sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre o silêncio e a solidão e um poema: El cielo dentro de mí, por Atahualpa Yupanqui y Pablo del Cerro

.


Tenho verdadeiro fascínio por textos que tratam dos temas que envolvem o silêncio e a solidão e já disse aqui uma vez que sou apaixonado pela história e lições dos padres do deserto, cenobitas embriagados de Deus que buscaram no silêncio e na solidão o caminho para a comunhão divina.

 Diz Ramakrishna (na obra Liberte-se do passado, Ed Cultrix) que

“Ter silêncio e espaço interiores é muito importante, porque implica liberdade para existir, mover-se, atuar, voar. Afinal de contas, a bondade só pode florescer onde há espaço, assim como a virtude só pode medrar quando há liberdade. Podemos ter liberdade política, mas, interiormente, não somos livres e, por conseguinte, não há espaço. Nenhuma virtude, nenhuma qualidade valiosa, pode funcionar ou medrar sem esse vasto espaço interior. E o espaço e o silêncio são necessários, pois apenas a mente que está só, livre de influências, de disciplinas, do controle de uma infinita variedade de experiências, é capaz de encontrar-se com algo totalmente novo.”

Partindo desse princípio, tão bem colocado por Ramakrishna, busco sempre ler e reler as obras de autores que sabem valorizar a importância desses momentos de silêncio e solidão; de Paul Brunton a Kerouac, de Fernando Pessoa a Paul Bowles, de Hermann Hesse a Hemingway todos eles em maior ou menor grau souberam da importância de se estar só, talvez pelo simples motivo de que tanto a solidão quanto o silêncio fazem parte da aventura do escrever.

Mas acompanhando de perto esses mestres, sei que não era só isso. Todos eles adoravam longas caminhadas, viagens sem pressa de voltar, e o reconfortante contato com a natureza para repor as energias. As viagens, assim como as longas caminhadas, se mostram muito úteis nesse processo transformador e revelador que nos faz enxergar a vida sob novas e diferentes perspectivas e possibilidades.

Hoje eu compartilho com você uma poesia, que tem tudo a ver com o que acabei de escrever e que me chegou pelas mãos de um poeta lá do Sul, o Ulisses Borges, que além de escrever muito bem tem um ótimo sexto sentido para as coisas boas que pintam por aí. Valeu, Ulisses! Buen camino!     

El cielo dentro de mí


en lo alto de la sierra
me detuve a descansar
pero sentí que me iba
sin moverme del lugar

los ojos se me perdieron
en aquella inmensidad
y me olvidé de mi mismo
tanto mirar y mirar

de pronto me ha preguntado
la voz de la soledad
si andaba buscando el cielo
y yo respondí quizás

el cielo está dentro de uno
y está el infierno también
el alma escribe sus libros
pero ninguno los lee

a veces uno camina
entre la sombra y la luz
en la cara la sonrisa
y en el corazón la cruz

búscalo al cielo en ti mismo
que allí lo vas a encontrar
pero no es fácil hallarlo
pues hay mucho que luchar

por caminos solitarios
yo me puse a caminar
por fuera nada buscaba
pero por dentro quizás

(Atahualpa Yupanqui/ Pablo del Cerro)

Leia e ouça o poema no blogue do Ulisses:
http://ulisses-borges.blogspot.com.br/2014/11/el-cielo-esta-dentro-de-mi.html

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A estrada da cura, by Neil Peart

.

Há muitos motivos que levam alguém a viajar para além do simples turismo de lazer. Há gente que viaja a trabalho e há os que trabalham para viajar; há os que viajam para ir estudar e há os que estudam para poder viajar; há os que viajam para se encontrar e há os que viajam para se perder; há os que viajam para ajudar e há os que viajam para serem ajudados; há quem viaje para curar e há os que viajam para serem curados e são destes últimos de quem eu gostaria de falar dessa vez, das pessoas que usam a viagem como um processo de cura.

Solvitur ambulando – isso se resolve caminhando, uma máxima atribuída a Diógenes e a Santo Agostinho, seria uma boa epígrafe para essa postagem. Isso porque acabei de ler Ghost Rider, A Estrada da Cura, narrativa de viagem escrita por Neil Peart que fez da estrada a medicina para curar sua alma sofrida.



Não li muitos relatos de viagem que abordassem exclusivamente desse tema, talvez não tenha lido nenhum, mas com certeza me lembro de várias passagens de narrativas de viajantes discorrendo sobre suas perdas, suas tristezas e amarguras em algum episódio ocorrido durante a viagem.

Entretanto, conheci muitas pessoas que viajavam para se curar de suas feridas emocionais. Acontecia com frequência, quando fui voluntário na Espanha em alguns refúgios por um período de seis meses alguns anos atrás. Eu nada podia oferecer, naquelas ocasiões, a não ser uma acolhida calorosa e um prato de comida, além de um ombro amigo.

Foi assim que conheci uma brasileira, que resolvera fazer o Caminho de Santiago logo após um tratamento quimioterápico. Visivelmente debilitada, andava devagarinho, mas ainda assim muito determinada em chegar ao seu destino. Havia perdido alguns dentes durante a peregrinação, que ia guardando numa latinha de balas, como testemunho de sua entrega. Sua dor física era incontestável, assim como a alegria que sentia em estar ali, viva, caminhando seus oitocentos quilômetros. Por que resolvera fazer a peregrinação, o que a motivara? - perguntei-lhe. Para curar-me, foi o que ela me respondeu. Havia tido um sonho, após o fim da quimioterapia, em que uma cigana lhe dissera para visitar o túmulo de Santiago em Espanha. E assim o fez.


Conheci uma mexicana, linda, jovem, que chegou ao refúgio triste, muito emocionada, a quem vi chorar num canto da sala após o jantar. Foi ter com o cura, que lhe disse para voltar àquele sítio depois que chegasse a Santiago. Estava de volta alguns dias depois. Era outra mulher, havia encontrado a paz; caminhava para curar a tristeza da mãe recém-falecida. Diz que o Caminho a curou. Acreditei de imediato. Coisas do Caminho.

Recebi um rapaz que também viajava para curar sua alma triste. Levava na mochila as cinzas do pai, que havia feito o mesmo trajeto no ano anterior. Disse que lhe prestava uma homenagem e que em muitos momentos na caminhada sentia que o pai lhe acompanhava. Estava feliz porque descobrira que a morte não existe, foram suas palavras, e o Caminho o estava curando, pasito a paso. Anos depois li a mesma história num livro e também assisti a um filme cujo enredo se assemelha muito a esse. O Caminho cura.



Neil Peart não é um peregrino a Santiago, mas sua história é parecida com a dos peregrinos citados acima. No período de um ano, pouquinho mais talvez, perdeu a filha única em um acidente de carro e meses mais tarde, a esposa, de um câncer avassalador. O Neil é um cara famoso, baterista da mais prestigiada banda de rock canadense, o Rush, e escreve tão bem quanto maneja suas baquetas. Em A estrada da cura ficamos conhecendo sua história sob a perspectiva do luto. Neil viaja para curar sua “pequena alma de bebê”, como ele escreve. Enquanto atravessa o Canadá, os Estados Unidos e o México de moto vamos acompanhando sua jornada externa e também sua viagem interior pela estrada da cura.

Há muito para se refletir num relato como esse. Pensei em muitas coisas enquanto lia essa obra. Talvez seja necessário ter passado por alguma experiência semelhante na vida para poder entender o sentimento de Neil, sua conduta enquanto a viagem se desenrola.


Talvez porque tenha perdido meu pai enquanto estava viajando e não ter podido voltar a tempo para me despedir eu tenha entendido uma fração do que é estar sozinho vivenciando o processo de luto. No meu caso, não foi uma atitude opcional, diferente do Neil que partiu para buscar algum tipo de conforto bem longe de casa, montado numa moto sem rumo totalmente definido e sem tempo de voltar.

(...) Logo no início desse duplo pesadelo, lembro de ter pensado: “Como alguém sobrevive a uma coisa dessas? E, se sobrevive, em que estado esse alguém ressurge do outro lado?

(...) Viajar tem me proporcionado pequenos momentos de Verdade e Beleza (estradas, paisagens, vida selvagem) e até mesmo alguns momentos efêmeros em que curto a vida novamente. Ainda há lágrimas e humores sombrios, e aquele onipresente “buraco negro profundo”, mas é sempre melhor estar em movimento.


O autor constrói sua narrativa com a ajuda de cartas, inúmeras cartas e postais que enviava a pessoas mais próximas, especialmente seu melhor amigo, Brutus. Aliás, não bastasse a perda da mulher e da filha (e também do cachorro), Neil ainda teve que suportar a tristeza de ver seu melhor amigo ser preso, por conta de um ato ilícito de comércio de ervas. Como se vê, nada é tão ruim que não possa piorar, mas isso faz parte do jogo. Diz Ramakrishna, grande mestre indiano, que o Universo é uma grande lila (em sânscrito, “brincadeira”, “jogo Divino”) do Senhor, em que jogamos o jogo de viver. Creio que o Neil entenderia muito bem essa metáfora.


Não é preciso dizer que cruzar dois ou três países montado em uma moto bacana sugere uma experiência cheia de aventuras. Elas aparecem, mas na narrativa do Neil tudo é muito comedido, o que fez com que eu criasse uma imagem muito simpática dele, de um homem que não escreve para se gabar de seus atos, porque fácil seria botar uma banca de Hell’s Angels e sair contando vantagens, mas longe disso. E ele bem que poderia.

Pode ser que o luto humanize mais as pessoas, que nesse jogo divino a lição seja a de que somos seres indefesos, por mais que tentemos nos valer de armaduras e máscaras; não há como fugir do destino que nos aguarda inevitavelmente ali na esquina, a morte. Há quem possa afirmar não ter medo de morrer, mas dificilmente haverá alguém que não tenha medo de perder uma pessoa amada, um ente querido. A morte sempre será temida, é um fato, mas é preciso sempre arrumar forças para conseguir continuar na brincadeira até que chegue sua própria vez.


(...) Eu não tinha um motivo de verdade para continuar, não tinha interesse algum na vida, no trabalho ou no mundo lá fora. Mas, ao contrário de Jackie, que sem dúvida desejava a própria morte, eu parecia estar blindado por algum instinto de sobrevivência, algum reflexo interno que se atinha à convicção de que “algo aconteceria”.

Devido a uma força (ou falha) de caráter, nunca me questionei “por que” deveria sobreviver, mas apenas “como” o faria – embora essa fosse uma questão relevante o suficiente para ocupar minha mente na época. (...) Eu não sabia, mas ao longo daquele tempo de luto, tristeza, desolação e completo desespero, alguma coisa dentro de mim parecia determinada a seguir em frente. Algo aconteceria.

(...) De qualquer maneira, agora eu partia com a minha motocicleta para tentar descobrir que tipo de pessoa eu me tornaria e em que tipo de mundo eu viveria.


E então foi assim que Neil decidiu tentar se curar, viajando solitariamente por longas estradas. Não que tenha sido essa sua primeira busca de ajuda; passou por outras etapas, comum nesse processo de luto: terapia, conforto de amigos e parentes, leitura de obras específicas sobre o tema, até chegar ao ponto de “abandonar o lar”. De novo, como sempre, a clássica jornada mítica do Herói que parte em uma jornada de busca. Por tudo o que viveu e sofreu, ao fim da leitura podemos sentir que Neil cumpriu com sucesso sua jornada de Herói.


Apesar de ter gostado bastante da leitura, não acredito que agradará a qualquer leitor: é preciso que haja alguma empatia com o autor, que a todo instante, entre chegadas e partidas, retoma o melancólico tema da perda. Faz parte do luto contar e recontar o trágico, como se com o tempo a dor fosse se diluindo até que continuar vivendo não se torne um fardo. Quem nunca perdeu alguém que amasse muito, os pais, um irmão, um filho ou um amigo íntimo, talvez se sinta entediado com a narrativa do Neil. Por outro lado, aqueles que perderam uma pessoa amada hão de se beneficiar com essa leitura, uma vez que o autor consegue passar uma mensagem sincera do que é conseguir continuar levando a vida quando uma parte de você foi embora para sempre.


(...) Naquela manhã, eu havia escrito um título otimista na frente do meu diário, “A estrada da cura”, e depois de uma salada e de um “combo triplo” de costelinhas, souvlaki e camarão, escrevi as seguintes reflexões sobre o tema:

Enquanto me empanturrava, eu pensava que me sinto melhor hoje à noite do que jamais me senti em amis de um ano. Alcancei a “imersão” na Jornada, o que costumava ser um estado de espírito obrigatoriamente limitado: principalmente quando era interrompido pelo trabalho. Ou pelo fim da jornada. Na presente situação, nenhuma das duas coisas é uma possibilidade real...

Talvez hoje tenham sido 950 quilômetros de cura. “Não é sempre agradável pensar isso?”

Esta frase final de O sol também se levanta, obra de Ernest Hemingway, tinha adquirido um sentido novo para mim nos últimos tempos, na ironia consciente de alimentar um desejo sem acreditar na sua possibilidade. Eu não acreditava realmente que chegaria ao destino chamado “cura”, mas pelo menos eu havia começado a acreditar na estrada, e isso era o suficiente para me manter rumo ao oeste.

“Você pode levar essas rodas até o final da estrada. Você ainda encontrará o passado logo atrás de você.”

Neil Peart


Leia: Ghost Rider – a estrada da cura. Neil Peart. Ed Belas Letras, 2014.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Sobre lares e pedras, fragmentos by Isabel Huggan

.

Faz pouco tempo, li uma obra que me agradou muito pela maneira simples com a qual a escritora, Isabel Huggan, relata suas viagens e experiências de vida fora do Canadá, seu país de origem. Casada com um homem cujo trabalho o obrigava a viajar muito, Isabel partiu do Canadá, já na meia idade, para viver em lugares marcantes como a Tanzânia, as Filipinas, o Quênia e o sul da França, onde acabou estabelecendo moradia definitiva- com a condição de poder voltar, uma vez ao ano, à sua terra natal para visitar amigos e familiares.

A narrativa da autora canadense explora algo que aprecio bastante nos relatos de viagem que costumo ler e indicar: as relações humanas e uma atitude de reverência à cultura alheia, conduta esperada de todo bom viajante.


Dois momentos me chamaram a atenção durante a leitura de Belonging: home away from home (algo como Pertencimento: lar distante do lar). É justamente no título da obra que aparece o questionamento mais interessante de Isabel sobre suas viagens e o fato de viver em países longes e ao mesmo tempo tão diferentes de sua origem: o que é o lar, aquilo que chamamos de nossa casa, nosso lugar?

Seus questionamentos, que abrem a leitura, começaram quando ela parou para refletir que na língua francesa não existe um vocábulo que expresse o sentido da palavra lar, como o home do inglês, sua língua nativa. Fácil de entender, o mesmo acontece na nossa língua portuguesa, basta pensar nas palavras “casa” e “lar”, cujos significados parecem iguais dependendo do contexto em que são usados, mas que diferem bastante num sentido mais amplo.

A questão que ela levanta em suas memórias- disfarçadas em relatos de viagem- é que nunca sabe como se expressar quando quer dizer a alguém, na França, que no final do ano irá visitar sua casa (going home), quando na verdade sua casa é na França. É que em francês, o sentido de lar- daí o termo pertencimento que aparece no título da obra, inexiste, de modo que maison ou chez não conseguem traduzir com fidelidade a ideia de lar, porque são palavras que definem uma localidade física, isentas de significados emocionais agregados à ideia de lar.

A palavra lar tem uma origem muito bacana: os lares eram os nomes dos deuses romanos que protegiam as casas, por extensão as famílias; no latim, lare é a parte da casa onde se acende o fogo, daí o termo lareira. Portanto, o lar é um lugar ao qual pertencemos, onde reunimos nossa família e onde construímos nossa identidade.


A autora trabalha essa ideia na seguinte passagem:

Durante os anos passados fora do Canadá, eu vivi de acordo com algo que li numa entrevista com o cirurgião Chris Giannou: “O lar não é uma entidade física, geográfica. O lar é um estado moral. O verdadeiro lar são as amizades de cada um. Gosto de pensar nisso como uma forma elevada de organização social diferente do estado nação.”

Com meus pais falecidos e sem ter uma casa para a qual pudesse voltar ao Canadá, essa visão me deu muito conforto pelos anos que passei expatriada no exterior, pelo que mantive em mente a ideia de que eu e meu marido estávamos “somente vivendo de aluguel temporariamente” por causa do seu trabalho, e que meu verdadeiro lar estava em qualquer lugar, invisível mas estável – e permanente.


Em outro momento interessante da leitura, Isabel descreve aquela sensação estranha de despertarmos numa cama sem saber onde estamos ou como chegamos ali, tipo de acontecimento comum que muitos viajantes e imigrantes sentem por um período de tempo, quando a cabeça ainda não acompanha os compassos do coração; é um estar em casa sem de fato sentir-se em casa.

Às vezes acordo de manhã cedinho antes de clarear e naquele silêncio noturno me pego pensando: como foi que cheguei até aqui? Mas não há nada de misterioso, a razão é bem mundana – não é a vontade de Deus, mas o desejo de um escocês com o qual tenho estado casada desde 1970.

A primeira vez que nós viemos caminhar por essas montanhas, há mais de dez anos quando ainda vivíamos em Montpellier, ele disse, abruptamente, que sabia que seu lar estava ali na região montanhosa de Cévennes. Sua experiência foi intensa, afetando-o de uma maneira profundamente atávica que só pude compreender mais tarde, quando senti a mesma sensação magnética e um impulso quase hormonal no momento em que pus os pés na Tasmânia e soube que havia encontrado o meu lar.


Quando isso acontece, esse reconhecimento carnal de uma paisagem, tem-se a mesma sensação de se apaixonar sem saber o porquê, e esse sentimento irracional e inexplicável torna tudo muito mais intenso... a sensação do ar, a configuração da terra, a cor e o formato do horizonte, quem vai saber? Há lugares no planeta aos quais pertencemos e eles não ficam necessariamente no local onde nascemos.

Se tivermos sorte, se os deuses estiverem de bom humor, nós os encontraremos, pelo tempo que for necessário para descobrirmos que, sim, nós pertencemos ao lugar e ele a nós. Mesmo que nós não possamos articular essa intensa sensação física, mesmo que a língua seja um empecilho, nós sabemos e sentimos em nossa carne que ali é o nosso lar.

Colecionando pedras


Recolho a seguir um fragmento da obra de Isabel que trata de um tema muito caro àqueles que viajam com frequência: a mania de trazer souvenires ou itens colecionáveis de cada lugar que se visita. Há quem colecione colherinhas, chaveiros, miniaturas, bibelôs de bichinhos que vão de sapos a elefantes, de fadas a unicórnios e tudo o que a imaginação e a loucura de cada um permitir.

Confesso que tive algumas manias do tipo, de selos a folhas secas, marcadores de livros a moedas, de conchas a caleidoscópios (esses ainda teimo em colecionar) e outras inutilidades parecidas. A pior certamente foi a de trazer pedras de todos os cantos pelos quais passava, às vezes dois quilos de pedras na mochila, algo que só não me parece insano hoje porque realmente sou apaixonado por elas, desde muito pequeno, talvez pelo sonho não realizado de um dia me tornar arqueólogo. Nossas frustrações sempre hão de aparecer em algum lugar, disso ninguém foge.


Com o tempo vamos aprendendo a trabalhar o desapego das coisas materiais, seja por uma questão interior, de cunho espiritual, ou por uma questão prática mesmo, que envolve a falta de espaço, o tempo desperdiçado para organizar as tralhas e por aí vai.

Diz a Isabel que desde pequenina tinha paixão por pedras, que ela chamava de fósseis, e que se lembra de caminhar pela praia colhendo pequenas rochas com seu pai, que a ensinou a “enxergar as pedras no mundo e o mundo nas pedras”. Com o tempo, a coleção cresceu consideravelmente até que um dia foram descartadas. Mas, diz ela, “eu ainda coleciono pedras e conchas, porque parece que não sou eu mesma até que tenha alguns pedacinhos do planeta ao alcance de minhas mãos”.


Diz que ganhou de um amigo de seu pai, ainda na infância, uma pirita, aquele minério de ferro dourado, muito bonito, também conhecido como “ouro de tolo”. Faz uma divagação interessante, dizendo que certa feita, ao segurar o pequeno minério em suas mãos, se pegou pensando se ela própria às vezes não fazia papel de tola ao se deixar encantar pelos “brilhos” que a vida oferece.   Quantos de nós também nos deixamos iludir?

Apesar de detestar a pirita, Isabel a mantém guardada por mais de cinquenta anos, sem entender direito por que nunca a descartou mesmo tendo mudado tanto de casa todos esses anos. Talvez a explicação se encontre no que escreveu a seguir:

Algo acontece com os objetos que guardamos, mesmo com aqueles que não amamos. Eles adquirem uma pátina de legitimidade, uma dignidade conquistada pela longevidade que se torna impensável jogá-los fora. Além disso, eu sei que se tivesse me livrado da pirita ela ficaria brilhando lá no lixo, radiante, me atormentando como um elemento cósmico, tal como nas histórias de HQ, até que eu obedientemente fosse lá buscá-la  de volta junto a mim.


Qual o significado dessa pedra, desse ouro de tolo? Bem, acredito que quando eu souber a resposta, ela se permitirá perder. Há alguma lição guardada para mim nesse pequeno pedaço de metal e enquanto eu necessitar dessa lição, devo manter essa coisa comigo.

Pedras, conchas, lembrancinhas, tudo isso desordena as superfícies das casas por onde passo a viver; minha escrivaninha está lotada de tigelas chinesas, latas esmaltadas, caixinhas de madeira e cestinhos de palha, louça antiga, vidros coloridos e cartões telefônicos. Como posso justificar essa bagunça?


Em seu ensaio “A moral das coisas”, Bruce Chatwin escreveu que “os objetos têm um jeito de se insinuarem nas vidas humanas; algumas pessoas atraem mais coisas do que outras, mas nenhuma pessoa, por mais desprendida que for, é totalmente desapegada das coisas. Um chimpanzé usa varas e pedras como ferramentas, mas ele não mantém posses. O homem sim. E as coisas pelas quais ele mais se mantém apegado não servem a nenhuma função. Ao contrário, elas são símbolos, ou âncoras emocionais. A questão que eu gostaria de levantar (sem a necessidade de se obter uma resposta) é: Por que os verdadeiros tesouros do homem são inúteis”?

Uma pena que Bruce tenha falecido, porque eu teria respondido sua pergunta com outra: quem pode dizer o que é “útil” ou não? Eu considero essas coisas ao meu redor úteis – os complexos motores da memória, feito máquinas poderosas. Uma pedra parece ser apenas uma pedra, mas dentro dela se encontra uma energia pulsante: não é uma âncora, mas uma embarcação.


Eu fico com o Bruce, e acho que a Isabel não absorveu direito o que leu, porque está claro quando ele afirma que as coisas atuam num plano simbólico e em assim sendo as coisas que guardamos são como muletas que usamos para ajudar na caminhada. No caso da autora canadense, a pedra a que ela se refere é sim um objeto inútil- mas inútil num sentido prático. É isso o que Chatwin quis dizer.

Acredito que quando trazemos algo na volta ao lar, seja um galho seco, uma concha, pedras ou as lembrancinhas comuns made in China das lojinhas de souvenires, o que estamos de fato fazendo, de maneira intuitiva, é materializar um momento de felicidade em um objeto que manteremos por um tempo à nossa vista, como lembrança/recordação dos dias felizes ou especiais que ficaram para trás. E o engraçado é que a maioria deixa de ter significado algum tempo depois, e o que era um objeto estimado passa a ser um elemento kitsch, até vergonhoso, que precisará ser descartado na primeira oportunidade.


Vejo a mesma coisa acontecendo com as fotografias, quando voltamos de viagem com mais de mil fotos na máquina... será mesmo que precisamos de tantas provas daquilo que vivemos? Me pergunto onde estava o foco da pessoa enquanto clicava sem parar o bonito cenário que a cercava. Na máquina?

Minha pedra filosofal (fragmento final)


Alguns objetos sempre levo comigo num saquinho azul que carrego quando viajo. Eles também podem existir na mente da deusa que determina onde e como as estórias nascem: uma semente escarlate seca, um pequeno canivete, um caco de cerâmica cretense, dois dentes de bebês, e um chaveiro atado à uma caixinha de música pequenina que tilinta os primeiros acordes de “Für Elise”. Meu pai a comprou para minha mãe em Beijing, um ano antes de seu falecimento. Também levo uma sodalita polida, tão azul quanto um lápis lázuli, que foi colocada em minha mão Há muitos anos por um professor de filosofia que amei até a sua morte. Eu ainda o amo, ele ainda visita meus sonhos. Minha pedra filosofal. Minhas estórias.
Isabel Huggan




Belonging: home away from home. Isabel Huggan. Alfred A. Knopf. Publisher. Canada, 2003. 

quarta-feira, 11 de junho de 2014

El Caminante (Caminhada), by Hermann Hesse

.


Faz pouco tempo estava assistindo a um programa de televisão em que dois homens vivem viajando pelos Estados Unidos à procura de raridades, objetos antigos que as pessoas guardam em casa e que algumas vezes valem um bom dinheiro, dependendo do estado de conservação em que se encontram e do potencial de venda, na maioria das vezes, para colecionadores.

Foram parar numa casa no Texas onde a dona, uma enfermeira aposentada, estava disposta a vender quase todos os itens de sua eclética coleção de quinquilharias - de tudo um pouco: brinquedos, latas, calotas de carros, ferramentas, sabonetes de hotel, revistas, instrumentos médicos, nada combinando com nada, mas a cabeça de um colecionador compulsivo não parece seguir um critério lógico de qualquer maneira.


Entretanto, o que me chamou a atenção no episódio não foi a quantidade absurda de bugigangas daquela casa, mas a atitude dos caçadores de relíquias. A dinâmica do negócio é simples: eles pegam o que lhes interessa e perguntam à pessoa quanto ela quer pelo objeto. Normalmente o dono pede um valor e eles regateiam, até chegarem a um preço que seja do agrado de ambas as partes, algo normal nesse tipo de negócio. O que eu não esperava ver era o contrário do habitual, quando ao perguntarem quanto uma senhora queria por uma peça de um maquinário de trem ela respondeu 70 dólares e eles lhe ofereceram $170, porque aquele era o valor mínimo que alguém poderia oferecer pela peça. A mulher mal pode acreditar, assim como eu, pelo que pensei: que bom que existe gente assim no mundo.

Escrevo sobre isso porque muitas vezes acontece a mesma coisa comigo quando encontro em um sebo um livro que buscava há algum tempo e ao encontrá-lo me surpreendo com o valor irrisório indicado na contracapa, a lápis. Será possível? Esse valor deve estar errado, como assim? Mas quando o livreiro me confirma o preço eu sinto um misto de felicidade e de decepção, afinal de contas meu objeto de desejo vale muito mais do que aquele valor insignificante. A decepção, claro, passa rapidinho, e a felicidade segue comigo na volta a casa.


Foi o que me aconteceu quando consegui um exemplar fora de catálogo do pequeno e fascinante livro El Caminante (Caminhada, em português), do bem-aventurado escritor alemão Hermann Hesse (e se não estou enganado, foi uma indicação de leitura do colega Davi, do blog vousairparaverocéu).

Tive que esperar quarenta dias para ter o livro em mãos, que arrematei pela Abebooks e que me foi enviado por um livreiro do Chile. Trata-se de uma edição espanhola de 1981 da obra de Hesse e tem o tamanho padrão de um livro de bolso: El caminante: prosas, poemas y acuarelas del autor de Siddharta. São apenas 105 páginas com 23 pequenos relatos e poemas inspirados nos passeios que Hermann Hesse fez pela região dos Alpes em 1918. A natureza e a solidão andam de mãos dadas nessa coletânea de Hesse, que aproveitou a beleza dos lugares por onde andou para pintar suas aquarelas, de modo que o pequeno volume dessas impressões do viajante pelos vales e povoados suíços ainda brinda o leitor com os singelos traços aquarelados do escritor.


 O exemplar usado que tenho em mãos está cheio de anotações a lápis, mas ao invés de me causar desagrado, fiquei curioso ao comparar aquilo que lia com o que o antigo dono havia anotado e que deveria ter lhe parecido importante e de uma maneira estranha senti que minha leitura de certo modo invadia a intimidade de alguém, que pelo contexto das anotações, deveria estar vivendo um intenso período de melancolia.


Melancolia é uma palavra que se encaixa bem em diversos momentos dessa obra, que traz à luz muitas passagens da vida do autor e também seu apreço pela solidão e pelos mistérios da vida, a espiritualidade sempre latente em sua obra: “Eu confio que Deus está em mim / confio que minha tarefa seja sagrada / e desta confiança vivo”, momento inspirador em que fala sobre as árvores, e que continua assim:

Quando estamos tristes e mal conseguindo suportar a vida, uma árvore pode nos falar assim: Aquieta-te! Aquieta-te! Contempla-me! A vida não é fácil, a vida não é difícil. Esses são pensamentos infantis. Deixe que Deus fale dentro de ti que logo esses pensamentos se emudecerão. Tu estás triste porque teu caminho te afasta da mãe e da pátria. Mas a cada passo teu e a cada dia te aproximas mais de tua mãe. A pátria não se encontra nem aqui, nem ali; ou a pátria está em teu interior, ou não está em parte alguma.


A vontade de vagamundear faz meu coração acelerar quando ouço ao entardecer o sussurro das árvores; se escutares por um longo momento e com a quietude necessária, vais aprender também a essência e o sentido desta necessidade do caminhante. Não é, como parece, uma fuga do sofrimento, senão a nostalgia da pátria, da lembrança da mãe, de novas parábolas para a vida, que é o que te conduz ao lar. Todos os caminhos te levam para casa, cada passo é um nascimento, cada passo é uma morte, cada tumba uma mãe.


É isso o que sussurra a árvore ao entardecer, quando temos medo de nossos próprios pensamentos infantis. As árvores têm pensamentos dilatados, prolixos e serenos, assim como uma vida mais longa do que a nossa. São mais sábias que nós, enquanto não as ouvimos, mas quando aprendemos a escutá-las, a brevidade, a rapidez e a pressa infantil de nossos pensamentos adquirem uma alegria sem precedentes. Quem aprendeu a escutar as árvores já não deseja ser uma árvore. Não deseja ser nada além do que já é. Isso é a pátria. Isso é a felicidade.


 Coisa mais linda não há. Quando leio passagens como essa me sinto muito cru para a vida, porque há tantas coisas a serem descobertas e vividas e o tempo passando tão rápido... precisamos nos conectar novamente com essa fonte primordial e é inegável o quanto somos beneficiados quando podemos estar mais próximos da natureza.

Por isso sou um apaixonado pelas viagens em que caminhar é a rotina principal dos dias e uma vez que você se entrega a esse tipo de viagem, nada mais parecerá tão interessante, nem o museu mais aclamado, nem o restaurante mais estrelado, e muito menos as compras mais desejadas. Todas essas coisas são apagadas de nossas memória com o tempo, mas as longas jornadas, essas permanecem para sempre conosco, porque foram vividas de maneira mais intensa, às vezes até mesmo sofridas.


Acredito que a leitura dessa obra de Hesse sobre suas caminhadas ganhe ainda mais brilho hoje do que na época em que foi editada, há quase cem anos. Talvez porque temos tendência a achar que no passado as coisas eram melhores, uma visão romântica das coisas que em parte não deixa de ser real, se olharmos à nossa volta e vermos o que fizemos com a natureza, só para citar um exemplo.


Sentimos falta de tudo aquilo que o escritor relata ter vivido naquela viagem pelos Alpes, experiências e visões cujos títulos, tão simples, escondem escritos profundos de uma alma inquieta e sonhadora como a dele: Cemitério rural, Passeio ao entardecer, Aldeia, A ponte, Granja, Árvores, Tempo chuvoso, Capela, Céu nublado... E o incrível é que todo o cenário por ele descrito se assemelha muito a qualquer paisagem de uma cidadezinha do sul de Minas, de modo que a empatia com os textos desse relato nos acomete naturalmente. Veja alguns excertos:

(...) Não deixarei aqui o meu coração, como se diz nas cartas de amor. Oh, não, o coração eu o levarei comigo, também dele necessito nas montanhas e em todas as horas. Porque sou um nômade, não um camponês. Sou um amante da infidelidade, da mudança, da fantasia. Não me seduz encadear meu coração a um pedaço de terra.


(...) Desde as montanhas sopra uma rajada úmida. Do outro lado, ilhas azuis e celestes contemplam nossas terras; sob aqueles céus serei feliz e com a mesma frequência sentirei saudades de casa. O perfeito representante de minha espécie, o puro vagamundo, não deveria conhecer esta nostalgia. Eu a conheço, não sou perfeito e também não pretendo sê-lo. Quero saborear minha nostalgia como saboreio os meus amigos.


(...) Todos nós vagamundos somos feitos dessa maneira... Nossa ânsia de errar e vagamundear é em grande parte amor, erotismo; a metade do romantismo de uma viagem não é outra coisa senão uma esperança de aventura; mas a outra metade é uma necessidade inconsciente de transformar e diluir o erótico. Nós caminhantes estamos acostumados a albergar desejos amorosos precisamente por conta de seu caráter irrealizável, e aquele amor que deveria pertencer a uma mulher nós o repartimos, brincando, entre povoado e montanha, lago e desfiladeiro, crianças do caminho, os mendigos de uma ponte, o boi de uma pradaria, um pássaro, uma borboleta. Separamos o amor do objeto, o amor em si é suficiente para nós, do mesmo modo que não buscamos o destino na peregrinação, senão unicamente desfrutá-lo, estar a caminho é o que importa.


Creio que esse livro me tocou pelo fato de ser uma coletânea de relatos e visões das coisas simples que acontecem a todo instante em nossas vidas e já não mais nos damos conta, até mesmo por uma questão geográfica, pelo que viajar se torna algo mais do que um prazer, senão uma necessidade, uma oportunidade de podermos mudar o ritmo de nossas vidas e voltar a olhar o mundo com os olhos de uma criança, citando Matisse.

É dessa maneira que podemos fazer do ato de viajar um rito, onde alguns pré-requisitos se tornam necessários, entre eles o contato com a natureza e as longas caminhadas, duas coisas que nós, que vivemos nas grandes cidades, não temos acesso e não praticamos com a frequência que deveríamos. Particularmente, sempre desconfio da sanidade daqueles que afirmam detestar caminhar. Bem aventurado o ser que caminha e que sabe praticar a solidão.


Hermann Hesse tinha esse perfil de caminhante, um verdadeiro peregrino - per agro -, aquele que viaja pelos campos. Interessante notar que Hesse escreveu essa obra depois de um longo período de abstinência literária, durante a qual ele deu assistência a prisioneiros de guerra. Viajando por aqueles campos e montanhas, pintando suas aquarelas, vivendo uma vida mais simples e imerso em solidão, ele colocou em prática uma rotina mais contemplativa e, provavelmente não por acaso, foi depois dessa viagem que ele escreveu seus melhores e mais aclamados textos, entre eles Demian (1919), Siddharta (1922), O Lobo da Estepe (1927) e Narciso e Goldmund (1930).  


E quando não podemos cair na estrada, seja por falta de oportunidade, seja por preguiça ou outra desculpa qualquer, ainda nos restam os livros, nossas setas, apontando caminhos, despertando novas possibilidades, quem sabe... Lendo El Caminante, de Hermann Hesse, me fez querer viajar novamente pelo interior das Minas Gerais (sempre Minas...), acordar cedo e depois do café andar sem pressa por uma estradinha de terra, subir um morro e ver o mar de montanhas se perdendo no horizonte da Mantiqueira até o por do sol chegar. No meio do caminho, uma parada para comer, e se não houver um bar por perto, se improvisa algo, assim como fazia Hesse em seus passeios:

(...) Hoje meu lugar se encontra sob uma árvore à margem de um lago; desenhei uma cabana com o gado e algumas nuvens. Escrevi uma carta que não irei remeter. Agora tiro de minha mochila o almoço: pão, salsichão, nozes e chocolate.


Aqui perto há um pequeno bosque de bétulas e vi muitos galhos secos no chão. Me acomete o desejo de fazer uma pequena fogueira, convertê-la em minha camarada e sentar-me ao seu lado. Vou até ali, recolho um montão de lenha, ponho papel debaixo e meto fogo. A fumaça fina ascende alegre e ligeira, a chama vermelha tem um aspecto singular ao sol do meio dia.

O salsichão é bom, amanhã comprarei mais. Quem dera tivesse algumas castanhas para assá-las no fogo! Depois do almoço estendo a jaqueta sobre a relva, descanso nela a cabeça e contemplo minha pequena fumaça sacrificial, que sobe às alturas.


(...) O fogo apagou, o sol se moveu imperceptivelmente. Hoje quero caminhar ainda um longo trecho. Enquanto guardo as coisas e fecho o meu bornal, me lembro de uns versos de Eichendorff, que cantarolo de joelhos: “Logo, tão logo, chegará o tempo sereno / e também eu descansarei / e em cima de mim / sussurrará a bonita solidão do bosque / e nem aqui conhecerei alguém. 



Sinto pela primeira vez que nestes amados versos a melancolia é também a sombra de uma nuvem. Esta melancolia não é mais do que a música suave da caducidade, sem a qual o belo não nos emociona. Carece de dor. Sigo meu caminho com ela e subo, contente, pelo sendeiro da montanha, o lago se encontra muito abaixo de onde estou; passo junto ao arroio de um moinho, um grupo de castanheiras e uma roda abandonada, e me adentro no dia azul e silencioso.


Leia: Caminhada. Hermann Hesse. O livro foi editado no Brasil pela Ed. Record, mas encontra-se fora de catálogo. É possível encontrá-lo a bom preço no site da Estante Virtual.