domingo, 5 de fevereiro de 2012

Literatura odepórica jacobea: Os 8 portais do Caminho, by Ricardo Mendes

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Retomando leituras jacobeas, entre elas as narrativas de viagem pelos caminhos de Santiago, tirei da prateleira um texto que considero dos melhores já escritos por peregrinos brasileiros: Santiago de Compostela – os 8 portais do Caminho. O autor, bom viajante, é também fotógrafo de profissão, Ricardo Mendes. Seu livro, um misto de fotografias em p&b e divagações sobre o Caminho, numa escrita leve e cheia de insights sobre a experiência do peregrinar, no mais amplo sentido do termo.

Os portais do título têm a ver com a maneira como o autor dividiu os capítulos, 8 no total, todos eles breves e de agradabilíssima leitura, que me lembram um pouco o estilo de escrita do Luiz Carlos Lisboa, já blogado por aqui; ambos têm em comum um profundo comprometimento com as coisas do espírito, com a Busca, termo que nos remete à obra do bem aventurado Paul Brunton, um grande sábio que em breve iremos conhecer melhor aqui no Odepórica.

Os portais são assim introduzidos ao leitor pelo Ricardo:

O Caminho é uma perfeita redução da linha da vida e, desde que estejamos abertos, nos deparamos com os principais temas de nossas vidas ao percorrê-lo. A aventura desta experiência é que no Caminho há pouco espaço para distrações. Telefonemas, televisão, jornais, trânsito, poluição e o stress urbano. Assim, os tais temas se apresentam em sua forma mais pura e essencial. Um sumo de fruta extraído por uma poderosa centrífuga. Cada um deles é um portal para a nossa evolução pessoal, e é preciso coragem e determinação para atravessá-los.

O amor, a fé, a compaixão e a gratidão são os sentimentos mais sublimes que o ser humano pode experimentar. São a base de nossa evolução espiritual. Os portais que se apresentam em nosso caminho são apenas possibilidades para irmos de encontro a esta sintonia maior. Alguns são despertados através da prática, outros partem da compreensão intelectual. Seja qual for o caminho escolhido, não existe outro rumo possível que não seja o do coração. Em algum momento da história da humanidade, é nele que todos vamos nos encontrar em uníssono.

Bonito isso, não? Os Portais vão aparecendo ao longo da obra separados por inúmeras fotografias que tentam a seu modo traduzir em imagem o sentimento da passagem lida anteriormente. Algumas são bárbaras, outras extremamente simples, como simples são as lições que vão sendo aprendidas durante a jornada. Eu gostei muito disso: não é um trabalho fotográfico de um profissional deslumbrado querendo mostrar técnica - ainda bem, porque senão o resultado seria totalmente contraditório com a proposta do autor.

Desse modo, entre clics, surgem os portais: Desapego, Limites e Expectativas, Presença, Desvios, Novas Experiências, Solidão, Intuição (a Verdade Interior), fechando com Bênçãos. Como você já percebeu, a pegada é bem espiritual, e como não deveria? O Caminho é propício a isso e que assim seja.


Transcreverei passagens do trabalho do Ricardo para você conhecer de perto o que tocou o coração desse peregrino enquanto perambulava lá pelos caminhos de Santiago. Verá que o moço tem uma cuca bem legal. Buen Camino!

Ouvindo o chamado

Ir de encontro ao Caminho é, antes de tudo, atender a um chamado. Um chamado que tanto pode surgir da falta de sintonia com a vida que se está levando, em seus inúmeros aspectos (trabalho, relacionamentos afetivos, rumos pessoais), quanto do desejo de aprofundar esta sintonia. Pode se manifestar através de uma ponta de curiosidade e levar anos até amadurecer e nos tirar da inércia. Pode parecer impossível ante o asfixiante emaranhado de compromissos inadiáveis que nos enredam. Pode ir e vir quando as coisas não vão bem, não importa.

Todos ouvimos em algum momento da vida. Para reconhecê-lo é preciso afastar o temor e deixar que se revele, que cresça ou evapore. Ao se manifestar, ele assume uma dimensão tao grande em nossas vidas que acaba sendo inócuo fazer-se de surdo. Mesmo sabendo que um sem-número de outras vozes surgirão para nos incentivar a esquecer daquele perigoso chamado do coração e nos enraizar onde já estamos fincados.

Não há voz mais poderosa do que a que vem do coração. Somente ela é capaz de nos fazer aglutinar coragem suficiente para enfrentar expectativas, tomar uma atitude inesperada, ininteligível e, à primeira vista, incoerente. Uma atitude que nos faça sentir vivos novamente. Mesmo que esta ousadia inexplicável seja a de dedicarmos uma parte de nossas férias a dar alguns passos em direção a nós mesmos.

Portal 1: Desapego





(...) Existe ainda um tipo de apego nem sempre relacionado aos bens materiais. Ele é invisível e está ligado a necessidades muito mais profundas e inconscientes: os hábitos. Mesmo bons hábitos (no sentido de que nos fazem bem) podem não ser tão saudáveis, dependendo do tipo de relação que estabelecemos com eles. Ler jornal pela manhã, por exemplo, é bom para nos manter atualizados. Nunca estar disponível para conversar com os filhos antes de ler o jornal matinal pode não ser bom para eles.

Na medida em que vão se enraizando, os hábitos tendem a engessar nossas atitudes e nos fazer escravos, tornando cada vez mais difícil abrir mão deles de uma hora para outra sem entrarmos em desespero. Neste sentido, o Caminho também pode funcionar muito bem como antídoto. Ele nos “obriga” à sua própria rotina, a estarmos presentes a cada passo, canalizando a atenção para o aqui e agora, ao fazê-lo, tomamos consciência de tudo o que é acessório e mecânico em nossas vidas e esta é a primeira etapa para realizarmos uma bela faxina, deixando para trás aquilo que não faz mais sentido, ou que na verdade nunca fez. Pode ser que custe um pouco, ou que não aconteça da primeira vez, mas pelo menos uma semente fica plantada. Na pior das hipóteses, adquirimos o hábito de caminhar, o que não é nada mal.


Portal 2: Limites e Expectativas






No Caminho os limites surgem das maneiras mais surpreendentes e sob as formas mais inusitadas. Lidar com eles pode ser muito revelador. São em geral situações muito simples, mas que trazem à tona a essência de muitas outras situações do cotidiano. Ao final de um dia de caminhada você pode ter percorrido 25 quilômetros sob um sol arrasador. Seus pés doem, a mochila pesa uma tonelada. Tudo o que precisa é de um banho reconfortante, um prato de comida e botar os pés pra cima. Na porta do refúgio, um aviso informa que novos peregrinos só serão admitidos dentro de 3 horas. A partir deste momento, um cardápio de possibilidades surge à sua frente.

Chutar a porta, sentar no bar mais próximo e aguardar, chorar, caminhar em volta em busca de atrações turísticas, atualizar o diário de viagem, continuar até o refúgio seguinte, procurar um hotel. Uma infinidade de atitudes que podem levá-lo a criar novas expectativas, novos limites, mas, principalmente, novos aprendizados. Se você se mostra indiferente ao aviso na porta pode estar precisando de mais energia em sua vida. Se chuta a porta e dá urros de raiva, talvez precise exercitar sua capacidade de improvisação. Ou, quem sabe, exatamente o contrário. Quem pode afirmar alguma coisa? Mais importante é ir se percebendo e entrando em contato com os mecanismos que orientam suas ações e reações ao longo da vida. E este é o primeiro passo para mudar alguma coisa com a qual você não esteja satisfeito.


Portal 3: Presença





Durante seis meses um rapaz viveu numa comunidade espiritual junto a seu mestre, num lugar paradisíaco. A rotina junto à natureza, a tranqüilidade e os ensinamentos que recebeu marcaram profundamente sua vida. Anos depois d éter deixado o convívio do mestre, recebeu a notícia de que também deixara a comunidade. Vivia agora numa grande cidade e cuidava de seu pai, gravemente doente.

Dias depois foi ao seu encontro. Ele agora morava bem no centro da cidade, ao lado de um mercado popular bastante barulhento. O coração do jovem rapaz se apertou ao ver o pequeno cômodo em que viviam. Foi recebido com alegria e somente após o jantar, quando o velho já adormecera, pode conversar com seu mestre. Assim que sentaram frente a frente, o rapaz perguntou:

Mestre, tive a sorte de poder viver a seu lado na comunidade um período maravilhoso, num lugar paradisíaco, onde aprendi lições que me acompanharão pela vida inteira. Lá presenciei o amor que entregavas a cada um que chegava, o carinho com que amassavas o pão e preparavas a comida, a simplicidade de teus ensinamentos. Custa-me acreditar no que vejo agora. Foste sacado daquele paraíso pela doença de teu pai e desde então vives num cômodo apertado e barulhento, onde mal entra a luz do sol. Consegues aqui também ser feliz?

O mestre sorriu, segurou as mãos dele entre as suas e disse olhando em seus olhos:

Não fui sacado daquele paraíso pela doença de meu pai, senão pelo amor que sinto por ele. E quanto à felicidade, aprendi que ela não depende de conforto ou de silêncio para se fazer presente. Para onde vou levo-a comigo embaixo de meus pés.


Portal 4: Desvios




(...) Mudar de vida muitas vezes pode significar nos aproximar de nós mesmos. A sensação de que exercemos pouco nossa individualidade é perfeitamente compreensível. Geralmente somos desestimulados a descobrir e desvendar as habilidades que somente nós trazemos, nossas verdadeiras impressões digitais. Neste sentido, caminhar por dias e dias ao ar livre, em contato com a natureza e pessoas desconhecidas de diversas origens, pode ser muito estimulante e revelador.

Nas condições naturais do Caminho, temos a chance de nos desnudar e entrar muito mais rapidamente em sintonia com o ser que realmente somos. E nada é tão capaz de deixar nossa essência emergir quanto nos despirmos das distrações. Feito este contato, tudo o que temos de fazer é cultivá-lo e fortalecê-lo. Assim, nos tornamos invencíveis.


Portal 5: Novas Experiências






(...) No Caminho, tudo o que se tem a fazer é caminhar, lavar roupa, comer, cuidar dos pés e dormir. Uma rotina muito mais simples do que aquela à qual estamos acostumados, sem a pressão d éter que ganhar a vida e pagar as contas. As paisagens são novas, dezenas de pessoas de diversas origens passam por nós. Por que então continuar a fazer tudo do mesmo jeito?

Depois de enfrentar tantos senões até por o pé no Caminho, por que não permanecer aberto a novas experiências? Não é necessário que seja algo muito revolucionário, nem é preciso fazer uma lista e programar tudo com antecedência. Basta deixar acontecer, perceber e mergulhar. Dizer não para algo a que você sempre diz sim, dizer sim para algo a que você sempre diz não.

Parece simples e realmente é. Minha primeira experiência nova no Caminho foi tirar uma soneca em plena trilha sob uma frondosa árvore, sem me preocupar por quanto tempo dormiria, se as formigas tomariam conta do meu saco de dormir ou se corria o risco de ser roubado. Foi delicioso, uma sensação de entrega como há muito não sentia.


Portal 6: Solidão






No Caminho pode-se escolher entre caminhar em grupo ou em sua própria companhia, variando muitas vezes durante o mesmo trecho. Durante minha caminhada preferi estar sozinho a maior parte do tempo para me conectar com o Caminho e ouvi-lo cada vez que me chamava a fotografar. Devo ter parecido antipático para alguns, apressadinho para outros. Queria apenas me concentrar no que estava fazendo. Muitas vezes usei o pretexto de parar para fotografar para interromper uma conversa aborrecida e estimular meu interlocutor a ir em frente.

Muita gente também não gosta de ficar a sós porque seus pensamentos incomodam. Que pensamentos são esses? Pensamentos são como pessoas e ninguém gosta de ficar fechado numa sala com alguém desagradável. A não ser que não seja preciso interagir com ela. Se é possível ler uma revista, ver televisão, enfim, distrair-se, tudo é tolerável. Sem distrações, nem pensar. Quando acumulamos questões em nossas vidas que não nos sentimos prontos para resolver, tornamo-nos viciados em distrações.

A própria companhia torna-se insuportável. Com o tempo, o sentimento de solidão se instala e as distrações precisam ser cada vez mais surpreendentes. Neste caso a solidão é uma saudade de si mesmo. De alguém que poderíamos ter sido. E que um dia ainda poderemos voltar a ser.


Portal 7: Intuição, a Verdade interior





(...) o Caminho é uma excelente oportunidade para retomarmos a prática de decisões mais intuitivas, menos racionais. Um jogo divertido, que pode começar com pequenas decisões mais intuitivas e ir aquecendo aos poucos. O que seu coração diz? Ficar nesta cidade ou caminhar até a próxima? Tomar banho e comer ou comer e depois tomar banho? Deixar para conhecer a cidade de manhã e partir ou sair com todo mundo bem cedinho? Nada impede, tudo apóia o que vem do coração. Ele nunca se engana, é legítimo. As decisões tomadas a partir dele vêm de um lugar invisível onde a única regra é a verdade sem partido, onde tudo é possível e apoiado pelas forças da natureza.


Portal 8: Bênçãos





No Caminho, por mais que isto pareça evidente, o mais importante é caminhar. Não é possível chegar a lugar algum sem fazê-lo. Caminhar, no entanto, é apenas um pretexto para que se possa apreciar e interagir com o Caminho. Receber o que el tem para dar. Deixar por lá o que não faz mais sentido carregar. Experimentar leveza. Voar, rir, correr, cantar, admirar a natureza. Desenvolver dentro de si um sentimento de gratidão por participar desta magnífica experiência de estar vivo neste momento. Aproveitar ao máximo o limite da impermanência. E por uma fração de tempo, sentir-se feliz.


Sobre o autor:



Ricardo Mendes é redator, fotógrafo, ator; desde 1985 estuda e pratica diversas técnicas de autoconhecimento, cura espiritual e alimentação naturista. Entre as tradições que mais fizeram sentido em sua vida estão a Meditação Transcendental, o Reiki, o Tai Chi Chuan, o Ayurveda, conhecimento milenar sobre a saúde, originário da Índia (Vedas), e a Medicina do Beija-Flor, um conjunto de práticas reunidas e desenvolvidas pelo xamã Foster Perry visando à cura espiritual. Seu trabalho pessoal na fotografia consiste na reinterpretação de lugares sagrados através da linguagem em preto e branco.


Leia: Santiago de Compostela – os 8 Portais do caminho. Ricardo Mendes. Axcel Books do Brasil Editora. Rio de Janeiro, 2002.



Se você gostou dessa obra, indicou um outro título do Ricardo Mendes que segue a mesma linha: Andando em Círculos: as pedras milenares e o Caminho da tríplice Espiral. Imperdível, agradará em cheio aqueles que se interessam pela Irlanda e Inglaterra com seus monumentos megalíticos cheios de mistérios e fascínio.



Na vitrola: O espírito da paz, gravado em 1994 pelos Madredeus. Simplesmente a melhor música e a melhor banda portuguesa de todos os tempos.





As fotos dessa postagem foram clicadas por mim na Galícia em maio e outubro de 2011. Liberadas para uso.

3 comentários :

  1. Adorei esse post, vou ver os livros sugeridos. Bia

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  2. Bom dia Ricardo,o sr Hector que mora em Pamplona está precisando contacta lo vc o encontra no face com o nome de Reynonavarra Wrc Sesé Makor,muito obrigado

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