domingo, 17 de junho de 2012

O Livro dos Caminhos, by Phil Cousineau

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Li recentemente uma coletânea de textos de uma obra do Phil Cousineau, um autor de quem gosto muito, intitulada The Book of Roads. Trata-se de uma reunião de breves narrativas de viagem que o Phil, bom vagamundo, escreveu entre os anos 80 e 90 e que, acredito eu, não havia publicado até então em outro veículo.

A noção é a de que o moço recolheu suas cadernetas de viagem e foi assim, sem muito esforço, escolhendo aquilo que entrava ou não na coletânea. Hum, esse vai, esse não, aquele ali talvez... esse jamais... Será que poderia ser assim? Porque vou ser sincero, já li coisa bem melhor do Phil, viu seu Phil Cousineau? Mas nem tudo está perdido, porque aqui e ali, now and then, surge alguma coisa interessante. Como o texto que salvei para postar aqui no Odepórica, que fala de um devaneio do Phil em Atenas, esse sim cheio de poesia e encanto, como toda boa narrativa de viagem deve ser. Namastê!





Não há luar sobre a Acrópole esta noite. A luz débil e prateada de um holofote ilumina o Parthenon. Encontro-me no telhado de um hotel, depois de passar todo o dia explorando sítios arqueológicos. Uma chuva forte cai sobre mim, mas não irei me mover. Preciso olhar uma vez mais o emaranhado de andaimes e guindastes que se destacam na rotina diária de erguer e derrubar rochas fragmentadas.

Adoro esses lugares antigos quando eles estão desertos. Agora, na chuva cortante de outubro, o templo parece estar guardando um segredo majestoso. Tremendo por conta do vento invernal, mantenho meu foco nas engenhosas colunas em forma de cone. Minha mente não vagueia pelas estátuas de ouro e marfim de Phidias, os magníficos discursos de Péricles, ou as epifanias de Eurípides, mas por uma noite durante a Guerra da Independência de 1821.

A Acrópole foi tomada pelo exército otomano, mas eles estavam sitiados pela força grega. Com a munição chegando ao fim, os turcos começaram a demolir as colunas de mármores de mais de dois mil anos de idade no intento de extrair o chumbo que havia em seu interior. O céu da noite estava iluminado pelo fogo que alimentava as fornalhas de cal. Apavorados, os cidadãos de Atenas que viviam nas vielas labirínticas logo abaixo, despacharam um mensageiro. Eles sabiam que a vida seria insuportável sem aquelas colunas conectando o céu e a terra.

O mensageiro correu até a antiga estrada sinuosa rumo à Acrópole, e quando lá chegou, caiu prostrado em frente aos oficiais de comando. “Não toquem nas colunas”, implorou o homem, “Nós lhe daremos balas de canhão”.

Os fornos foram apagados.

A chuva cai sobre as colunas estriadas, salvas pelo amor insondável às velhas pedras e pelas histórias antigas nelas encerradas. Dou uma olhada nos telhados dos hotéis mais próximos e das casas ao redor. Eu não estou sozinho. Assim como eu, centenas de pessoas estão contemplando o efeito hipnótico da chuva e da luz sobre o templo de Atenas. Não consigo deixar de pensar: quais monumentos eu teria tanto pavor de perder ao ponto de entregar balas de canhão a um inimigo?

Não vejo sentido em pensar que há apenas pedras sem vida naquela colina – eu sei que não é isso. O pó daquele mármore estava em meus pulmões antes mesmo de eu nascer. Não preciso saber como.

É a beleza que molda nossos corações.





The Book of Roads. Phil Cousineau. Sisyphus Press, 2000.


2 comentários :

  1. Olá, P. Césare!
    Por acaso, realizando pesquisas sobre "Paul Théroux", acabei fazendo uma bela descoberta - o seu blog.
    Aliás, devo dizer que fiquei curioso com a terminologia "literatura odepórica". É engraçado e estranho como cada campo de conhecimento gera nomes e termos distintos para estudar fenômenos sociais semelhantes: sou formado, leciono e pesquiso turismo há anos, e nunca tinha ouvido uma menção a este termo, posso garantir que ele não frequenta as literaturas dos estudos turísticos! Neste sentido, o seu blog foi uma janela interessante, que me permitiu(permite) "espiar" reflexões de outros campos e ver como estes lançam um olhar sobre o objeto de pesquisa da minha área de formação - as viagens e o turismo.
    No mais, queria parabenizar pela forma como vc aborda os temas, achei muito bacana. Já li alguns posts e gostei muitíssimo. Aliás, este seu último, sobre Phil Cousineau, me fez pensar em um outro texto, agora de Freud, que ele menciona sua ida à Grécia e suas sensações (não me lembro agora o nome do texto!).
    Abraços, Humberto.

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    1. Salve, Humberto! Entendo bem sua surpresa quanto ao termo odepórico/a, que descobri por acaso num texto do Luigi Monga, autor de uma excelente produção acadêmica sobre narrativas de viagem (foi ele quem cunhou o vocábulo Odepórica). Ainda se usa pouco no Brasil, mas já aparecem artigos acadêmicos usando o termo - bem mais comum na Espanha e na Itália - é só questão de tempo para que se torne mais familiar por aqui. Quanto ao livro do Freud, acho que pode ser um chamado "As cidades de Freud", será? Está em minha lista de compras... Bueno, agradeço o seu apreço pelo blog, valeu mesmo. Dei uma navegada rápida pelo seu blog "Sobreraizeseasas" e me encantei. Seu texto "Quando estive em Moscou" merece ser lido e relido, parabéns! Vou acompanhá-lo de perto, keep on walkin'!

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