domingo, 17 de setembro de 2017

Esperança do mundo, by Albert Camus

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Uma das coisas mais prazerosas para um leitor é ter acesso às correspondências, anotações e esboços de seu autor preferido. Esse voyeurismo literário permite-nos conhecer certos aspectos de um escritor que nem sempre estão explícitos em suas obras, como seus anseios e devaneios, suas inseguranças e angústias, mas também seus sonhos e suas fantasias, o que os tornam mais próximos de nós, que não raro mitificamos aqueles a quem admiramos.

Albert Camus foi um desses escritores que tinham por hábito manter cadernos de anotações que se tornariam um verdadeiro “laboratório de criação”, onde apareceriam esboçadas muitas ideias originais vistas posteriormente em suas obras.


Aqui no Brasil a Editora Hedra publicou três dos nove cadernos que Camus escreveu durante sua vida (de 1935 a 1959): Cadernos (1935-37) – Esperança do Mundo; Cadernos (1937-39) – A Desmedida na Medida; Cadernos (1939-42) – A Guerra Começou. Onde Está a Guerra? O primeiro caderno foi publicado em 1962, dois anos após a morte do escritor, e é dele que trataremos nesse post.

Como apreciador da escrita fragmentária (já escrevemos sobre isso aqui no Odepórica), me surpreendi com o fato de encontrar nas breves anotações de Camus, ainda na juventude de seus 22 anos, visões profundas e belas sobre a vida, prova de sua precoce genialidade filosófico-literária. No posfácio desse primeiro caderno, escrito a quatro mãos pelos tradutores e estudiosos da obra de Camus, Raphael Araújo e Samara Geske, lê-se o seguinte:

O caderno poderia ser considerado a primeira obra de Camus: mais do que uma base para o processo de criação de seus romances e ensaios, é também um espaço de experimentação e de escrita. 

A escrita fragmentada das notas, geralmente ligada à ideia de inacabamento, oferece, ao contrário, um campo de possibilidades ao escritor, que não precisa necessariamente estar ligado ao “todo” de um texto.

Algumas notas podem ser encaradas como fechadas em si mesmas: muitas delas encerram pensamentos, proposições morais e éticas, observações sobre o ser humano e a literatura.

Encontramos até mesmo alguns fragmentos poéticos que se assemelham aos haikus japoneses, quando fixam um momento, uma paisagem, um sentimento: “Florença. No recanto de cada igreja, um espetáculo de flores, grandes e brilhantes, peroladas de água, singelas”.



Há beleza por toda a parte, como sempre nas obras de Camus, um escritor que manejava as palavras como um mago o seu ofício. É fascinante o fato de um jovem de vinte e poucos anos escrever algo assim:

“Os sentidos e o mundo – os desejos se confundem. E neste corpo que eu aperto contra o meu, guardo também essa estranha alegria que desce do céu em direção ao mar”.

É sobretudo quando Camus observa a natureza, o que faz com frequência, que seu texto emociona mais profundamente. Ele possuía o dom de colocar em palavras a poesia que se esconde nas manifestações mais simples da vida, embora essa simplicidade ocultasse um profundo questionamento sobre a existência humana.

Viagens e paisagens camusianas

Nesse primeiro caderno as viagens de Camus aparecem em destaque, assim como seu encanto pela natureza, sua quase obsessão pelo céu e pelo sol - sua luz e calor, como se esses elementos fossem um combustível essencial para sua escrita.

Transcrevo a seguir as notas que considerei mais encantadoras, palavras que poderão lhe inspirar na próxima vez que seus pés tocarem a estrada. Permita-se.

Esse jardim do outro lado da janela, só vejo os muros. E algumas folhagens por onde a luz se espalha. Mais alto, ainda as folhagens. Mais alto, o sol. E de toda essa jubilação do ar que se sente fora, de toda essa alegria espalhada no mundo, eu só percebo as sombras das folhagens que brincam com as cortinas brancas. Cinco raios de sol também despejam pacientemente no cômodo um perfume dourado de capim seco. Uma brisa, e as sombras se animam na cortina. Que uma nuvem cubra e depois descubra o sol, e eis que da sombra surge o amarelo radiante desse vaso de mimosas. É suficiente: esse único raio nascente e eis que me inundo de uma alegria confusa e atordoante. Prisioneiro da caverna, aqui estou sozinho diante da sombra do mundo”.

O que faz o preço da viagem é o medo. É que em dado momento, tão longe de nosso país, de nossa língua, um medo indefinido nos toma, e um desejo instintivo de voltar ao abrigo dos velhos hábitos. É a mais clara contribuição da viagem. Nesse momento, estamos febris mas porosos.

O menor choque nos abala até o fundo do ser. Que se encontre uma cascata de luz, a eternidade está lá. É por isso que não é necessário dizer que se viaja pelo prazer. Não há prazer em viajar. Eu veria mais uma ascese. É por sua cultura que se viaja, se se entende por cultura o exercício de nosso sentido mais íntimo, que é o da eternidade. O prazer nos afasta de nós mesmos como o divertimento de Pascal distancia de Deus. A viagem, que é como uma ciência maior e mais séria, nos traz de volta.

Céu de tempestade em agosto. Ventos mordazes. Nuvens negras, ao leste. Contudo, uma faixa azul, delicada, transparente. Impossível olhá-la. Sua presença é um incômodo para os olhos e para a alma. É que a beleza é insuportável. Ela nos angustia, eternidade de um minuto que nós gostaríamos no entanto de estender por todo o tempo.”

“Longa descida resplandecente de sol. Os loureiros-rosa em Mônaco e Gênova cheios de flores. As noites azuis da costa liguriana. Meu cansaço e aquela vontade de chorar. A solidão e a sede de amar.

Enfim Pisa, cheia de vida e austera, seus palácios verdes e amarelos, seus domos e, ao longo do Arno vagaroso, sua graça. Tudo o que há de nobre na recusa de se entregar. Cidade pudica e sensível. Nas ruas desertas da noite, tão perto de mim – que, de passear sozinho, finalmente me entrego à vontade de chorar. Alguma coisa aberta em mim que começa a cicatrizar.

Pisa e seus homens deitados na frente do Duomo. O Campo Santo, suas linhas retas, ciprestes nos quatro cantos. Compreendem-se as querelas dos séculos XV e XVI. Cada cidade conta aqui com sua aparência e sua verdade profunda.

Não há outra vida senão aquela de que meus passos marcavam a solidão ao longo do Arno. Aquela também que me agitava no trem que descia para Florença. Esses rostos de mulheres tão sérias, que um sorriso transformava subitamente. (...) Bebi nas fontes e a água estava um pouco morna, porém bem fluida. Descendo para Florença, eu me pus a contemplar rostos, beber sorrisos. Seria eu feliz ou infeliz? A pergunta tem pouca importância. Vivo com tal ímpeto.

Coisas, seres me esperam e, claro, eu os espero também e os desejo com toda minha força e minha tristeza. Mas aqui eu ganho minha vida de tanto silêncio e segredo.

O milagre de não precisar falar de si mesmo.

Os Giotto de Santa Croce. O sorriso interior de São Francisco, amante da natureza e da vida. Ele justifica aqueles que têm o gosto pela felicidade. Luz doce e fina sobre Florença. A chuva se prepara e enche o céu. Enterro de Giotto; a dor nos dentes cerrados de Maria.
 ♣

(...) As nuvens aumentaram por cima do mosteiro e a noite pouco a pouco escureceu as lápides nas quais se inscreve a moral da qual se favorecem aqueles que estão mortos. Se eu tivesse que escrever aqui um livro sobre moral, ele teria cem páginas, e noventa e nove seriam brancas. Na última eu escreveria: “Eu só conheço uma obrigação: a de amar”. E, para o restante, digo não.

Leia: Esperança do mundo. Albert Camus. Ed. Hedra. São Paulo, 2014.
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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Pic, o último romance de Jack Kerouac

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A maior surpresa que tive esse ano aconteceu no último final de semana de agosto. Estava procurando um livro que pudesse ler no domingo de uma só tirada, porque às vezes tenho essas vontades tolas de ler um romance em um dia ou dois no máximo.

Puxei da estante um Kerouac que nem me lembrava mais de haver comprado: Pic. Perfeito, pensei (e além do mais fazia tempo que não visitava meu autor predileto). Liguei um som baixinho, instrumental, para não me distrair com os ruídos externos e mergulhei na leitura. Sensacional, já vou adiantando.

Comecemos pelo título: Pic, que é o nome do narrador: Pictorial Review Jackson, um adorável menino negro de dez anos que nos relata, em primeira pessoa, a aventura de sair de casa no interior da Carolina do Norte rumo à costa oeste, uma aventura gigantesca para quem nunca havia saído de seu próprio quintal.

Kerouac situa a história nos anos 1940, época em que a segregação racial era muito pesada nos Estados Unidos; optou por escrever o romance da maneira como os negros falam, como um dialeto próprio, o que dá à narrativa uma dinâmica apropriada – os personagens são quase palpáveis e a empatia com o menino Pic, imediata.


A obra começou a ser escrita no início da década de 50, mas os biógrafos de Jack informam que ele a deixou encostada até o fim da vida, retomando a escrita poucos meses antes de falecer, em outubro de 1969. A obra foi publicada postumamente em 1971 e não foi bem recebida pelos críticos. Uma das críticas mais recorrentes recai sobre o uso mal empregado da fala dos negros americanos; por outro lado, há os que admiram a obra justamente pelo fato de Jack ter saído de sua zona de conforto e eu fico do lado dos que pensam assim.

Preciso dizer que a tradução da obra para o português, a cargo de Guilherme da Silva Braga, ficou divertida e cativante, lembrando muito a maneira de falar dos negros descendentes de escravizados das cidadezinhas coloniais de Minas Gerais. Veja uma passagem:

Vô, aquela noite tava muito escura porque a lua ficô encoberta pelas nuve assim que eu e o mano chegamo no bosque, e aquela lua não passava de uma bananinha de lua que brilhava fraca e franzina quando aparecia em meio às nuve. Tamém ficô frio, e eu tava quase tremendo. Achei que uma tempestade tava se armando pra me aquecê, porque pocas vez eu me senti tão bem como quando a gente se pôs a caminho.

Vamos ao enredo? Pic é um garoto negro, “o minino mais escuro, o minino mais preto que já tinha aparecido na escola”; sua mãe faleceu, seu pai sumiu do mapa há anos e seu irmão um dia foi embora e nunca mais voltou. A história que lemos é a que Pic conta ao seu avô, com quem vive e a quem muito estima.


Quando seu avô falece, o que acontece logo nas primeiras páginas, Pic é levado para a casa de uma tia onde o ambiente não lhe era favorável até que um dia aparece seu irmão mais velho, Slim, um saxofonista pobre e virtuoso, que veio de Nova Iorque exclusivamente para levá-lo embora. E é aqui que a aventura começa: Pic cai na estrada com o irmão e o que leremos daí em diante é puro deleite.

Um dos mais respeitados biógrafos de Kerouac, Gerald Nicosia (autor de Memory Baby: a critical biography of Jack Kerouac) afirma que quase todos os incidentes que se lê em Pic fazem referência a algum acontecimento da vida de Jack, inclusive a perspectiva de ver-se a si mesmo como um membro de outra raça (Jack era de origem franco-canadense), pelo que Pic pode ser enxergado como uma persona do autor.


A beleza dessa pequena novela, que mais se assemelha a um grande conto, está na visão de encanto que Jack procurava transmitir em suas obras. São os detalhes, o apreço às coisas simples da vida, a aventura do partir rumo ao desconhecido, a ânsia de novas descobertas que a vida na estrada oferece, a natureza, a solidão, o valor da amizade e da ternura... elementos que sempre estarão presentes na obra kerouaquiana.

Por admirar o trabalho de Kerouac sou suspeito para resenhar qualquer uma de suas obras, mas confesso que não esperava muito desse texto, porque num primeiro momento senti desconforto com a linguagem coloquial, até mesmo caricata dos diálogos entre Pic e seu irmão, mas o fato é que a história é tão bem contada, tão vibrante, que no segundo capítulo você até esquece esse lance da linguagem e torce para que o garotinho se dê bem na vida.

Pelo que li em algum lugar, o final dessa novela não foi concluído, e embora fique mesmo essa impressão, não desaponta: fechei o livro com um sorriso bem grandão no rosto. Acho que Jack fez um bom trabalho.
Excerto capítulo 11: Fazendo as mala pra Califórnia

(...) “Primero a gente tem que atravessá cinco mil e duzentos quilômetro”, o Slim suspirô, e eu lembrei dessas palavra mais tarde. “Cinco mil e duzentos quilômetro”, ele disse, “por uma planície, um deserto e três cordilhera de montanha, no meio de toda chuva que resolvê caí do céu. Que Deus nos ajude!”.  

Bom, agente foi pra cama e dormiu nossa última noite naquela casa, e pela manhã vendemo as cama. “Agora tamo entregue à nossa própria sorte”, o Slim disse, e ele tinha razão. De tarde a gente dexô a casa vazia a não ser por uma garrafa de leite, e tamém pelas meia que eu tinha levado comigo dês da Carolina do Norte.

A Sheila tava com a mala dela, e eu e o Slim tinha cada um uma mala com todas nossas coisa. A gente foi pra rodoviária e comprô o bilhete da Sheila e esperô a hora do ônibus dela.




Quando o ônibus tava prestes a saí nós três nos sentimo triste e apavorado. “Lá vô eu noite adentro”, a Sheila disse quando viu o ônibus que dizia CHICAGO nele. “Vô e provavelmente não volto nunca mais. É como morrê pra ir pra Califórnia – mas lá vô eu. Vô, eu ainda não me esqueci desse momento.

“Cê vai revivê quando chegá”, o Slim disse com uma risada, e a Sheila disse que era o que ela torcia que acontecesse. “Não dexa nenhum cara mexê contigo nesse ônibus”, o Slim disse, “porque cê vai tá sozinha até que eu e o Pic apareça por lá, e eu não sei quando vai sê.”

“E eu vô tá esperando você, Slim”, e a Sheila começo a chorá. Bom, o Slim não chorô mas ele pareceu que ia chorá quando abraçô ela. Pobrezinha- eu senti pena dela naquela noite, porque eu amava ela muito, que nem o Slim tinha dito que eu ia amá naquela primera noite no bosque. Uma jove mãe que não sabia o que ia acontecê com ela no outro lado do país com todas aquelas noite sozinha pela frente enquanto eu e o Slim não chegasse. É como diz na Bíblia, Fugitivo e vagabundo serás na terra, a única diferença era que ela era uma garota. Eu passei a mão no rosto dela e disse prela nos esperá na Califórnia.

“Tomem cuidado com as carona”, ela disse. “Eu inda acho que o Pic é piqueno demais pruma viagem tão longa e não me sinto muito bem em relação a isso.”


Mas o Slim disse que ia cuidá bem de mim, cuidá do melhor jeito possível, e se ele não pudesse fazê aquilo então ninguém mais podia. Era assim que o Slim se sentia, ele tinha confiança e cuidava da gente. Aí ele e a Sheila se bejaro, e depois ela tamém me deu um bejo macio e doce e entrô no ônibus.

“Tchau, Sheila”, eu disse, e comecei a abaná, e me senti inda mais sozinho e assustado do que na hora que ela chorô, e tchau, tchau todo mundo tava dando tchau pra todo mundo ao redor do ônibus, e vô essa é a tristeza de viajá tão longe, de tentá vivê e fazê as coisa até o dia que você morre.

Leia: Pic: uma novela. Jack Kerouac. L&PM Editores, 2015.

domingo, 13 de agosto de 2017

Epígrafes odepóricas

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Gosto demais de epígrafes, aquelas citações que servem de bandeira ao texto principal. Houve uma época em que eu copiava as que me agradavam, achando que um dia eu as aproveitaria em algum escrito meu, o que de fato já aconteceu em algumas ocasiões.

Hoje decidi mudar uns livros de lugar e como sempre acontece, o trabalho foi interrompido diversas vezes porque ao abrir os livros para arejar as páginas, sempre dava uma olhadinha na obra, em uma anotação, uma passagem grifada... Acabei não concluindo a tarefa a que me havia proposto, mas não foi tempo perdido: tive a ideia de escrever esse post, transcrevendo algumas epígrafes da minha coleção de literatura odepórica.

Nas citações abaixo você encontra primeiro o autor da epígrafe e entre parênteses a obra e o autor que dela fez uso.

Entretanto, antes das citações, gostaria de reproduzir os agradecimentos, com cara de epígrafes, que a autora de Um ano de viagens, Frances Mayes, fez em sua obra e que me surpreendeu pela inovação. Veja que sacada boa a dela:


Ao casal de pé no meio da estrada ao lado do seu trailer desconjuntado.
À mãe e ao filho de dois anos nos assentos 42A e B durante a nona hora de voo.
À família de seis pessoas atravessando a Europa num Deux Chaveaux e cantando “Abençoado os Laços que unem”.
À garotinha aos berros no chão da trattoria às onze horas da noite.
A K.A.T., que disse: “Bom, agora já fui e não preciso ir mais”.
Ao conjunto novo de calcinha e sutiã amarelos que ficou secando na borda da banheira dom hotel.
Ao capitão mergulhando nas algas ondulantes atrás da máscara de mergulho que caiu.
À mala que foi para a Índia.
A T.A., que não conseguiu abrir a porta do trem e seguiu até Castiglion Fiorentino.
Ao homem do sul mancando por Pienza e gritando para a mulher: “Já vi tudo que queria ver.”
Ao personagem descrito por Novalis, que partiu para encontrar uma flor azul vista num sonho.
A Edward – com você eu vou.


Tudo considerado, existem apenas dois tipos de homens no mundo - os que ficam em casa e os que não ficam. Os segundos são os mais interessantes. Rudyard Kipling (De carona com Buda, by Will Ferguson)
Em relação a outras pessoas, nós somos peregrinos que, por caminhos mais diversos e com grande dificuldade, nos dirigimos ao encontro mútuo. Antoine de Saint-Exupéry (Minhas viagens com Heródoto, by Ryszard Kapuscinski)
Nada é tão duradouro quanto a mudança; nada é tão constante quanto a morte. Cada batida do coração nos abre uma ferida; e não fosse a poesia, a vida seria um eterno sangrar. É a poesia que nos concede o que a natureza só nos sabe negar: aqueles anos dourados que o tempo não azinhavra, uma primavera que não cessa de florescer, um destino desanuviado e a juventude eterna. Ludwig Börne (Viagem ao Harz, by Heinrich Heine)


Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam. (A viagem do elefante, by José Saramago)
Não se pode adivinhar nem prever as condições que produzem a felicidade; apenas tropeçamos nelas por acaso, num momento de sorte, em algum lugar, no fim do mundo, e nos agarramos a elas para sempre... Willa Cather (A arte da peregrinação, by Phil Cousineau)
Muito já se escreveu sobre viagens, muito menos da estrada. Edward Thomas

Meus olhos estavam em meus pés... Nan Shepherd, The Living Mountain.
(The Old Ways, a journey on Foot, by Robert Macfarlane)


Camarada, dou-lhe minha mão! Dou-lhe o meu amor, mais precioso que o mel,
Dou-lhe eu mesmo, para além de rezas ou leis; você se dará para mim? Viajará comigo? Devemos ficar um com o outro enquanto vivermos? Walt Whitman (On the road, by Jack Kerouac)
Se procurarmos os nossos anseios além do nosso quintal, é porque eles nunca foram nossos. Dorothy, O mágico de Oz (A arte da quietude, by Pico Iyer)
É melhor viajar cheio de esperanças do que chegar. Provérbio japonês. (Wabi-sabi, by Francesc  Miralles)

Querido Deus, agora consigo enxergar, porque não consigo outras vezes, que és tu que amo na beleza do mundo e em todas as lindas moças e os queridos amigos, e que peregrinos é o que somos, viajantes numa jornada, e não porcos, nem anjos. Walker Percy. (Caminhos Sagrados, by Nicholas Shrady)
Somos imortais apenas durante um determinado período. (A estrada da cura, by Neil Peart)
No fundo, creio que a Terra é circular,
Por uma única boa razão...
Depois de dar a volta nesse mundão
Tudo o que se quer é voltar para o lar.
Orelsan (A extraordinária viagem do faquir que ficou preso em um armário Ikea, by Romain Puértolas)

Os homens encenam tragédias porque não acreditam na realidade da tragédia que de fato está se desenrolando no mundo civilizado. José Ortega y Gasset (No ar rarefeito, by Jon Krakauer)
Você não conseguiria descobrir as fronteiras da alma, mesmo que tivesse viajado todas as estradas com esse propósito; tal é a profundidade do seu significado. Herácleto de Éfeso (Soul, An Archaelogy by Phil Cousineau)


Os passos que [uma pessoa] dá desde o dia em que nasce até a morte traçam no tempo uma figura inconcebível (...). Esta figura (talvez) tenha sua função determinada na economia do universo. Jorge Luís Borges (Nos Caminhos da Glória, by Eleonor Munro)
Somente Deus conhece o caminho, só Ele sabe onde está a sabedoria porque a Sua vista alcança os lugares mais distantes do mundo. (Via Láctea, by Guy Veloso)

Se você teve a sorte de viver em Paris, quando jovem, sua presença continuará a acompanhá-lo pelo resto da vida, onde quer que você esteja, porque Paris é uma festa móvel. (Paris é uma festa, by Ernest Hemingway)
Um homem não é nada quando não é o produto de sua terra. Anatole France (Jornadas em Portugal, by Antero de Figueiredo)

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Viajar, recordar... by Antero de Figueiredo

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Antero de Figueiredo, escritor português a quem muito admiro, publicou quatro narrativas de viagem que merecem fazer parte de qualquer boa coleção de obras de literatura odepórica: Recordações e Viagens, Jornadas em Portugal, Espanha – Páginas galegas  e Toledo- Impressões e evocações.

Em todas essas narrativas há um prefácio em que o autor disserta sobre o tema das viagens, dando ênfase às lembranças e recordações que ficam dessas experiências, à saudade, ao ato de partir e também ao de regressar, onde cabe a pergunta: o que trazemos das viagens depois que voltamos? Esse questionamento surge com frequência nos textos sobre viagem que Dom Antero nos deixou.

Abaixo transcrevo um excerto da obra Jornadas em Portugal, leitura agradável e inspiradora que pede para ser lida com calma e atenção. Inspire-se.

Que é a vida senão uma viagem?
Que são as viagens senão temas de recordação? Recordar!
O presente é inconsciente como a juventude: - só na idade refletida se mede o prazer que passou. O prazer é vivaz e efêmero; a recordação vem esmorecida, mas pousa e fica. A alegria vale, sobretudo, pelo fio de doçura que deixa na saudade nevoenta...

Quando fruímos um prazer, com a ardência do sol em chamas, estamos a preparar o luar desse gozo: o deleite brando e demorado de o relembrar. É como o sonho do amor, que se desdobra na ilusão lunar de recordar. Tudo ilusão!



Mas a ilusão é a mentira fecunda da vida. É a própria vida. A ilusão é a maior verdade, porque é a maior constante; é a maior beleza, porque universalmente, eternamente, atrai e seduz. O prazer vale um pouco pelo que é, e muito pelo que será. Quem goza, semeia saudade. O mais delicado perfume é o perfume do que foi perfume...

Recordar é acordar. Só acordados somos vivos. No presente somos mortos. Recordando, ressuscitamos. E então vivemos conscientemente a vida inconsciente que por nós correu. Recordar é poetizar. Tão nobre é o valor da recordação que, às vezes, recordar uma viagem comum é desvulgarizá-la, é engrandecê-la. 

Da realidade ficou apenas uma imagem depurada – a essência da verdade que existiu. A recordação superioriza, porque espiritualiza. O tempo é o poeta da saudade.

Enquanto se anda a pisar terras estranhas, vistas pela primeira vez, o espírito, entontecido pela cintilação do imprevisto, goza tão alarmado e sôfrego, que todo ele desliza, fugaz, pela fácil aparência irisada das coisas transitórias, as quais, passando por nós como relâmpagos, lá ficam para trás sem as termos vincado com o nosso comentário enternecido a invadi-las de entendimento e de estima penetrantes.

Só depois, mais tarde, refletindo, nos apercebemos do que vimos, do que sentimos, - mais tarde, quando analisamos, miúda, demorada e saboreadamente, as imagens belas trazidas conosco dessa correria luminosa e vertiginosa.

Tal qual a leitura de um livro profundo, que só se faz repassadamente, depois que o fechamos para pensar nele; tal qual um quadro que só começamos a ver bem, quando já o não olhamos – quando o não temos diante das pupilas que o viram, mas ante os olhos fechados que nele meditam...

Se voltamos a uma terra onde há muito estivemos, encontramo-nos lá com o que fomos. Então, pomo-nos a ver paisagens, pessoas e coisas, com outras paisagens, outras pessoas, outras coisas no fundo dos olhos... Acama-se o presente no passado. Monologamos. Monólogos, que, afinal, são diálogos de nós conosco próprios – entre o nosso sentir de ontem e o nosso sentir de hoje, entre o que somos e o que fomos.

E sofremos, dando-nos em espetáculo às coisas impassíveis que são os observadores irônicos da nossa alma débil de melancolia, ou açodada de arrebatamentos vãos. Tudo fraquezas!


Se amo ainda as terras que há muito não vi e as almas de que há muito me afastei, é a mim que eu amo do que de mim nessas terras ficou, do que do meu espírito a esses espíritos dei. Por onde passamos, de alma comovida e franca, deixamos sempre alguma coisa de nós; e a saudade, depois sentida, não é mais do que a pena do que já não somos – dos sonhos que não mais podemos de novo repetir...

Sofremos então, mas resignamo-nos com tristeza e doçura, a chorar e a sorrir: - sorriso que punge, choro que consola; e isto talvez seja o que se chama Saudade.

Viajar!
A ânsia da partida é um vinho forte, que nos excita; a serenidade do regresso, um leite morno, que nos acalma e nos amodorra gostosamente. Partir, afastar-se, ausentar-se para viagens novas, são prazeres que levam a dor pela mão...  esferas de oiro, a rolar no espaço azul, metade feitas de sol, metade feitas de treva.

Então nossa alma, amachucada pelos deuses da despedida, melancólica pelo afastamento, dorida pela ausência, começa a sentir chover em si uma morrinha lenta de mágoas imprecisas, vagas como neblinas, finas como gotas de água fria; e ver formar-se, desdobrar-se, entre o ponto da terra que deixamos e aquele em que estamos – a ver formar-se (tanto mais extensa, quanto mais afastados de pessoa querida) a planície da ausência, longa, rasa, calada, desolada, onde a nossa tristeza se queda e se pasma, e vai, como virgem louca, em sofredor silêncio, cravando, aqui e além, a flor miudinha e lilás da recordação pesarosa e o cardo roxo da saudade amarga, que laiva o chão de sombra violácea... 


O regresso é doce. Como há amizades suaves que só entendem bem após os tumultos dos amores descompassados, assim há modestas sombras de cantinhos de moradias liais, que somente se valorizam depois de os olhos se haverem deslumbrado com a falsa maravilha dos palácios de oiros rutilantes – tantas vezes mentirosos como miragens...

Dizia Demócrito: “Toma o cajado do viandante, abandona a casa paterna, expõe-te à má recepção que te faça o estrangeiro para, no regresso, saboreares o pão negro do teu lar”.

Excerto da obra Jornadas em Portugal, Antero de Figueiredo. Livrarias Aillaud e Bertrand. 2ª ed. 1918.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Caminhando, by Linda Hogan

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Finalizei há pouco a leitura de uma coletânea de textos sobre caminhadas, ou melhor, sobre a experiência do caminhar. A obra The Walker’s Literary Companion, (O Companheiro Literário do Caminhante) foi editada por três professores universitários que têm em comum a paixão pela caminhada e pela literatura de caminhada (usam o termo Walking Literature) e todos publicaram livros dentro dessa temática. Há de tudo um pouco nessa coletânea: ensaios, poemas, contos e excertos de romances. Muita coisa boa para garimpar.

Dos textos que li, me chamou a atenção o de uma autora desconhecida aqui no Brasil: Linda Hogan.  Linda é poeta, romancista, acadêmica e ambientalista e seu trabalho tem uma relação muito estreita com os povos nativos americanos, sendo ela mesma descendente, por parte de pai, dos índios Chickasaw.

O texto que traduzi abaixo carrega essa energia dos povos nativos, essa conexão que possivelmente só os índios, nos dias de hoje, são capazes de vivenciar. Mas nem tudo está perdido: as divagações da autora, que descobre uma nova maneira de observar o mundo depois de se deparar com um girassol numa caminhada na montanha, mostram que se estivermos abertos às coisas que nos rodeiam, ainda podemos resgatar, nem que seja por um breve momento, essa conexão com a natureza que tanto estimamos. Basta exercitar o olhar, abrir o coração e seguir os passos dos nossos ancestrais. 

Teve início em um ambiente escuro e subterrâneo, um ser faminto se movendo lentamente em direção à luz. Ela cresceu em um barranco seco ao lado da estrada de onde eu vivo, um lugar onde as encostas às vezes ficam amarelas, por conta das esvoaçantes marés de girassóis. Mas essa planta era diferente.  Estava sozinha e era maior do que as inúmeras outras situadas na parte de cima da colina. Essa planta era uma viajante, uma colonizadora, e como um sonho que nasce do conflito, ela cresceu onde a terra havia sido perturbada.  

Eu a vi primeiro no começo do verão, um broto verde adormecido, erguendo-se em direção ao sol. Formigas trabalhavam ao redor do botão de flor fechado, reunindo pulgões e seiva. Alguns dias mais tarde, ela se transformou em uma flor delicada e jovem, com um centro verde pálido e uma tropa de insetos cinza-prateados subindo e descendo seu caule. 

Durante o verão esse girassol se tornou uma planta de incrível beleza, voltando sua face diariamente em direção ao sol nas maneiras mais sutis, seu centro negro escuro e vivo com uma luz azul profunda, como se uma pederneira houvesse provocado uma faísca de fogo elementar lá dentro, em comunhão com a chuva, os minerais, o ar da montanha e a areia.


Com o verão mudando o cenário do verde para o amarelo, novos visitantes chegavam diariamente; os insetos de asas rendadas, as abelhas com pernas gordas de pólen, e os gafanhotos com suas asas tagarelas e fome desesperada. Sentia falta de outras formas de vida, aquelas muito pequenas ou escondidas da vista. Era como se essa planta, uma anfitriã de vidas, formasse uma sociedade em que, a cada momento, dependendo da luz e da umidade, acontecia uma grande e diversa mudança.

Havia mudanças no mundo próximo ao redor da planta igualmente. Um dia eu entrei em uma curva na estrada para encontrar um sinal perturbador de um cavalo morto, negro e ainda largado junto à encosta, seus olhos voltados para trás; num outro dia eu quase fui levada pelo vento e por uma tempestade de areia tão impetuosa que tive que esperar que passasse antes de poder voltar para casa. Nesse dia, as pétalas murchas do girassol foram varridas em direção à terra. Foi quando os pássaros chegaram para carregar as novas sementes para um outro futuro.

Nessa única planta, em uma estação de verão, aconteceu um drama de necessidade e sobrevivência. Os famintos foram satisfeitos. Insetos copularam. Houve fuga, exaustão e morte. Vidas surgiram e depois se foram.



Eu fui uma forasteira. Eu apenas olhei. Nunca aprendi a linguagem dourada do girassol ou a língua de seus cidadãos. Tive uma pequena compreensão, nada mais do que uma observação superficial da flor, dos insetos e dos pássaros. Mas eles sabiam o que fazer, como viver. Uma velha voz de algum lugar, gene ou célula, disse à planta como iludir a força da gravidade e encontrar seu caminho para o alto, seu desabrochar. Foi instinto, intuição, necessidade. Um certo conhecimento guiou os pássaros sementeiros por caminhos ancestrais que eles nunca haviam visto. Eles acreditaram. Eles seguiram.   

Existem outras intimações e chamados, alguns até mais misteriosos do que aqueles comandados aos pássaros ou às viagens de sobrevivência dos insetos. Os bambus, por exemplo, com suas finas copas verdes e caules dourados que rangem ao vento. Uma vez a cada século, todos os bambus de uma certa espécie florescem no mesmo dia. Nem a localidade da planta, na Malásia ou em uma estufa no Minnesota, nem sua idade ou tamanho faz diferença.  Eles florescem. Alguma corrente de linguagem interna passa entre eles, através do espaço e da separação, de uma maneira que nós não conseguimos explicar em nossa língua. Todos são, de algum modo, uma mesma planta, cada qual compartilhando um conhecimento comunal.



John Hay, em The Immortal Wilderness, escreveu: “Há ocasiões onde você consegue ouvir a linguagem misteriosa da Terra, da água, ou atravessando as árvores, emanando dos musgos, escorrendo pelas correntes subterrâneas do solo, mas você tem que estar disposto a esperar e receber”.

Às vezes eu escuto a natureza falar. A luz do girassol era uma linguagem, mas existem outras mais audíveis. Uma vez, na floresta das sequoias vermelhas, eu ouvi uma batida, algo como um tambor ou um coração vindo do chão, das árvores e do vento. Aquela corrente subterrânea remexeu um tipo de conhecimento dentro de mim, um parentesco e uma saudade, um sonho mal lembrado que desapareceu de volta ao corpo.



Uma outra vez, havia a voz crescente de uma tempestade oceânica que acontecia ao longe no mar, contando sobre o que vivia na distância, sobre a violenta água que iria chegar, onda após onda revelando a agitação no centro.

Hoje à noite eu caminho. Estou olhando o céu. Penso nas pessoas que vieram antes de mim e em como elas sabiam das posições das estrelas no céu, como observaram o movimento do sol por um tempo tão grande a ponto de poder testemunhar como um certo ângulo de luz tocaria uma pedra uma vez ao ano. Sem registros escritos, elas conheciam os deuses de cada noite, dos pequenos e mínimos detalhes do mundo que as cercava e da imensidão acima delas.



Caminhando, eu quase consigo ouvir o pulsar, a vibração das sequoias vermelhas. E os oceanos estão acima de mim aqui, nuvens rolantes, pesadas e escuras, trazendo a neve. Na estrada seca e vermelha, passo pelo lugar do girassol, aquela localidade escura e secreta onde ocorreu a criação. Imagino se ele irá retornar nesse verão, se irá se multiplicar e mudar para outro local numa luta de sobrevivência territorial.

É inverno e há fumaça nas chaminés. As janelas quadradas e iluminadas das casas estão embaçadas. É um mundo de atenção elementar, de todas as coisas trabalhando juntas, ouvindo seus ancestrais. Seja qual for a estrada que eu siga, eu ando pela terra de muitos deuses, e eles amam e comem uns aos outros. Caminhando, estou ouvindo de uma maneira mais profunda. Repentinamente, todos os meus ancestrais estão atrás de mim. Fique quieta, eles dizem. Observe e ouça. Você é o resultado do amor de milhares.
The Walker’s Literary Companion. Edited by Roger Gilbert, Jeffrey Robinson, Anne Wallace. Breakaway Books, 2000. First Edition.