser. Que se encontre uma cascata de luz, a eternidade está lá. É por isso que não é necessário dizer que se viaja pelo prazer. Não há prazer em viajar. Eu veria mais uma ascese. É por sua cultura que se viaja, se se entende por cultura o exercício de nosso sentido mais íntimo, que é o da eternidade. O prazer nos afasta de nós mesmos como o divertimento de Pascal distancia de Deus. A viagem, que é como uma ciência maior e mais séria, nos traz de volta.

Céu de tempestade em agosto. Ventos mordazes. Nuvens negras, ao leste. Contudo, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossível olhá-la. Sua presença é um incômodo para os olhos e para a alma. É que a beleza é insuportável. Ela nos angustia, eternidade de um minuto que nós gostaríamos no entanto de estender por todo o tempo.”

“Longa descida resplandecente de sol. Os loureiros-rosa em Mônaco e Gênova cheios de flores. As noites azuis da costa liguriana. Meu cansaço e aquela vontade de chorar. A solidão e a sede de amar.

Enfim Pisa, cheia de vida e austera, seus palácios verdes e amarelos, seus domos e, ao longo do Arno vagaroso, sua graça. Tudo o que há de nobre na recusa de se entregar. Cidade pudica e sensível. Nas ruas desertas da noite, tão perto de mim – que, de passear sozinho, finalmente me entrego à vontade de chorar. Alguma coisa aberta em mim que começa a cicatrizar.

Pisa e seus homens deitados na frente do Duomo. O Campo Santo, suas linhas retas, ciprestes nos quatro cantos. Compreendem-se as querelas dos séculos XV e XVI. Cada cidade conta aqui com sua aparência e sua verdade profunda.

Não há outra vida senão aquela de que meus passos marcavam a solidão ao longo do Arno. Aquela também que me agitava no trem que descia para Florença. Esses rostos de mulheres tão sérias, que um sorriso transformava subitamente. (...) Bebi nas fontes e a água estava um pouco morna, porém bem fluida. Descendo para Florença, eu me pus a contemplar rostos, beber sorrisos. Seria eu feliz ou infeliz? A pergunta tem pouca importância. Vivo com tal ímpeto.

Coisas, seres me esperam e, claro, eu os espero também e os desejo com toda minha força e minha tristeza. Mas aqui eu ganho minha vida de tanto silêncio e segredo.

O milagre de não precisar falar de si mesmo.

Os Giotto de Santa Croce. O sorriso interior de São Francisco, amante da natureza e da vida. Ele justifica aqueles que têm o gosto pela felicidade. Luz doce e fina sobre Florença. A chuva se prepara e enche o céu. Enterro de Giotto; a dor nos dentes cerrados de Maria.
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(...) As nuvens aumentaram por cima do mosteiro e a noite pouco a pouco escureceu as lápides nas quais se inscreve a moral da qual se favorecem aqueles que estão mortos. Se eu tivesse que escrever aqui um livro sobre moral, ele teria cem páginas, e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: “Eu só conheço uma obrigação: a de amar”. E, para o restante, digo não.

Leia: Esperança do mundo. Albert Camus. Ed. Hedra. São Paulo, 2014.
Outras postagens sobre Camus:







quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pic, o último romance de Jack Kerouac

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A maior surpresa que tive esse ano aconteceu no último final de semana de agosto. Estava procurando um livro que pudesse ler no domingo de uma só tirada, porque às vezes tenho essas vontades tolas de ler um romance em um dia ou dois no máximo.

Puxei da estante um Kerouac que nem me lembrava mais de haver comprado: Pic. Perfeito, pensei (e além do mais fazia tempo que não visitava meu autor predileto). Liguei um som baixinho, instrumental, para não me distrair com os ruídos externos e mergulhei na leitura. Sensacional, já vou adiantando.

Comecemos pelo título: Pic, que é o nome do narrador: Pictorial Review Jackson, um adorável menino negro de dez anos que nos relata, em primeira pessoa, a aventura de sair de casa no interior da Carolina do Norte rumo à costa oeste, uma aventura gigantesca para quem nunca havia saído de seu próprio quintal.

Kerouac situa a história nos anos 1940, época em que a segregação racial era muito pesada nos Estados Unidos; optou por escrever o romance da maneira como os negros falam, como um dialeto próprio, o que dá à narrativa uma dinâmica apropriada – os personagens são quase palpáveis e a empatia com o menino Pic, imediata.


A obra começou a ser escrita no início da década de 50, mas os biógrafos de Jack informam que ele a deixou encostada até o fim da vida, retomando a escrita poucos meses antes de falecer, em outubro de 1969. A obra foi publicada postumamente em 1971 e não foi bem recebida pelos críticos. Uma das críticas mais recorrentes recai sobre o uso mal empregado da fala dos negros americanos; por outro lado, há os que admiram a obra justamente pelo fato de Jack ter saído de sua zona de conforto e eu fico do lado dos que pensam assim.

Preciso dizer que a tradução da obra para o português, a cargo de Guilherme da Silva Braga, ficou divertida e cativante, lembrando muito a maneira de falar dos negros descendentes de escravizados das cidadezinhas coloniais de Minas Gerais. Veja uma passagem:

Vô, aquela noite tava muito escura porque a lua ficô encoberta pelas nuve assim que eu e o mano chegamo no bosque, e aquela lua não passava de uma bananinha de lua que brilhava fraca e franzina quando aparecia em meio às nuve. Tamém ficô frio, e eu tava quase tremendo. Achei que uma tempestade tava se armando pra me aquecê, porque pocas vez eu me senti tão bem como quando a gente se pôs a caminho.

Vamos ao enredo? Pic é um garoto negro, “o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na escola”; sua mãe faleceu, seu pai sumiu do mapa há anos e seu irmão um dia foi embora e nunca mais voltou. A história que lemos é a que Pic conta ao seu avô, com quem vive e a quem muito estima.


Quando seu avô falece, o que acontece logo nas primeiras páginas, Pic é levado para a casa de uma tia onde o ambiente não lhe era favorável até que um dia aparece seu irmão mais velho, Slim, um saxofonista pobre e virtuoso, que veio de Nova Iorque exclusivamente para levá-lo embora. E é aqui que a aventura começa: Pic cai na estrada com o irmão e o que leremos daí em diante é puro deleite.

Um dos mais respeitados biógrafos de Kerouac, Gerald Nicosia (autor de Memory Baby: a critical biography of Jack Kerouac) afirma que quase todos os incidentes que se lê em Pic fazem referência a algum acontecimento da vida de Jack, inclusive a perspectiva de ver-se a si mesmo como um membro de outra raça (Jack era de origem franco-canadense), pelo que Pic pode ser enxergado como uma persona do autor.


A beleza dessa pequena novela, que mais se assemelha a um grande conto, está na visão de encanto que Jack procurava transmitir em suas obras. São os detalhes, o apreço às coisas simples da vida, a aventura do partir rumo ao desconhecido, a ânsia de novas descobertas que a vida na estrada oferece, a natureza, a solidão, o valor da amizade e da ternura... elementos que sempre estarão presentes na obra kerouaquiana.

Por admirar o trabalho de Kerouac sou suspeito para resenhar qualquer uma de suas obras, mas confesso que não esperava muito desse texto, porque num primeiro momento senti desconforto com a linguagem coloquial, até mesmo caricata dos diálogos entre Pic e seu irmão, mas o fato é que a história é tão bem contada, tão vibrante, que no segundo capítulo você até esquece esse lance da linguagem e torce para que o garotinho se dê bem na vida.

Pelo que li em algum lugar, o final dessa novela não foi concluído, e embora fique mesmo essa impressão, não desaponta: fechei o livro com um sorriso bem grandão no rosto. Acho que Jack fez um bom trabalho.
Excerto capítulo 11: Fazendo as mala pra Califórnia

(...) “Primero a gente tem que atravessá cinco mil e duzentos quilômetro”, o Slim suspirô, e eu lembrei dessas palavra mais tarde. “Cinco mil e duzentos quilômetro”, ele disse, “por uma planície, um deserto e três cordilhera de montanha, no meio de toda chuva que resolvê caí do céu. Que Deus nos ajude!”.  

Bom, agente foi pra cama e dormiu nossa última noite naquela casa, e pela manhã vendemo as cama. “Agora tamo entregue à nossa própria sorte”, o Slim disse, e ele tinha razão. De tarde a gente dexô a casa vazia a não ser por uma garrafa de leite, e tamém pelas meia que eu tinha levado comigo dês da Carolina do Norte.

A Sheila tava com a mala dela, e eu e o Slim tinha cada um uma mala com todas nossas coisa. A gente foi pra rodoviária e comprô o bilhete da Sheila e esperô a hora do ônibus dela.




Quando o ônibus tava prestes a saí nós três nos sentimo triste e apavorado. “Lá vô eu noite adentro”, a Sheila disse quando viu o ônibus que dizia CHICAGO nele. “Vô e provavelmente não volto nunca mais. É como morrê pra ir pra Califórnia – mas lá vô eu. Vô, eu ainda não me esqueci desse momento.

“Cê vai revivê quando chegá”, o Slim disse com uma risada, e a Sheila disse que era o que ela torcia que acontecesse. “Não dexa nenhum cara mexê contigo nesse ônibus”, o Slim disse, “porque cê vai tá sozinha até que eu e o Pic apareça por lá, e eu não sei quando vai sê.”

“E eu vô tá esperando você, Slim”, e a Sheila começo a chorá. Bom, o Slim não chorô mas ele pareceu que ia chorá quando abraçô ela. Pobrezinha- eu senti pena dela naquela noite, porque eu amava ela muito, que nem o Slim tinha dito que eu ia amá naquela primera noite no bosque. Uma jove mãe que não sabia o que ia acontecê com ela no outro lado do país com todas aquelas noite sozinha pela frente enquanto eu e o Slim não chegasse. É como diz na Bíblia, Fugitivo e vagabundo serás na terra, a única diferença era que ela era uma garota. Eu passei a mão no rosto dela e disse prela nos esperá na Califórnia.

“Tomem cuidado com as carona”, ela disse. “Eu inda acho que o Pic é piqueno demais pruma viagem tão longa e não me sinto muito bem em relação a isso.”


Mas o Slim disse que ia cuidá bem de mim, cuidá do melhor jeito possível, e se ele não pudesse fazê aquilo então ninguém mais podia. Era assim que o Slim se sentia, ele tinha confiança e cuidava da gente. Aí ele e a Sheila se bejaro, e depois ela tamém me deu um bejo macio e doce e entrô no ônibus.

“Tchau, Sheila”, eu disse, e comecei a abaná, e me senti inda mais sozinho e assustado do que na hora que ela chorô, e tchau, tchau todo mundo tava dando tchau pra todo mundo ao redor do ônibus, e vô essa é a tristeza de viajá tão longe, de tentá vivê e fazê as coisa até o dia que você morre.

Leia: Pic: uma novela. Jack Kerouac. L&PM Editores, 2015.

domingo, 13 de agosto de 2017

Epígrafes odepóricas

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Gosto demais de epígrafes, aquelas citações que servem de bandeira ao texto principal. Houve uma época em que eu copiava as que me agradavam, achando que um dia eu as aproveitaria em algum escrito meu, o que de fato já aconteceu em algumas ocasiões.

Hoje decidi mudar uns livros de lugar e como sempre acontece, o trabalho foi interrompido diversas vezes porque ao abrir os livros para arejar as páginas, sempre dava uma olhadinha na obra, em uma anotação, uma passagem grifada... Acabei não concluindo a tarefa a que me havia proposto, mas não foi tempo perdido: tive a ideia de escrever esse post, transcrevendo algumas epígrafes da minha coleção de literatura odepórica.

Nas citações abaixo você encontra primeiro o autor da epígrafe e entre parênteses a obra e o autor que dela fez uso.

Entretanto, antes das citações, gostaria de reproduzir os agradecimentos, com cara de epígrafes, que a autora de Um ano de viagens, Frances Mayes, fez em sua obra e que me surpreendeu pela inovação. Veja que sacada boa a dela:


Ao casal de pé no meio da estrada ao lado do seu trailer desconjuntado.
À mãe e ao filho de dois anos nos assentos 42A e B durante a nona hora de voo.
À família de seis pessoas atravessando a Europa num Deux Chaveaux e cantando “Abençoado os Laços que unem”.
À garotinha aos berros no chão da trattoria às onze horas da noite.
A K.A.T., que disse: “Bom, agora já fui e não preciso ir mais”.
Ao conjunto novo de calcinha e sutiã amarelos que ficou secando na borda da banheira dom hotel.
Ao capitão mergulhando nas algas ondulantes atrás da máscara de mergulho que caiu.
À mala que foi para a Índia.
A T.A., que não conseguiu abrir a porta do trem e seguiu até Castiglion Fiorentino.
Ao homem do sul mancando por Pienza e gritando para a mulher: “Já vi tudo que queria ver.”
Ao personagem descrito por Novalis, que partiu para encontrar uma flor azul vista num sonho.
A Edward – com você eu vou.


Tudo considerado, existem apenas dois tipos de homens no mundo - os que ficam em casa e os que não ficam. Os segundos são os mais interessantes. Rudyard Kipling (De carona com Buda, by Will Ferguson)
Em relação a outras pessoas, nós somos peregrinos que, por caminhos mais diversos e com grande dificuldade, nos dirigimos ao encontro mútuo. Antoine de Saint-Exupéry (Minhas viagens com Heródoto, by Ryszard Kapuscinski)
Nada é tão duradouro quanto a mudança; nada é tão constante quanto a morte. Cada batida do coração nos abre uma ferida; e não fosse a poesia, a vida seria um eterno sangrar. É a poesia que nos concede o que a natureza só nos sabe negar: aqueles anos dourados que o tempo não azinhavra, uma primavera que não cessa de florescer, um destino desanuviado e a juventude eterna. Ludwig Börne (Viagem ao Harz, by Heinrich Heine)


Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam. (A viagem do elefante, by José Saramago)
Não se pode adivinhar nem prever as condições que produzem a felicidade; apenas tropeçamos nelas por acaso, num momento de sorte, em algum lugar, no fim do mundo, e nos agarramos a elas para sempre... Willa Cather (A arte da peregrinação, by Phil Cousineau)
Muito já se escreveu sobre viagens, muito menos da estrada. Edward Thomas

Meus olhos estavam em meus pés... Nan Shepherd, The Living Mountain.
(The Old Ways, a journey on Foot, by Robert Macfarlane)


Camarada, dou-lhe minha mão! Dou-lhe o meu amor, mais precioso que o mel,
Dou-lhe eu mesmo, para além de rezas ou leis; você se dará para mim? Viajará comigo? Devemos ficar um com o outro enquanto vivermos? Walt Whitman (On the road, by Jack Kerouac)
Se procurarmos os nossos anseios além do nosso quintal, é porque eles nunca foram nossos. Dorothy, O mágico de Oz (A arte da quietude, by Pico Iyer)
É melhor viajar cheio de esperanças do que chegar. Provérbio japonês. (Wabi-sabi, by Francesc  Miralles)

Querido Deus, agora consigo enxergar, porque não consigo outras vezes, que és tu que amo na beleza do mundo e em todas as lindas moças e os queridos amigos, e que peregrinos é o que somos, viajantes numa jornada, e não porcos, nem anjos. Walker Percy. (Caminhos Sagrados, by Nicholas Shrady)
Somos imortais apenas durante um determinado período. (A estrada da cura, by Neil Peart)
No fundo, creio que a Terra é circular,
Por uma única boa razão...
Depois de dar a volta nesse mundão
Tudo o que se quer é voltar para o lar.
Orelsan (A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea, by Romain Puértolas)

Os homens encenam tragédias porque não acreditam na realidade da tragédia que de fato está se desenrolando no mundo civilizado. José Ortega y Gasset (No ar rarefeito, by Jon Krakauer)
Você não conseguiria descobrir as fronteiras da alma, mesmo que tivesse viajado todas as estradas com esse propósito; tal é a profundidade do seu significado. Herácleto de Éfeso (Soul, An Archaelogy by Phil Cousineau)


Os passos que [uma pessoa] dá desde o dia em que nasce até a morte traçam no tempo uma figura inconcebível (...). Esta figura (talvez) tenha sua função determinada na economia do universo. Jorge Luís Borges (Nos Caminhos da Glória, by Eleonor Munro)
Somente Deus conhece o caminho, só Ele sabe onde está a sabedoria porque a Sua vista alcança os lugares mais distantes do mundo. (Via Láctea, by Guy Veloso)

Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel. (Paris é uma festa, by Ernest Hemingway)
Um homem não é nada quando não é o produto de sua terra. Anatole France (Jornadas em Portugal, by Antero de Figueiredo)