domingo, 18 de março de 2012

Recordações e viagens, by Antero de Figueiredo

.
Uma das grandes qualidades do povo português é sem dúvida a disposição de sua gente para viajar. Li em um artigo de revista, não faz muito tempo, que os portugueses estão entre os povos que mais cruzam fronteiras. Não é de se estranhar tal afirmação, se levarmos em conta o histórico das grandes viagens de exploradores portugueses mundo afora - viagens estas que contribuíram para redesenhar o mapa do mundo em que hoje vivemos. E sso não é pouco.

Algo me diz que todo esse histórico de viagens e deslocamentos para fora da Península em que se encontra o povo português ajudou a formatar a personalidade de sua gente, originando daí, e desde então, o forte sentimento de saudade tão a eles associado. Essa é uma das características do ethos português que mais admiro, algo que torço profundamente para que não se perca com o andar da carruagem pós-moderna e líquida na qual todos estamos inevitavelmente inseridos.

Embora o ato de viajar esteja associado às melhores coisas da vida, há momentos em que a alegria do deslocamento dá lugar a sentimentos antagônicos a este sentimento: a dor da solidão e a melancolia da saudade e não é difícil encontrar quem nunca sentiu uma vontade louca de voltar o mais rápido possível para casa ainda no meio de uma viagem programada durante meses. Simplesmente acontece, faz parte do ritual.

Acabei de ler um livro muito antigo, de autoria de um viajante e escritor português há muito falecido. Seu nome é Antero de Figueiredo (1866, Coimbra -1953, Porto) e a obra que li intitula-se Recordações e Viagens, uma segunda edição portuguesa do ano de 1916. Rubricada pelo autor, se posso gabar-me.






Parece-me fascinante esticar o esqueleto na poltrona com uma obra centenária nas mãos e, por uma ou duas semanas, me transportar para o ambiente de um escritor e viajante bom de prosa e culto como foi D. Antero de Figueiredo. Como de praxe, como sói acontecer quando leio relatos de viagem antigos, foi possível encontrar muitas passagens das impressões de viagens de D. Antero em que podemos comprovar que certas coisas pouco ou nada mudam com o passar do tempo, principalmente aquelas relacionadas à personalidade humana, o que me leva a conjeturar que somos todos seres muito previsíveis...

Como bom português que foi, D. Antero perambulou bastante pelos países da Europa e ainda deu um pulinho nos Estados Unidos, porque português, para viajar de verdade, tem que atravessar pelo menos um oceano. Seu relato de viagem pelos States aparece lá no finalzinho do livro, num capítulo intitulado Páginas de um “Bloc-Notes” e a viagem pela “América” tem uma entrada bem blasé: “Passando por Washington”. Um barato o D. Antero, que a propósito teve ótimas sacadas sobre o povo de lá.





De todos os capítulos, um me chamou a atenção em particular, porque tenho especial apreço pelo tema: visitas a cemitérios. Como bom escorpiano que sou, esse ambiente sempre me causou fascínio, desde moleque. Nunca havia parado para pensar nisso, mas agora me vem claro à memória um fato interessante: em todas as minhas viagens eu acabo entrando em um ou mais cemitérios.

Gosto tanto dos famosos, para visitar túmulos de gente conhecida, como os pequeninos e abandonados, cuja presença mal se nota num canto de estrada ou na saída de um povoado qualquer. Houve ocasião, na Espanha, em que parei para comer um lanche no meio de um dia quente e nem percebi que havia escolhido como banco, sob uma árvore, a lápide de um velho túmulo aparentemente abandonado. Só me restou ler o nome do defunto e rezar pela sua alma uma ave-maria rápida, porém honesta, antes de tomar de volta o rumo da estrada.





Eu achei as observações cemiteriais de D. Antero muito cativantes, da mesma forma que gostei do seu relato de viagem à terra de São Francisco, em Assis. Os outros capítulos, devo confessar, não me entusiasmaram tanto, talvez por conta das inúmeras divagações pessoais que ganham mais destaque na narrativa do que os lugares por ele visitados, embora isso seja provavelmente comum aos relatos de viagem mais antigos. Também com isso aprendemos, quando for a nossa hora de escrever sobre nossas próprias impressões de viagem.

Você irá ler, portanto, o capítulo sobre os cemitérios que D. Antero de Figueiredo visitou em sua passagem pela Itália. Não se trata apenas da descrição de lápides e monumentos funerários, mas também de certos costumes que, já àquela época (comecinho do século passado), pareceram mórbidos ao olhar do viajante português, mas que não deixam de ser documento antropológico precioso para ajudar a compreender o fascinante comportamento do homem em sua relação com a morte e com o além. Ao final desse relato, transcrevi um Post-Scriptum muito interessante e que tem tudo a ver com o universo do Odepórica, no qual D. Antero responde à seguinte questão: O que é que fica do torvelinho das viagens? Leia que vale a pena. Namastê!


Três cemitérios italianos (Palermo, Pisa e Gênova)




Os cemitérios estrangeiros vêem-se sem nos doer. São lugares que se visitam como qualquer outra curiosidade: museus, palácios ou ruínas! Nas nossas terras, onde todos nos conhecemos, vivos e mortos, tais visitas são sempre tristes: voltamos de lá – dessa terra que nos espera – com tanto medo à morte como à vida!...

Na Itália, os cemitérios, no meio de relvados, de flores, de estátuas, de belos monumentos; fora das cidades, em campos cheios de sol e debaixo de um céu sempre azul; - são alegres, perfumados, e dá gosto andar por eles como em jardim. Mas esse, nos subterrâneos do convento dos capuchinhos, em Palermo, é pavoroso! Maupassant, viajando na Sicília, foi vê-lo, poucos anos antes de morrer; e nenhum daqueles seus nevrosados contos, já às portas da loucura, sem nenhum dos de Poë ou de Villiers de L’Isle-Adam, produzem o calafrio de terror que nos causa esse cemitério, cuja terra tem a trágica sofreguidão de devorar em alguns meses a carne que lhe põem! Tudo desaparece!




Então, a família do morto manda desenterrar o esqueleto, lava-o, articula-lhe os ossos ainda pendurados por ligamentos ressequidos, veste-lhe o último fato que em vivo usou, ou um simples hábito de frade, e dependura-o na parede da galeria, ao lado de outros, e assim o visita pelo ano adiante! Medonho!





Há viúvos que vestem o esqueleto das mulheres com os trajes brancos do noivado, pondo essas sedas e essas flores de frescura imaculada em cima de crânios esverdinhados pelas chagas da podridão! Há mães que vestem os filhos com as roupinhas que eles tinham quando lhes morreram; e nos ossos das mãozinhas põem-lhes os brinquedos com que eles mais gostavam de brincar!...





Não há pesadelo de nevropata comparável ao horror que se sente vendo as fisionomias dessas centenas de caveiras, umas torcendo-se em risos infinitos, outras ladrando pragas infernais; mas todas interrogando-nos violentamente com as covas negras dos seus olhos profundos! Foge-se apavorado!





O cemitério de Pisa produz impressão bem diversa. Chama-se ainda “Campo-Santo”, mas há séculos que se não sepulta aí ninguém; e as últimas trasladações fizeram-se há muito. Hoje, na terra desse claustro – terra santa que um bispo medieval mandou vir do Monte Calvário – cresce erva em paz e canta a roldana de um poço humilde tocado de sol. Aos lados, a toda a roda, sob arcadas de paredes cobertas de frescos desbotados, há a luz e o silêncio das naves góticas...






Mas quão diferente não seria há cinco ou seis séculos, quando era verdadeiramente um Campo-Santo! Então, à tristeza do lugar e da época, juntava-se o pavoroso sentido dessas trágicas pinturas murais, expressamente aí postas para mais entenebrecer as almas embiocadas num cristianismo taciturno, e confrangidas sob as servidões e preconceitos da Meia-Idade. Era terrificante a lição dos painéis! Se nas igrejas o povo estrebuchava ouvindo as descrições do inferno, feitas com apavorados exageros, o que não sentiria ao ver essas pinturas, onde o castigo eterno era mostrado em paroxismos de imaginação!





Todos os pecados e castigos aí figuravam. O diabo – esse vitorioso diabo medieval – por toda a parte espiona oportunidade de ilaquear as almas, na cela ou na tebaida. O nojo que elas lhe tinham levava-as a pintá-lo em fantasiosas formas de animais imundos; mas via-se que a mão do artista tremia ao desrespeitar tão alto poderio!... Por outro lado, nessas cenas de julgamentos finais, o juiz supremo, tonante como Júpiter, não era representado com menos paixão em sua cólera divina: o gesto com que expulsava os réprobos aterrava tanto como o rir do diabo a precipitar os condenados na dor infinita!






Entre estes dois temores vivia o espírito frágil dos crentes. Os padres clamavam estas tremendas ideias, e os pintores giotescos mostravam-nas ali naquele lugar já de si tão triste – tão apavorado do sentimento religioso nascido da ideia da morte!

O artista toscano desse tempo, sombrio e imaginoso, pintava os pesadelos que atormentavam sua ânsia de salvação. Outros eram inspirados por padres que se serviriam da pena de escritor submisso: muitos frescos são dissertações pintadas – panfletos da época. Eram pinturas de ideias, como um século depois, na Alemanha do sul, o foram os profundos desenhos de Dürer.



O cemitério de Gênova, como o de Milão, é uma galeria esculpida em mármore de famílias dos mortos. O italiano de hoje tem a vaidade de por a sua escultura num túmulo, como o alemão do tempo de Memling e de Holbein tinha a de ver o seu retrato num tríptico; mas ia melhor com a piedade esse retrato humilde e de mãos postas, do que vai com o pudor das dores intimas o mostrar cada um em público as lágrimas que chora por seus mortos!

Este assunto – esse luto – é tratado no cemitério de Gênova de mil maneiras diferentes; e se há formas originais, notáveis como pensamento e como arte, outras há – o maior número – vulgares, tresandando à endinheirada encomenda burguesa que impôs o seu mau gosto ao escultor, como, por exemplo, isso de reproduzir a cena dos últimos momentos do moribundo – o quarto da cama, a família e os criados com lágrimas nos olhos – tudo em tamanho natural e em belo mármore de Carrara, não faltando o pormenor do corte das unhas e do fio da fazenda!



Vários são assim; mas há um túmulo que impressiona vivamente: junto de um caixão, um austero frade capuchinho – velho de longas barbas e testa vincada – em pé, absorvido num livro de orações. É tudo; mas com que respeito nos aproximamos desse túmulo e nos pomos a falar baixo para não perturbar a reza do santo, que advoga no Infinito a causa daquela alma!...

Outro, e este todo delicadeza: de um sarcófago pende um medalhão com o busto, tamanho natural, de homem ainda novo. Junto, uma linda figura de mulher com uma criança ao colo – viúva e órfão – que veio visitar o seu morto; e enquanto, chorosa, alivia a sua dor na dor de pensar nele..., a criancinha, sorrindo, faz festas, com os deditos, na face do busto em que reconheceu o pai!





Se a saudade pelos mortos fosse em todos os túmulos tratada com tão comovido poder de arte como é nesse, seria bem impressionante andar pelo meio deles! Mas não é; e ainda bem, para que a nossa saudade se não rasgue na saudade dos outros!...

Post-Scriptum


O que é que fica, afinal, do rodopio das viagens? Os práticos tiram delas uma clara noção da vida, no que é trabalho e ganho, como não tinham antes de ver o mundo; as almas livres criam mais amor à liberdade, porque a viagem liberta; aos de mente pregueada de prejuízos de toda a espécie, a viagem areja e ensina como passear pela História; mas para os espíritos depressa saciáveis, e que tudo viram, fica o tédio que se segue à imprudência de realizar...

Felizmente, porém, os olhos destes viajantes andam tão vagos, e pousam, sem se apegar, a tanta coisa (que bem considerada daria para demorado gozo) que do muito que vêem pouco lhes fica, como pouco se retem do muito que se estuda. E esta lacuna é fermento bastante para novas ânsias; e dá o prazer esquisito de se amar o que se não viu pelo que viu...

De um país inteiro, fica uma cidade, fica uma aldeia; dessa aldeia, certa esquina de rua, certa igreja; da igreja, um canto de altar; de um quadro, uma figura, uma expressão, um gesto, e do gesto, às vezes, somente a alma de uma linha, a sugestão de uma cor.

Afinal, repito a pergunta: que é o que fica do torvelinho das viagens? Não atino com resposta que não seja esta: fica o que fica dessa outra viagem através da mocidade: saudade! Saudade que terá também a sua tarde poente, porque, com o decorrer do tempo que tudo desbota, um dia há de vir em que ela verá apagarem-se de todo as imagens, já de si tão dispersas, já de si tão afastadas, daquilo que foi o brilho e de que se enamorara. E, então, no crepúsculo derradeiro desse frio entardecer, sentirá a saudade das suas saudades!...



Leia: Recordações e viagens. Antero de Figueiredo. Livrarias Allaud & Bertrand. Lisboa, 1916. 2ª edição. Fácil de encontrar nos portais de Sebos virtuais.

Nenhum comentário :

Postar um comentário