sábado, 31 de março de 2012

Desiderata, by Max Ehrmann

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Todas as viagens são boas, e algumas mais especiais do que outras. Nem sempre sabemos explicar o motivo pelo qual somos mais tocados pelas lembranças de uma viagem enquanto outras simplesmente se apagam da memória sem nenhuma razão aparente. Não fossem as fotografias que tiramos, ou certos objetos que trazemos na volta a casa, uma pedra, uma conchinha roubada da praia, um seixo de rio, qualquer coisa simples e cheia de simbolismo que só você é capaz de compreender, provavelmente nenhuma lembrança restaria do evento. Mistérios da mente, vai saber.

No entanto, em se tratando de lembranças, há aquelas que carregaremos para sempre conosco, como que atreladas ao nosso DNA, grudadinhas nas células que formam nossa embalagem de carne e de ossos a que damos o nome de corpo.

Há alguns anos, depois de trabalhar por mais de uma década na mesma empresa, desliguei-me do quadro de funcionários e dei um tempo em tudo, uma espécie de ano sabático; no primeiro ano dediquei-me aos estudos de pós-graduação e no começo do ano seguinte, viajei para a Espanha na condição de vagamundo hospitaleiro.

Foram quase seis meses de trabalho voluntário, acolhendo peregrinos na rota francesa do Caminho de Santiago, a mais conhecida e percorrida desde sempre. Foi a experiência mais fascinante pela qual passei na vida, cheia de aprendizados e vários deslocamentos, muitas vezes sendo guiado pelo acaso até chegar a algum lugar onde pudesse passar a noite ou algumas semanas, dependendo das circunstâncias. Um dos lugares mais marcantes para mim foi a estadia no albergue de peregrinos de Grañón, um pequenino povoado distante poucos quilômetros de Santo Domingo de la Calzada, delimitando a províncias de Burgos e de La Rioja, terra dos bons vinhos.





Mas não pretendo escrever sobre Grañón, nem sobre a minha viagem daquele ano, que foi sem dúvida a que mais me transformou e é a que guardo com mais carinho e saudades. Apenas trouxe esse fato à lembrança para justificar o motivo que me leva a postar o poema que você lerá logo abaixo. Pois bem, estive mexendo com alguns papéis hoje e abri uma pasta onde guardo toda a papelada que carreguei comigo daquela viagem de seis meses pela Espanha. Há exatos nove anos eu me encontrava em Grañón, onde passei a Páscoa mais cristã de toda a minha vida, um acontecimento que um dia, quem sabe, irei escrever aqui no Odepórica.

Havia naquele albergue um quadro de avisos, daqueles com moldura de madeira e corpo de cortiça, que você já deve ter visto pendurado em algum lugar; nele, os peregrinos deixavam recados, escreviam passagens de textos bíblicos, anexavam desenhos, fotos, letras de canções (coisa que caminhante brasileiro adora fazer), receitas, piadas e, claro, poesias, como não?


O que eu achava muito especial, eu roubava na cara dura, sem remorso. Tenho esse defeito, mas só às vezes, de tomar para mim aquilo que (acredito piamente) mais ninguém saberá dar valor. Já sei que é errado, nem precisa me dizer o quanto, mas ninguém é mesmo perfeito. Bom, daí que, num desses afanos, trouxe um poema, xerocado, que achei lindo demais no momento em que o li e hoje, ao relê-lo, continuei achando-o belo e profundo. Por isso me deu vontade de transcrevê-lo aqui no blog, porque para mim sua leitura me traz conforto, paz e alegria, sentimentos bons de cultivar em época de Tempo Pascal. OM IACOBUS OM.




Siga tranqüilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio.


Tanto quanto possível sem humilhar-se, mantenha-se em harmonia com todos que o cercam.


Fale a sua verdade, clara e mansamente.


Escute a verdade dos outros, pois eles também têm a sua própria história.


Evite as pessoas agitadas e agressivas: elas afligem o nosso espírito.


Não se compare aos demais, olhando as pessoas como superiores ou inferiores a você: isso o tornaria superficial e amargo.


Viva intensamente os seus ideais e o que você já conseguiu realizar.


Mantenha o interesse no seu trabalho, por mais humilde que seja,ele é um verdadeiro tesouro na continua mudança dos tempos.


Seja prudente em tudo o que fizer, porque o mundo está cheio de armadilhas. Mas não fique cego para o bem que sempre existe.


Em toda parte, a vida está cheia de heroísmo. Seja você mesmo.


Sobretudo, não simule afeição e não transforme o amor numa brincadeira, pois, no meio de tanta aridez, ele é perene como a relva.


Aceite, com carinho, o conselho dos mais velhos e seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude.


Cultive a força do espírito e você estará preparado para enfrentar as surpresas da sorte adversa.


Não se desespere com perigos imaginários: muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão.


Ao lado de uma sadia disciplina conserve, para consigo mesmo, uma imensa bondade.


Você é filho do universo, irmão das estrelas e árvores, você merece estar aqui e, mesmo se você não pode perceber, a terra e o universo vão cumprindo o seu destino.


Procure, pois, estar em paz com Deus, seja qual for o nome que você lhe der.


No meio do seu trabalho e nas aspirações, na fatigante jornada pela vida, conserve, no mais profundo do seu ser, a harmonia e a paz.


Acima de toda mesquinhez, falsidade e desengano, o mundo ainda é bonito.Caminhe com cuidado, faça tudo para ser feliz e partilhe com os outros a sua felicidade".

DESIDERATA - Do Latim Desideratu: Aquilo que se deseja, aspiração.
Este texto foi encontrado na velha Igreja de Saint Paul, Baltimore. Foi citado no livro "Mensagens do Sanctum Celestial", do Fr. Raymond Bernard. O texto é de Max Ehrmannn e foi registrado pela primeira vez em 1927.


Versão do texto em inglês, em quadrinhos.





6 comentários :

  1. "muitos temores têm sua origem no cansaço e na solidão" --> Renato Russo usou essa frase em "Há Tempos" não é mesmo?
    Essa sua viagem à Espanha deve ter sido massa. Você já escreveu sobre ela aqui?

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  2. Hey, 3F! Pois é, ainda não escrevi e nem sei quando o farei, nunca achei que alguém se interessasse também... mas aos poucos vou pincelando passagens nos posts...Quanto à Legião, sem comentários, né? Brasil sem Renato e Cazuza ficou tão carente de poetas...

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  3. fala paulo, saudades daqueles dias caminhados na galizia!!!! To de molho com o joelho operado... Isso que eu e a clari iríamos fazer o caminho do norte em junho... Mas uma queda no monte roraima em fevereiro me partiu um ligamento. Estou sempre lendo o blog, que adoro e sempre nos lembramos de vc e daqueles dias maravilhosos que passamos juntos no caminho de satiago. Abraçao, Leo e Clari.

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  4. Puxa, Leo, eu vi uma foto no facebook mas pensei que fosse algo ocorrido no passado... espero que sua recuperação esteja evoluindo bem! Caminho do Norte? Lembra daquele peregrino que encontramos um dia, que vinha caminhando com o joelho estropeado? Fazia o Caminho do Norte, desde Oviedo. Camino duro. Eu também estive pensando em voltar agora em junho, mas posterguei para outubro a caminhada. Vou ver se consigo passar um final de semana no Rio prá ver você e Clarisa, prá botarmos os papos peregrinos em dia! Saudades, paulo

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  5. puxa vida meu amigo , vc tem que postar sim sua viagem a santiago e em capitulos porque um post somente nao vale viu?
    aguardo ansiosamente , abraços

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  6. Pois é cara, vale a pena escrever sobre sua viagem sim. Engraçado como nossa vida normalmente parece mais interessante aos olhos dos outros, do que para nós mesmos.

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