sábado, 8 de outubro de 2011

Viagens, by Paul Bowles

.
Comprei um Kindle, o leitor de livros eletrônicos da Amazon e estou muito contente com o brinquedo. Baixei muitos títulos e me surpreendi com a quantidade de boas obras de literatura odepórica disponíveis gratuitamente na web. Veja alguns deles: Selections from Strabo (1893), Journal of a voyage to Brazil (Maria Graham, 1824), Travels with a Donkey in the Cevennes (Robert Louis Stevenson, 1914), The Traveller (Oliver Goldsmith, 1882), A little tour in France (Henry James, 1885) e Pictures of travel (Heirich Heines, 1882), só para citar alguns, todos em domínio público.

Também comprei alguns títulos, entre eles o último lançamento de um dos meus escritores mais queridos, Paul Bowles (1910-1999). A obra, ainda não lançada no Brasil, intitula-se Travels: collected writings, 1950-1993. Como o título indica, o livro é um apanhado de textos que Bowles publicou em jornais e revistas durante mais de quatro décadas.
São muitas as surpresas que encontramos nessa coletânea de textos de viagem do Bowles. A começar pela introdução, a cargo de ninguém menos do que Paul Theroux, um dos grandes da literatura odepórica contemporânea.

Além da introdução cativante de Theroux, ainda temos outras preciosidades que enriquecem a obra de um modo geral, não bastasse os textos preciosos do próprio autor. É o caso da cronologia no final da obra, escrita por Daniel Halpern, que teve o cuidado de enumerar os fatos mais marcantes da vida do escritor ano a ano, desde seu nascimento até seu suspiro final. Didático e preciso, como toda boa cronologia, deve ter dado um trabalho e tanto para o Mr Halpern.

Um capítulo que logo de cara me chamou a atenção foi o que faz referência a The Sheltering Sky, que está para Bowles assim como On the road para Kerouac: The Sky (O Céu). Foi o primeiro que li, logo depois da introdução. É um texto curto, retirado de uma obra de 1993, chamada Portraits Nudes Clouds que pelo que andei pesquisando foi editada por um artista e fotógrafo italiano chamado Vittorio Santoro juntamente com Bowles, sendo que um entrou com as imagens e o outro com os textos.
O céu sempre foi uma referência na obra de Paul Bowles, tocado que foi em vida pelas paisagens saarianas. E me pego agora, folheando novamente sua autobiografia, lendo uma passagem que grifei numa leitura anterior, em que Bowles fala justamente do céu:

No trem que partira de Chicago rumo ao Sudoeste eu via o céu tornando-se mais limpo e claro e sentia que mais uma vez a vida se abria para mim e ganhava sentido - uma sensação indefinida que tenho inexplicavelmente quando me dirijo a regiões desconhecidas.
E é interessante demais o excerto garimpado do livro de fotografias, tanto que não resisto em copiar um pedacinho dele aqui:

O ambiente de uma cena que testemunhamos na vida é determinado em grande medida pela luz projetada sobre nós a partir de cima. Como um mestre eletricista, o céu fornece uma variedade infinita de efeitos luminosos sobre nossas ações, ajudando a moldar até mesmo as emoções que as acompanham.
Há o lento escurecer do crepúsculo para a troca de intimidades, a luz do sol inundando uma manhã de primavera - um sentimento irracional de prazer, a escuridão da noite quando nenhuma luz cai do céu e cada um se torna vítima de suas próprias fantasias, o cinza, luz indiferente de um céu encoberto no verão, um estímulo à indolência.

O resto é ainda mais bonito, uma sucessão de insights lindos e poéticos que ganham nas mãos de Bowles uma dimensão quase espiritual. Como ele diz lá na frente, “é uma mera questão de observação, a performance vem do céu...”

E um bom viajante tem esse diferencial, o de saber observar tudo o que se encontra à sua volta, observar de maneira a entender o que acontece fora de si, para depois, contando com o referencial de suas próprias experiências de vida, construir os alicerces que formarão o ser em sua mais completa essência. Esse ponto jamais poderá ser alcançado por aqueles que viajam (em todas as acepções do termo) mantendo uma observação passiva sobre os acontecimentos que se desenrolam à sua frente.

Paul Bowles viajou muito, e suas andanças o levaram a diversas partes do mundo; deslocou-se com alguma frequência entre os Estados Unidos, a Europa e o norte da África, tendo vivido suas últimas cinco décadas de vida em Tânger, no Marrocos. Diz ele em sua autobiografia:
Não escolhi morar em Tânger para sempre; aconteceu. Pretendia fazer-lhe apenas uma breve visita e depois partir e continuar viajando indefinidamente. Fiquei com preguiça e adiei a partida. E um dia constatei, chocado, que não só o mundo tinha mais gente que pouco tempo antes, como também os hotéis eram menos bons, as viagens menos confortáveis e os lugares em geral muito menos bonitos. Depois disso, quando ia a algum canto, logo ansiava para voltar a Tânger. Assim, se estou aqui agora, é só porque ainda estava aqui quando percebi até que ponto o mundo piorara e me dei conta de que não queria mais viajar.

E grande parte desses deslocamentos de Paul Bowles pelo mundo aparece documentada de alguma maneira em Travels; a própria divisão dos capítulos já dá uma ideia da cronologia de suas viagens, contemplando diversas cidades e países: Fez, Paris, Tânger, Sri Lanka, Quênia, Cabo Verde, Portugal, Espanha, Tailândia..., só para citar algumas das localidades. Fotos aqui e ali ajudam a entrar ainda mais no clima enfeitiçante das viagens de Bowles. E o resto você só saberá mesmo ao ler a obra, torcendo para que ela seja publicada por aqui.
O editor da obra faz um lembrete importante: Bowles já havia publicado um livro com suas narrativas de viagem no ano de 1963, com o peculiar título Their heads are green and their hands are blue (literalmente, “Suas cabeças são verdes e suas mãos são azuis”), um apanhado de artigos publicados originalmente em revistas. A pequena nota editorial de Mark Ellingham termina lembrando que os diários de viagem de Paul Bowles foram uma amostra da grande qualidade literária de sua prosa, ganhando um papel de destaque em sua obra e em sua vida.

A seguir vou transcrever alguns trechos da introdução que Paul Theroux fez da coletânea Travels, de Paul Bowles.
O Paul Bowles estereotipado é um sujeito talentoso, enigmaticamente exilado, elegantemente vestido, com um cigarro entre os dedos, curtindo luxuriosamente o por do sol marroquino, ocasionalmente oferecendo suas ficções alarmantes e bem polidas a boa parte do mundo.

Esse retrato tem uma dose de verdade, mas há muito mais a saber sobre ele. Com certeza, Bowles tinha estilo, e um livro de sucesso. Mas um único livro, ainda que muito popular, dificilmente garante uma renda regular. E, afora a questão do dinheiro, a vida de Bowles era complicada emocionalmente, sexualmente, geograficamente e, sem dúvida, criativamente.

Um homem engenhoso – como costumam ser os exilados ou expatriados – Bowles teve muitas maneiras de expressar sua imaginação. Fez nome como compositor, escrevendo música para um grande número de filmes e peças de teatro. Foi um etnologista musical, um precursor em gravações de canções e melodias tradicionais de remotas vilas no Marrocos e no México.

Escreveu romances, contos e poemas, traduzindo textos do espanhol, do francês e do árabe, além de produzir mais de uma dúzia de livros com o contador de histórias marroquino, Mohammed Mrabet. De modo que o lânguido e desprestigiado estereótipo dá lugar a um homem muito ocupado, altamente produtivo, à beira de uma estafa.
(...) Foi um homem bonito e duro de impressionar; observador, solitário e que conhecia sua própria mente; seu espírito de aceitação, mesmo das fatalidades, fez dele um viajante ideal. Ele não era muito de gastronomia – como se vê em sua ficção, a comida repugnante (por exemplo, um ensopado de pele de coelho) lhe interessava mais do que a alta gastronomia.

Tinha paixão pelas paisagens e o efeito em que causavam no viajante... Era fascinado pelas ambientações celestes e se empolgava com o grotesco, onde quer que a deformidade pudesse ser encontrada. Desdenhava o progresso e a tecnologia, chamando certa vez a modernidade de “gangrena do século vinte”.

(...) Bowles teve a sorte de escrever em uma época em que as revistas de viagem ainda acolhiam bem ensaios longos e repletos de reflexão. Escreveu artigos para várias revistas de prestígio e foi publicado em diversas coletâneas de ensaios. Também escreveu um artigo para a revista Holiday sobre haxixe, outro de seus entusiasmos, lembrando que ele nunca deixou de ser um cara chapado.

Sabia bem o que curtia numa viagem, e também o que o aborrecia: “Se eu tiver que encarar a decisão de escolher entre visitar um circo e uma catedral, um café e um monumento público, uma festividade ou um museu, receio que normalmente eu optaria pelo circo, pelo café e pela festa”.

Não importa para quem ele está escrevendo, uma revista de viagem ou uma pomposa publicação trimestral, ele sempre soa feliz e frequentemente engraçado. (...) Sua rica vivência do mundo lhe capacitou a escrever sobre viagem, e um dos melhores ensaios de Travels, (“The Challenge to Identity”) faz uma análise da literatura de viagem:

O que é um livro de viagem? Para mim é a história daquilo que aconteceu a uma pessoa em um determinado lugar, e nada mais do que isso; sem conteúdo de informações sobre hotéis e estradas, listas de frases úteis, estatísticas ou dicas de vestimentas necessárias ao visitante. Pode ser que tais livros pertençam a uma categoria destinada à extinção. Espero que não, porque não há nada de que eu goste mais de ler do que um relato preciso de um escritor inteligente daquilo que aconteceu com ele distante de casa.
Assim que finalizei a leitura de Travels, voltei a ler a introdução de Paul Theroux e vi que ele escolheu passagens realmente significativas da obra, o que não é uma tarefa muito fácil porque estamos falando de um livro de 513 páginas com muitas informações dignas de serem lembradas em uma apresentação ou resenha.

Evidentemente isso é uma questão pessoal; no meu caso, selecionei tantas passagens da obra (e o Kindle facilita muito esse processo) que teria que escrever pelo menos uns três posts para poder contemplar a todas; procurando ser objetivo, selecionei dois momentos, os quais têm um peso fundamental na obra e vida de Bowles. Um fala do deserto, o outro de Fez, cidade marroquina por ele tão amada.
O deserto (e suas adjacências) sempre foi o grande personagem das obras de Bowles. Não é apenas um pano de fundo, como um local de grande efeito cênico. Se você leu (ou assistiu) O céu que nos protege, então sabe do que estou falando aqui, porque tudo o que acontece naquela trama não teria tamanha profundidade e efeito transformador nos personagens se estes não estivessem viajando pelo deserto.

É a velha noção, que Bowles soube captar tão bem em sua obra, de que somente a solidão pode te levar de encontro ao self. Solidão, claro, num duplo sentido: a física e a psíquica, de modo que a geografia acaba sendo um agente facilitador desse processo de transformação interior. Uma experiência para poucos, vale lembrar.
E há os que vivem voltando ao deserto, aficionados que são pelas solitárias rotas esquecidas pela civilização. Por que será? O que há de tão cativante nessas paragens tão cheias de dificuldades? Há muitas respostas e a de Bowles é a seguinte:

Quando um homem esteve no deserto e sobreviveu ao batismo da solidão ele não consegue mais se ajustar por si só; uma vez que ele esteve sob o feitiço da vasta, luminosa e silenciosa região, nenhum lugar será forte o suficiente para ele, nenhum outro ambiente poderá oferecer a sensação de suprema satisfação de existir em meio a algo que é absoluto. Ele voltará, seja o preço que for, porque o absoluto não tem preço.
O que mais me agradou em Travels foi poder encontrar numa única obra várias faces do pensamento de Bowles e perceber, através dos relatos de suas viagens ao longo de quarenta anos, que ele nunca se posicionou de maneira contraditória; sua identidade não mudou no meio do percurso e mesmo no final da vida seu texto continuou com a mesma força e carisma de sempre.

Gosto muito quando ele escreve sobre o comportamento humano dos marroquinos, de como escreve sobre Fez, cidade cujos habitantes não têm vergonha de seu hedonismo, como afirma Bowles, ele próprio um tremendo hedonista, traço de caráter também comum aos seus colegas da geração beat; Bowles foi amigo de Allen Ginsberg (que junto com Burroughs perambulou pelo Marrocos) que o incentivou a publicar, pela City Lights (a mítica editora de Lawrence Ferlinghetti) um livro sobre o uso do Kif, como a marijuana é chamada pelas bandas marroquinas. Em Travels, de lambuja, você encontra um capítulo falando disso, e a obra foi lançada mesmo, em 1967 com o título Book of Grass, ou “O Livro da Maconha”. Direto ao ponto.
Antes de encerrar, vamos ler mais um pouquinho do texto de Bowles, um trecho onde ele fala de Fez. Veja como é tocante a maneira como ele narra uma cena comum vivida por uma família em um parque; Bowles sempre soube captar a poesia das coisas mais simples, resultado do olhar treinado de anos de vagamundagem.
Fez não é uma cidade agrada a qualquer pessoa. Muitos viajantes têm uma reação negativa de suas vielas escuras e sinuosas, repletas de pessoas e animais. Qualquer um com tendência a claustrofobia a achará um pesadelo desordenado de túneis, passagens sem saída e paredes sem janelas.

Para absorver o fascínio desse lugar a pessoa teria que ser do tipo que gosta de se perder no meio de uma multidão e de ser levada por ela, não se importando para onde nem por quanto tempo; deve saber ficar relaxada com a ideia de encontrar-se só numa multidão sem poder contar com a ajuda de ninguém; deve saber encontrar prazer nas coisas bizarras e enxergar a beleza onde ela menos tenha chance de aparecer.
Não faz muito tempo, em uma de minhas caminhadas, deparei-me com uma família espalhada no meio de um gramado. Eles estavam sentados silenciosamente em seus tapetes de palha, mas algo em sua atitude coletiva me fez parar e observar mais atentamente.

Foi então que eu vi que, ao redor deles, num raio de talvez trinta metros, havia um círculo de gaiolas, cada qual suspensa por uma estaca fincada no chão. Havia pássaros em todas as gaiolas e eles estavam cantando.
A família inteira sentou-se ali alegremente, ouvindo o canto dos passarinhos. Assim como os habitantes dos centros urbanos carregam consigo seus rádios, eles levavam seus pássaros com eles desde a cidade, exclusivamente como entretenimento.

As mudanças trazidas nos últimos cinqüenta anos desde que vi Fez pela primeira vez são relativamente superficiais; nenhuma delas foi tão drástica a ponto de alterar essa imagem.
Sem dúvida Paul Bowles foi um ser humano singular, um homem que soube captar nuances da vida que pouquíssimos de nós teremos oportunidade ou ousadia de vivenciar. Outros tempos, podemos pensar, mas será mesmo que essa dinâmica de comportamento diante da vida depende desse fator?

De modo que, se a nós não surgiu a oportunidade das experiências desses grandes homens e mulheres, escritores e viajantes, ao menos temos seus testemunhos, que de certa maneira estão aí, indicando caminhos, plantando sementes, acendendo fagulhas. Daí para por os pés na estrada, basta um passo e um tanto de coragem.


Leia
: Travels – Collected Writings (1950-1993). Paul Bowles. Harper Collins Publishers, 2010.

Sobre o Céu que nos protege, a obra mais conhecida de Paul Bowles, já falamos aqui no Odepórica. Se lhe interessar, clique aqui.

5 comentários :

  1. Legal, não conheço os livros do Paul Bowles, mas pela passagem em que ele fala do "batismo da solidão" dá pra ver que o cara é bom.

    ResponderExcluir
  2. Bom, não, FFF. Ótimo! O Céu que nos protege é um bom começo à obra de PB. E o filme também não fica devendo nada ao livro. Altamente recomendado...

    ResponderExcluir
  3. Fantastico! Estou lendo Días y Viajesl :)

    "¿Qué es un libro de viajes? Yo diría que es el relato de lo que le ocurrió a una persona en determinado lugar,y nada más que eso;no contiene información acerca de hoteles y carreteras, ni listas de frases útiles, estadísticas o sugerencias acerca de la clase de ropa que el visitante podría necesitar.Es posible que tales libros estén condenados a la extinción. Espero que no, porque no hay nada que yo disfrute más que leer el relato de un escritor inteligente acerca de lo que le ocurrió lejos de casa."

    Gênio!

    ResponderExcluir
  4. Muitíssimo bom!
    Eu estou aqui!:"Quando um homem esteve no deserto e sobreviveu ao batismo da solidão ele não consegue mais se ajustar por si só; uma vez que ele esteve sob o feitiço da vasta, luminosa e silenciosa região, nenhum lugar será forte o suficiente para ele, nenhum outro ambiente poderá oferecer a sensação de suprema satisfação de existir em meio a algo que é absoluto. Ele voltará, seja o preço que for, porque o absoluto não tem preço."
    E todos nós estamos aqui!:
    "Non somos senón peregrinos de viaxe; a nosa patria é o ceo".

    San Caetán de Thiene

    ResponderExcluir
  5. Adorei, Tula. Vou copiar lá para a seção de divagações deambulatórias. Namastê!

    ResponderExcluir