domingo, 21 de maio de 2017

Uma palavra: Komorebi

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Gosto de colecionar palavras bonitas, estranhas, que causam surpresa quando descobrimos seus significados. Algumas destas palavras nem mesmo têm tradução literal para outras línguas, o que aumenta seu encanto. Escrevo-as em pedaços soltos de papel que guardo numa caixinha de madeira, na esperança de um dia usá-las em algum texto.

Quando busco inspiração para escrever, vez ou outra abro a caixinha velha de tabaco e leio os recortes de papel; acredito que essas palavras servem como um gatilho de ideias, um exercício que ajuda a ordenar os pensamentos.


Hoje pensei em buscar palavras que nos conectam com o ato de caminhar, viajar, peregrinar, passear na natureza... há uma relação enorme de palavras-conceito que pensei em tirar da minha caixinha e dividir com os leitores aqui no Odepórica. A escolhida de hoje, para abrir nosso “Pequeno dicionário de palavras odepóricas” vem do Japão: 木漏れ日- komorebi.

Uma das coisas mais bonitas de se ver numa caminhada em um bosque ou numa floresta é o momento em que o sol atravessa as folhas das árvores criando um espetáculo de luzes e sombras a que os japoneses dão o nome de komorebi.


Tal como diversos outros termos da língua japonesa, komorebi destaca a influência da natureza e da estética que é própria da cultura do Japão; não se trata diretamente do efeito da luz que passa através das folhas, senão da captura de um componente estético envolvido no komorebi.

A beleza dos raios de sol filtrados pelas folhas das árvores nos aproxima de uma experiência de comunhão íntima com a natureza, um lampejo de epifania. O escritor cristão C.S. Lewis conseguiu capturar a essência do komorebi numa passagem de sua obra Oração: Cartas a Malcolm, em que escreve a um amigo meditando sobre as várias questões entre o homem e Deus, e o papel da oração nessa relação com o divino.



“Qualquer fragmento de luz solar em uma madeira irá lhe mostrar algo sobre o sol que você nunca conhecerá lendo livros de astronomia; esses prazeres puros e espontâneos são fragmentos de luz divina nos bosques de nossa experiência.”



Para finalizar, encontrei na revista do The New York Times um poema que também captura essa beleza do komorebi, autoria da poeta irlandesa Caitríona O’Reilly, que traduzo livremente a seguir:

Komorebi
Entre o mundo e a palavra
São três formas pequenas,
Os sinais de ''árvore'', '' escape'' e ''sol''.

Eu vejo como a luz escapa através deles,
Moldando uma sombra em ambas as direções
No final do ano, na trilha castanho-avermelhada

Barrado pelas sombras das árvores.
Adoro como exulta, como qualquer fugitivo,
No lento reflexo das ondas no lago,

Em faixas radiantes ascendendo os troncos de bétula
De acordo com uma frequência desconhecida,
E no corvo-marinho estendendo-lhe suas asas molhadas 

Em um gesto messiânico,
Como se deslumbrado frente ao absoluto
Pela palavra e pela beleza do mundo.





domingo, 30 de abril de 2017

Cadernos de viagem: a arte da descoberta e da aventura

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Em um recente artigo publicado no periódico El País, em que o autor discute o impacto do turismo de massa sobre a produção de literatura de viagem, havia algumas indicações de literatura odepórica muito relevantes, sendo que uma delas fez meus olhos brilharem: Explorer’s Sketchbooks: the Art of Discovery & Adeventury.

Tenho uma caixa de arquivo com uma dezena de sketchbooks, que são aqueles pequenos caderninhos de rascunhos, objetos simpáticos que usamos quando queremos ditar um ritmo mais contemplativo ao ofício da escrita, em contraste com os sempre impessoais aparelhos eletrônicos, necessários e tediosos na mesma proporção.



Esses cadernos de anotações também são muito usados para esboços de desenhos e pinturas. Eu que não consigo desenhar um ovo, sempre morri de inveja dos solitários desenhistas de museus, aqueles que vivem alheios à multidão, num cantinho da sala, tentando capturar detalhes de uma tela, as mãos e os pés de uma dama renascentista, a fruta de uma natureza morta, o sorriso pétreo de uma criança esculpida em mármore... tão poética a cena quanto o resultado que vai aparecendo no contato do grafite com o papel.



Uma das coisas que me fascinam quando leio sobre a vida dos grandes escritores e viajantes, é que todos eles carregavam esses cadernos de notas e não há como não se entusiasmar quando se tem a oportunidade de admirar o conteúdo desses pequenos objetos de prazer. Não é exagero meu: o Huw Lewis-Jones e a Kari Herbert também pensam assim, tanto que pesquisaram bastante e publicaram uma obra de encher os olhos: trezentas páginas, setenta exploradores/as e mais de uma centena de pinturas, bosquejos e páginas de diários de viagem que fazem a alegria de qualquer apaixonado pelo tema.



Livro gostoso de folhear, daqueles que abrimos aleatoriamente, pulando páginas, namorando ilustrações, escaneando frases com o olhar, um ato de prazer. Corri os olhos pelo índice em busca de um nome e ele estava lá: Bruce Chatwin, de quem já falamos aqui no blog, escritor e aventureiro que muito admiro e quem praticamente tornou os moleskines um objeto de desejo. O Bruce fazia estoque desses caderninhos e me recordo que foi depois que li O Rastro dos Cantos que soube da existência deles. Fui conferir, meu exemplar todo grifado na página 223:





“Na França, esse tipo de caderno é conhecido como carnet moleskine: sendo moleskine, neste caso, a tela preta que cobria a encadernação. Cada vez que ia a Paris, comprava uma nova leva (...) As páginas eram quadriculadas, e a capa e a contracapa eram mantidas fechadas por meio de um elástico. Eu os tinha numerados em série. Escrevia meu nome e endereço na folha de rosto, oferecendo uma recompensa a quem o achasse. Perder um passaporte era a menor das preocupações; perder um caderno de anotações era uma catástrofe”.




Concordo com o Chatwin: alguns desses moleskines, hoje, valeriam alguns milhares de dólares. Para além da importância literária e documental dessas cadernetas, há a questão do fetiche; ter em mãos um manuscrito de um autor admirado é estar o mais próximo possível de sua essência, talvez o mesmo sentimento de um religioso ao tocar as relíquias de um santo de devoção. Para muitos leitores e escritores, tal afirmação não é um exagero.

Voltemos à obra, página 86, Bruce Chatwin:




“Os cadernos de capa negra que Chatwin regularmente comprava em Paris tornaram-se lendários hoje. Eles são preenchidos com breves apontamentos, rascunhos de parágrafos, linhas de poesia, descrições fugazes de pessoas, encontros fortuitos, e são difíceis de decifrar. Quando ele saía para uma jornada, frequentemente pegava qualquer caderneta que estivesse à mão; não é incomum um único moleskine incluir trechos de muitas jornadas: América do Sul, Austrália, Rússia, África – tudo junto, e ele raramente datava suas entradas. (...) Chatwin sempre disse que havia se tornado um escritor ‘para justificar sua própria inquietação’.”

Volto algumas páginas e encontro Franz Boas, nome que conheci numa aula de antropologia e a quem devo algumas boas inspirações em meu projeto de mestrado. Boas foi agraciado com uma vida longa e próspera, e Gilberto Freyre foi seu aluno na Universidade de Columbia nos anos 1920.



Franz Boas foi também um bom viajante. Entre 1883 e 1884, aos vinte e cinco anos, foi viver com os esquimós na Colúmbia Britânica, viagem que foi determinante em sua carreira na antropologia:

“Boas chegou no final de agosto de 1883 e estabeleceu sua base numa estação  escocesa de caça às baleias na ilha de Kekerten. Dali, fez extensas viagens com os Inuit, de trenó puxado por cães e de barco, mapeando a costa e registrando os locais com os nomes indígenas. Essa imersão na cultura Inuit durou um ano. Ele vestiu as roupas dos esquimós, comeu de sua comida e viveu em casas de gelo; aprendeu sua língua e seus modos de fazer as coisas, e ouviu atentamente as suas histórias, crenças e lendas.”



“Ao deixar a região gelada, Boas concluiu que se fazia necessária uma abordagem antropológica totalmente nova. Ele viria a se tornar uma figura distinta e muito influenciadora em seu meio, pioneiro no ‘campo das quatro abordagens’ – uma disciplina de metodologia combinando arqueologia, linguística, antropologia física e antropologia cultural – ao mesmo tempo defendendo os valores da pesquisa exaustiva, do trabalho de campo e do conhecimento folclórico.”

Franz Boas foi um ardente opositor ao racismo e ao fascismo e por sua abordagem holística no estudo do comportamento humano, ficou conhecido como o pai da antropologia moderna. Nos tempos livres, enquanto se encontrava preso no barco, esperando o gelo derreter para poder navegar adiante, gostava de desenhar icebergs e mapas dos territórios mapeados:



Outra figura fascinante documentada na obra de Lewis-Jones e Kari Herbert é Freya Stark. Sua vida foi literalmente uma grande aventura e é inacreditável que não tenhamos uma obra de sua vasta produção literária publicada no Brasil.



Nascida em Paris, Freya Stark passou grande parte da infância no norte da Itália. Criança doente, sua válvula de escape era a leitura das Mil e Uma Noites. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ela se voluntariou como enfermeira no front italiano e se virou como contrabandista para poder pagar suas despesas.

A todo o momento o Oriente lhe chamava. Ao chegar a Beirute em 1927, em sua primeira viagem pelo deserto, ela já conseguia conversar em árabe e estava aprendendo o persa. Devia aprontar muito em suas deambulações e dizem que foi uma mulher divertida, com um senso de humor peculiar, também presente em suas narrativas de viagem. Dizia que acordar sozinha em uma cidade estranha era uma das sensações mais prazerosas do mundo, um chamado à aventura.




Conheceu líderes de rebeliões, foi presa pelas autoridades francesas por suspeita de espionagem, mas jogou um charme e conseguiu se livrar da cadeia, antes de se aventurar pelo interior do Líbano e da Síria, onde nenhum ocidental havia ido antes dela. Atravessou o desfiladeiro de Chala, no Afeganistão e seguiu o rio Alamut através do Iran, corrigindo mapas já existentes da região por onde passava, enquanto sobrevivia à malária, dengue, disenteria e sarampo.

Nas selvas de Lamiasar ela descobriu a fortaleza da famosa seita ismaelita da Ordem dos Assassinos, escalando a escarpa de meias porque o caminho era muito escorregadio para seus calçados. Seus mapas precisos e a narrativa de sua viagem renderam-lhe medalhas da Royal Geographical Society e da Royal Asiatic Society.




Freya escrevia sobre suas andanças nas cartas que enviava à sua mãe e ao seu editor, escritas sob a sombra de árvores e de ruínas, em viagens que duraram décadas e renderam mais de vinte livros, muitos dos quais hoje considerados clássicos da literatura odepórica. Excêntrica, sem rodeios e segura de si, Freya foi uma mulher à frente de seu tempo.




Depois da Segunda Guerra, visitou a Ásia Central, o Afeganistão, a China e os Himalaias; aos 60 anos ela retraçou a rota de Alexandre, o Grande, percorrendo o sul da Turquia; aos 80, desceu o Eufrates de jangada. Continuou a viajar até os 92 anos. Faleceu em sua casa, na Itália, aos cem anos de idade. Em seu tributo, os jornais italianos nomearam-na rainha nômade; na Bretanha, o escritor Lawrence Durrell declarou que ela foi a “poeta da viagem”, uma das mulheres mais memoráveis de nosso tempo. Entretanto, Freya se enxergava em termos mais modestos: “vejo-me uma peregrina, mera residente temporária nesse mundo”. Palmas prá ela.


Cada um destes três personagens citados acima, tão diferentes entre si, assim como os outros sessenta e sete retratados, têm em comum o fato de que, em um determinado estágio de suas vidas, tiveram que assumir riscos. O texto introdutório, escrito a quatro mãos pelos autores, foi escrito com maestria e traz muitas passagens dignas de reflexão; costuram suas palavras colhendo notas peculiares dos exploradores que aparecerão nas páginas adiante.



Tudo, afinal, se entrelaça, porque a vida sempre foi e sempre será uma aventura, cada qual com sua jornada cheia de surpresas. Muitos morreram na estrada, muitos sucumbiram à jornada, mas, lembram os autores, o maior risco sempre será o de não sair de casa. Em outras palavras, não ouvir o chamado à aventura.



“A justificativa de Ernest Shackleton para sua vida instável, era simples: ‘Eu escolhi a vida acima da morte para mim e para meus amigos. Creio que está em nossa natureza explorar, lançar-se ao desconhecido. A única falha verdadeira seria não buscar, não explorar.’ E para muitos, mais do que ser um registro do desespero ou de angústia, escrever em um caderno de  notas era um momento de pura alegria: uma chance de descrever a beleza vista ou rascunhar algo memorável, como tirar uma fotografia, uma imagem para a posteridade,  uma descoberta para ser visualizada e compartilhada.”




O ponto alto dessa obra eclética talvez esteja no fato de que nem todos os viajantes são pessoas conhecidas ou famosas; alguns nunca foram publicados e nesse compêndio encontraremos exploradores pioneiros, topógrafos, botânicos, artistas, caçadores de plantas, ecologistas, antropólogos, escritores, visionários, mulheres e homens curiosos em enxergar e registrar o que poderia existir além do horizonte.



A riqueza desses registros nos cadernos de viagem é imensurável: há notas sobre a chegada ao cume do Monte Everest, a primeira visão do Polo Sul, os primeiros relatos das Cataratas de Vitória, do coração dos grandes desertos e do interior da tumba de Tutankhamun. Também veremos os primeiros desenhos dos icebergs, de borboletas e insetos raros, monumentos sagrados e de antigas inscrições, e das primeiras representações dos nativos americanos, caçadores esquimós e reis africanos.



Como dizem os autores, o processo de criação dessa obra foi em si uma exploração, uma caça ao tesouro. Quanto mais avançamos na leitura, mais desejamos cair na estrada, sair de casa, não importando a distância, mas sim a mudança do olhar, porque a aventura pode estar logo ali no próximo quarteirão. Temos que voltar a seguir nossos instintos, nossos impulsos, para conseguir ouvir o chamado.



“Na próxima vez que você programar uma viagem, leve um pequeno bloco de notas junto com seus equipamentos eletrônicos na mochila, ou melhor ainda, deixe esses aparatos em casa. Preencha as páginas  dos seus cadernos com aventuras e experiências. Siga a sua curiosidade. E apenas certifique-se de voltar para casa e compartilhar a sua história.”

Leia: Explorers´Sketchbooks: The Art of Discovery & Adventure. Huw Lewis-Jones and Kari Herbert. Chronicle Books, 2017.

domingo, 12 de março de 2017

A cozinha das escritoras, by Stefania Barzini

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Os primeiros livros que li na vida, após os clássicos infanto-juvenis que toda criança costumava ler na época, foram os de Agatha Christie - a Rainha do Crime - famosa alcunha da escritora inglesa. Jamais esquecerei da emoção que seus livros me causavam,  a maneira genial como ela conduzia a trama mantendo o suspense até o último capítulo, sem que nunca conseguíssemos descobrir a identidade do criminoso.

Afora a paixão pelo suspense e terror de suas novelas, havia outra coisa que me atraía nos livros de Agatha: as viagens aos lugares exóticos aos quais éramos transportados: Egito, Amã, Grécia, o Caribe... As viagens de trem e de navio, que duravam semanas, sem contar os aristocráticos vilarejos ingleses cheios de frescuras com seus hábitos ainda hoje mantidos, como o tradicional chá das cinco.


Não há um livro de Agatha Christie em que o chá não esteja presente. E não só isso: os biscoitos amanteigados, os ovos quentes, os bolos, sanduíches e lautos jantares com direito a assassinato aqui e acolá. Um veneninho no licor? Why not? Agatha tinha muito senso de humor, ninguém há de discordar.

Foi pegando essa linha que uma escritora italiana decidiu pesquisar o papel da comida na literatura feminina e publicou uma obra que merece ser lida por quem gosta de... comida, claro, mas também de literatura: A cozinha das escritoras: sabores, memórias e  receitas de 10 grandes autoras, de Stefania Aphel Barzini.



O que isso tem a ver com literatura odepórica? Tem tudo a ver, uma vez que a comida de um lugar é parte fundamental de sua cultura e suas origens. Tanto que, ao ler a obra da Stefania Barzini, pincelei muitas passagens que mostram exatamente isso, a importância das viagens na vida dessas escritoras.

São dez autoras as que aparecem nesse ensaio da autora italiana, das quais eu só conhecia metade, mas isso não diminuiu em nada meu interesse pela leitura, que flui bem do início ao final, com direito a algumas receitas das famosas literatas, uma bobeirinha dispensável.



O livro abre bem: Virginia Wolf. Suspeito que essa é uma das autoras que muitos conhecem, mas poucos leem. Confesso que tentei e não me entusiasmei muito com a Virginia e sua narrativa usando a técnica do “fluxo de consciência”, mas algo nela me atrai, talvez mais a sua vida do que a sua obra.

Virginia, diz a autora, valorizava em seus romances e contos a comida, as cozinheiras, os pratos e as receitas, a ponto de narrar paisagens usando palavras do universo da comida. O resultado é genial:



“Dessa maneira, os vendedores de fogaças têm os olhos cinzentos como os de peixe cozido. O corpo de uma garota é semelhante a um toucinho fofo, outra tem olhos cor de amora, e um homem se parece com uma couve-flor cozida. Uma senhora tem o rosto branco e grande como um muffin, e o de outra tem a forma de uma pera.

St. Ives, o lugar de sua infância, tem a cor dos mexilhões e dos moluscos, como um punhado de ásperos crustáceos cravados em um muro cinza. Observando os campos de trigo pela sua janela, pensa que ‘o grão, então, está disposto em filas de três, quatro ou cinco sólidas fogaças amarelas, ricas, parece, de ovos e de aromas; boas para comer’.



Na Grécia, as pedras vistas do alto se assemelham, segundo ela, a uma pera mal descascada, e durante um temporal ‘as árvores ao vento têm cor de chocolate, e as pequenas folhas parecem batatas cortadas’. Um dia, Virginia imagina estar sob uma parreira. No outro, vive como inseto em um biscoito. Em outro, sente-se maleável como um pedaço de macarrão.”



A próxima escritora, Gertrude Stein, aparece como uma amante da mesa e dos livros, assim como AliceToklas, sua amante, secretária, doméstica, editora e, acima de tudo, musa. A autora nos revela que as duas eram grandes gourmets, para quem a comida era não somente um prazer, mas um modo de conhecer o mundo e uma terra rica em tradições apetitosas.

Viajam muito, não só pela França, onde viviam, mas também atravessam o mar e voltam aos Estados Unidos, terra natal, convidadas para algumas conferências por conta do sucesso de Autobiografia de Alice B Toklas (escrito por Stein). Gertrude quase declina do convite porque não sabe se gostará da comida, numa terra “onde a comida parece mais bizarra que as pessoas, as casas e o modo de viver”.



Um amigo que acabara de voltar dos EUA diz que nunca na vida tinha visto uma quantidade tão grande de frutas e verduras enlatadas. “Mas você não era obrigado a comer esse tipo de coisa, não? – pergunta Gertrude ao amigo. “Era, sim” – responde. “Se você é convidado, não pode recusar”. O incrível é que essa cena se passa nos anos 30 do século passado.

Entretanto, a viagem acaba sendo um sucesso. “O país é grande, e as duas mulheres voam, endiabradas, de um estado para outro”. A autora prossegue:

“Em Baltimore, encontram Francis Scott Fitzgerald e tomam chá com uma infinidade de canapés, para não se esquecerem de Paris. A cidade lhes oferece a oportunidade de gozar da famosa hospitalidade das pessoas do Sul. São almoços e jantares ricos em tortas, sanduíches, sorvetes e ponche, sempre preparados por cozinheiras negras em total harmonia com seu reino: as imensas cozinhas daquelas casas.



Mas a descoberta mais prazerosa é, certamente, a Califórnia, estado de origem das duas, ‘o país abençoado por Deus’, como a chamam. Há sol, mar, uma terra incrivelmente fértil, plantações de azeitonas e de laranjas.

Em Pasadena, subúrbio elegante de Los Angeles, veem os primeiros abacateiros, cujas frutas são vendidas na beira da estrada, empilhadas em grandes pirâmides. Há também outras árvores frutíferas e as alcachofras de Monterey, cidadezinha ao sul de San Francisco que Steinbeck tornou famosa em seus romances.



(...) Sete meses depois, quando chega a hora de deixar o país, as duas mulheres ficam tristíssimas: no fundo é a terra delas, e lá elas tiveram uma revelação, até mesmo do ponto de vista gastronômico. Quando estão no voo que as levará de Atlanta, na Geórgia, para Nova York, onde embarcam para a Europa, leem um grande cartaz com os dizeres ‘Compre carne ou grãos na Geórgia’. Estiveram a ponto de querer ficar.”

No capítulo seguinte, Simone de Beauvoir, que tem fama de chata e, se tudo o que dizem dela for verdade, devia ser mesmo. Mas o texto a ela dedicado é uma delícia de ler, já que estamos falando de comida.



Simone viveu em hotéis muito tempo e nunca cozinhava: não sabia e nem gostava. Mas amava comer bem, embora nunca admitisse e dizia que cozinhar era opressor. Simone, a tonta arrogante, “que encara com gravidade quem cozinha, culpado do pecado que ela considera mais grave – dedicar-se a uma humilhante atividade pequeno-burguesa -, mas não consegue ocultar a fome e o apetite.”

No final da Segunda Guerra, viaja a Portugal para visitar a irmã e se espanta com a fartura de comida que ali encontra. Fica indignada na Espanha, com os brioches, as azeitonas, os ovos fritos, chocolates e vinho, comida a que só os ricos, a quem tanto despreza, podiam ter acesso. Indigna-se, mas enche o bucho e desembarca em Paris cheia de presunto, salames, café, chocolate, bananas, 50 quilos de provisões que serão distribuídos aos amigos.



“Paz também significa voltar a viajar, algo que Simone aprecia quase tanto como comer. A primeira viagem é para a Suíça, para uma rodada de conferências. O país, intocado pela guerra, marca a escritora por sua opulência e a faz exclamar: ‘ Uma das coisas mais prazerosas, à qual não estou mais habituada, é poder comer qualquer coisa a qualquer momento’.

(...) Para Simone, as viagens são sinônimo de libertação. Quando viaja, ela pode abandonar por um instante o compromisso mais opressivo de sua existência, a incansável construção, dia após dia, do monumento dedicado a si mesma, sozinha ou em casa com Sartre, uma obrigação que, com o passar dos anos, torna-se mais extenuante, a um ponto em que, no final, não será capaz nem mesmo de distinguir a realidade do mito criada por si mesma.



Nas viagens, a escritora pode se permitir baixar a guarda, sorver mais livremente os prazeres da vida, as cores do tempo, os passeios, as amizades, as conversas, conhecer, ver. Comer e escrever sobre o que se come, ao menos uma vez, sem reticências ou vergonha.”

Simone e Sartre viajam ao Brasil, “onde Jorge Amado lhes oferece um suco amarelo-pálido extraído do caju e eles comem feijoada, algo como uma sopa de feijão preto, densa e perfumada”.



“A Bahia, com suas batidas, seus mercados perfumados de verduras frescas, de abacaxi, de peixe, de carne já passada, de feijão-vermelho, de mandioca, de pepino, batata-doce e tabletes de açúcar mascavo que parecem sabão negro.

Onde o aroma de azeite de dendê se mistura ao cheiro de salmoura. Sartre, tão menos aventureiro em matéria de gastronomia, recusa-se a degustar os ragus, enquanto ela é conquistada pelo suflê de siri. Amado, convencido de que, para conhecer um país, deve-se antes de tudo saber o que se come, leva os dois franceses para almoçar numa churrascaria, onde o ar exala a lenha queimada.



Diante do fogo, em longos espetos de ferro, estão enfileirados pedaços de porco, carneiro, boi. Em nenhum outro lugar do mundo Simone comeu carne assim tão suculenta. (...) Dessa forma a viagem é uma experiência libertadora, um momento de prazer.”




Agatha Christie, escreve a autora, fazia na vida o que mais gostava: escrever, viajar e comer. E fazia as três coisas muito bem. Ao contrário de Simone de Beauvoir, estamos diante de uma mulher simpática e divertida. Certa feita ganhou de uma jornalista eslovena um livro de culinária do seu país. Ficou muito entusiasmada: “Que livro lindo! Só de folheá-lo me dá fome! Gosto de cozinhar. É a mesma coisa que escrever, um ato criativo!”



São inúmeras as viagens de Agatha Christie e o primeiro cruzeiro ao redor do mundo acontece nos anos 1920, logo após o nascimento de sua filha:

“E como sempre acontece nas viagens, o amor pela comida e a paixão pelo exótico se misturam, ainda mais no caso de Agatha, que, como sabe quem a conhece, seja por distorção profissional, seja por obsessão pessoal, lê o mundo ao redor por meio da comida, da cozinha, do ato de comer. Por isso, as anotações e as lembranças daquela viagem são sobretudo gastronômicas.



Ela se recorda de aguentar os almoços e jantares a bordo à base de caldo de carne Liebig. Ou fala sobre as ilhas Fiji e o Havaí, onde colhe abacaxis e bananas nas margens da estrada. Entre todas as maravilhas descobertas ao longo daquele ano ao redor do mundo, nada a deixa mais excitada e estupefata do que seu último dia em Nova York, quando vai ao Horn & Hardart Automat, próximo à Union Square.

(...) A fama dessa companhia, em que tudo era automatizado – a comida estava exposta em vitrines e, para comprá-la, bastava inserir moedas e girar manivelas – era tanta que Edward Hopper, o pintor da alienação americana, ambientou em um estabelecimento da rede uma mulher sentada sozinha em uma mesinha, olhando fixamente para sua xícara de café, como se fosse o uma espécie de tábua de salvação ou o último café de sua vida.



Em resumo, um ambiente nada alegre – embora, comparada com as atuais lojas de fast-food, a decoração pareça o máximo do refinamento.

Agatha, por sua vez, tem hábitos simples e não é esnobe, então contará essa experiência como a aventura mais divertida de sua viagem aos Estados Unidos, lembrando que foi à lanchonete vestida com roupa de festa, quase como se fosse jantar no restaurante mais sofisticado da cidade...”.



Depois da longa viagem marítima, a escritora se separa do marido e some misteriosamente por dez dias, causando um verdadeiro clamor no país. É dito que ela se registrou com nome falso em um elegante spa e sua depressão “é derrotada a golpes de ovos fritos”. Barriga cheia, coração feliz, é hora de voltar a viajar.

“Agatha decide ir para o Oriente Médio e viaja no Simplon Orient Express, o trem que aparecerá futuramente em um dos seus mais famosos e bem-sucedidos romances. A marcha para a Ásia é lenta. Agatha escolheu aquela viagem atraída também pelo apetitoso anúncio do vagão-restaurante do comboio, mas quanto mais se aproxima do Oriente, mas a sofisticada cozinha europeia se transforma em um desagradável mix de comida insossa picante, oleosa e sem sabor.



Não será isso a desanimá-la. Agatha Christie – nunca mudará de nome – chega ao atual Iraque, dorme no deserto em um saco de dormir, coisa de fato temerária para uma refinada senhora inglesa da época, e devora salsicha enlatada, cozida em um fogãozinho Primis, acompanhada de chá-preto.

Além de não se lamentar, ela anota em seu diário: ‘É maravilhoso, aquilo mesmo que eu queria: a ausência dos passarinhos, a areia que corre pelos dedos, o sol nascente e o sabor da salsicha e do chá’. Realmente indomável.”


Foi nessa viagem ao Oriente que Agatha conheceu seu segundo marido, arqueólogo, o grande amor de sua vida.  Por conta de seu trabalho em campo, viajarão toda uma vida e serão para sempre felizes.

Sobre as outras escritoras não há no livro menções a viagens, embora há muitas passagens que valeriam ser destacadas, como no texto dedicado à escritora italiana Grazia Deledda, Nobel de Literatura em 1926, que no final da vida, com a saúde já muito debilitada, escreve que  seus pensamentos “são constelações de ervas que se movem ao vento, o meu coração bate no ritmo das folhas das árvores de alfarroba que se destacam uma a uma dos ramos”.



A beleza das palavras dessa escritora nascida na Sardenha merece ser mais conhecida, uma pena sua obra ser tão pouco divulgada por aqui. Só o capítulo dedicado a ela no livro de Stefania Barzini já vale a compra. Assim como descobrimos ao acaso um lugar mágico ao dobrar uma esquina numa viagem qualquer, também descobrimos autores há muito esquecidos que, também por conta do acaso, enchem nossa alma de alegria. E com as palavras de Grazia termino esse post sobre viagens, paisagens, comida e... escritoras.



“Vivi em contato com o povo e com as paisagens mais belas e selvagens com as quais minha alma se identificou (...). Vivi com o vento, com os bosques, com as montanhas; olhei por dias, meses e anos o lento movimento das nuvens do céu sardo; apoiei mil vezes a cabeça no tronco das árvores, nas pedras, nas rochas, para escutar a voz das folhas, o que diziam os passarinhos, o que contava a água corrente, vi a alvorada, o pôr do sol, o surgir da Lua na imensa solidão das montanhas”.
Leia: A cozinha das escritoras: sabores, memórias e receitas de 10 grandes autoras. Stefania Aphel Barzini. Editora Saraiva - Coleção Benvirá, 2013.