quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A Viagem, símbolo da iniciação, by Luis Pellegrini.

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Arrumando meus arquivos outro dia, encontrei uma pasta com dezenas de artigos de revistas que guardo como fonte de pesquisa, algo meio antiquado para os dias de hoje, quando se pode encontrar (quase) tudo navegando pela internet; o fato é que ainda costumo recortar matérias de jornais e revistas, arquivando tudo em pastas pretas, aquelas com plásticos, que facilitam a leitura e a busca de algum artigo quando necessário, cada pasta com seu tema específico.

Nessa arrumação puxei da estante uma destas pastas cuja etiqueta, escrita à mão, indica que o material ali guardado trata da temática das “viagens iniciáticas”; nem me lembrava que um dia havia colecionado artigos a esse respeito – e muito menos que o tema tivesse assim tanta repercussão, pelo que me surpreendi ao começar a ler o material colecionado ao longo de mais de duas décadas, em sua maioria artigos de revistas de temática esotérica, como a Revista Planeta, a Sexto Sentido, as extintas Ano Zero e Via Luz, as espanholas Año Cero e Más Allá,  entre outras de menor repercussão.

Dos textos que encontrei, o que mais me agradou, para variar, foi escrito pelo Luis Pellegrini, que já apareceu um par de vezes aqui no Odepórica (links para os posts no final) e que sempre que pousa a caneta no papel produz coisa boa, gostosa de ler. Veja só o seu estilo, de um pequenino texto retirado do seu blog em que ele fala sobre Viagens:

"Viagens são oportunidades de iniciação. Essa é a sua magia. Até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: de que seja feito com a consciência desperta, com os sentidos ligados e o coração limpo como o coração das crianças. Quando nos acostumamos a viajar desse modo, a vida, mesmo em seus episódios mais banais, transforma-se numa permanente e excitante viagem. E cada um de nós, num peregrino da existência."

Bacana, não? Os textos do luis são sempre assim, instigam a leitura, fazem refletir, apontam caminhos... o que é bem a cara da Revista Planeta, que era a cara do Pellegrini quando ele andava por lá... Enfim, achei que o texto que você lerá a seguir não merecia ficar guardado numa pasta que logo irá acabar numa caçamba de lixo reciclado. Coisas boas sempre devem permanecer - ainda que seja apenas num ambiente virtual. Namastê!
A Viagem, símbolo da iniciação


A profusão de viagens aos lugares estranhos e remotos do planeta foi um dos aspectos da vida de Helena Blavatsky que mais chamaram minha atenção quando pesquisava os escritos de seus diversos biógrafos para produzir o ensaio biográfico Madame Blavatsky, que publiquei em 1986. A partir de 1849, e por mais de duas décadas, a existência da fundadora do movimento teosófico mundial – e uma das mais importantes figuras da renascença ocultista que marcou a segunda metade do século 19 – foi um verdadeiro carrossel de viagens, uma contínua peregrinação ao redor do mundo. Visitou os principais sítios arqueológicos dos vários continentes, inúmeras comunidades de povos primitivos, com os quais estudou técnicas de magia natural e de medicina, museus, escolas, mosteiros e templos das mais diferentes religiões.

A vida de Blavatsky, nesse sentido, é análoga à de muitos místicos e ocultistas célebres. É uma constante em quase todos eles essa gana de viagens e de frequentes mudanças de um lugar para outro. Qual seria o motivo que leva tais seres a dedicar grande parte das próprias vidas a essas exaustivas peregrinações? Essa característica, por um lado, está certamente relacionada a uma particular inquietude de alma que distingue tais pessoas dos seres comuns. Por outro lado, é axioma bem conhecidos no ocultismo que um conhecimento puramente teórico da vida e das leis e fenômenos ocultos seja insuficiente. O conhecimento absorvido exclusivamente a partir da leitura de livros, por exemplo, é considerado não apenas insuficiente mas inclusive nefasto.


Mais que qualquer outro estudante, quem se dispõe a trilhar os caminhos do ocultismo deve estar disposto a vivenciar na prática tudo aquilo que aprende através do intelecto. Assim, é fácil entender que viajar a lugares desconhecidos, pelo fato de tirar o indivíduo do seu cotidiano habitual, obrigando-o a estar mais desperto e atento, representa por si só a chance de pôr em prática sua capacidade de adaptar-se a situações novas.

Adaptação, em qualquer escola iniciática que se preze, é sinônimo de inteligência. Sem o desenvolvimento da capacidade de adaptação em todos os sentidos não se vai longe no caminho do crescimento pessoal e do autoconhecimento, que são, afinal, a proposta essencial de todas as escolas, sejam orientais ou ocidentais.


Mas à parte esse seu aspecto prático de permitir que o estudioso viva no plano concreto aquilo que aprendeu na teoria, terá a viagem, em si mesma, um sentido iniciático e transcendental? Será a viagem um ato sagrado? Na época atual do turismo de massa, em que se desenvolve inclusive uma nova área científica chamada sociologia do turismo, será ainda possível individuar o valor simbólico e sagrado que leva a pessoa a viajar, a mover-se irresistivelmente em direção a uma meta?

O simbolismo da viagem, num enfoque tanto esotérico quanto psicológico, representa a procura e a descoberta de um centro espiritual. A viagem exprime um desejo profundo de mudança interior projetado no desejo da viagem exterior. Representa a necessidade de experiências novas, mais que um simples deslocamento físico. Por isso, o psicólogo suíço Carl Jung, ao referir-se ao simbolismo da viagem, disse que ela “indica uma insatisfação que leva à busca e à descoberta de novos horizontes”.


Chevalier e Gheerbrant, em seu Dicionário de Símbolos, explicam que em todas as literaturas a viagem simboliza uma aventura e uma procura, quer se trate de um tesouro ou de um simples conhecimento, concreto ou espiritual. “Mas essa procura”, frisam os autores, “no fundo não passa de uma busca e, na maioria dos casos, fuga de si mesmo”, citando como exemplo célebres viagens literárias como a de Ulisses na Odisséia, Enéas na Eneida, a Divina Comédia de Dante, Pantagruel de Rabelais, Gulliver de Swift, ou os contemporâneos On the Road de Jack Kerouac e vários textos de Ernest Hemingway.

Cirlot, autor de outro importante Dicionário de Símbolos, diz que “do ponto de vista espiritual, a viagem nunca é a mera translação no espaço, mas sim a tensão da busca e da mudança determinada pelo movimento e pela experiência que deriva do mesmo”. Em consequência, estudar, pesquisar, procurar intensamente o novo e profundo são modalidades de viajar, ou seja, equivalentes espirituais e simbólicos da viagem.


Viagem, portanto, é transformação pelo movimento. E todo movimento busca, consciente ou inconscientemente, o centro. Giuseppe Tucci, um dos maiores orientalistas e exploradores da Ásia deste século, já no fim da vida revelou a um grupo de alpinistas alguma coisa de importante e exemplar sobre o verdadeiro sentido das viagens dos grandes exploradores. Tucci falava com conhecimento de causa, pois, além de ser um grande aventureiro das viagens, conhecera praticamente todos os exploradores importantes deste século. Todos, segundo ele, cultivaram secretamente, e durante muito tempo, a esperança de descobrir, um dia, para além de qualquer passo esquecido, um vale desconhecido e risonho, habitado por gente que permanecera por séculos isolada do resto da humanidade. O mito do reino perdido de Shangri-lá – um dos mais poderosos e duradouros símbolos do reino interno ou espiritual – teve, portanto, cultores ilustres e insuspeitáveis. Mas daquilo que um pensador convencionalmente racionalista poderia considerar uma simples fraqueza, Tucci não ria: “Só quem caminhou semanas entre montanhas desertas pode entender. O desejo de conhecer o que se esconde por trás da última montanha torna-se obsessivo... Uma espécie de miragem que seduz ao mesmo tempo a razão e a fantasia”.


Partir para o desconhecido pode ser assustador. Mas para quem tem na alma a inquietude do viajante, o desejo da descoberta supera o medo e instiga a caminhada no espaço e no tempo, em direção ao centro.

“Os verdadeiros viajante são aqueles que partem por partir”, disse o poeta Baudelaire, definindo de modo exemplar a figura do peregrino. Os peregrinos de todos os tempos e lugares constituem um tipo especial de romeiros que aparentemente viajam para atingir lugares que se encontram do outro lado – os santuários, templos, cidades e montanhas sagradas. Na verdade, o que atrai o peregrino é a qualidade especial das experiências que em tais ambientes excepcionais é possível viver.


A viagem como experiência sagrada e iniciática, portanto, acontece em todo o seu percurso, e não apenas no seu ponto de chegada. O maravilhoso, o totalmente diverso que distingue aquilo que é sagrado, manifesta-se no tempo liberado do trabalho e dos empenhos cotidianos. Não porque o trabalho e as tarefas cotidianas não possam ser também sagrados e iniciático; mas porque – infelizmente – tendemos a desempenhá-los num estado de automatismo e de semiconsciência, e a iniciação verdadeira só ocorre à luz da consciência bem desperta.

Na viagem do peregrino, o nome, a língua, os hábitos mudam. As amizades ficam interrompidas; o viajante fica “só no mundo”. Começa assim aquele processo simbólico de regeneração psicológica e espiritual concedido aos viajantes mais felizes – aqueles movidos pelo fogo fantástico e espiritual da peregrinação. Todo peregrino com conhecimento de causa sabe que a ânsia de chegar a algum lugar compromete a viagem de valor iniciático. As verdadeiras experiências que enriquecem e ampliam os níveis da consciência individual costumam ocorrer durante e ao longo do percurso.


A chegada ao lugar de destino pode ser só um coroamento, e nem sempre é a coisa mais importante na viagem de peregrinação. Mas se partirmos depositando toda nossa expectativa nas gratificações que nos esperam ao atingirmos o alvo final, estaremos desatentos e perderemos a miríade de pequenas e grandes vivências que nos aguardam perfiladas à beira da estrada.

A importância objetiva e subjetiva das viagens nos assim chamados processos iniciático foi sempre amplamente reconhecida pelas escolas de sabedoria do passado e do presente, tanto do Oriente quanto do Ocidente. Algumas escolas, como a seita sufi dos Kalenderi, da Turquia, impõem a seus membros que viajem continuamente. Como de modo geral para as demais correntes do sufismo, considera-se que a fixação do iniciante em hábitos repetitivos e cotidianos constitui um nocivo fator de “adormecimento” que atrapalha e até impede o processo do “despertar”.


Viagens súbitas, inesperadas, e às vezes temerárias, nas quais o iniciante vê-se subitamente atirado, costumam fazer parte de uma série de provas preparatórias para as etapas mais avançadas e de iniciação preconizadas por escolas que vão dos mistérios gregos às sociedades secretas sufis e chinesas, chegando até as modernas maçonaria e teosofia.

Na verdade, a viagem iniciática só se realiza no interior do próprio ser. Estimula-se a viagem exterior pelo simples fato de que, pelo menos nas etapas iniciais dos processos de iniciação, é muito mais fácil ver, experimentar e compreender no mundo objetivo de fora aquilo que na realidade está ocorrendo no mundo ainda subjetivo de dentro. Nesse sentido, as escolas tradicionais de sabedoria aproximam-se notavelmente da moderna psicologia, em especial a de linha junguiana, que defende a ideia de que, para a psique, tanto faz se a experiência acontece no plano da realidade concreta (objetivamente) ou no da fantasia e da imaginação (subjetivamente). Nos dois casos, o resultado final como vivência do fato psicológico é o mesmo.


René Guénon, por exemplo, diz que as provas iniciática tomam com frequência a forma de “viagens simbólicas”, representando uma busca que vai das trevas do mundo profano (ou do inconsciente, da “mãe”) à luz (a consciência desperta). As provas e as etapas da viagem constituem ritos de purificação.

A viagem simbólica é, outras vezes, e com frequência, feita após a morte, como no caso dos Livros dos Mortos egípcio e tibetano. Ambos tratam de uma progressão da alma em estados que prolongam os da manifestação humana, o objetivo supra-humano (a fusão com o centro) ainda não tendo sido alcançado. Jung estudou a fundo a simbologia psicológica contida no multissecular Livro dos Mortos tibetano e chegou a conclusões surpreendentes: as experiências que a alma humana vive no mundo além da morte, e que são descritas na obra, correspondem simbolicamente às diferentes etapas de maturação psicológica pelas quais o indivíduo tem de passar no seu processo de individuação.


E os turistas que partem em férias, os viajantes de fim de semana cujo objetivo declarado resume-se à vontade de respirar ar puro ou tomar um simples banho de mar, estarão também cumprindo, sem o saber, algum secreto rito de transformação e de crescimento interior pelo movimento? Sem dúvida. O desejo do movimento está sempre associado à dinâmica da vida, assim como a inação se associa à rigidez da morte.


Todo movimento, em última análise, é uma viagem. E, nesse sentido, até um simples passeio ao redor do quarteirão pode ser enriquecedor. Com uma condição: que ele seja feito com a consciência desperta. Com os cinco sentidos inteiramente ligados, e acoplados àquela capacidade intrínseca da consciência que é a observação. Quando alguém se acostuma a “viajar” desse modo, a própria vida se transforma numa permanente e excitante viagem, e cada um de nós em peregrinos da existência.
Fonte: Revista Planeta, edição de Fevereiro de 1992.

Acesse o blog do Luis Pellegrini aqui!
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7 comentários :

  1. desregrar-se

    só se encontra
    quem se perde
    (tantos são
    os caminhos tortos)

    andar na linha
    qual um trem
    é saber aonde ir

    mas também
    correr o risco
    de só andar
    preso ao chão

    e para sempre
    levar consigo
    uma aflição
    permanente
    da possibilidade
    de descarrilar-se.

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  2. Beleza pura, Ulisses! Obrigado por compartilhar!

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  3. Obrigada, p.cesare, pelo post altamente inspirador!

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  4. seus textos são sempre muito bons. inspiradores. boas referências. citações sabiamente colocadas. grande abraço

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