quinta-feira, 23 de junho de 2011

Viagens literárias

.A Revista Personnalité, uma publicação trimestral da Trip Editora (em parceria com o Itaú Personalité, daí o nome) em sua edição de março de 2011 trouxe uma reportagem muito bacana que é a cara do Odepórica. A cargo de Daniel Benevides, a matéria intitulada Viagens Literárias, caso fosse ampliada e lapidada, daria um livro deveras interessante.

A introdução do texto já diz a que vem:

“A narrativa de grandes jornadas às vezes estabelece uma relação com o leitor tão profunda que o leva a fazer as malas e pegar a estrada. Ouvimos quatro personagens que fizeram de clássicos da aventura seus guias de viagem.”

Legal, não? Os quatro personagens que o Daniel entrevistou (assim imagino) são os seguintes: J.R. Duran (fotógrafo), Leandro Sarmatz (jornalista), Renato Yada (designer gráfico) e Beatriz Seigner (cineasta). Cada um deles fala um pouquinho sobre uma obra cuja narrativa os estimulou a botar os pés na estrada.

E então ficou assim: o fotógrafo falou da obra Gorillas in the Mist, não publicada por aqui, mas cuja história foi transposta para o cinema com o título de “Nas montanhas dos Gorilas”; o jornalista se amarrou no Bruce Chatwin, naquela obra supimpa que já resenhamos
aqui no blog, Na Patagônia; o designer, que adora pilotar uma moto foi seguir os passos do mestre Kerouac lendo On the road e a moça, que é cineasta e vive perambulando por aí, se encantou com o clássico Grande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa.

Só coisa boa esse povo andou lendo. Então, sem mais lingüiça, vamos direto ao texto do Daniel, que é um barato e está super gostoso de ler. Boa viagem e Namastê!

J.R. Duran e os Gorilas de Ruanda



Quando fala com seu simpático sotaque catalão, J.R. Duran perde o foco continuamente. O entusiasmo jovial e a memória prodigiosa não parecem deixar que se fixe numa só lembrança. As datas e situações se misturam, uma puxando as outras, formando uma curiosa teia de referências.

Fala principalmente da África, que o fascina desde menino. Conheceu boa parte do continente: Quênia, Namíbia, Uganda, Eritreia, Tanzânia, Somália, a lista é enorme. Sempre a trabalho – condição que considera necessária para deixar o olhar mais aguçado – e sempre inspirado por um ou mais livros.

Tem uma coleção de cerca de 300 livros com relatos de viagem. “Viajar é essencialmente um ato de imaginação. Mas é preciso também informação, que filtra o que há de interessante. E uma noção do passado, para poder enxergar os fantasmas. Você tem de enxergar os fantasmas!”






Foi assim com Gorillas in the Mist, da antropóloga
Dian Fossey, que o deixou instigado a conhecer os gorilas-das-montanhas de Ruanda, ameaçados de extinção. Em 2003, quando leu que o país voltava a abrir as portas, depois do genocídio de 1 milhão de pessoas (descrito em Gostaríamos de Informá-lo que Amanhã Seremos Mortos com Nossas Famílias, de Philip Gourevitch), pegou o mínimo necessário e voou para o centro da África. “É um país muito pequeno, com apenas duas estradas, uma que cruza de norte a sul e outra de leste a oeste.”

Para chegar a 3 metros dos famosos primatas, Duran teve de ser escoltado pelo exército, por conta de caçadores ilegais, o que não esfriou sua curiosidade – ao contrário. O fotógrafo e aventureiro foi ainda à capital, Kigali, e ao lago Kivu, cenários da guerra entre tútsis e hutus.





Kivu fica na fronteira com o Congo, país em que também esteve, atraído pela leitura do clássico O Coração das Trevas, de Joseph Conrad, e pelos relatos do explorador Henry Stanley (1841-1904), que encontrou, em 1871, o então desaparecido David Livingstone, que havia se embrenhado na África em busca da nascente do rio Nilo.

O próprio Duran, estimulado por escritos dos mais diversos, como as biografias do explorador Richard Burton, as aventuras de Corto Maltese e mesmo as anotações de Che Guevara sobre a guerrilha no Congo, publicou Cadernos Etíopes (Cosac Naify) com fotos e textos sobre tribos da Etiópia.

Na apresentação, ele, que também lançou dois romances “noir existencialistas”, Lisboa (W11) e Santos (Francis), escreve: “É bom se perder com a certeza de que é possível voltar para casa”.

Leia: Gorillas in the Mist. Dian Fossey, Houghton Mifflin,1983

Leandro Sarmatz: Quando Nova York vira a Patagônia



E especialidade do jornalista Leandro Sarmatz é escrever, como prova seu excelente livro de contos Uma Fome, lançado pela Record ano passado. É bom de papo também: diverte os amigos como poucos, em noites de libação e trocas de causos, mentiras e pilhérias.

Em viagem recente a Nova York, ele juntou as duas coisas – primeiro, relatou suas impressões em um gravador durante caminhada do Brooklin a Washington Heights, do outro lado da ilha; dias depois, colocou tudo no papel. Para fazer essa “viagem”, inspirou-se em dois livros: Na Patagônia, do britânico
Bruce Chatwin (Companhia das Letras), e O Rumor do Tempo e Viagem à Armênia, do poeta russo Ossip Mandelstam (Editora 34).

“Eles educaram meu olhar e me mostraram que o lado épico de uma jornada não está na quilometragem rodada ou na distância em relação ao meu ponto original, mas, sim, na forma como se encara o percurso desde o início.” E assim começou a jornada por essa avenida que encapsula tempos e espaços de Nova York. “A Broadway é uma espécie de resumo da metrópole: tem partes ricas, pobres, barulhentas, turísticas, barras-pesadas. Imigrantes novos e velhos, ianques de antiga linhagem, choques culturais a granel.”





Para aproveitar cada detalhe desse périplo urbano, antes de sair a campo, Leandro se preparou lendo tudo o que podia sobre a cidade e, assim como os viajantes que estudavam as cartas marítimas, simulou todo o caminho no Google Street View.

De volta a São Paulo, e tendo deixado todas as impressões e informações assentarem um pouco, começou um ensaio sobre essa jornada, buscando seguir as coordenadas deixadas por Chatwin: “Detalhes aparentemente banais ganham no seu texto importância às vezes até maior do que o assunto principal. Também me atrai a forma como ele embaralha os gêneros: ensaio, ficção, relato de viagem, memórias, anedotário, história regional, tudo isso comparece em Na Patagônia, sempre com humor e mão levíssima.”

Entusiasmado, continua: “A Patagônia de Chatwin é um território de gaúchos e cowboys desterrados, galeses transplantados, vidas marcadas por um tipo muito particular de solidão”. De certa forma, a descrição se encaixa também na movimentada Broadway percorrida por Leandro, que ainda cita, entre seus “guias literários”, Claudio Magris e seu Danúbio, o Atlas, de Borges (ambos da Companhia das Letras) e o Marca D’água, de Joseph Brodsky (Cosac Naify), roteiro poético para Veneza.


Leia: Na Patagônia. Bruce Chatwin, Companhia das Letras, 1988.

De Harley, Renato Yada encarna Sal Paradise




Desbravar os Estados Unidos por suas estradas intermináveis era uma obsessão para Renato Yada, designer gráfico, desde que leu On the Road – Pé na Estrada, de
Jack Kerouac (L&PM). “Em 2008, assim como o personagem Sal Paradise, alter ego de Kerouac, eu queria testar os limites do sonho americano. Sal representava o ideal de liberdade, o desejo puro de sair da estagnação e a depressão provocada por uma cidade grande. Então, aluguei uma Harley-Davidson em Miami e pus o pé na estrada para ver no que dava.”

Yada percorreu cenários rurais, desertos infinitos, cidades quase abandonadas, dormiu em motéis de beira de estrada e conheceu personagens estranhamente atraentes. Em 25 dias, rodou quase 4 mil milhas, o equivalente a 6.400 quilômetros. “Tirando o conforto de ter uma moto alugada, a viagem foi um teste de sobrevivência. Eu tinha pouco dinheiro, só o suficiente para gasolina, comida e estada. Chegava a passar quase seis horas em cima da moto sem me comunicar e muitas vezes sem contato visual com nenhum ser humano. Tinha tempo de sobra pra refletir sobre a minha vida inteira.”

No caminho para Graceland, em Memphis, Renato conheceu um sujeito que havia servido o exército junto com Elvis durante a Segunda Guerra (sic). “O velho me disse que, enquanto ele passava frio à noite na trincheira, Elvis estava hospedado num castelo na Alemanha. Pedi um autógrafo pra ele, no verso do mapa do Tennessee.” (nota: na verdade Elvis, que nasceu em 1935, serviu o exército após a 2ª Guerra, entre os anos de 58 a 60)



Entrando na Califórnia, uma cena que, se acontecesse no cinema, pareceria exagero do roteiro. O forte vento fez com que ele perdesse a noção de quanto combustível estava queimando. O tanque esvaziou em pleno deserto do Mojave.

“Caminhei empurrando a moto por mais de duas horas. O sol já estava se pondo e começou a ficar frio. Ninguém na estrada parou quando eu acenei. Fui salvo por uma mulher. Ela surgiu do nada com uma garrafa de água, um cabo de bateria, um galão de gasolina e ferramentas. Seu nome era Faith.”(fé, em português)




Em Amarillo, Texas, outro momento que poderia estar no clássico On the Road. “Entrei num bar e me inscrevi num concurso de sinuca. Ganhei de três cowboys e faturei o prêmio de US100. Consegui comer, beber e ainda pagar uma rodada para os adversários.”

Chegando finalmente a Los Angeles, não parou até ver o Pacífico. “Não podia deixar pro dia seguinte. Já era madrugada quando cheguei ao calçadão de madeira de Venice Beach. Estava muito escuro, mas ouvi o som agradável das ondas. Me lembrei das palavras de Kerouac:

‘Deixamos para trás a América e tudo o que sabíamos da vida. Tínhamos finalmente encontrado a terra mágica no fim da estrada. E a mágica era bem maior do que imaginávamos’. Com certeza, depois dessa aventura, muita coisa em mim mudou”.


Leia: On the road. Jack Kerouac, L&PM, 2010.

Beatriz Seigner mergulha em Grande Sertão: Veredas





A curiosidade e a energia da cineasta Beatriz Seigner parecem não ter limites, especialmente quando se trata de viagens e livros. Aos 17, após ler O Povo Brasileiro, de
Darcy Ribeiro, resolveu viver por um tempo entre os xavantes.

Suas leituras sobre o Oriente a levaram à Índia, onde dirigiu o longa Bollywood Dream, feito com poucos recursos e um talento que não passou despercebido pela crítica. Outro capítulo que marcou suas andanças está em Grande Sertão: Veredas, obra-prima de
Guimarães Rosa. “Sempre choro quando leio esse livro, fico tocada pela beleza das palavras”, diz.

Sem dinheiro, mas determinada a conhecer os grandes sertões e as veredas pelas quais passaram Diadorim e Riobaldo, encarou o “submundo” do centro de São Paulo e vendeu um antigo relógio de ouro da família. Com dinheiro no bolso, no auge de seus 18 anos, fez as malas para Cordisburgo, cidade mineira onde nasceu Guimarães Rosa, em 1908. Encantou-se com as pessoas do lugar logo de cara. “Vi que elas falavam daquele jeito do livro, que não era invenção de linguagem. As palavras do Guimarães faziam parte daquelas pessoas, daquela geografia. Depois de umas duas semanas eu já estava com aquela musicalidade incorporada”.



Andrequicé, mais ao norte, onde viveu e morreu Manuelzão, mítico personagem e amigo de Guimarães Rosa, era a parada seguinte. Bia seguiu o caminho da boiada que o escritor acompanhou em 1952, que passa por Curvelo, cruza o rio Bicudo e tangencia o morro da Garça.

Ela e alguns amigos acamparam na casa da filha de seu Raimundo, capanga que serviu de guia a Guimarães. De lá puderam explorar os arredores, andando em estradas de chão, embrenhando-se no cerrado, descobrindo cenários reais de Grande Sertão: Veredas, como o pequeno rio-de-janeiro, onde Riobaldo e Diadorim se encontram.

Ao longe, as serras do morro Vermelho, do Formoso, do Cabral, e o chapadão das Gerais emolduram o sertão-mundo, onde se experimenta, como diz o escritor, “o embevecimento do puro contemplativo”.

Inquieta, com o “compromisso de desafiar o desconhecido”, Bia, hoje com 26 anos, está preparando filme novo, a ser rodado na Colômbia. “Preciso mesmo viajar”, ela diz, sem conter o riso.

“Quanto mais longe você fica, mais você se liberta dos seus condicionamentos culturais e descobre quem você é fora de sua zona de conforto; você se torna mais confiante e corajoso, como os personagens do Guimarães Rosa”.

Leia: Grande Sertão: Veredas. João Guimarães Rosa, Nova Fronteira, 2001.

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