sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

O Arquétipo do Caminho, by Vera Lucia Paes de Almeida

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Encontrei em meus arquivos um texto que li há alguns anos e que gostaria de compartilhar aqui no blog com os leitores que, assim como eu, curtem esse lance de viagem como processo de transformação interior. Tem uma leve pegada acadêmica, mas a Vera Lucia soube transmitir suas ideias de uma maneira muito clara e gostosa de ler, mesmo para quem não está acostumado com as teorias de Jung ou Campbell, autores que brilham nessa área fascinante do conhecimento interior. Para quem não está familiarizado com o tema, sugiro ler no final do post a definição de arquétipo antes de começar a leitura. Boa viagem.

O Arquétipo do Caminho


“Ao meio da jornada da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.” (Dante Alighieri, A Divina Comédia)


O Arquétipo do Caminho, da Jornada, da Peregrinação fala da eterna busca da alma pelo seu centro. Ele se torna consciente quando percebemos que nossas vidas traçam um longo percurso cujo sentido e significado vai se revelando à medida que avançamos na nossa caminhada. Geralmente é por volta da metade da vida que entramos em contato com esse arquétipo. Isso porque já percorremos um bom pedaço da estrada e podemos olhar para trás e avaliar nosso percurso, bem como podemos olhar para frente e ajustar nossos passos rumo a objetivos mais abrangentes e diferenciados.

É o momento ideal para se fazer um “balanço”, uma avaliação de nossa proposta de vida e permitir mudanças revitalizadoras, novos trajetos e pontos de vista.
Aqui vamos falar um pouco sobre quatro aspectos que se relacionam com a vivência desse arquétipo e dos símbolos correlatos.

O Jardim das Delícias. A Expulsão do Paraíso.



Esse é o princípio de tudo: o jardim do Éden, como aparece na tradição judaico-cristã, mas também de inúmeras outras formas análogas em várias culturas. Há sempre um início paradisíaco, uma condição original de abundância, plenitude, felicidade, inocência, onde todos os seres convivem em harmonia e não há escassez, doença e morte. A ideia de um paraíso perdido, uma Idade de Ouro que remonta à origem dos tempos, é um arquétipo universal que revela a nostalgia por uma condição de harmonia que foi perdida e para a qual desejamos retornar.

Efetivamente todos nós já experienciamos uma condição de plenitude no início de nossas vidas, dentro do útero materno: lá onde a temperatura, o alimento, a proteção estavam sempre presentes sem que precisássemos fazer qualquer esforço; lá onde não havia separação, dualidade, angústia ou perdas e estávamos imersos e fundidos na totalidade. No entanto, se quisermos crescer e nos desenvolver chega o momento em que temos que abandonar esse paraíso e como no Gênesis, somos expulsos da nossa inocência ou inconsciência original para que possamos aprender, a desenvolver a consciência e iniciar a jornada.

Esse período inicial é muito importante porque permanece como referência de um estado de harmonia e plenitude que já foi vivido realmente e que portanto pode ser recuperado. Nos momentos mais difíceis e dolorosos essa vivência inicial pode servir como a chamada “luz no fim do túnel” e ser nossa guia rumo à saída para o sol. Porém, se nos recusamos a sair desse paraíso ele rapidamente se transforma e pode nos devorar, impedindo nosso crescimento e desenvolvimento. A “Mãe Amorosa” se revela então como a “Deusa Destruidora”, os animais amigos se transmutam em dragões e monstros ameaçadores. Assim, querendo ou não, somos lançados na outra etapa do caminho.

O Início da Jornada. O Labirinto.



Toda vez que abandonamos uma situação conhecida e cômoda, que, no entanto, já estava esgotada em suas possibilidades de crescimento, é como se saíssemos do regaço materno, da segurança do paraíso para nos perder no caos de um mundo sem referências, a selva tenebrosa de Dante. Esse início de jornada pode ser voluntário ou forçado por uma circunstância adversa que a vida nos proporciona, mas em ambos os casos é sempre um período muito difícil. Não há sinais de orientação, não há estradas retas e bem demarcadas, não sabemos para onde ir, como ir e o que procurar. Temos que ir andando às apalpadelas, tateando, caindo e levantando. É um período perambulação, mas também de grandes possibilidades de evolução. Nos tornamos peregrinos, buscadores e experimentadores e é exatamente esta incerteza que abre espaço para o “novo” surgir.

Caminhar dentro do caos com paciência, persistência e abertura para acertos e erros, faz surgir uma nova luz, uma nova percepção e o labirinto se revela como um caminho espiralado que pode nos levar ao centro, ao tesouro perdido, à harmonia e paz do paraíso. Mas, durante a caminhada no labirinto não sabemos se estamos próximos ou não do centro. O caminho de volta também não é evidente e assim temos que aprender a enfrentar nossos medos e não fugir dos desafios. Isso nos leva à próxima característica simbólica da nossa jornada.

As Tarefas do Percurso. O Herói.


Ao aceitarmos a caminhada e os desafios que ela nos propõe, começamos a vivenciar outro arquétipo que nos ajuda a cumprir nossas tarefas: o arquétipo do herói. Este arquétipo é a vivência do desenvolvimento da nossa força, das nossas habilidades, do nosso saber, das potencialidades ignoradas que vão se aprimorando à medida que enfrentamos nossos monstros interiores.

É preciso muita coragem para entrar no labirinto e se perder antes de poder se encontrar. No entanto, esta não é a prova mais difícil. Depois de termos vencido nossos medos, fragilidades e limitações e termos cumprido com as tarefas que a vida nos propõe, começa outra etapa que é o aprendizado da humildade. Temos que reconhecer que mesmo sendo heroico, o ego está subordinado a um princípio maior, e que só a conexão com este princípio pode proporcionar sentido e significado a todas as conquistas obtidas. O herói não pode ficar preso na armadilha da sua própria habilidade e força em vencer os dragões, ele deve vencer também a sua vaidade e prosseguir a caminhada rumo ao centro. Para isso ele tem que reconhecer que sua força provém exatamente desse centro. Esse reconhecimento permite que o arquétipo do herói se transmute no arquétipo do Sábio e é essa vivência de sabedoria que finalmente nos leva de volta à casa, ao paraíso perdido.

O Retorno ao Centro.



Estar no centro é a vivência de recuperação da harmonia, da paz e do equilíbrio perdido. É a volta a casa, à experiência de plenitude original só que agora não mais vivida inconscientemente como no início. Agora a experiência é produto de uma busca consciente e voluntária.

A caminhada no labirinto se transforma em “circum-ambulação”, ou seja, caminhamos agora em torno do centro, de onde emana nossa força e alento. Estamos novamente próximos da fonte original de inesgotável abundância, felicidade, amor, beleza e sabedoria. Quando o ego e o Self se encontram há uma intersecção do mundo visível com o invisível, um casamento do Céu com a Terra, do sagrado com o profano e abre-se a porta para transformações profundas que vão além da compreensão intelectual. A personalidade se amplia para receber a vivência do numinoso e finalmente exercer sua totalidade.



Depois de conseguirmos chegar ao centro e sermos abençoados com essa vivência temos que retornar à vida cotidiana e compartilhar o que recebemos, compartilhar o tesouro encontrado. Só assim se completa o círculo da jornada que temos que percorrer infinitas vezes durante a vida. O arquétipo do caminho se revela enfim como uma pulsação em torno do centro, em um ir e voltar, um achar e perder o rumo, em idas e vindas constantes que vão tecendo um desenho com mil cores e formas, que se desmancham e voltam a se formar, como as belas mandalas de areia tibetanas.

E assim como as mandalas nos ensinam, também o nosso caminhar nos revela que o essencial está sempre presente e está além de todos os caminhos. Ele engloba tudo: o paraíso inicial, o labirinto das ilusões, as lutas do herói, a chegada ao centro e se faz presente em todos os grandes e pequenos momentos, a cada gesto e curva do caminho.

“A senda é a companheira que desposei.
Ela me fala debaixo de meus pés o dia todo,
e a noite inteira canta para os meus sonhos.
O meu encontro com ela não teve início.
Ele começa infinitamente ao raiar de cada dia,
renovando o seu verão em novas flores e canções,
e cada novo beijo dela é o seu primeiro beijo para mim.
A senda e eu somos amantes.
A cada noite eu troco de veste por sua causa,
e a cada amanhecer eu deixo nas pousadas do caminho
o estorvo dos velhos farrapos.”
(R. Tagore, Presente de Amante e Travessia)
Nota: Arquétipo é descrito pelo psicólogo Carl Gustav Jung como um conjunto de imagens psíquicas presentes no inconsciente coletivo que seria a parte mais profunda do inconsciente humano. Os arquétipos são herdados geneticamente dos ancestrais de um grupo de civilização, etnia ou povo. Os arquétipos não são memórias coesas e "palpáveis" no contexto ou definição clássica de memória, mas são o conjunto de informações inconscientes que motivam o ser humano a acreditar ou dar crédito a determinados tipos de comportamento. Os arquétipos correspondem ao conjunto de crenças e valores comportamentais básicos do ser humano e podem se manifestar nas crenças religiosas, mitológicas ou no comportamento inconsciente do indivíduo.

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