sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sobre lares e pedras, fragmentos by Isabel Huggan

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Faz pouco tempo, li uma obra que me agradou muito pela maneira simples com a qual a escritora, Isabel Huggan, relata suas viagens e experiências de vida fora do Canadá, seu país de origem. Casada com um homem cujo trabalho o obrigava a viajar muito, Isabel partiu do Canadá, já na meia idade, para viver em lugares marcantes como a Tanzânia, as Filipinas, o Quênia e o sul da França, onde acabou estabelecendo moradia definitiva- com a condição de poder voltar, uma vez ao ano, à sua terra natal para visitar amigos e familiares.

A narrativa da autora canadense explora algo que aprecio bastante nos relatos de viagem que costumo ler e indicar: as relações humanas e uma atitude de reverência à cultura alheia, conduta esperada de todo bom viajante.


Dois momentos me chamaram a atenção durante a leitura de Belonging: home away from home (algo como Pertencimento: lar distante do lar). É justamente no título da obra que aparece o questionamento mais interessante de Isabel sobre suas viagens e o fato de viver em países longes e ao mesmo tempo tão diferentes de sua origem: o que é o lar, aquilo que chamamos de nossa casa, nosso lugar?

Seus questionamentos, que abrem a leitura, começaram quando ela parou para refletir que na língua francesa não existe um vocábulo que expresse o sentido da palavra lar, como o home do inglês, sua língua nativa. Fácil de entender, o mesmo acontece na nossa língua portuguesa, basta pensar nas palavras “casa” e “lar”, cujos significados parecem iguais dependendo do contexto em que são usados, mas que diferem bastante num sentido mais amplo.

A questão que ela levanta em suas memórias- disfarçadas em relatos de viagem- é que nunca sabe como se expressar quando quer dizer a alguém, na França, que no final do ano irá visitar sua casa (going home), quando na verdade sua casa é na França. É que em francês, o sentido de lar- daí o termo pertencimento que aparece no título da obra, inexiste, de modo que maison ou chez não conseguem traduzir com fidelidade a ideia de lar, porque são palavras que definem uma localidade física, isentas de significados emocionais agregados à ideia de lar.

A palavra lar tem uma origem muito bacana: os lares eram os nomes dos deuses romanos que protegiam as casas, por extensão as famílias; no latim, lare é a parte da casa onde se acende o fogo, daí o termo lareira. Portanto, o lar é um lugar ao qual pertencemos, onde reunimos nossa família e onde construímos nossa identidade.


A autora trabalha essa ideia na seguinte passagem:

Durante os anos passados fora do Canadá, eu vivi de acordo com algo que li numa entrevista com o cirurgião Chris Giannou: “O lar não é uma entidade física, geográfica. O lar é um estado moral. O verdadeiro lar são as amizades de cada um. Gosto de pensar nisso como uma forma elevada de organização social diferente do estado nação.”

Com meus pais falecidos e sem ter uma casa para a qual pudesse voltar ao Canadá, essa visão me deu muito conforto pelos anos que passei expatriada no exterior, pelo que mantive em mente a ideia de que eu e meu marido estávamos “somente vivendo de aluguel temporariamente” por causa do seu trabalho, e que meu verdadeiro lar estava em qualquer lugar, invisível mas estável – e permanente.


Em outro momento interessante da leitura, Isabel descreve aquela sensação estranha de despertarmos numa cama sem saber onde estamos ou como chegamos ali, tipo de acontecimento comum que muitos viajantes e imigrantes sentem por um período de tempo, quando a cabeça ainda não acompanha os compassos do coração; é um estar em casa sem de fato sentir-se em casa.

Às vezes acordo de manhã cedinho antes de clarear e naquele silêncio noturno me pego pensando: como foi que cheguei até aqui? Mas não há nada de misterioso, a razão é bem mundana – não é a vontade de Deus, mas o desejo de um escocês com o qual tenho estado casada desde 1970.

A primeira vez que nós viemos caminhar por essas montanhas, há mais de dez anos quando ainda vivíamos em Montpellier, ele disse, abruptamente, que sabia que seu lar estava ali na região montanhosa de Cévennes. Sua experiência foi intensa, afetando-o de uma maneira profundamente atávica que só pude compreender mais tarde, quando senti a mesma sensação magnética e um impulso quase hormonal no momento em que pus os pés na Tasmânia e soube que havia encontrado o meu lar.


Quando isso acontece, esse reconhecimento carnal de uma paisagem, tem-se a mesma sensação de se apaixonar sem saber o porquê, e esse sentimento irracional e inexplicável torna tudo muito mais intenso... a sensação do ar, a configuração da terra, a cor e o formato do horizonte, quem vai saber? Há lugares no planeta aos quais pertencemos e eles não ficam necessariamente no local onde nascemos.

Se tivermos sorte, se os deuses estiverem de bom humor, nós os encontraremos, pelo tempo que for necessário para descobrirmos que, sim, nós pertencemos ao lugar e ele a nós. Mesmo que nós não possamos articular essa intensa sensação física, mesmo que a língua seja um empecilho, nós sabemos e sentimos em nossa carne que ali é o nosso lar.

Colecionando pedras


Recolho a seguir um fragmento da obra de Isabel que trata de um tema muito caro àqueles que viajam com frequência: a mania de trazer souvenires ou itens colecionáveis de cada lugar que se visita. Há quem colecione colherinhas, chaveiros, miniaturas, bibelôs de bichinhos que vão de sapos a elefantes, de fadas a unicórnios e tudo o que a imaginação e a loucura de cada um permitir.

Confesso que tive algumas manias do tipo, de selos a folhas secas, marcadores de livros a moedas, de conchas a caleidoscópios (esses ainda teimo em colecionar) e outras inutilidades parecidas. A pior certamente foi a de trazer pedras de todos os cantos pelos quais passava, às vezes dois quilos de pedras na mochila, algo que só não me parece insano hoje porque realmente sou apaixonado por elas, desde muito pequeno, talvez pelo sonho não realizado de um dia me tornar arqueólogo. Nossas frustrações sempre hão de aparecer em algum lugar, disso ninguém foge.


Com o tempo vamos aprendendo a trabalhar o desapego das coisas materiais, seja por uma questão interior, de cunho espiritual, ou por uma questão prática mesmo, que envolve a falta de espaço, o tempo desperdiçado para organizar as tralhas e por aí vai.

Diz a Isabel que desde pequenina tinha paixão por pedras, que ela chamava de fósseis, e que se lembra de caminhar pela praia colhendo pequenas rochas com seu pai, que a ensinou a “enxergar as pedras no mundo e o mundo nas pedras”. Com o tempo, a coleção cresceu consideravelmente até que um dia foram descartadas. Mas, diz ela, “eu ainda coleciono pedras e conchas, porque parece que não sou eu mesma até que tenha alguns pedacinhos do planeta ao alcance de minhas mãos”.


Diz que ganhou de um amigo de seu pai, ainda na infância, uma pirita, aquele minério de ferro dourado, muito bonito, também conhecido como “ouro de tolo”. Faz uma divagação interessante, dizendo que certa feita, ao segurar o pequeno minério em suas mãos, se pegou pensando se ela própria às vezes não fazia papel de tola ao se deixar encantar pelos “brilhos” que a vida oferece.   Quantos de nós também nos deixamos iludir?

Apesar de detestar a pirita, Isabel a mantém guardada por mais de cinquenta anos, sem entender direito por que nunca a descartou mesmo tendo mudado tanto de casa todos esses anos. Talvez a explicação se encontre no que escreveu a seguir:

Algo acontece com os objetos que guardamos, mesmo com aqueles que não amamos. Eles adquirem uma pátina de legitimidade, uma dignidade conquistada pela longevidade que se torna impensável jogá-los fora. Além disso, eu sei que se tivesse me livrado da pirita ela ficaria brilhando lá no lixo, radiante, me atormentando como um elemento cósmico, tal como nas histórias de HQ, até que eu obedientemente fosse lá buscá-la  de volta junto a mim.


Qual o significado dessa pedra, desse ouro de tolo? Bem, acredito que quando eu souber a resposta, ela se permitirá perder. Há alguma lição guardada para mim nesse pequeno pedaço de metal e enquanto eu necessitar dessa lição, devo manter essa coisa comigo.

Pedras, conchas, lembrancinhas, tudo isso desordena as superfícies das casas por onde passo a viver; minha escrivaninha está lotada de tigelas chinesas, latas esmaltadas, caixinhas de madeira e cestinhos de palha, louça antiga, vidros coloridos e cartões telefônicos. Como posso justificar essa bagunça?


Em seu ensaio “A moral das coisas”, Bruce Chatwin escreveu que “os objetos têm um jeito de se insinuarem nas vidas humanas; algumas pessoas atraem mais coisas do que outras, mas nenhuma pessoa, por mais desprendida que for, é totalmente desapegada das coisas. Um chimpanzé usa varas e pedras como ferramentas, mas ele não mantém posses. O homem sim. E as coisas pelas quais ele mais se mantém apegado não servem a nenhuma função. Ao contrário, elas são símbolos, ou âncoras emocionais. A questão que eu gostaria de levantar (sem a necessidade de se obter uma resposta) é: Por que os verdadeiros tesouros do homem são inúteis”?

Uma pena que Bruce tenha falecido, porque eu teria respondido sua pergunta com outra: quem pode dizer o que é “útil” ou não? Eu considero essas coisas ao meu redor úteis – os complexos motores da memória, feito máquinas poderosas. Uma pedra parece ser apenas uma pedra, mas dentro dela se encontra uma energia pulsante: não é uma âncora, mas uma embarcação.


Eu fico com o Bruce, e acho que a Isabel não absorveu direito o que leu, porque está claro quando ele afirma que as coisas atuam num plano simbólico e em assim sendo as coisas que guardamos são como muletas que usamos para ajudar na caminhada. No caso da autora canadense, a pedra a que ela se refere é sim um objeto inútil- mas inútil num sentido prático. É isso o que Chatwin quis dizer.

Acredito que quando trazemos algo na volta ao lar, seja um galho seco, uma concha, pedras ou as lembrancinhas comuns made in China das lojinhas de souvenires, o que estamos de fato fazendo, de maneira intuitiva, é materializar um momento de felicidade em um objeto que manteremos por um tempo à nossa vista, como lembrança/recordação dos dias felizes ou especiais que ficaram para trás. E o engraçado é que a maioria deixa de ter significado algum tempo depois, e o que era um objeto estimado passa a ser um elemento kitsch, até vergonhoso, que precisará ser descartado na primeira oportunidade.


Vejo a mesma coisa acontecendo com as fotografias, quando voltamos de viagem com mais de mil fotos na máquina... será mesmo que precisamos de tantas provas daquilo que vivemos? Me pergunto onde estava o foco da pessoa enquanto clicava sem parar o bonito cenário que a cercava. Na máquina?

Minha pedra filosofal (fragmento final)


Alguns objetos sempre levo comigo num saquinho azul que carrego quando viajo. Eles também podem existir na mente da deusa que determina onde e como as estórias nascem: uma semente escarlate seca, um pequeno canivete, um caco de cerâmica cretense, dois dentes de bebês, e um chaveiro atado à uma caixinha de música pequenina que tilinta os primeiros acordes de “Für Elise”. Meu pai a comprou para minha mãe em Beijing, um ano antes de seu falecimento. Também levo uma sodalita polida, tão azul quanto um lápis lázuli, que foi colocada em minha mão Há muitos anos por um professor de filosofia que amei até a sua morte. Eu ainda o amo, ele ainda visita meus sonhos. Minha pedra filosofal. Minhas estórias.
Isabel Huggan




Belonging: home away from home. Isabel Huggan. Alfred A. Knopf. Publisher. Canada, 2003. 

2 comentários :

  1. Césare, como de costume, muito bom texto!
    No meu caso são os ímãs de geladeira. Pequenos momentos congelados do lado de fora do verdadeiro congelador.
    abraço,
    Fernando

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    1. Gostei do comentário poético, 3F! Realmente, ímãs de geladeira são uma tentação, hahaha. AbraçOM!

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