sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Leitura essencial: O Tao da viagem, by Paul Theroux

.

Nas últimas décadas, dois termos de profunda significação filosófica e espiritual das religiões orientais, Zen e Tao, acabaram sendo banalizados pelo uso excessivo e vulgar em textos ocidentais que nada têm a ver com o real significado desses conceitos. Coisas de Nova Era, coisas de mercado também, porque o exótico é um produto que vende bem, e isso não vem de hoje.

Ainda assim, entre tantas bobagens, surgem obras que merecem nossa atenção, leituras e releituras que vão moldando nossas ideias e lapidam nossa postura em relação à vida. São obras que nos fazem refletir, textos aos quais retornamos quando precisamos “ouvir” palavras que aquietam a alma e aquecem o coração. Para mim, por exemplo, um bom haikai cumpre bem essa função, e às vezes três linhas dizem tudo o que um livro inteiro não consegue transmitir.



Minha última leitura poderia muito bem enquadrar-se naquele tipo de literatura mequetrefe escrita unicamente para engordar a conta bancária do escritor preguiçoso que se vale da fama do próprio nome para vender abobrinha a preço de caviar. Felizmente, não foi esse o caso.

Estou falando de um autor respeitadíssimo no meio da literatura odepórica, Paul Theroux, e a obra em questão tem um título muito sugestivo: The TAO of Travel: Enlightenments from Lives on the Road, que traduzo assim: O TAO da Viagem: Iluminações de Vidas na Estrada.




Por isso comecei esse post fazendo o comentário com uma pegada crítica em relação ao modismo do zen isso, zen aquilo, tao disso, tao daquilo, porque pode parecer que Theroux tenha se aproveitado dessa onda (nada inovadora) de orientalizar o título de uma obra para dar um aspecto mais “profundo” ao texto. Como se ele precisasse disso, tonto que fui ao pensar assim.

Então vamos entender o que o Tao tem a ver com a arte de viajar. Numa definição rapidinha e superficial, Tao significa “o caminho” ou “a senda”. Diz o Donald Watson em seu Dictionary of Mind and Spirit que o Tao é a maneira como o Universo funciona, o curso, a ordem na vida e a relação desta com a verdade eterna. O Tao é Absoluto, é o Vazio.
A sabedoria reside no fato de saber viver em conformidade com o Tao e em harmonia com ele através da observação e da aceitação das forças que regem o universo e do agir de maneira espontânea e intuitiva de acordo com elas. O modo de conquistar isso não se dá através do intelecto e da definição do conceito do Tao, mas sim da vida vivida com simplicidade e tranqüilidade.

Profundo, mas não tão difícil de compreender e com o Tao acontece a mesma coisa que costuma acontecer quando se fala do Zen: quanto mais se tenta explicar, mais se afasta do real significado da coisa. De modo que, numa interpretação mais despretensiosa, podemos entender o Tao como um caminho que leva à autorealização do ser através de uma postura simples diante da vida, buscando o equilíbrio e a harmonia nos pensamentos, nos sentimentos e nas ações.




O que Paul Theroux quis mostrar nessa obra aos seus leitores foi mais ou menos isso: se o Tao tem a ver com o curso da vida, também tem tudo a ver com a viagem, que há tempos simboliza a vida - e a morte, enquanto passagem de uma condição de existência a outra.

Mas não pense que ele vai para esse lado metafísico não, longe disso. Isso são lucubrações minhas e talvez reflitam apenas uma visão particular que pouco ou nada tem a ver com o pensamento do autor. Mais correto seria afirmar que Theroux tratou de compilar um apanhado de citações, suas e de outros escritores, sobre o tema da viagem com um verniz filosófico. E o resultado dessa miscelânea toda é de encher os olhos, incluindo até o acabamento do livro, no formato de um diário de viagem com capa de couro, gravação dourada e mapas coloridos. Belo que só.


São 27 capítulos, todos eles deliciosos de ler. Não espere encontrar textos longos, pois como eu já disse, a intenção de Theroux foi a de compilar passagens que celebram o ato de viajar. Alguns temas abordados nesses capítulos, para você ter uma ideia: Os prazeres das ferrovias, Quanto tempo o viajante passa viajando, As coisas que os viajantes carregam, Quando você é um estranho, Isso se resolve caminhando, Viagens imaginárias, Escritores e os lugares que eles nunca visitaram, As cinco epifanias da viagem... e por aí vai, um mais interessante que o outro. E entre um capítulo e outro, uma surpresa agradável: um perfil de escritores famosos e suas viagens, onde aparecem nomes bacanas como os de Paul Bowles, Freya Stark, Robert Louis Stevenson, Claude Lévi-Strauss entre outros.

Nas citações só gente de classe: Nabokov, Dickens, Thoreau, Rousseau, Mark Twain, Pico Iyer, Ernest Hemingway, Graham Greene, Bruce Chatwin, Jon Krakauer... mas fiquei desapontado com você, ô Mr. Theroux, só uma citaçãozinha tímida do Kerouac? Se eu fosse seu editor lhe dava um puxão de orelha, fala sério.



Dessa vez não irei copiar passagens da obra simplesmente porque seria impossível escolher uma dentre tantas. Preferi transcrever o prefácio do autor, de leitura breve e prazerosa, com aquele gostinho de quero mais, sabe como é? E lá embaixo de tudo, um presentinho: os dez tópicos com o essencial do Tao da viagem, capítulo que encerra a obra. Se você domina a língua inglesa, não perca tempo e encomende para ti um exemplar desse que já entrou para a minha lista de livros favoritos sobre relatos de viagem. Inspirador, no mínimo. Namastê!


Quando criança, ansiando sair de casa e ir para longe, a imagem que me vinha à mente era a de um vôo – meu pequeno eu correndo sozinho. A palavra “viajar” não me ocorria, nem mesmo a palavra “transformação”, que era meu inefável, embora permanente, desejo.

Eu queria encontrar um novo eu em um lugar distante, e novas coisas com as quais me ocupar. A importância de um lugar qualquer era algo que eu levava a sério. Um lugar qualquer era o local onde eu queria estar. Jovem demais para ir, eu li sobre esses lugares quaisquer, fantasiando a respeito da minha liberdade.



Os livros eram a minha estrada. E então, quando eu era velho o suficiente para partir, as estradas pelas quais viajei tornaram-se o tema obsessivo dos meus próprios livros. Eventualmente descobri que os viajantes mais apaixonados foram sempre leitores e escritores apaixonados. E foi assim que este livro surgiu.

O desejo de viajar me parece caracteristicamente humano: o desejo de se mover, de satisfazer sua curiosidade ou de se libertar de seus medos, de mudar as circunstâncias de sua vida, de ser um estrangeiro, de fazer um amigo, de conhecer uma paisagem exótica, de arriscar-se no desconhecido para testemunhar as conseqüências, trágicas ou cômicas, de pessoas possuídas por um narcisismo de pequenas diferenças.



Chekov disse, “Se você tem medo da solidão, não case.” Eu diria, se você tem medo da solidão, não viaje. A literatura de viagem mostra os efeitos do isolamento, ocasionalmente fúnebre, com mais frequência enriquecedor, às vezes inesperadamente espiritual.

Durante toda minha vida viageira me fizeram a pergunta simplista que me deixa louco: “Qual o seu livro de viagem predileto?”. Como responder a isso? Pois eu tenho estado na estrada por quase cinqüenta anos e tenho escrito sobre minhas viagens por mais de quarenta. Um dos primeiros livros que meu pai me leu na hora de dormir quando criança foi Donn Fendler: Lost on a Mountain in Maine.



Esse livro, publicado nos anos 30, descrevia como um garoto de doze anos havia sobrevivido oito dias no Monte Katahdin. Donn sofreu, mas conseguiu vencer as florestas do Maine. O livro me ensinou lições sobre sobrevivência no meio selvagem, incluindo uma regra básica: “Sempre siga um rio ou um riacho na direção do curso da água”. Desde então li muitos livros de viagem, e viajei para todos os continentes, exceto para a Antártica, tendo escrito oito livros e centenas de ensaios.





A narrativa de viagem é a mais antiga do mundo e começa com a história que o andarilho conta ao amigo em volta da fogueira após seu retorno de uma jornada. “Isso é o que eu vi” – notícias do mundo distante; o excêntrico, o estranho, o chocante, histórias de bestas ou de outros povos. “Eles são exatamente como nós!” ou “Eles não são iguais a nós!”

No curso de minha vida errante, o ato de viajar mudou, não só na questão da velocidade e da eficiência, mas por conta das circunstâncias do mundo – quase todo conectado e conhecido. Esse conceito de onisciência inspirado pela Internet produziu a ilusão arrogante de que o esforço físico da viagem é supérfluo.



Ainda há muitas partes do mundo que são desconhecidas e que valem a pena visitar, e houve um tempo em minhas viagens onde algumas partes do planeta ofereciam a qualquer viajante o excitamento de uma descoberta de um Colombo ou de um Robinson Crusoé.

Enquanto adulto viajando sozinho para lugares remotos e isolados, aprendi um grande negócio sobre o mundo e sobre mim mesmo: o estranhamento, a alegria, a liberação e a verdade sobre o viajar, o caminho da solidão – um problema estando em casa – é a condição imposta ao viajante.



Nos sonhos, para Freud, viajar simbolizava a morte – uma conclusão natural para ele (que sofria de Reiseangst - ansiedade de viajante), pois a viagem não deixa de ser um ensaio rumo ao desconhecido, podendo ser arriscada, até mesmo fatal. Freud tinha tanto medo de perder um trem que ele aparecia nas estações ferroviárias com duas horas de antecedência, e quando o trem aparecia na plataforma ele geralmente entrava em pânico. Em seus textos introdutórios de psicanálise escreveu que “a morte é representada nos sonhos pela partida, numa jornada de trem”.

Esse não é o meu caso; meus dias de viajante mais felizes foram passados sentado em trens. Algumas viagens são mais um incômodo do que uma dificuldade, mas viajar é sempre um desafio mental, e mesmo nas piores condições, viajar pode ser um caminho de iluminação.


Capítulo 27:
The Essential Tao of Travel


* Saia de casa
* Vá sozinho
* Viaje leve
* Leve um mapa
* Vá por terra
* Atravesse uma fronteira nacional
* Escreva um diário
* Leia um romance que nada tenha a ver com o lugar em que você se encontra
* Se tiver que levar um celular, evite usá-lo
* Faça um amigo

Leia: The Tao of Travel: enlightenments from lives on the road. Paul Theroux. Houghton Mifflin Harcourt. Boston/New York, 2011.


Página oficial do Mr Theroux:
http://www.paultheroux.com/

4 comentários :

  1. Opa, P. Césare.

    Mais uma vez obrigado por este post, meu caro.

    Eu não conhecia esse livro. Tá aí mais um que tenho ler.

    Sabe me dizer quanto está custando nas livrarias?


    Gassho!

    ResponderExcluir
  2. Salve, Edu! Olha, acabei de ver no site da Amazon que o livro baixou de US25 (o valor que eu paguei) para USD15, e tem até por USD9! Eu compro sempre lá, geralmente os usados que chegam sempre novinhos em folha. Vale a pena, nunca tive problemas com a Amazon. Namastê!

    ResponderExcluir
  3. Comprei hoje o Tao of Travel por causa da sua indicação e só o pouco que li na estação de trem já estou super feliz com minha nova aquisição. Comprei em uma livraria de Barcelona chamada Altair, que já é um dos meus lugares favoritos na cidade. é uma das maiores livrarias especializadas em viagens da europa. O unico ruim é que vc fica com vontade de comprar tudo ....

    abs e até a proxima

    ResponderExcluir
  4. Bacana, Davi. Vai gostar imenso do livro, sei disso. Quanto à livraria de BCN, a Altair, já pensou em escrever no blog um artigo sobre ela? Dá para explorar muita coisa num ambiente "tentador" como esse...Saludos desde Sampa!

    ResponderExcluir