domingo, 1 de dezembro de 2013

Tarde sertaneja, by Visconde de Taunay

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Tarefa difícil, para quem tem paixão pelos livros, é ter que abrir espaço em estantes e prateleiras para que novas obras que chegam ocupem o lugar das que devem partir. Nessas horas, parece que não usamos muito a razão e o que determina essa “escolha de Sofia” livresca é mesmo o apego emocional à coleção.

Há certamente os livros que jamais sairão da nossa biblioteca particular, os nossos amores eternos, os que nos acompanham desde a primeira leitura e mesmo que jamais relidos, ficam ali, fazendo-nos felizes pelo simples fato de existirem e estarem pertinho de nós; há os clássicos, evidentemente, que também não podem ser assim descartados por qualquer best-seller da moda, mesmo que você goste mais do Dan Brown do que do Proust. Por isso aprendi a ser prático: livros da moda ou tomo emprestado ou nem leio. Se sair o filme então, melhor ainda, resolvo tudo em duas horas e pronto. Gastar meu tempo de leitura, por hora, só com o que vale a pena.


Há obras que mantenho por questão intelectual, a maioria delas literatura acadêmica, mais voltadas para o estudo e há as que guardo por questão estética mesmo: o texto é ruim, mas as gravuras ou as ilustrações são de primeira, sendo assim, ficam na estante - para os chiques, na mesinha de centro fazendo pose.

Não vão embora nunca as que fazem parte de coleções temáticas: minhas obras de Literatura Odepórica, do Ciclo Arturiano, dos autores beats, coleção cervantina, todas as de poesia, de autores e temas relacionados às Minas Gerais, e as que separo por autores/as queridos/as, que nem vou citar porque poucos não são.

Como se vê, na hora de descartar, não sobra muita coisa, mas ainda assim juntei duas caixas para doação e uma sacolinha com bons títulos que darei à Miss Cely Blues, jornalista araraquarense que ama os livros como ninguém nessa terra. Tô te esperando em Sampa, Cé!


E nesse “vai ou fica” de hoje, salvei de última hora, da caixa dos rejeitados, uma obra misteriosa: sem título, sem autor, sem nota alguma que possa identificá-la, encadernada naquele bonito tom de verde musgo antigo, páginas internas em sépia e com ortografia que remete às primeiras décadas do século passado. Trata-se de uma coletânea, em cuja página inicial destaca-se o título Primeira Parte: Prosa; quatrocentas e cinquenta e tantas páginas adiante, outro título: Segunda Parte: Poesia.


Foi um anjo quem me fez retirar da caixa esse livro; iria perder um pequeno tesouro, que só fui notar ao folhear mais atentamente a obra: um compêndio de todos os mais importantes autores da literatura brasileira do século XIX com notas biográficas e excertos breves de suas principais obras. Como acredito que nada ocorre por acaso, abri o livro na página 37 e encontrei uma pequena joia intitulada Tarde Sertaneja, uma passagem da obra Inocência, do Visconde de Taunay que tem tudo a ver com o universo das viagens.


O Visconde, nascido Alfredo d’Escragnolle Taunay, foi oficial do exército, professor, político, romancista, historiador e compositor musical. A nota primordial, a face principal de sua obra é o seu brasileirismo, não só na escolha dos assuntos e nas descrições e paisagens que pintou, como até na linguagem e na maneira de escrever: caracteristicamente brasileiro no sentimento e na expressão. Tudo indica, numa pesquisa rápida pela web, que o Taunay foi um homem muito bacana e digno.

Você lerá a seguir uma breve passagem de sua obra mais conhecida, Inocência, onde o autor descreve um fim de tarde no sertão, presenciado por um viajante que cruza aquelas áridas terras montado em um cavalo, aventura que o próprio visconde deve ter vivenciado em suas viagens pelo Brasil. No final do post, deixo um link para quem tiver interesse em ler uma narrativa de viagem, na íntegra, do Visconde de Taunay. Até a próxima!
Tarde Sertaneja


Correm as horas: vem o sol descambando; refresca a brisa, e sopra rijo o vento. Não criam mais os buritis; gemem, e convulsivamente agitam as flabeladas palmas. É a tarde que chega.

Desperta então o viajante; esfrega os olhos; distende preguiçosamente os braços; boceja; bebe uma pouca d’água; fica uns instantes sentado, a olhar de um lado para outro e corre afinal a buscar o animal, que de pronto encilha e cavalga.


Uma vez montado, lá vai ele a passo ou a trote, bem disposto de corpo e de espírito, por aqueles caminhos além, em demanda de qualquer pouso onde pernoite.

Quanta melancolia baixa à terra com o cair da tarde!


Parece que a solidão alarga os seus limites para se tornar acabrunhadora. Enegrece o solo; formam os matagais sombrios maciços, e ao longe se desdobra tênue véu de um roxo uniforme e desmaiado, no qual, como linhas a meio apagadas, ressaltam os troncos de uma ou outra palmeira mais alterosa.


É a hora em que se aperta de inexplicável receio o coração. Qualquer ruído nos causa sobressalto; ora, o grito aflito do zabelê nas matas, ora as plangentes notas do bacurau a cruzar os ares. Frequente é também amiudarem-se os pios angustiados de alguma perdiz, chamando ao ninho o companheiro extraviado, antes que a escuridão de todo lhe impossibilite a volta.


Quem viaja atento às impressões íntimas, estremece malgrado seu ao ouvir, nesse momento de saudades, o tanger de um sino muito, muito ao longe ou o silvar distante de uma locomotiva impossível. São insetos ocultos na macega, que trazem essa ilusão, por tal modo viva e perfeita, que a imaginação, embora desabusada e prevenida, ergue o vôo e lá vai por estes mundos fora a doudejar e a criar mil fantasias.
Para baixar a obra Cenas de viagem de Visconde de Taunay, clic aqui! 

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