sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Passadas filosóficas, by Rodolfo Lucena

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Vou transcrever aqui um artigo publicado no Caderno Equilíbrio da Folha de São Paulo (de 09/08/2011) que traz uma ótima dica de leitura e também indicação de um link para as obras de Thoreau. Aliás, estou terminando minha leitura de Walden e espero poder ter a capacidade de refletir, sentar e escrever algo que valha a pena ser lido aqui no Odepórica. Será que darei conta? Acho que sim, vou apelar para minhas boas e quentinhas xícaras de chá, que sempre ajudam a acalmar a mente e pensar na vida com mais leveza.

Mas enquanto isso não acontece, proponho que você leia o pequenino artigo do Rodolfo Lucena, jornalista com cara de sannyasin que tem um estilo de escrita muito simpático, como você poderá conferir. E se você gosta de correr, saiba que o Rodolfo edita um
blog sobre o esporte que merece ser visitado. Até breve!

Passadas filosóficas



Pensadores, poetas e líderes encontraram inspiração no simples gesto de colocar uma perna à frente da outra



O pensamento libertário de Thoureau ganhou o mundo nas asas do
movimento hippie, nos anos 1960 e 1970. Jovens como este seu escrevinhador era, então, muito se entusiasmaram com as ideias de vida simples, comunhão com a natureza e, especialmente, desobediência civil.

Não tinha me dado conta, porém, que a doutrina do pensador norte-americano foi construída às custas de muita sola de sapato; mais do que isso: Henry David Thoreau (1817-1862) fez da caminhada o processo de construção do seu pensamento e escreveu o que é tido como o primeiro tratado filosófico sobre a caminhada ("Walking",
http://thoreau.eserver.org/walking1.html, em inglês).


Não só ele, mas vários outros pensadores, poetas e líderes políticos e espirituais encontraram na repetição do simples gesto de colocar uma perna à frente da outra fonte de inspiração para suas criações ou momento de paz para fugir das remelas do cotidiano.

Foi-lhes tão grato caminhar que chegaram a poetar sobre essa ação prosaica, mostrando as profundas ligações das passadas com as conquistas humanas. Essas reflexões são resgatadas com carinho e vigor em "Caminhar, uma Filosofia" (ed. É Realizações), livro que vem me acompanhando nestes meses em que lesões me obrigam a mais caminhar do que correr.





Nele, Frédéric Gros, professor de filosofia da Universidade Paris 12, estudioso da história da psiquiatria, da filosofia da pena e do pensamento ocidental da guerra, conecta trilhas perseguidas por figuras tão díspares quanto o filósofo alemão Nietzsche, o poeta francês Rimbaud e o líder indiano Gandhi.

Há também algumas filosofadas de Walter Benjamin sobre a figura do caminhante que me são caras: o sujeito que perambula pela cidade, observa o mundo e seus semelhantes e subverte valores tidos hoje como necessidades absolutas: velocidade, consumo, anonimato.



Os momentos menos agradáveis são quando Gros, por suas palavras ou manejando conceitos emitidos pelas figuras que visita, cede ao desejo de erigir verdades absolutas. Só caminhando assim ou assado se consegue determinado objetivo; só o caminhante de características "x"ou "y" pode almejar voos de pensador; só a caminhada serve à filosofia. Conceitos definitivos, por sinal, desmascarados ao longo do próprio livro.

Afinal, como sabemos todos que caminhamos, corremos, nadamos -os viventes, em geral-, o pensamento voa como e quando quer. Basta que lhe demos espaço, guarida e uma pitada de carinho. A filosofia vem de brinde.

Sobre o autor:



Rodolfo Lucena, 54, é jornalista desde 1975. Na Folha há 21 anos, editou os cadernos Informática e Tec. Depois de uma vida de sedentarismo, começou a correr em 1998 e logo virou maratonista: passou a rodar o mundo atrás de provas belas e complicadas. Publicou em 1976 o livro de contos "Abertura 1812" (ed.Movimento). Hoje ultramaratonista, é autor de "Maratonando - Desafios e Descobertas nos Cinco Continentes" (ed. Record, 2006), de reportagens sobre suas aventuras corridas, e de "+Corrida", com textos selecionados deste blog e da coluna que assina no caderno Equilíbrio, da Folha. É co-fundador da equipe Nossa Turma e primeiro integrante do grupo MarathonManiacs na América Latina.

Fonte:
http://rodolfolucena.folha.blog.uol.com.br/perfil.html

Um comentário :

  1. muito interessante, P. Cesare...

    Vou procurar saber melhor sobre essa história do Rodolfo....

    Me identifiquei porque também trabalho (ou trabalhei) nessa área de TI, onde o sedentarismo domina. É difícil não descondicionar do péssimo hábito de passar boa parte dos dias em frente a um computador.

    Fico muito feliz que no geral, alguns seres especiais já procuram o contato com a vida real em primeiro lugar.

    Abração!

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