terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sacudir a vida, by Cristovão Tezza


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Folheando a revista Viagem e Turismo, edição de dezembro de 2013, encontrei um artigo assinado por Cristovão Tezza, escritor bastante premiado e, como ele mesmo escreve no artigo que você lerá, muito viajado. Nesse texto, em que temos a sensação de estarmos presente, ouvindo o próprio escritor divagando sobre a experiência da viagem, algumas sacadas são muito bem vindas - quando achamos que já lemos de tudo e um pouco mais sobre o ato de viajar, ainda que não haja nada de errado com isso: faz parte da natureza humana contar e recontar suas histórias, dar novas roupagens às figuras míticas que auxiliam o ser humano a se compreender melhor em sua jornada mundo afora.

Para mim o autor conseguiu, de maneira muito simples e sem qualquer afetação, escrever sobre as grandes viagens de sua vida e demonstrar como elas foram importantes para transformar um rapaz sonhador em um dos grandes nomes da literatura brasileira. Leitura que vale a pena e que nos faz querer conhecer um pouco mais a obra de Cristovão Tezza. Namastê!
 

Durante milhares de anos, desde que o advento da agricultura fixou o homem à terra, a esmagadora maioria das pessoas passava a vida inteira no lugar em que nasceu – para elas, o mundo real tinha poucos quilômetros de diâmetro. A simples ideia de “viajar” carregava-se de magia poética; não por acaso, a grande literatura surgiu com narrativa de viagens, como a Odisseia, de Homero, e durante séculos as viagens mantiveram sua aura fantástica e maravilhosa.

Só pessoas corajosas e excepcionas viajavam. Na Renascença, com o surgimento do livro impresso, os relatos de viagens eram best-sellers, seguindo a trilha inesgotável das histórias de Marco Polo, o italiano que foi à China e, diz a lenda, trouxe o macarrão de lá. E nos últimos 500 anos, com o comércio se globalizando, a intensa urbanização do mundo e o avanço da ciência e dos meios de transporte, inverteu-se a equação – hoje parece que o normal, o desejável, e até obrigatório, é “viajar”.



Como estímulo irresistível, a última grande revolução tecnológica do mundo inteiro simultâneo, em que o tempo e espaço finalmente são uma coisa só. Para o internauta de hoje – que, como o camponês de 5 mil anos atrás, pode passar a vida inteira no mesmo lugar, agora diante de um monitor -, não há mais mistério na Terra. Basta clicar no Google Earth e rodar o mundo.

Mas, por mais digital que tenha se tornado nossa vida, viajar continua sendo uma atividade essencialmente “analógica” – é preciso ver o mundo, fisicamente, de outro ponto de vista. Viagens mexem com tudo: transformam a cabeça, quebram convenções, relativizam hábitos, abrem caminhos. E, mesmo sob as condições extremamente seguras das viagens de hoje, resta sempre nelas uma margem de risco, um certo deslocamento da “zona de conforto” do nosso dia a dia, que é justamente o charme de sair da toca.



É verdade que cada fase da vida tem as suas viagens. A expectativa de um jovem de 18 anos que vai passar dois meses estudando na Inglaterra não é a mesma de um casal de turistas cinquentões rodando a Itália dentro de um ônibus, que por sua vez é substancialmente diversa da do aventureiro visitando o Nepal com uma mochila nas costas, ou de um adolescente visitando a Disneylândia - os exemplos são infinitos. O que há em comum em todos esses casos? Talvez o simples e secreto desejo de mudar.

Olho para a minha própria vida e vejo como fui transformado pelas viagens, desde a primeira delas, esta sem escolha – criança, após a morte de meu pai, saí de Lages, no interior de Santa Catarina, e vim para Curitiba com a mãe e os irmãos num caminhão de mudança. A primeira estranheza foi curiosamente linguística – em Curitiba chamavam “picolé” de “dolé” (palavra hoje desaparecida) e “salsicha” de “vina”. Eram os anos 60, quando o Brasil inteiro queria viajar, ou de Fusca ou de Varig – e foram anos de mudanças radicais em todo o mundo. Desde logo eu quis ser escritor, e meu primeiro mandamento foi, justamente, o imperativo de viajar.


Naquele tempo, esse projeto vinculava-se tanto à ideia de rompimento quanto de aventura; havia uma mistura de Che Guevara com Marco Polo na cabeça de cada jovem. Sob a ditadura militar, toda uma geração de brasileiros em diáspora passou a ver o Brasil criticamente de longe.

Num primeiro momento, tentei ser piloto da Marinha Mercante, no sonho romântico de rodar o mundo escrevendo livros, mas fugi da escola, que era pesada, e me engajei num grupo de teatro popular. Uma lembrança forte de 1972 foi viajar desde Caruaru, onde participei de um festival, até Curitiba, pedindo caronas com o dedão na estrada – com direito a passar uma noite dormindo ao relento nas areias de Itapuã, em Salvador, seguindo o roteiro de Vinicius de Moraes. Era um Brasil ainda inocente, em que ainda se podia pedir ou dar carona.


Em seguida, desembarquei em Portugal apenas com a passagem de ida e US$ 200 no bolso – outro sinal da inocência do mundo. Aqueles 14 meses sobrevivendo na Europa foram marcantes na minha vida. Lembro de uma viagem maravilhosa de trem, de Coimbra a Frankfurt. Não era nenhum turismo – fui para lavar pratos e esfregar chão com imigrantes ilegais, de modo a juntar um bom dinheiro -, mas, aos 22 anos, que diferença isso faz?

De novo no Brasil, outra viagem radical: um ano vivendo no Acre, em 1977, já casado e, enfim, entrando na universidade. No ano seguinte, retornei a Curitiba, e as viagens prosseguiram – mas agora, professor estável durante duas décadas, eram mais seguras e planejadas, algumas profissionais, outras estritamente turísticas, o que também passou a ter sua graça.


A idade avança, e mudam-se exigências e escolhas. Hoje gosto especialmente de provar cervejas estrangeiras e visitar museus – um dia sozinho num bom museu, sem pressa nem horário, é um prazer para mim, e sempre um descanso dentro de uma viagem mais longa.

De repente, me bateu de novo o sonho de mudar, como se eu voltasse num rompante aos anos 60, e me demiti da universidade – agora, finalmente, vivo apenas de escrever. O que está mais uma vez me colocando na estrada, como um caixeiro-viajante. Fui me tornando um “turista acidental”, especialista em malas pequenas, previsão meteorológica, espera em aeroporto, placas indicativas e carregadores elétricos – e aderi ao livro digital, que é perfeito para viagens.


E não contem para ninguém, mas sou aquele chato que está sempre com uma boa máquina fotográfica, colecionando fotos e retratos de toda parte (mas que jamais vão ao Facebook). Fotografar em viagens tornou-se um prazer especial, que me obriga a ver onde estou, e é sempre uma boa companhia para caminhar por ruas desconhecidas em terra estranha.


Site do Tezza: cristovaotezza.com.br  

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