quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Notas de viagem e escrita fragmentária, by Olivia Dresher

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Descobri por acaso um site muito interessante que trata de um gênero literário pouco explorado, a escrita fragmentária. Na realidade, creio que nem podemos classificar esse tipo de escrita (em inglês, “fragmentary writing”) como um gênero literário propriamente dito, mas uma escritora estadunidense de Seattle, Olivia Dresher, pensa diferente: para ela a escrita fragmentária é sim um gênero, por possuir características próprias que o diferencia de outros gêneros como o romance ou o conto.

Entendo bem a posição da Olivia Dresher, porque a mesma coisa aconteceu com o
Luigi Monga, que lutou pelo reconhecimento da literatura odepórica enquanto gênero literário, tirando-o do limbo dos subgêneros. A bem da verdade, o que importa? Quem quiser ficar discutindo essa questão, que aproveite, e quem quiser ficar do lado dos pequenos, que fique. Eu fico com eles, que além de tudo me parecem pessoas simpáticas e de alto astral.



Diz a Olivia Dresher (na foto acima, nos anos 70) que a literatura fragmentária é um gênero difícil de definir, porque ele dificilmente se encaixa em algumas das categorias tradicionais de literatura (romances, contos, memórias, etc.); para ela, esse tipo de escrita se apresenta quebrada de alguma maneira e não é trabalhada de modo a possuir um início, meio e fim distintos. Duas formas de escrita que são inerentemente fragmentárias são os diários/agendas/cadernos de notas e as cartas.

Uma das características da escrita fragmentária é que é possível pular um parágrafo ou algumas linhas e sentir-se imediatamente envolvido com a leitura; os trechos fragmentados podem permanecer isolados, separados uns dos outros, mantidos em aberto e incompletos, mas isso também faz parte do seu charme natural.

A Olivia se encantou tanto com esse gênero de escrita que fundou uma editora independente, a Impassio, voltada à publicação de uma variedade de escrita fragmentária com um grande mix de gêneros, com ênfase especial em diários, relatos, cadernos de notas, ficção, aforismos, fragmentos de ensaios, prosa poética, fragmentos filosóficos, todos eles contemplando diversas artes literárias, como o romance, o conto e a poesia.



Além de escritora e editora, Olivia Dresher é antologista, tendo publicado duas obras nesse campo: In pieces: an anthology of fragmentary writing e Darkness and Light: Private writing as Art. E como eu ia dizendo lá no primeiro parágrafo, a dama tem um site - na verdade uma revista online, a Fraglit - que vale muito a pena perder um par de horas navegando; teve vida breve, o que é uma pena, porque tinha um conteúdo bacaníssimo de textos fragmentários.

Tudo começou em 2007, com artigos datados do jeito que os ianques costumam fazer e eu adoro: Outono de 2007, Primavera de 2008 e assim sucessivamente, de estação em estação (inverno e verão de fora) até o outono de 2010. Foram sete números, cada um deles com vários colaboradores e colaboradoras, e cada edição com um tema norteando os trabalhos publicados. O primeiro deles, que é o que nos trouxe até aqui, foi dedicado aos “Fragmentos de Viagem”. Depois vieram nessa ordem: Meditações sobre o amor, Cadernos filosóficos, Fragmentos de poemas, Memórias persistentes, Micro ensaios e Solidão. Interessante que só. Vou lhe dar uma dica de amigão: se tiver que optar por ler apenas um dos textos dessa primeira edição sobre Viagens, vá direto ao artigo do Guy Gauthier, Travel Journals: A way of capturing the moment. Essencial.



Claro que não vou transcrever o material do número sobre viagens na íntegra, para isso você terá que ir direto à fonte, prestigiando o trabalho da Olivia porque ela merece, claro. Como sempre, deixo o link no finalzinho do post, prá facilitar as coisas prá você.

Escolhi publicar o texto assinado pela própria Olivia. São citações (travel quotes) sobre o ato (ou a arte) de viajar que têm a cara do Odepórica, como você poderá conferir agora mesmo. Pensando bem, muito do material que lemos aqui no blog se encaixa direitinho nesse gênero de escrita fragmentária. Tudo a ver, pois como bem lembra a Olivia, a viagem, em essência, é uma experiência fragmentária. Namastê!

Travel Quotes, by Olivia Dresher



Quanto mais eu viajo, mais eu me torno consciente do fato de que não me encaixo facilmente em qualquer lugar. É como estar com saudades de um lugar imaginário. (Rane Arroyo, 2003)



Não tenho a tendência de me preparar para conhecer um novo lugar lendo guias de viagem. Eu quero, sem aquele habitual senso de rapidez, ser surpreendida, ir me desdobrando durante o percurso... Viajar talvez seja como a arte: nutre as partes de nós das quais nem imaginávamos ansiar. O que eu experimentei na Escandinávia está além das palavras; eu a envolvi em torno de mim como um xale de lã bordado. (Deena Linett, 1998)



Quando estou viajando sozinho e sem obrigações, anonimamente e sem agenda pré-estabelecida, por uma cidade onde nunca havia estado, normalmente há um momento onde eu me desloco para “dentro” do lugar, que é como eu imagino que deve ser entrar em um espelho. Eu não estou mais no lugar, mas sou do lugar. Esse processo de mudar para dentro de um lugar geralmente ocorre simultaneamente ao movimento que faço para dentro de mim mesmo, de modo que eu deixo de me sentir impotente em um lugar estranho que é maior e mais misterioso do que a minha capacidade de contê-lo ou compreendê-lo, e passo a controlá-lo- eu estou nele e sou parte dele, e me movimento através dele seguindo o meu próprio ritmo. (Randy Roark, 2004)



26 de janeiro. Não era uma miragem. Nova Iorque é aqui; tudo é real. Rajadas de vento no céu azul, no ar úmido e suave, mais triunfante do que o traiçoeiro charme da noite... Eu estou aqui e Nova Iorque vai ser minha... Caminho pelas ruas nunca pisadas por mim, ruas onde minha vida ainda não foi esculpida, ruas sem o mínimo aroma do passado. Ninguém aqui está interessado com a minha presença; ainda sou um fantasma, e deslizo pela cidade sem incomodar ninguém. (Simone de Beauvoir, 1947)



O que dá valor à viagem é o medo. É o fato de que, num determinado momento, quando estamos bem longe do nosso país, somos tomados por um medo vago, e um desejo instintivo de voltar para a segurança dos velhos hábitos. É este o benefício mais óbvio das viagens. Naquele momento estamos febris, mas também muito abertos, de modo que o mais leve toque nos faz tremer nas profundezas de nosso ser. Deparamo-nos com uma cascata de luz e já não há eternidade. É por isso que não devemos dizer que viajamos por prazer; não existe prazer em viajar, e eu olho para isso mais como uma ocasião de um exame espiritual. (Albert Camus, from Notebooks 1935-1942)



Se você deseja viajar para longe e de maneira rápida, viaje leve. Deixe para trás as suas invejas, os seus ciúmes, sua incapacidade de perdoar, seus egoísmos e medos. Cesare Pavese (1908-1950)



Minha mãe havia morrido e no vazio que se seguiu, tudo o que eu queria era estar longe de casa. Viajar tem um poder de cura para mim, e busquei nisso a droga para meu processo de cura. Eu ansiava por um lugar distante e inacessível o suficiente que me obrigasse a manter ao máximo a concentração para sobreviver ao momento presente, com nada pendente para o futuro ou o passado. Escolhi o Tibete. Eu queria fuga e epifania; levei poeira e distração. No final, era quase tudo a mesma coisa, e me senti agradecida. (Catherine Watson, 1997)





Cada vez que viajo, cada vez que dirijo, cada vez que monto um cavalo, eu sinto que estou viajando. Não importa onde estou, ou para onde vou, mesmo que seja apenas um quilômetro de casa. Quando viajo sozinha, eu derreto. Meu eu se converte em um rio de percepção. (Olivia Dresher, 2007)

Visite o site:
fraglit.com

Para ir mais longe, indico a leitura de um artigo acadêmico que encontrei disponível na Web quando procurava informações sobre a literatura fragmentária. O paper, apresentado este ano num congresso da ABRALIC tem autoria de Mauro Marcelo Berté da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e intitula-se
“Da França ao Marrocos, da Irlanda à Itália, Barthes e Joyce em deslocamento”. É leitura acadêmica, escrita em academiquês, mas o tema é tão interessante que você até esquece desse detalhe. Nota dez pro Berté!

4 comentários :

  1. Albert Camus é o cara. Ainda não li um livro como "O primeiro homem" que desse uma sensação de nostalgia tão grande.

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  2. Concordo contigo. Por coincidência, estou lendo uma obra dele que não está entre as mais conhecidas mas que está me impressionando absurdamente (vou escrever sobre ela no próximo post). Aguarde!

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  3. Obrigado pelo 10!! só soube dele agora (2013)! M. Berté

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