sábado, 26 de março de 2011

Confissões de Darcy Ribeiro, um antropólogo vagamundo

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Pouco antes de morrer, depois de um longo período de luta contra o câncer, o antropólogo Darcy Ribeiro conseguiu reunir forças para escrever Confissões, seu volumoso relato autobiográfico. Terminada a leitura, fica-se com a impressão de que seiscentas páginas servem apenas de introdução à vida de um homem que parece ter vivido muitas vidas numa só.


Darcy Ribeiro realizou tantas coisas importantes que tentar resumi-las em um artigo curto como este parece tarefa impossível. Mas entre tantos feitos, alguns merecem destaque imediato, como é o caso da criação do Museu do Índio, no Rio de Janeiro, e a colaboração, junto aos irmãos Villas Boas, do Parque Indígena do Xingu. Não é pouca coisa.





Você não precisa gostar de antropologia, ciências sociais ou política para se apaixonar por Darcy Ribeiro; em Confissões, o que comove o leitor é a emoção com que o autor descreve cada momento de sua vida, desde a infância em Montes Claros, sua Moc natal, até os períodos em que viveu exilado, longe da terra que tanto amou e lutou para melhorar, sobretudo no que diz respeito à sociedade indígena. Um homem que tinha paixão pela vida em geral, e pelas mulheres em particular, pois quase não há um parágrafo em que não apareça o nome de um amor, por mais fugaz que seja. Aos amores, Darcy lhes dedica um capítulo. Às mulheres, idem.



E é um barato a maneira como Darcy enfatiza sua necessidade de amar as mulheres quase em tempo integral, e no final das contas sua intenção talvez fosse essa, transformar o leitor em um confessor, ouvindo calado suas aventuras carnais, num sentimento misto de surpresa e inveja. Mas à parte os prazeres da carne, é o amor que verdadeiramente importa. Lá pelas tantas afirma de maneira poética: “Marinheiro neste mundo, amor é o vento que sopra minhas velas nas travessias”.


O perfil donjuanesco de Darcy fica mesmo na superfície: seu amor se estende pela humanidade com a mesma beleza e intensidade dedicadas às mulheres que aninhou em seus braços. Essa paixão intensa pelo Brasil e pelo povo brasileiro pode ser enxergado nos próprios títulos dos capítulos de sua autobiografia. Os primeiros são dedicados ao jovem Darcy construindo sua identidade enquanto homem e durante o processo de crescimento, enquanto etnólogo e antropólogo.


Parte de Montes Claros e vai para Belo Horizonte. Da capital mineira, chega a São Paulo. Aqui já teremos lido três capítulos de um total de dezesseis. Os próximos tratam do seguinte: Índios, Educação, Governo, Exílios e Política, só para dar um panorama geral. Como se percebe, divide sua vida em capítulos que têm relação direta e profunda com seu país e com seu povo (povo mesmo, e não somente as comunidades indígenas). Darcy foi um brasileiro integral, se é que cabe o termo.

Como é de praxe aqui no Odepórica, nosso interesse recai sobre as viagens do autor, e Darcy rodou esse mundo sem parar. Por conta do exílio, na época da ditadura militar, ficou dezesseis anos fora; entre idas e vindas, fixou residência em alguns países latino-americanos: Uruguai, Venezuela, Chile e Peru. Visitou a Europa inúmeras vezes, a perder de conta. Em todos os lugares pelos quais passou deixou sua marca e foi recebido com prestígios e honras maiores até do que as que lhe eram dedicadas aqui. O Brasil tem dessas coisas, a gente sabe.


Em Confissões, o capítulo que Darcy fala sobre os índios é de longe o mais passional e excitante (embora haja poucas referências libidinosas ali). É no encontro com os índios, já amigo e discípulo do mítico Marechal Rondon, que Darcy consegue enfeitiçar o leitor, tal qual um xamã das palavras. O que diferencia Darcy Ribeiro de outros antropólogos e estudiosos que entraram em contato com os índios é a maneira de abordar a cultura aborígine; ao invés de estudar os índios sob a perspectiva acadêmica restrita, priorizando o olhar daquele que vem de fora apoiado numa fundamentação científica, ele tentou inserir-se ao máximo à vida da comunidade, até chegar ao ponto de ser tratado como um igual. Um ato que pede um tanto de audácia e outro tanto de humildade. O resultado não poderia ter sido melhor. Diz o próprio autor:


Com eles aprendi que só uma identificação emocional profunda pode romper as barreiras à comunicação, permitindo a um estranho penetrar a intimidade que atingia praticamente o máximo a que pode aspirar um antropólogo no seu esforço por ver o mundo com os olhos do povo que estuda.


Nos próximos parágrafos você irá ler alguns trechos do capítulo em que Darcy relata seus contatos com os índios. Se esses relatos antropológicos fazem a sua cabeça, saiba que Darcy publicou uma obra especificamente sobre essas convivências, transcritas de seus diários etnográficos e intitulada Diários Índios. Namastê!


Fiquei atado a Rondon pela vida inteira. Ao fim de cada expedição ia vê-lo para contar como estavam vivendo e morrendo os índios que visitara. Algumas dessas expedições foram feitas por mandados dele, principalmente a que fiz a Mato Grosso para participar das cerimônias de sepultamento de Cadete, último grande chefe bororo.


(...) No curso desse cerimonial, o corpo de Cadete primeiro foi enterrado em cova rasa, no meio do pátio de danças, e regado diariamente com potes d’água trazidos pelas mulheres desde o rio. Assim apodrecia rapidamente. De fato, as carnes se dissolviam sobre os ossos. O cheiro ainda hoje me cheira nas ventas. Tremendo. Não era catinga de bicho ou gente morta. Era um poderoso cheiro, fino como um assobio, que cheirava dia e noite. Chegada a hora, os ossos de Cadete foram retirados, lavados cuidadosamente e levados em folhas para a casa dos homens, o baíto. Lá estavam todos os Bororo vivos e mortos, homens e mulheres, crianças e velhos. Eram regidos pelo Aróe-toeráre, intermediário entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Ele regia a cerimônia tirando sons suaves de um grande maracá e soprando uma pequena flauta. A seu comando as mulheres todas arrancaram todos os cabelos. A seguir, homens e mulheres sangraram-se abundantemente, escarificando-se com dentes de peixe encastoados numa peça feita de cabaça. Foi terrível de ver.



A provação maior para mim foi beber dois litros de uma cerveja fermentada com seiva de certa palmeira, que Aróe-toeráre bebia em minha frente sem tirar a cabaça da boca. Durante esses rituais, tomaram todos os ossos de Cadete, grandes e pequenos, e recamaram cada um deles com plumas coloridas de diferentes pássaros. Assim, foram postos num cesto novo e levados para a lagoa dos mortos, onde o suspenderam no alto de uma longa vara de ponta enterrada no fundo.


Fascinação

Durante meus dez anos de etnólogo, convivi com diversos grupos indígenas. Exercia então, simplesmente, meu ofício de etnólogo de campo. Só que, ao contrário dos meus colegas que passam alguns meses, um ano no máximo, com sua tribo, eu alonguei, por todo aquele tempo, minha estada com eles. Por quê? Primeiro, porque não realizava uma pesquisa acadêmica, como é corrente.


Trabalhando no órgão de estudos de um serviço governamental de proteção aos índios, eu podia estudar quantos grupos quisesse, por quanto tempo desejasse. Foram, porém, outras as razões maiores de meus longos, belos anos de vida de índio, dormindo em redes e esteiras, comendo o que eles comem, eu só, em suas aldeias, contente de mim e deles. Entre essas razões, sobressai o encantamento em que caí diante dos meus índios e a curiosidade inesgotável que eles despertaram em mim.


Desde então, até hoje, me pergunto o como e o porquê dos seus modos tão extraordinários de serem tal qual são. Repensando agora, tantos anos depois, aquelas vivências minhas, ressaltam certas características distintivas dos índios, visíveis ao primeiro contato, que desencadearam aquele meu encantamento e essa longa argüição. A fascinação que aqui confesso não é, aliás, nenhuma novidade. Já os primeiros europeus que depararam com nossos índios nas praias de 1500 se encantaram com a peregrina beleza de seus corpos e a gentileza de seus modos. Qualquer civilizado que conviveu com uma tribo isolada carrega, pela vida afora, a lembrança gratíssima do sentimento de espanto e simpatia que eles suscitam.



Meditando, agora, sobre esse meu sentimento de fascinação, tantos anos depois, descubro que me encantava nos índios, primicialmente, sua dignidade, inalcançável para nós, de gente que não passou pela mó da estratificação social. Não tendo sido nem sabido, jamais, de senhores e escravos, nem de patrões e empregados, ou de elites e massas, cada índio desabrocha como um ser humano em toda sua inteireza e um ser único e irrepetível. Um ser humano respeitável em si, tão-só por ser gente de seu povo.




Creio mesmo que lutamos pelo socialismo por nostalgia daquele paraíso perdido de homens vivendo uma vida igualitária, sem nenhuma necessidade ou possibilidade de explorar ou de ser explorados, de alienar-se e de ser alienados. Isso me lembra um episódio de que jamais esquecerei. Os índios Xavante, que ocupavam um território imenso do rio das Mortes até o Xingu, tinham sido recentemente pacificados. No entendimento xavante, eles é que tinham estabelecido relações pacíficas com o homem branco. O que mais queriam então era ver, tocar, num desses pássaros de asas rígidas, intocáveis, que cruzavam seus ares.





Sabendo disso, o brigadeiro Aboim decidiu pousar três aviões numa clareira que os Xavante tinham aberto no cerrado. Lá foi. Ao descer do avião, viu que devia dirigir-se a um índio velho, todo encarquilhado, que parecia esperar por ele. Era Apoena, o mais velho dos Xavante e o mais respeitado. Aboim enfrentou Apoena todo vestido numa farda branca, cheia de tiras de ouro. Quem os visse perceberia logo que a dignidade naquele enfrentamento estava com o velho nu, com Apoena. Aboim parecia fantasiado.




Ocorre que Apoena trazia a tiracolo um cesto trançado de palmas verdes, carregado de gafanhotos tostados que ele comia tranqüilo. Aboim escandalizou-se e mandou trazer uma lata de biscoitos cream cracker. Abriu ele mesmo e entregou a Apoena, que recusava, não sabendo o que era. Aboim retirou um biscoito e o mastigou devagar, com boca de quem gosta. Apoena o imitou, tirou um biscoito e o pôs na boca, mas se horrorizou. A seu paladar aquilo era horrível, porque ele nunca havia comido nada tão salgado. Em seguida, limpou a lata dos biscoitos que tinha e passou para ela seus gafanhotos, que continuou comendo.








(...) Outra vertente do meu encantamento pelos índios vinha de meu assombro diante do exercício da vontade de beleza que eu via expressar-se infinitas vezes, de mil modos e formas. Aos poucos fui percebendo que as sociedades singelas guardam, entre outras características que perdemos, a de não ter despersonalizado nem mercantilizado sua produção, o que lhes permite exercer a criatividade como um ato natural da vida diária. Cada índio é um fazedor que encontra enorme prazer em fazer bem tudo o que faz. É também um usador, com plena consciência das qualidades singulares dos objetos que usa.





Quero dizer com isso, tão-somente, que a índia que trança um reles cesto de carregar mandioca coloca no seu fazimento dez vezes mais zelo e trabalho do que seria necessário para o cumprimento de sua função de utilidade. Esse trabalho a mais e esse zelo prodigioso só se explicam como o atendimento a uma necessidade imperativa, pelo cumprimento de uma determinação tão assentada na vida indígena que é inimaginável que alguém descuide dela. Aquela cesteira, que põe tanto empenho no fazimento do seu cesto, sabe que ela própria se retrata inteiramente nele.


Uma vez feito, ele é seu retrato reconhecível por qualquer outra mulher da aldeia que, olhando, lerá nele, imediatamente, pela caligrafia cestária que exibe, a autoria de quem o fez. Não havendo para os índios fronteiras entre uma categoria de coisas tidas como artísticas e outras, vistas como vulgares, eles ficam livres para criar o belo. Lá uma pessoa, ao pintar seu corpo, ao modelar um vaso, ou ao trançar um cesto, põe no seu trabalho o máximo de vontade de perfeição e um sentido desejo de beleza só comparável com o de nossos artistas quando criam.


Um índio que ganha de outro um utensílio ou adorno ganha, com ele, a expressão do ser de quem o fez. O presente estará ali, recordando sempre que aquele bom amigo existe e é capaz de fazer coisas tão lindas. Essa compreensão importa na conclusão de que a verdadeira função que os índios esperam de tudo o que fazem é a beleza. Incidentalmente, suas belas flechas, sua preciosa cerâmica têm um valor de utilidade. Mas sua função real, vale dizer, sua forma de contribuir para a harmonia da vida coletiva e para a expressão de sua cultura, é criar beleza.



Jacarés, piranhas e tourada


Na primeira viagem fiquei uns seis meses com os Kadiwéu. Conheci todas as aldeias, falei com quase todos os homens e mulheres. No ano seguinte voltei por uma temporada igual. Agora casado e levando minha mulher Berta, o que não agradou nada às moças índias, que tinham esperança de casar comigo e me fixar no melhor lugar do mundo para se viver, que são suas aldeias. Completei, assim, a pesquisa, sempre com a familiaridade de um quase Kadiwéu que volta para casa.



Às vezes, eles se impacientavam comigo, como ocorreu com um índio que me mostrava a mais importante de suas constelações. Espantado com a minha incapacidade de ver o que para ele era uma nítida cabeça de ema com os seus dois olhos – e para mim era um pedaço da Via Láctea e, provavelmente, o Cruzeiro do Sul. Minha ignorância espantava meu informante, que acabou me dizendo: “Você é cego, doutor i. Então não vê a ema celeste?”.





Em outra ocasião, eu estava na aldeia só com as mulheres, porque os homens haviam saído para caçar e pescar. Saí com minha espingarda e, num rio perto, dei com um jacaré. Atirei nele e acreditei que tinha morrido. Peguei o bicho pelo rabo e vim puxando para a aldeia. Ele abria e fechava a boca. Quando chegamos, as mulheres se apavoraram de ver aquele jacaré, que não era enorme, mas era mais ou menos grande, levado assim, a ponto de virar e morder minha perna. Fizeram o maior escândalo e, depois, homens e mulheres contavam o caso entre eles e riam desbragadamente da minha façanha infantil.


(...) Duas coisas me impressionaram muito nessa expedição de caça. Um rodeio que os índios decidiram fazer com os jacarés de uma baía, que foi a coisa mais espantosa que vi. Entraram quase todos eles por um lado da lagoa, armados de seus facões e foram gritando e espadanando a água para espantar os jacarés. Os que tentavam voltar eram cortados por eles. Assim foram até o fim da baía, expulsando dezenas de jacarés que lá estavam e que saíram andando. Em outro lugar me mostraram dezenas de caveiras de jacarés que nunca voltam para a lagoa de onde foram expulsos. Andam o quanto suportam e morrem no meio do areal.




Outro episódio inesquecível foi ver uma lagoa coberta de pássaros: tuiuiús, flamingos, garças, outros e outros que, ouvindo um barulho proposital que fez um índio ao meu lado, começaram a voar ali junto. O seu bater de asas matracado despertou outras aves, que voaram também. Afinal, parecia que toda a lagoa saía voando pelo céu. Vi, também, espantadíssimo, uma lagoa brilhando de madrugada, quando o sol a alcançou, como uma barra de ouro. Eram piranhas mortas aos milhões. Depois de comer todos os peixes e esgotar todo o oxigênio da água, cada vez mais escasso, morriam, e o fedor era tremendo.



O mais bonito da caçada foi deparar com um bando de emas enormes. Elas fugiam de nós, correndo com suas altas pernas balançando suas plumas. Os índios cavalgavam junto e as matavam, quebrando as pernas com pauladas. Queriam as penas, boa mercadoria. Eu fiquei olhando um ninho cheio de enormes ovos de ema. Triste.


(...) Aqui é o lugar de contar, creio eu, outro episódio inesquecível. Os índios me falaram dele várias vezes e eu achava quase impossível que fizessem aquilo. Afinal, consenti em comprar um touro para ver a tourada kadiwéu. Tendo vivido muitos anos junto a paraguaios e espanhóis, eles se afeiçoaram às touradas, mas inventaram seu próprio estilo de tourear. O tal touro comprado por mim foi solto no meio de homens e mulheres, que formavam um grande círculo no pátio da aldeia.





Quando o touro investia para um lado, eles puxavam o rabo para o outro lado. O touro ia ficando cada vez mais desesperado, saltando de um lado para outro do círculo de pessoas que o hostilizavam. Isso foi feito durante mais de uma hora, talvez duas. O touro cada vez mais cansado e eles o excitando de todos os modos, jogando coisas nele e obrigando-o a permanecer raivoso, não permitindo que ele parasse, sentasse ou desistisse da brincadeira.




A certa altura, com o touro muito quente e brigão, alguém cortou o tendão da perna dele. Aquela perna estendeu-se imediatamente e ele passou a andar com três pernas, com muita dificuldade. Então, um grupo de homens saltou sobre o touro e assim, em instantes, carnearam o touro vivo, tirando lanhos enormes de carne, do traseiro, da frente, das pernas, de todo lugar, arrancando a carne viva, que jogavam para as mulheres e crianças, que corriam imediatamente para assar em fogos que haviam feito em torno. O espetáculo coroou-se com homens, mulheres e crianças assanhando em cima do touro, tirando suas vísceras e se sujando uns aos outros com a bosta e o sangue do touro. Foi uma tourada fantástica, muito melhor do que as que eu vi na Espanha, mas terrível de ver. Medonha mesmo.



Leia: Confissões. Darcy Ribeiro. Ilustrações de Oscar Niemeyer. Companhia das Letras, 1997.




Para ir mais longe : acesse o site da Fundação Lair Ribeiro. Disponível em http://www.fundar.org.br/

2 comentários :

  1. já estou apaixonada por este homem rssssss

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  2. Darcy Ribeiro...Um Idolo em minha vida.

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