domingo, 29 de abril de 2012

Andares, by Hermann Hesse

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Diz o Paul Pitchford, renomado estudioso e autor de um magnífico tratado sobre cura e alimentação (Healing with whole foods) que o outono, de acordo com os princípios da medicina tradicional chinesa, é a estação da colheita, uma época para agrupar, recolher e juntar nossas partes em todos os níveis focando nosso interior; um período para coletar e armazenar combustível, alimentos e roupas adequados ao frio, uma época de estudo e planejamento para a quietude que se aproxima com a chegada do inverno.

Não é só na saúde que sentimos o efeito das estações do ano sobre nosso corpo; com a chegada do frio, dos dias mais curtos, sentimos necessidade de recolhimento, como escreve Paul Pitchford acima, e isso se reflete em todos os níveis: físico, mental e emocional.

Se o outono é a época do recolhimento, do olhar voltado para o interior, nada mais natural do que sentir-se atraído por leituras que auxiliem nesse processo. No meu caso, por exemplo, costumo reler algumas obras de conteúdo espiritualista, biografias de pessoas que admiro e poesia. Não me lembro de alguma vez ter em mãos minha preciosa pequena coleção de poemas do Fernando Pessoa num dia ensolarado de verão; para mim, a poesia pessoana pede a sobriedade e melancolia dos dias cinzentos e frios, leitura solitária e meditativa cujo prazer só conhece quem a ele se entrega.


Entretanto, devo confessar que sou um leitor muito limitado de poesia; tenho nessa arte dois ídolos, o português Fernando Pessoa e o brasileiro Paulo Leminski. Às vezes leio outros poetas, mas nenhum consegue fazer tanto a minha cabeça quanto esses dois malucos beleza acima citados.


Mas eis que surge um terceiro: Hermann Hesse, autor que já passeou por aqui mais de uma vez e que eu admiro muito. Não me lembrava: Hesse também foi poeta e descobri isso por mero acaso, quando dia desses entrei em um sebo e dei de cara com um livro dele intitulado Andares – Antologia poética. Uma baita alegria, fiquei tão absorto com a leitura, ali mesmo em pé dentro do sebo, que até me esqueci o que havia ido procurar.


Hermann Hesse foi um romancista muito voltado para as questões místicas, tendo levado para seus romances provavelmente muito daquilo que ele próprio buscava em vida. Não vejo mais ninguém usando - e isso deve ser influência de minhas leituras teosóficas – mas o termo “buscador” me parece muito apropriado para qualificar o tipo de homem que foi Hermann Hesse. Em um de seus poemas, intitulado Caminho interior, fica evidente a ligação de Hesse com a questão espiritual, presente em grande parte dos poemas que compõem essa coletânea:






Quem descobre o caminho interior,


quem na mais fervorosa introspecção


vislumbra o cerne da sabedoria,


passa a sentir Deus e o mundo


à sua imagem e semelhança:


para ele, cada ação ou pensamento


será um diálogo com a própria alma,


que a Deus e ao mundo em si mesma contém.




Os poemas de Herman Hesse levam-nos a refletir sobre a vida, a natureza e a morte, e sobretudo sobre a solidão; parecem querer mostrar, a cada instante, a finitude e brevidade da vida, conclamando o leitor a despertar para a única e verdadeira missão do ser humano, que é o encontro com sua natureza divina, aquilo que no Oriente é conhecido como auto-realização e que Jung denominou de (processo de) individuação.


Como entusiasta de tudo aquilo que se refere ao processo de transformação em deslocamentos, cujo arquétipo maior se encontra na figura do peregrino, recolhi três poemas desses Andares de Hermann Hesse para você, leitor/a do Odepórica, ler e se encantar. Palavra bonita essa: encantar, que por acaso aparece em um dos poemas que você irá ler a seguir e que diz assim: “dentro de cada começar mora um encanto”. Boa viagem.





A caminho do Oriente




A esmo por este mundo, desgarrado das Cruzadas,


muito irmão há de vagar pelos áridos desertos


dos números e das horas, a inquietar-se afastado


da alta meta pela qual combatera e padecera;
contudo, enquanto o chamusca a desértica solina,


tem sempre em vista as palmeiras da usa terra de sonho.




Dele assim perdido zombam sem piedade nenhuma


as crianças que se ajuntam nas urbes e nos mercados;


como a Menão, entretanto, a esse colosso em letargo


cada raio de arrebol faz novamente vibrar


- e ele, Dom Quixote, ri para o castelo encantado


na distância e para as fadas que embelezam o lugar.




E sempre, por toda parte, entre os gracejos da plebe


e o sangue dos mártires, algum rapaz aparece:


ergue para Dom Quixote o maravilhado olhar,


prosterna-se, presta a Deus o sagrado juramento


e, rumo ao Santo sepulcro, acompanha o peregrino.





O peregrino




Estive sempre em viagem,


peregrino sempre.


Pouco tratei de mim:


sorte e azar vão e vêm.




Desconhecidos o sentido e o objetivo


do meu peregrinar,


das mil vezes que caí


tornei a me levantar.




Ah, havia a estrela do amor,


de que eu andava atrás:


lá nas alturas posta,


santa e longe demais.




Antes de conhecer o objetivo,


andei à toa:


tive sublimes prazeres


e alguma coisa boa.




Agora, que mal entrevi a estrela,


é tão tarde, afinal:


ela se escondeu, já,


desaba o aguaceiro matinal.




Despede-se o variegado mundo


a que eu tão bem queria:


mesmo tendo perdido o objetivo,


a viagem valeu pela ousadia.





Andares


Como emurchece toda flor, e toda idade


juvenil cede à senil – cada andar da vida


floresce, qual a sabedoria e a virtude,


a seu tempo, e não há de durar para sempre.




A cada chamado da vida o coração


deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias, aberto sempre para novos compromissos.


Dentro de cada começar mora um encanto


que nos dá forças e nos ajuda a viver.




Devemos ir contente, de um lugar a outro,


sem apegar-nos a nenhum como a uma pátria:


não nos quer atados, o espírito do mundo


- quer que cresçamos, subindo andar por andar.




Mal a um tipo de vida nos acomodamos


e habituamos, cerca-nos o abatimento.


Só quem de dispõe a partir e a ir em frente


pode escapar à rotina paralisante.


É bem possível que a hora da morte ainda


de novos planos ponha-nos na direção:


para nós, não tem fim o chamado da vida...


Saúda, pois, e despede-te, coração!





Leia: Andares: antologia poética. Hermann Hesse. Editora Nova Fronteira. Tradução de Geir Campos.



7 comentários :

  1. Cara, tenho dificuldades com poesia. Mas Hesse tem a vantagem de conter o lirismo das poesias em forma de prosa. Ele faz bem a transição entre os dois tipos de escrita.

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    1. Pois é, 3F, acho que a dificuldade que temos com a poesia deve-se mais à falta de hábito e um pouco de disciplina, já que a leitura de um poema pede mais atenção, introspecção, silêncio... quanto ao Hesse, seus poemas parecem mais com prosa por conta da tradução, uma vez que as rimas praticamente se perdem na passagem do alemão para o português. Mas uma coisa é certa, toda a obra do Hesse traz esse lirismo que vc percebeu também nos poemas desse post. Namastê!

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  2. Caro P. Césare,

    Encontrei seu blog por um acaso e fiquei apaixonado por ele. Meus parabéns! Seu blog é fantástico! Me chamo Davi, sou jornalista e estou em Barcelona fazendo um Máster em Periodismo de Viajes. Assim como você sou apaixonado pelas viagens e pelo poder educacional e transformador proporcionado pelos deslocamentos. Assim como você, sou estudioso de literatura de viagens e tenho um blog de crônicas minhas, reflexões e fotos de viagens! Deixo dois textos meus para você:
    http://vousairparaveroceu.blogspot.com.es/2009/08/sob-o-ceu-enfarinhado-de-estrelas.html

    http://vousairparaveroceu.blogspot.com.es/2012/04/o-milagre-de-saint-michel.html

    um grande abraço e você já está na minha lista de favoritos e na indicação de blogs do meu blog.

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    1. Hey, Davi! Coisa boa o seu comentário, valeu! Acabei de passear pelo seu travel blog, li os dois textos que vc indicou acima e outros mais. Sua viagem pelo Saara é um sonho que um dia espero realizar...Seu blog já está marcado aqui também, como não poderia deixar de ser. Vi nos seus favoritos o link para o blog do Paco Nadal. Esse "tío" escreveu os primeiros guias sobre o Caminho de Santiago pela El País/Aguilar. Tenho muitos guias sobre o CS, mas o do Nadal sempre foi o meu preferido, uma pena que nas edições posteriores o texto tenha mudado, ganhou mais objetividade mas perdeu, infelizmente, em carga poética. Keep in touch! Abrazo peregrino, pc

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  3. Boa-noite,
    Acabei de ler o romance "O lobo da Estepe" (a respeito do título, eu gostaria que você me desse um esclarecimento:em francês a palavra "estepe " aparece traduzida no plural, qual é a tradução correta?), e poucas vezes li livro tão excepcional; a leitura me despertou, sem que fizesse força, as mais variadas emoções... assim, por exemplo, a passagem em que Harry revive seus amores de juventude é de uma pureza comovente; a parte em que, com seu amigo de infância Gustav, ele quer eliminar carros e pessoas que , segundo ele, estão em número excessivo no mundo chega a ser uma premonição do que acontece hoje; enfim, toda a parte do teatro mágico e seus espelhos é simplesmente algo sem igual.

    Abraço.

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    1. Escrevi o comentário acima, meu nome é Jean-Louis Buffet.

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    2. Olá Jean-Louis! Sabe que ainda não li o Lobo da estepe? Já o comprei, só estou aguardando um tempinho livre (ou talvez o momento certo) para lê-lo. Sei que vou me encantar, como sempre acontce comigo quando leio o Hesse. A respeito do título em francês, vejo que a diferença se dá por conta do tradutor; aqui, usamos no singular, os franceses seguiram literalmente o título do alemão: Steppen = estepes (em alemão o n indica plural) uma vez que o título original é "Der Steppenwolf" = lobo das estepes. Namastê!

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