sábado, 25 de fevereiro de 2012

Viagens sonoras: os mantras de Krishna Das

.

Foi em um curso sobre orientalismo, ministrado pelo professor Wagner Borges no comecinho dos anos 1990, que ouvi pela primeira vez um mantra. Ouvimos vários, por sinal, já que faziam parte da prática do curso. Enquanto muitos dos participantes relatavam suas visões espirituais, narrando tudo o que haviam visto com seus terceiros olhos bem calibrados, eu ficava lá no meu cantinho no fundo da sala, um impotente psíquico que achava aquilo tudo uma piração. Tendo o terceiro olho míope, tive que apelar para outras habilidades extra-sensoriais. Foi aí que senti, pela primeira vez, a presença pulsante dos chakras e como usar as ferramentas necessárias para trabalhar com esses fantásticos centros de energia. A música, no caso os mantras, foram essas ferramentas, muletas providenciais que auxiliam o aspirante espiritual a percorrer sua jornada rumo à autorealização.



Tudo bem se você não acredita nisso, não tem importância alguma. Também não vou ficar escrevendo sobre isso num blog sobre literatura de viagem, mas comecei assim essa postagem para dizer de onde surgiu minha paixão pelos mantras. O Wagner, que é um cara muito bacana, sempre buscou dividir as coisas boas que caíam em suas mãos; apaixonado pelo Tangerine Dream, gravava fitas k7 com algumas faixas mais “viajantes” desse grupo de rock progressivo para o povo que freqüentava suas palestras usar como música de fundo para práticas meditativas e de visualização.

Numa das aulas, na fase 1 do curso de orientalismo, se a memória não me trai, ele apertou o play do gravador e a turma vibrou com o que ouviu: faixas de mantras arrebatadores, das canções de Robert Gass e On Wings of Song (lembro-me bem da faixa tocada: Hara Hara Gurudeva, linda) ao som etéreo de Singh Kaur e Kim Robertson (harpista) com seus clássicos volumes da série Crimson Collection... e tinha um cara com uma voz grave, profunda, cheia de poder, sem brincadeira, um canadense chamado Patrick Bernard, difícil de encontrar por aqui, que cantava uma música que me dava medo de ouvir no escuro do quarto, um som invocativo, precisa ouvir prá sacar o lance do cara.



Com o tempo fui deixando de ir às palestras, mas nunca deixei de buscar a boa música que conheci através do Wagner e dos programas da Mirna Grzich. Não consigo conceber a vida sem uma boa trilha sonora, você consegue? E aqui vou puxar o gancho para o que me trouxe à frente dessa tela de computador; enquanto lá fora o povo pula o carnaval ao som do samba, eu me isolo aqui e ouço ad infinitum, nesse feriado pagão, o novo álbum de estúdio do Krishna Das. Um dos melhores de toda a sua carreira, na minha modesta opinião, intitulado Heart as Wide as the World, “um coração tão grande quanto o mundo”, traduzindo.

O disco me empolgou muito, tanto que resolvi comprar a biografia do Krishna Das, “Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro” (no original, Chants for a Lifetime: Searching for a heart of gold). Se a sua cultura pop for boa, já deve ter sacado que o subtítulo faz referência a uma canção genial do mestre Neil Young, Heart of Gold, lindíssima e que começa assim: “I wanna live, I wanna give, I’ve been a miner for a heart of gold…” (Eu quero viver/ Eu quero doar/ Eu tenho cavado em busca de um coração de ouro...). (ouça clicando nesse link do
You Tube)

Essa referência rock’n roll tem a ver com a história de vida do Mr Das, nascido Jeffrey Kagel em 1947, nos Estados Unidos, filho de pais judeus. Diz ele que seu sonho quando jovem era o de tentar a carreira na música, de modo que aprendeu a tocar violão, imitando seus ídolos do blues e do folk. Nesse ponto não foi muito longe, mas em compensação o futuro lhe reservava muitas aventuras mundo afora – sendo a música, coisa boa, a mola propulsora de tudo o que viria a lhe acontecer.



Na época dos estudos universitários, super bicho-grilo, conheceu um conterrâneo que voltou transformado da Índia, como muitos malucos na segunda metade dos anos 60, mais velho que ele e que se tornou muito popular depois disso, Ram Dass seu nome iogue. Uma boa influência na vida do jovem Jeffrey, que não sossegou o facho enquanto não foi ele mesmo direto à fonte de todo aquele amor bhaktiniano.




Na primeira de suas inúmeras viagens ao subcontinente indiano, Krishna Dass (KD) esteve ao lado de seu guru por quase três anos. É de impressionar a relação guru-discípulo tal como relatada na biografia de KD; difícil, dificílimo de entender para um ocidental, mais ainda se este for um ser mais racional do que emocional. Questão de fé, entrega total, amor na mais alta expressão que um ser humano pode sentir por outro. Tipo de coisa que só se entende, provavelmente, se vivida na própria carne.

Eu estive na Índia há alguns anos e não cheguei nem perto de algum tipo de experiência numinosa, embora no fundo de minha alma achasse que numa esquina qualquer um velhinho encardido e iluminado fosse apontar para mim e dizer: venha! Que nada, a única vez em que alguém apontou para mim foi para rir da minha cara de ocidental perdido e atrapalhado no meio da multidão sem fim daquele país absurdo e frenético.

E não posso negar que daquela viagem nunca senti saudades, como senti de outros lugares que visitei na vida. Mas o tempo tem uma sabedoria só dele e a distância dos fatos faz com que enxerguemos muitas coisas de um ângulo diferente e, muitas vezes, surpreendente.

Hoje tenho guardado com carinho muitas cenas daquela viagem, e uma delas tem a ver com os mantras. Eu e meu amigo e companheiro de boas aventuras e perrengues, o Clélcio, fomos para o sul do país, numa cidadezinha chamada Puttaparthi, famosa sobretudo por abrigar o ashram (monastério) de um famoso guru, Sai Baba, falecido no ano passado.




Não éramos devotos, de modo que ficamos hospedados num hotelzinho do lado de fora do eremitério e participávamos de algumas poucas atividades, bem poucas por sinal; a multidão de pessoas presentes no ashram era algo assustador, nunca poderíamos imaginar. Participamos de dois ou três darshans, que é algo como ser abençoado somente por estar junto a um ser iluminado, um mahatma, caso de Sai Baba.

Não me senti melhor nem pior por estar perto do guru (bem, por perto entenda uns trezentos metros de distância e umas cinco mil cabeças à frente da sua...). Bem que tentei, meditei, aprumei a coluna, padmasanei, pranayamei, toda essa ioguice, mas nada. Ainda assim, àquela altura, tudo valia a pena.



Mas eis que, no finalzinho de nossa estadia, resolvemos um dia madrugar e saímos por volta das cinco horas da manhã do hotel, para participar de um puja, um ritual de louvor/oferenda, no eremitério. Foi aí que senti, provavelmente, o único momento de verdadeira paz espiritual na Índia. De um lado, homens, de outro, mulheres, todos vestindo branco, uma coisa linda; sentamo-nos no chão, guardando silêncio, cada um na sua e eu na minha, ainda sonolento.

Um som, que a princípio parecia um zumbido abafado e contínuo, começou a ficar mais alto e claro conforme um grupo de devotos que caminhava por detrás de um alojamento se dirigia em nossa direção. Não me lembro se havia homens entre as pessoas, pois minha lembrança é a de ver muitas senhoras indianas, com saris brancos, passando por nós, que continuávamos sentados, entoando mantras e tocando pequeninos instrumentos de percussão (manjirá), algumas levando lamparinas que iluminavam aqueles rostos morenos tão cheios de compaixão.



Uma cena que a gente revive na memória até começar a achar que nunca existiu, já passou por isso? Tudo bonito demais, uma harmonia mandálica que só poderia existir na imaginação de alguém, mas que por um acaso aconteceu comigo na Índia, onde tudo é Maya, ilusão, então tudo bem, somos todos um, let it flow, let it flow...

Deixando essas divagações de lado, volto ao Krishna Das, afinal foi ele quem me inspirou a escrever sobre os mantras. Se você não conhece o moço, vou logo avisando: ele é muito bom no que faz, mas não tem, musicalmente falando, uma voz bonita. Também não é um músico talentoso, faz lá o seu arroz com feijão direitinho e não sai disso. Entretanto, ele tem algo que poucos músicos têm: um carisma extraordinário.



Esse último álbum dele, por exemplo. Impossível ouvir qualquer uma das sete faixas sem cantar junto com ele, coisa que, aliás, faz parte da dinâmica de cantar mantras, que é a repetição do canto puxado pelo condutor (kirtan wala) quando a prática é feita em grupo. É gostoso prá caramba, tem que ver. O lance sempre começa meio tímido, meio baixinho, e depois, da metade para o final, parece que todo mundo fica meio doidinho, mas uma doideira de paz e de alegria, sensação gostosa de yoga, que é união... loucura tem tudo a ver, tantos foram os homens e mulheres, santos e santas, chamados loucos de Deus, veja só o Ramakrishna, a Teresa de Ávila... todos loucos, doidinhos de prazer, queimados pelo fogo do amor.






Já estou eu viajando de novo. Voltando, pois. Disse que gostei demais desse trabalho do KD, e acho que é porque ele nunca me pareceu tão solto numa gravação como nessa. Duas canções me pegaram na primeira audição: a faixa Narayana/ For your love, é uma delas. Sensacional, ele começa mantrando Narayana e sem que você se dê conta, ele entra com o clássico dos Yardbirds, For your love, que você acha que não conhece mas conhece sim. A letra é linda, veja só.

For your love...
I’d give the moon if it were mine to give
I’d give the stars and the sun for I live
To fill you with delight
I’d bring you diamonds bright
Don´t you think it would be excite
If I could dream of you tonight
For your love…




Uau, lindo demais, é preciso ouvir!
Ouça e seja feliz, e depois vá para a faixa 6, Sitaram, e se sentir vontade, e há de sentir, dance e gire feito sufi rodopiante, curta o momento, encontre o seu eixo, aquiete a mente, cante mantra...





Foi dessa maneira que KD encontrou o seu caminho, o sentido para a sua vida, cantando, mas fez isso como uma proposta de vida. Bonita é a passagem, no prefácio de sua biografia, que retrata esse comprometimento dele com sua missão, veja só:

Depois de quase três anos vivendo na Índia, na presença do meu guru, Neem Karoli Baba, ele me pediu para voltar para os Estados Unidos. Sentado ali na frente dele, naquela que seria a última vez que eu o veria, fiquei petrificado.

Quando fui embora do meu país, eu tinha deixado tudo para trás, até os meus jeans. Imaginei que ficaria na Índia para sempre. Agora ele estava me mandando de volta. Para onde eu vou? O que vou fazer? Fiquei pensando essas coisas, em pânico. Eu não queria perguntar a ele o que eu devia fazer quando voltasse, mas de repente soltei, angustiado: “Maharaj-ji! Como posso servira você nos Estados Unidos?”

Maharaj-ji olhou para mim, com desgosto fingido no rosto, e disse: “O quê? Se está perguntando como deve servir, então não serve. Faça o que você quiser”.

Com isso, minha mente entrou em turbilhão. Maharaj-ji deu risada e disse: “Então, como você vai me servir?” Minha cabeça estava vazia. Tinha chegado a hora de ir embora. Eu me levantei e atravessei o pátio. Olhei mais uma vez para ele, de longe, e me curvei. Ao fazer isso, ouvi a minha própria voz, vinda das profundezas do meu coração, dizendo: “Vou cantar para você nos Estados Unidos.”



Foi depois de ler essa passagem acima que resolvi comprar o livro do Krishna Das, porque percebi que não se tratava apenas da biografia de um cantor de mantras que eu admiro, mas sim da história da vida de uma pessoa que praticou aquilo que o satguru Joseph Campbell resumiu como o maior compromisso que alguém pode – e deve - assumir na vida: Follow your Bliss, siga a sua felicidade, corra atrás de sua benção.



Não pense que a vida de KD foi uma mar de lótus, que não foi. Para chegar onde queria, teve que enfrentar muitos obstáculos (depressão, drogas) e muitas dúvidas, você pode imaginar, na senda espiritual. Tudo isso faz parte da jornada do herói, continuando com a associação que fiz acima com o Campbell. Em um nível de compreensão mais amplo, o que se pode perceber hoje é que a postura adotada por Krishna Das, mantendo-se fiel à sua benção, não só foi bom para ele, mas também inspirou, continua inspirando, muitas pessoas que entram em contato com ele através de seu trabalho, que é a sua música. Cantando para o seu guru, Maharaj-ji, ele canta para todos nós, e sua felicidade, ou sua benção, é capaz de contagiar a quem dela se aproxima.




Cantar mantras me mantém aprumado. Faz com que eu retorne para aquele lugar interior profundo. Não faz diferença o número de pessoas que vêm cantar comigo, é sempre a mesma coisa. A todo lugar que vou, a família comparece. Nós cantamos e nós ajudamos uns aos outros a encontrar aquele lugar lá dentro que parece certo.

Minha experiência preferida com Maharaj-ji era quando eu ficava do lado ou atrás dele e podia observar o rosto das pessoas que se sentavam na frente dele. Era fantástico presenciar o peso da vida delas se desfazer e se suavizar na alegria incrível que se experimentava com ele. Testas franzidas se transformavam em sorrisos e lágrimas, em riso. Era a coisa mais linda de ver. Ao viajar por todos os lados e cantar hoje, eu revivo essa experiência, noite após noite. Eu me sinto como se estivesse sentado ali mais uma vez, observando a força e a doçura do amor de Maharaj-ji levar embora a tristeza da vida das pessoas que vêm para cantar. É exatamente a mesma coisa. Eu observo enquanto ele faz tudo.

Nesses momentos de “sanidade temporária”, meu coração não consegue conter minha gratidão por ser capaz de fazer o que eu faço. Nos meus sonhos mais loucos, eu nunca seria capaz de imaginar para mim uma vida com tanta graça divina e tantas bênçãos. Meus olhos chovem uma enxurrada de lágrimas, e eu me vejo sentado na frente de Maharaj-ji mais uma vez, como eu fazia quando estava com ele fisicamente. Eu volto para casa.


Leia: Cantar para viver: minha busca por um coração de ouro. Krishna Das. Realejo Edições, 2011.


Na vitrola: Heart as Wide as the World. Krishna Das em sua melhor forma. Jai Ram!


Site oficial do KD:
krishnadas.com

Nenhum comentário :

Postar um comentário