sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Kerouaquianas: deixando o Desolation Peak

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Depois de 63 dias, Jack deixa o posto de vigia de incêndios no Desolation Peak, aliviado (um pouco mais iluminado?) por estar de volta ao mundo.




É engraçado como agora que chegou a hora (na atemporalidade) de deixar aquela odiada armadilha de rocha eu não tenho emoções, em vez de fazer uma oração humilde para o meu santuário enquanto ela desaparece serpenteando atrás das minhas costas arquejantes só o que eu digo é “Pfui – que bobagem” (sabendo que a montanha vai entender, o vazio) mas onde está a alegria? – a alegria que eu profetizei, de rochas novas nevadas reluzentes, e novas árvores sagradas estranhas e adoráveis flores ocultas ao lado da trilha feliz que faz a descida?




Em vez de tudo isso eu penso e mastigo cheio de ansiedade, e o fim do Starvation Ridge, logo que eu perco a casa de vista, as minhas coxas já estão bem cansadas e eu me sento para descansar e fumar – Bom, e eu olho, e lá está o Lago ainda tão distante quanto antes e a vista é quase a mesma, mas ah, o meu coração se contorce ao ver uma coisa – Deus fez com que uma nevoazinha fina cerúlea penetrasse como uma poeira inefável o espetáculo de uma nuvem matinal rósea do norte refletida no corpo azul do lago, e ela parece rosada, mas tão efêmera que quase nem vale a pena falar a respeito e assim tão evanescente a ponto de cutucar a mente do meu coração e me fazer pensar “Mas Deus fez esse pequenino mistério para eu ver” (e ninguém mais está lá para ver) –




A verdade de que é um mistério de partir o coração me fez perceber que é um jogo divino (para mim) e eu vejo o filme da realidade como um desaparecimento da visão numa poça de compreensão líquida e quase tenho vontade de chorar ao perceber “Eu amo Deus” – o caso amoroso que eu tive com Ele na Montanha – Me apaixonei por Deus – Não importa o que aconteça comigo durante a descida da trilha que vai me levar de volta ao mundo tudo vai estar bem porque eu sou Deus e eu estou fazendo tudo sozinho, quem mais?

Enquanto medito,
Eu sou Buda,
- Quem mais?


Anjos da Desolação. Jack Kerouac. L&PM, inverno de 2010.




Na vitrola: George Winston, arrasando no comecinho de carreira, Ballads and Blues, 1972.



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