domingo, 18 de setembro de 2011

A viagem de Rudyard Kipling ao Brasil

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Gosto muito de ler os relatos de viagem de autores estrangeiros que visitam o Brasil. Já postei alguns deles aqui no Odepórica e tenho pelo menos uma dezena de obras por ler que contemplam esses olhares alheios sobre Pindorama. Minha última leitura foi As Crônicas do Brasil, de um escritor com nome de gente bem nascida, Rudyard Kipling.

Rudyard é de origem inglesa, embora tenha nascido em Bombay, na Índia, no ano de 1865 e antes mesmo de largar as fraldas sua família o levou para a Inglaterra. Ficaram pouco tempo na terra da rainha e logo retornaram à Índia, tendo o pequeno Rudy apenas três anos.
Vamos pular a fase chata da adolescência. Agora estamos falando de um Rudyard de 24 anos, portanto um homem feito àquela época, em 1889, quando deixa a Índia para ir trabalhar como correspondente de um jornal importante daquele país, The Pioneer.
E você sabe, correspondente internacional viaja como ninguém, não é mesmo? Vida boa. Nessa época ele visita Burma (atual Myanmar), Singapura, Hong Kong, o Cantão(Guangzhou), o Japão e os Estados Unidos. Nada mal para quem estava começando a carreira.

Parar, para o Rudy, nem pensar. Em 1891 pica a mula para a África do Sul, a Austrália e a Nova Zelândia. Nesse tempo começa a escrever romances e poesias (foi um poeta respeitado o moço) e em 1894 publica The Jungle Book, traduzido no Brasil como O Livro da Selva. Mesmo que você não o tenha lido, saberá identificar pelo menos um personagem importante dessa obra: Mowgli. Virou desenho da Disney em 1967, lembra dele? Foi um sucesso, o tal menino-lobo da floresta. Eu detestava o Mogli do gibi, porque me achavam parecido com ele quando menino. E até que era mesmo.
Mas voltemos à vida do Rudy, que é o que interessa. Em 1907 ele deve ter ficado muito feliz, porque foi esse o ano em que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, e coisa melhor para um escritor não há. Duas décadas depois, mesmo com problemas sérios de saúde, toma um navio e viaja por dois longos anos para a região dos Trópicos. Chega ao Brasil em 1927 e fica por aqui um período de cinco semanas, o suficiente para escrever um relato de viagem cheio de informações pitorescas sobre o nosso país.
Além do Livro da Selva (dois volumes), leitura popular ainda hoje em muitos países, Kipling deixou outra obra muito aclamada e tida como sua melhor produção literária, Kim, escrita em 1901 e que relata as aventuras de um inglesinho órfão entre os povos e os costumes da Índia.

E embora respeitado, laureado com um Nobel e tudo (foi o primeiro inglês a receber o prêmio), Rudyard Kipling foi muito criticado por conta de suas convicções no tocante à posição favorável que adotou em relação ao imperialismo britânico, o qual foi considerado um porta-voz. Você pode imaginar, realmente não pegava bem enaltecer a presença civilizadora dos ingleses na Índia - nem lá nem em lugar algum, by the way.
Enfim, cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, como diz a canção, não é mesmo? Nosso lance aqui é apreciar o que o Kipling tem prá dizer sobre o Brasil lá do final dos anos vinte; que será que aconteceu naqueles dias? Será que o moço curtiu a viagem? Aparentemente sim, isso se nota na sua narrativa, que não é muito longa não, pouco mais de sessenta páginas.

A obra que lançaram aqui veio naquela onda de edição bilíngue - uma tentativa de dar mais volume ao opúsculo, será? Pode ser, mas ficou legal e o preço compensa, então a gente não reclama.
São sete os capítulos que compõem as crônicas e cada um deles é precedido de poemas curtos. Curtos, e me perdoe o Rudyard, muito chatinhos. Não consegui gostar de nenhum, mas vamos dar um crédito ao colega, pode ser que tenham perdido o encanto ao serem traduzidos, vai ver foi isso.

E o livro começa de um jeitinho gostoso que só, veja as primeiras linhas do capítulo I, A Busca pela Beleza: A Viagem ao Exterior:

Certa vez, em um sonho infantil, perambulei até o fim do mundo e encontrei coisas muito distintas de tudo o que aprendera; como apenas as crianças e os povos antigos querem que sejam. Agora o sonho se tornou realidade.
O autor encontra-se em um navio a vapor sul-americano, tendo partido do cais de Southampton e desde a saída, diz ele, as perguntas começam a ser respondidas em português e espanhol, línguas francas das conversas dali em diante.

A ocupação de Rudyard, naquela viagem, era a busca pela Beleza, que ele grafa assim mesmo, com letra maiúscula. Não lhe interessava a arquitetura e as construções locais, seu lance foi curtir as belezas naturais - coisa que um país como o Brasil tem de sobra (se hoje ainda é lindo, mal podemos imaginar como devia ser um século atrás).
A primeira terra avistada: Recife. “Era Pernambuco abrindo outro dia precioso”, relata. E depois prossegue:

(...) barcos atracados bordo-a-bordo, onde homens vendiam mangas rosas e douradas, periquitos verdes, cada mancha e clarão de cores definidas como um trabalho esmaltado (...) Por trás havia a praia, com palmeiras e bananas legítimas, praticamente imutáveis, e indícios de vilarejos em um promontório arborizado que avançava pelo mar turquesa.

Não se demora em Recife e logo o navio parte em direção à Bahia, “a Cidade-Mãe – o coração de toda a energia ardente do nascimento do Brasil.” Sobre a Bahia, que parece o haver encantado, diz o seguinte:

Aqui se encontram pratos e iguarias do antigo regime – maravilhosas confecções, na maioria derivadas do “azeite de dendê”; frutas e bebidas com suco de frutas; cores exuberantes, verdes, vermelhos, amarelos, como os da touca de uma negra; um brilho e resplendor que dominam, mas não ofendem; e o disciplinado revezamento das brisas da terra e do mar.
Tem razão, a Bahia é mesmo tudo de bom, e o Kipling que não é bobo nem nada deve ter sabido aproveitar cada momento. E da Bahia o navio o leva à Guanabara e o sortudo viajante chega ao Rio de Janeiro às vésperas do carnaval. É até engraçado, o autor se surpreende com as pessoas em Copacabana, onde carros passavam com gente fantasiada, alegre e cantante. “Isso é porque o Carnaval é daqui a uma semana. Eles estão se preparando para isso”, observa, talvez com um misto de surpresa e leve entusiasmo.
No Rio tudo é novidade para o viajante inglês; o ritmo da vida que se desenrola logo cedo em frente ao Copacabana Palace, “um hotel de mármore de frente para as águas serenas”; um carioca pilotando uma motocicleta em trajes de banho; a realização de um sonho de infância, tão simples que emociona, que era o de poder ver, em seu habitat, a flor da vitória-régia. Seu desejo é realizado no parágrafo em que se propõe a descrever as maravilhas do Jardim Botânico. Tão lindo que até ficamos com vontade de pegar o primeiro vôo em direção ao Rio, o que nunca é uma má ideia.
Do Rio de Janeiro Kipling segue para Sampa. Olha só como ele começa descrevendo a cidade, lembrando que estamos viajando no ano de 1927: “uma cidadezinha, a trezentos quilômetros da costa, com novecentas mil pessoas, chamada São Paulo, onde, entre outras coisas, existe uma fábrica poderosa e eficiente relatada como ‘vale muito a pena ver’.”
Pois se ele visse no que se transformou a cidadezinha garoenta... um barato ler essa passagem! E é na Paulicéia que o Rudy passa a maior parte de sua viagem, justo a cidadezinha menos provida de belezas naturais, quando comparada às outras visitadas antes. Mas viajante bom é aquele que sabe apreciar qualquer tipo de cenário, e nisso o Kipling era um expert, homem já muito viajado àquela altura da vida.

A saída do Rio pelo mar é lembrada de forma poética, quase lírica, e tanto nessa passagem quanto em outras que virão adiante percebe-se que Kipling procurou narrar os fatos observados em seus deslocamentos com esmero literário, não dedicando-se apenas a colocar no papel impressões apressadas e descuidadas, próprias de diários de viagem que jamais serão lidos por alguém que não o próprio viajante. Veja um exemplo:
Embarcamos no nosso vapor ao entardecer, quando a cidade estava iluminada. O prodígio de suas luzes iniciou assim que deixamos o cais, diante do centro da cidade. Voou como uma flecha, criando anéis preciosos ao longo dos recortes à beira da praia, e diamantes opacos nas altitudes atrás; cessou por alguns instantes, como um colar partido, enquanto contornávamos um promontório, e tomou fôlego no tríplice esplendor da praia de Copacabana (...) Terminou diante da costa, sob as montanhas mais próximas, delineadas sob a névoa líquida que pairava sobre locais ocultos da cidade coroada. Quando, por fim, o espetáculo terminou, era como se tivéssemos visto Balkis cerrar a cortina depois de admirar os tesouros do rei Salomão.

A chegada a São Paulo se dá pelo porto de Santos, “sob o olhar atrevido do céu da África Ocidental”, tal como se lê no texto. No primeiro capítulo, dos quatro dedicados a Sampa, Kipling gasta muitas linhas descrevendo o sistema de distribuição de energia da cidade, o tipo de assunto que não me prende a atenção. Passo.
O capítulo seguinte é bem mais interessante: Visita a uma moderna fazenda de serpentes. Bom, se você é paulistano, já sabe: o autor refere-se ao Instituto Butantã. Se você nunca visitou o local, depois de ler as impressões de Kipling aposto que ficaria com vontade de dar uma passadinha por lá, mesmo não sendo muito fã dos bichos nojentos e peçonhentos ali abrigados. E diz o Kipling que as tarântulas “são visivelmente uma criação do Demônio”. Também acho.
No capítulo seguinte ao da passagem pelo Butantã, vamos ler sobre a São Paulo do Pós-Guerra, com notas sobre uma Fazenda de Café. E o Rudy gostou do que viu e do que provou: “Desse café, basta dizer que descobri nunca ter provado café antes. Pode-se beber a substância mágica em grandes xícaras, cada uma melhor que a anterior, e ter um sono abençoado mais tarde.” Só achei esquisito esse finalzinho, porque até onde se sabe café e sono não são lá grandes aliados. Vai saber.
Outra passagem relevante, sob um ponto de vista histórico, é o capítulo em que Rudyard escreve sobre a construção da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí, a antiga San Paulo (Brazilian) Railway Company, companhia formada pelo Barão de Mauá com a participação de investidores ingleses. Amantes dos trilhos irão gostar, já que o autor não economizou nos detalhes.
O epílogo dessa narrativa não poderia ser mais original: o carnaval do Rio, “quando a cidade enlouqueceu de vez”. Mas o curioso é que mesmo com toda a folia, a multidão, o calor (ele sempre compara o calor daqui com o da Índia), cenas que podemos imaginar poderiam causar algum tipo de desconforto em um inglês já não tão jovem e com problemas de saúde como no caso do autor, as lembranças foram as melhores e só o que se lê são elogios à cidade e ao povo carioca. Um cavalheiro, seguramente, lembrando que tudo que se lê nessa narrativa foi publicado, originalmente, em artigos que Kipling escreveu para um jornal britânico, o Morning Post.

Particularmente, o que mais me surpreendeu nessa narrativa de viagem foi a maneira como Rudyard Kipling conseguiu captar o ethos brasileiro, o que pode ser verificado em várias passagens da obra. Uma das mais divertidas, e que você logo identificará, diz o seguinte:
Os brasileiros que encontrei eram interessados e completamente a par dos assuntos externos, mas estes não compunham seu mundo essencial. O Deus deles – eles caçoavam – era brasileiro. Ele dava a eles tudo o que queriam e um pouco mais. Por exemplo, uma vez quando a colheita do café excedeu os limites. Ele enviou uma geada no momento certo, que podou um quarto e equilibrou confortavelmente o mercado.

O relato das cinco semanas de viagem de Kipling pelo Brasil, ou pelos Brasis, como ele sabiamente se refere ao país em alguns momentos, termina cheio de poesia e boas lembranças daquilo que viu e viveu, não deixando dúvidas de que a aventura por estas paragens lhe encantou os olhos e o coração. Bom saber que em algum lugar do passado nossa terra foi tão bem retratada por viajantes de alma aberta e sabedoria privilegiada como Rudyard Kipling.
Enquanto o navio de regresso se afastava da baía, as lembranças das últimas e magníficas semanas começaram a selecionar a si mesmas. Trilhos, automóveis, fábricas, hotéis suntuosos e casas luxuosas em que proporcionaram tantas alegrias e começaram a desvanecer.

Os rostos dos administradores decididos e urbanos tornaram-se mais claros; como também a respiração suspensa nos limites da floresta, e o consagrado crepúsculo preenchido com solenes vaga-lumes ondulantes. Como também um imenso bramido de cachoeiras ouvido em uma noite quente e sufocante.

As encostas em que nosso vapor seguia afastaram-se de nós até nos aproximarmos do extremo sul daquelas praias de areias ofuscantes “muito parecidas com roupas de linho postas para alvejar” as quais, os pilotos dos velhos tempos avisavam, demarcavam “onde tu podes ter certeza de ser levado até a Bahia”.


Leia: As crônicas do Brasil (Brazilian Sketches). Rudyard Kipling. Trad. Luciana Salgado. São Paulo: Landmark, 2006.

6 comentários :

  1. Aê Cesare, excelente livro e excelente resenha. Quanto ao fato dele ser a favor do imperialismo britânico, essa leve decepção com nossos ídolos sempre acontece se os observarmos mais de perto. Tem ainda o fato de que no calor do momento (enquanto a Índia ainda era colônia)é sempre mais difícil discernir o caminho mais justo. Fora isso o cara é um grande escritor e merece ser lido com todo o carinho. abraço!

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  2. Valeu, 3Fs! Concordo plenamente com o que vc escreveu. Namastê!

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  3. Ontem sai pela região da Sé para procurar um livro sobre florês brasileiras e encontrei um livro lindo, retangular, encapado com brim...KIPLING E O BRASIL...não me lembro direito o título, mas fiquei curiosa e vim procurar na internet e achei vc...muito bom...muito obrigado pelos esclarecimentos. Deve ser o mesmo livro e vou lá comprar.

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  4. Cidadezinha gorenta???!! Muito ofensivo.

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    1. Não, Maria José: garoenta (de garoa, chuva fininha...)

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