sábado, 12 de janeiro de 2013

Vislumbres da Índia, by Octavio Paz


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Octavio Paz (1914-1998), prêmio Nobel de Literatura em 1998, é considerado um dos maiores escritores e pensadores do século XX. Sua obra abarca diversos gêneros, do ensaio à prosa, mas é na poesia que seu nome brilha com mais intensidade. Nascido e falecido na Cidade do México, passou a infância nos Estados Unidos, voltou ao México para iniciar os estudos superiores – em direito, inconcluso – mas acabou se encantando mesmo com a poesia.

Rodou o mundo o poeta mexicano; em 1945 ingressa no serviço diplomático, o que o leva a viver em Paris, até o ano de 1951, quando então é transferido para a Índia. Nessa missão permaneceu pouquinho tempo, pois logo o chamaram para assumir um cargo no Japão. Do país do sol nascente foi parar em Genebra e em 1954 já estava de volta a casa. Podemos dizer que Octavio Paz foi um bom viajante.



Em 1962 é nomeado embaixador do México e foi novamente cumprir sua missão na Índia, dessa vez numa longa permanência de seis anos. O livro que tenho em mãos trata exatamente desse período da vida de Dom Octavio Paz, e foi o último que publicou em vida: Vislumbres de la India.

Comprei meu exemplar no ano passado na Librería Encontros, em Santiago de Compostela, após a indicação de um vendedor que mui gentilmente me indicou a obra. Eu buscava títulos de literatura odepórica mas não queria nada relacionado ao tema das peregrinações jacobeas. Daí que o bom librero me põe nas mãos o pequeno exemplar do poeta, e eu que já tenho uma simpatia natural pela Índia nem hesitei e saí empolgado com minha aquisição. Comecei a ler o livro logo depois, sentado num café, sob os arcos da Rua do Villar. Chovia em Santiago.



Mas sabe quando você compra um livro achando que é uma coisa e depois não é nada daquilo que você imaginava? No meu caso, o que eu buscava estava ali, mas somente entre as páginas 07 e 24; entre essas folhas você conhece um pouco do Octávio Paz viajante, deslumbrado com as paisagens e encantado com os orgiásticos excessos de informação visual que a Índia tem a oferecer.



A partir da página 25, o que parecia ser um relato de viagem transforma-se em um grande ensaio sobre a arte, a espiritualidade, a filosofia e a política daquele país. Já li muitas narrativas de viagem sobre a Índia, de indianos e de gente que nem sabia do que estava falando, e garanto que a escrita de Dom Octavio é das mais inteligentes que já li sobre o país. O poeta não deixa escapar nada, até da culinária chega algo que se aproveita de maneira mais instigante. Quer ver um trecho? Vamos lá:



“A comida, mais do que as especulações místicas, é uma maneira segura de se aproximar de um povo e de sua cultura. Já sinalei que muitos dos sabores da cozinha indiana são também os da mexicana. Contudo, há uma diferença essencial, não nos sabores senão na apresentação: a cozinha mexicana consiste em uma sucessão de pequenos pratos. Trata-se, provavelmente, de uma influência espanhola. Na cozinha europeia esta sucessão de pratos obedece a uma ordem muito precisa. É uma cozinha diacrônica, como disse Lévi-Strauss, na qual os guisados seguem um após o outro, numa espécie de marcha interrompida por breves pausas. É uma sucessão que evoca tanto o desfile militar como a procissão religiosa. O mesmo acontece com a teoria, no sentido filosófico da palavra. A cozinha europeia é uma demonstração. A cozinha mexicana obedece à mesma lógica, embora não com o mesmo rigor: é uma cozinha mestiça. Nela intervém outra estética: o contraste, por exemplo, entre o picante e o doce. É uma ordem violada ou pontuada por certo exotismo. Diferença radical: na Índia as diferentes iguarias juntam-se num único grande prato. Não há sucessão nem desfile, mas sim aglutinação e sobreposição de substâncias e de sabores: comida sincrônica. Fusão dos sabores, fusão dos tempos.”



Só mesmo uma pessoa muito culta e observadora é capaz de captar a essência de uma cultura, seu ethos, através de algo tão coloquial (em termos) quanto a cozinha de um povo. É um tema fascinante que merece abordagens muito mais profundas, mas não agora.

A comida - ou o ato de comer - tem uma relação muito íntima com o sexo: ambos tratam da gula, do prazer, dos excessos, tanto que o verbo comer se conjuga tanto na mesa quanto na alcova. Um dos aspectos marcantes da cultura indiana é justamente a união do sagrado com o profano e na literatura temos o Kama Sutra como exemplo mais lembrado, assim como os templos medievais de Khajuraho, das coisas mais impressionantes que um viajante não deveria deixar de conhecer antes de aposentar suas botas.



Vou me alongar um pouquinho nessa temática. Dom Octavio Paz também se estendeu no assunto, que me fez lembrar de antigas leituras sobre os cenobitas, João Cassiano e Santo Antão e seus padres do deserto, coisa fina que só mas que ninguém mais nos dias de hoje quer saber, além de mim e de dois ou três esquisitos que devem existir por aí. Retomando o foco, quando estudamos sobre a vida desses monges e monjas do passado distante (e olha lá, porque hoje virou tudo um carnaval), o que parece chamar nossa atenção não é o retiro e a vida isolada em comunidade, mas talvez a questão da vida celibatária.

Dom Octavio Paz nota que as divindades indianas possuem, como as gregas e as romanas, uma forte sexualidade. Entre seus poderes está um imenso poder genésico que os leva a copular com todos os gêneros de seres vivos e a produzir, sem cessar, novos indivíduos e espécies. Isso você já sabe, toda mitologia em algum momento tem lá seu tempero picante.



Em um dos livros sagrados da Índia, chamado Atharva Veda, que é donde Dom Octavio tirou as informações que você vai ler a seguir, existe uma explicação fascinante sobre o tema da castidade, que merece ser lida porque lança um olhar muito diferente daquele que se observa nas tradições religiosas ocidentais. Para ler com a mente aberta, por favor:

“O prazer sexual é, por si só, valioso. Para os hindus é uma das quatro finalidades do homem; para além de ser uma força cósmica, um dos agentes do movimento universal, o desejo (Kama) é também um deus, semelhante a Eros, dos gregos. Kama é um deus porque o desejo, em sua forma mais pura e ativa, é energia sagrada: movimenta a natureza inteira e os homens.



Nesta visão da sexualidade como energia cósmica e do corpo como reserva de energia criadora reside uma das causas, provavelmente a mais antiga, da abstinência sexual. O corpo, como a natureza inteira, é vida que produz vida: a semente fecunda a terra e o sêmen o ventre da mulher. O corpo humano não só entesoura a vida: transforma sua energia em pensamento e o pensamento em poder.

A castidade começou por ser uma prática dirigida a entesourar vida e energia vital. Foi uma receita de longevidade e, para alguns, de imortalidade. Esta ideia é um dos fundamentos da filosofia do Yoga e do tantrismo. É também parte central do taoísmo chinês. A vida é energia, poder físico e psíquico: o sexo é poder e poder fecundante que se multiplica; o corpo é uma fonte de sexualidade e, portanto, de energia; reter o sêmen (bidu, em sânscrito), guardá-lo e transformá-lo em energia psíquica, é apropriar-se de grandes poderes naturais e sobrenaturais (siddhi).



O mesmo acontece com o fluxo sexual feminino (rajas). Um texto tântrico diz: ‘o bidu é Shiva e as rajas são Shakti (a consorte feminina do deus), o sêmen é a lua e as rajas o sol...’. Por isso, ainda que o prazer (Kama) seja uma das finalidades do ser humano, o sábio o descarta e escolhe a via da abstinência e da meditação solitária. O prazer é desejável, mas finito; não nos salva da morte nem nos liberta das sucessivas reencarnações. A castidade nos dá poder para a grande batalha: romper a cadeia das transmigrações.”



Isso tudo só para mostrar como uma leitura puxa outra, como nos leva a fazer pontes, como nos faz viajar. Mas também quis com isso mostrar as possibilidades infinitas que se escondem nos relatos de viagem, tanto para quem escreve quanto para quem lê. Os vislumbres da Índia de Dom Octavio Paz fizeram-no desbravar territórios pouco explorados por quem visita a Índia, exceção feita aos que lá se dirigem para estudar suas tradições espirituais e religiosas.

É tudo muito bonito nessa obra de Dom Octavio, que fala pouco das viagens, em termos de deslocamento, mas que brilha como um cristal multifacetado quando discorre sobre a vida em suas múltiplas manifestações. É preciso reconhecer, e isso só com muita leitura, que grandes narrativas de viagem não têm necessariamente que tratar dos caminhos todo o tempo; a bem dizer, os textos que se prendem mais à estrada do que às pessoas - ou às relações interpessoais - são os que menos agregam conhecimento e no final da leitura o que sobra não ajuda muito a enriquecer o leitor, à parte a diversão e o prazer por ela proporcionados.

Para não terminar sem ao menos copiar um trechinho de uma cena de deambulação desse querido autor sábio-vagamundo, transcrevo uma bonita passagem que aparece no início da obra, um vislumbre da Índia, como escreveu o próprio autor:



“(...) a noite me atraía e decidi dar outro passeio pela grande avenida que margeia o cais, uma zona tranquila. No céu ardiam silenciosamente as estrelas. Sentei-me aos pés de uma grande árvore, estátua da noite, e tentei fazer um resumo do que havia visto, ouvido, cheirado e sentido: enjoo, horror, estupor, assombro, alegria, entusiasmo, náuseas, invencível atração. O que me atraía? Era difícil responder: Human kind cannot bear much reality. Sim, o excesso de realidade se transforma em irrealidade, mas essa irrealidade se havia convertido, para mim, em um súbito terraço desde o qual me projetava. Em direção a quê? Ao que se encontra além e que ainda não possui um nome...”


Vislumbres de la India. Octavio Paz. Ed. Austral. Barcelona, España, abril de 2012. 

3 comentários :

  1. Interessantíssima a comparação das cozinhas europeia e indiana!

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  2. Acabei de me deliciar tanto com texto do Otavio Paz como com o seu;agradeço a tua generosidade por dividir conosco.
    Que nosso bondoso Deus te abençõe e te faça feliz!

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