segunda-feira, 7 de março de 2011

Clássicos da Literatura Odepórica: O sol também se levanta, by Ernest Hemingway

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Em um dos diálogos iniciais de O sol também se levanta, um dos personagens, Robert Cohn, diz ao narrador, Jake Barnes: “Não me conformo, quando penso que minha vida vai passando tão depressa e não a vivo realmente”. Resposta de Jake: “Ninguém vive com a intensidade que deseja, exceto os toureiros.”

A resposta de Jake ao amigo não aparece de bobeira na conversa, assim como nada na narrativa de Hemingway surge sem um propósito muito bem definido. Os toureiros e as corridas de touro em Pamplona, na Espanha, são a metáfora fundamental a qual caberá ao leitor interpretar para alcançar a profunda sensibilidade do autor nesse romance onde a viagem tem um papel de grande destaque – tanto, que o título costuma aparecer com frequência em listas de obras fundamentais que tratam da temática das narrativas de viagem.

A trama de O sol também se levanta (publicado em 1926) se passa no período do pós-guerra e retrata com fidelidade aquela que ficou conhecida como a “geração perdida”; na literatura, o termo é atribuído a Gertrude Stein (lost generation) que se referia a um grupo de escritores e escritoras norte-americanos (mas também artistas e músicos de jazz) que debandaram para Paris e outros pontos da Europa no final da Primeira Guerra Mundial e início da Grande Depressão americana (Crise de 1929). Entre as personalidades encontramos muita gente de respeito: Ezra Pound, Cole Porter, Mae West, Dorothy Parker, F. Scott Fitzgerald, William Faulkner, Vladimir Nabokov, o Ernest Hemingway, claro, e até o mestre Alfred Hitchcock, entre tantos.
E é em Paris que começa a história que Jake Barnes nos irá narrar. Norte-americano veterano de guerra, Jake vive na capital francesa exercendo a função de correspondente de um jornal americano. Relaciona-se com amigos descolados, todos expatriados na faixa dos trinta e poucos anos: Robert Cohn, um escritor a quem Paris não lhe agradava e que sonhava em viajar à América do Sul; Brett Ashley, uma lady, por quem ambos Jake e Robert são apaixonados; Mike Campbell, o noivo guampudo de Brett e amigo de Jake; Bill Gorton, o amigo taxidermista de Jake que o acompanha em sua viagem à Navarra. Estes são os principais personagens, que em comum carregam toda a falta de perspectiva e desilusões próprias da tal geração perdida.
É difícil traçar em poucas linhas a complexa conduta emocional dos personagens, disfarçada de maneira singular por Hemingway numa aparente maneira simplista de narrar a história. De simples, só a aparência. Todos ali estão sofrendo, e para amenizar suas dores, muito álcool - doses exageradas de bebida, e muitas cenas em bares e cafés, onde nenhuma conversa nunca leva a nada. Há uma passagem na obra que ilustra bem o perfil daquela “geração perdida”:
Você é um expatriado. Perdeu o contato com o solo. Torna-se pernóstico. Ficou estragado pelos falsos padrões europeus. Bebe até cair. Deixa-se obcecar pelo sexo. Passa o tempo conversando e não trabalha. É um expatriado, ouviu? Arrasta-se pelos cafés.
Jake, o narrador, voltou da guerra impotente, apesar de ainda manifestar um comportamento lascivo em relação a Brett; entretanto, seu amor por ela jamais poderá ser consumado e isso acaba com ele, mesmo demonstrando conformidade com sua situação, o que parece ter alguma relação com sua formação católica. A impotência de Jake (partindo de uma perspectiva simbólica) também tem um significado profundo, só percebido com o avançar da leitura: a negação da vida e a aceitação passiva da morte. Voltaremos a isso mais adiante.

Brett, mulher distinta, titulada, não passa de uma sedutora, uma mulher liberal que considera a si própria uma prostituta. De fato, deita-se com qualquer um e não esconde nem do próprio noivo as suas conquistas. E enche a cara pra valer. Deixa os homens loucos, mas para ela tudo não passa de um jogo sexual e o único homem a quem realmente parece amar é Jake, justamente aquele a quem ela jamais conseguirá enfeitiçar.

Robert Cohn, judeu, ex-lutador de boxe e escritor ruim é a ovelha negra do grupo. Sua preocupação maior é arrumar companhia para viajar à América do Sul, numa evidente resolução de fuga. Acaba se apaixonando por Brett e depois de ser dispensado por ela passa a viver um verdadeiro inferno interior. Na verdade o papel de Cohn na narrativa serve de contraponto à conduta de Jake e sua disfunção, um ponto importante a ser observado na leitura.
Como dissemos, tudo começa em Paris, cidade onde o autor viveu alguns anos. A descrição da cidade, “onde é sempre agradável atravessar as pontes”, faz referências a diversas localidades facilmente reconhecidas, incluindo os cafés e restaurantes que o próprio Hemingway frequentava. Pelo que se sabe, o escritor colocava em seus romances muito daquilo que ele mesmo vivia em suas viagens.
E Hemingway viajou muito. Antes dos 25 anos já havia visitado a Itália, França, Espanha, Alemanha, Suíça, Áustria e Turquia. Mais tarde viajou e viveu períodos em Cuba, Hong Kong, Londres, países da África e diversas regiões dos Estados Unidos, sua terra natal. Um bom viajante, o Hemingway.
Voltemos a Paris, que como sempre é um sonho, mas que nem por isso agrada indistintivamente qualquer pessoa. Há uma passagem na narrativa que ilustra isso de uma maneira interessante, quando Jake tenta entender o motivo de Robert Cohn ser incapaz de gostar da cidade:

Creio que é devido a qualquer associação de ideias que certas partes de uma viagem nos parecem assim desagradáveis. Há em Paris muitas outras ruas tão feias quanto o Boulevard Raspail. Não me aborrece andar por ali a pé, mas passar de automóvel é o que não posso suportar. Talvez eu tivesse lido alguma coisa sobre isso. É o efeito que Paris inteira produzia em Robert Cohn.

Mas Paris é apenas o ponto de partida da viagem que marcará definitivamente essa obra. A grande viagem a Pamplona, onde vai acontecer a famosa
festa de San Fermín (ponto culminante da narrativa), colocou para sempre a capital da Navarra na posição dos itinerários mais conhecidos e procurados de festas populares na Europa ocidental.
A fiesta, chamada na Espanha de sanfermines, acontece anualmente em Pamplona no mês de julho e dura toda uma semana. Na obra de Hemingway temos uma descrição bastante fiel da dinâmica, por vezes insana, dessa semana dedicada a San Fermín, co-patrono da cidade. A propósito, Fiesta era a primeira escolha de Hemingway para o título da obra, mantido em sua edição espanhola.
Antes de tomar o rumo a Pamplona, Jake viaja para Burguete com Bill a fim de passar um tempo pescando no Rio Irati. Essa pequena localidade aos pés dos Pirineus (assim como Roncesvalles, que também aparece descrita na obra) é muito conhecida por ser o primeiro povoado, junto a Roncesvalles, visitado pelos peregrinos que percorrem o Caminho de Santiago depois da fronteira com a França, distante poucos quilômetros dali.

A descrição do percurso, efetuado há 85 anos, mostra que pouca coisa, felizmente, mudou por aquelas paragens (escrevo isso porque tive o prazer de estar naquelas mesmas localidades algumas vezes). Vou transcrever essa passagem para que você perceba como a viagem efetuada por um escritor é aproveitada na composição de um romance. É a ficção pegando uma carona com a realidade – o que na condução de um escritor de alto padrão como Hemingway, só pode resultar num texto de grande fruição literária:
Um momento depois, saímos das montanhas. Havia árvores de ambos os lados da estrada, um curso de água e campos de trigo maduro, a estrada continuando, muito branca e reta. Subia em seguida uma pequena altitude e, à esquerda, a certa distância, havia uma colina com um velho castelo, edifícios em torno e um trigal chegando quase às muralhas e ondulando ao vento.
Eu ia na frente, com o chofer, e voltei-me. Robert Cohn dormia, mas Bill olhava e sacudiu a cabeça. Depois atravessamos uma vasta planície e, à direita, vimos um grande rio que brilhava ao sol, entre fileiras de árvores; ao longe avistava-se o planalto de Pamplona, erguendo-se na planície, e as muralhas da cidade, a grande catedral escura e a silhueta irregular das outras igrejas.

Atrás do planalto, havia montanhas, e, de qualquer lado que se olhasse, outras montanhas. Diante de nós, a estrada branca corria através da planície, em direção a Pamplona.
Depois de uma breve estadia em Pamplona, Jake e Bill vão a Burguete sem a companhia de Robert, que desistira da pescaria. Os cinco dias em Burguete serão os mais tranquilos daquela viagem, como se fosse uma recarga de energia preparando o corpo para a agitada semana de sanfermines que virá a seguir. A ida a Burguete é feita de ônibus, e se você fizer hoje a viagem desde Pamplona provavelmente irá ver as mesmas paisagens que Hemingway descreveu em sua obra há mais de oitenta anos:
O ônibus subia sempre. A região era nua e as rochas se erguiam saindo da argila. Não havia ervas, dos lados da estrada. Voltando-nos, podíamos ver o vasto campo, lá embaixo. Muito ao longe, as plantações formavam quadrados verdes e pardacentos, nas encostas.

Montanhas escuras fechavam o horizonte. Tinham formas estranhas. À medida que subíamos o horizonte mudava, e, enquanto o ônibus subia lentamente a estrada, víamos outras montanhas aparecendo, ao sul. Então a estrada passou a crista, tornou-se plana e entrou numa floresta. Era uma floresta de sobreiros, o sol penetrava através das folhas, formando manchas, e o gado pastava entre as árvores.
Atravessamos a floresta, a estrada saiu novamente, contornou uma elevação de terreno e vimos à nossa frente uma planície verde, ondulante, fechada por montanhas escuras, que não se pareciam com as outras, pardacentas e calcinadas de sol, que havíamos deixado para trás. Eram montanhas cobertas de matas e delas desciam nuvens.

A planície verdejante alongava-se, cortada de cercas, e a brancura da estrada aparecia através dos troncos de uma dupla fila de árvores que cruzavam o planalto em direção ao norte. Chegando à borda da crista, avistamos os telhados vermelhos e as casas brancas de Burguete, alinhadas na planície, e, ao longe, sobre o flanco da primeira montanha escura, apareceu o telhado cinzento, metálico, do mosteiro de Roncesvalles.
O ônibus rodava em terreno plano, na estrada que vai em linha reta até Burguete. Passamos uma encruzilhada, atravessamos uma ponte sobre um regato. As casas de Burguete margeavam os dois lados da estrada. Não havia transversais. Passamos diante da igreja e da escola, e o ônibus parou.
Em cinco parágrafos Hemingway descreve o percurso de cinquenta quilômetros de maneira tão convincente e bela que quase se torna possível sentir o frescor presente na natureza encantada daquelas paragens. A mesma sensação se tem quando o autor leva os personagens a caminho da pescaria:

Pusemos o almoço e duas garrafas de vinho no embornal e Bill colocou-os a tiracolo. Eu levava às costas a caixa de caniços e as redes. Subimos a encosta e depois de atravessar um prado encontramos um atalho através dos campos na direção da mata, no declive da primeira colina. Atravessamos o campo num caminho arenoso. Os campos eram ondulados e relvosos, mas a grama era curta, porque os carneiros ali haviam pastado. O gado estava mais no alto, nas colinas. Ouvimos os cincerros (campainha que se pendura no pescoço da besta que guia as outras) acima, nas matas.
O caminho atravessava um regato sobre um tronco de árvore, que fora aplainado, e uns galhos, que se haviam encurvado, serviam de parapeito. Num poço, ao lado do regato, rãs pontilhavam a areia. Subimos uma margem escarpada e atravessamos campos ondulantes. Voltando-nos, vimos Burguete: casas brancas, telhados vermelhos e a estrada branca, na qual passava um caminhão levantando uma nuvem de poeira.

Além dos campos, atravessamos outro curso de água, mais rápido. Um caminho saibroso conduzia ao vau e, mais adiante, à mata. O atalho atravessava o regato sobre outro tronco de árvore abaixo do vau e reunia-se à estrada. Entramos na mata.

Era um bosque de faias, de árvores muito antigas. As raízes saíam da terra e os galhos eram retorcidos. Seguimos a estrada entre os troncos espessos das velhas faias, e os raios do sol, através das folhas, deixavam manchas claras sobre a erva. As árvores eram grandes e a folhagem espessa, mas não era lúgubre. Não havia arbustos, mas apenas erva, muito verde e fresca, e as grandes árvores cinzentas, regulares como num parque.
(...) A estrada desemboca, da fresca sombra dos bosques, no sol ardente. Diante de nós, havia um rio no vale e, além do rio, uma colina a pique. Na colina, um campo de trigo-sarraceno. Avistamos uma casa branca sob algumas árvores, na encosta da colina. Fazia muito calor e paramos sob árvores, ao lado de uma barragem que atravessava o rio. Bill colocou o saco de encontro a uma árvores e, depois de montar os caniços e colocar os carretéis, e tendo ligado os pesos, nos dispusemos a pescar.

Não tenho dúvidas de que Hemingway deve ter se apaixonado pela paisagem e natureza das terras navarras, ou não teria gasto tantas linhas descrevendo o cenário da maneira como o fez.

Burguete situa o leitor exatamente no meio da narrativa; a outra metade começa com a chegada dos personagens a Pamplona, onde passarão as festividades de sanfermines. E assim começa a descrição da aventura:
No domingo, 6 de julho, produziu-se a explosão da fiesta. Não há outra maneira de expressá-lo. Durante todo o dia chegara gente do campo, mas todos se dispersavam na cidade e eram por ela absorvidos de modo que ninguém notava. Os camponeses ficavam nos cabarés dos arredores, bebendo e preparando-se para a fiesta. Haviam chegado tão recentemente das planícies e das montanhas, que precisavam habituar-se gradualmente à mudança de valores.
(...) A fiesta começara realmente. E durou, dia e noite, sete dias. A dança continuou, as libações continuaram e o ruído não cessava. Passaram-se coisas que só podiam acontecer mesmo durante a fiesta. Tudo se tornou absolutamente irreal, e semelhava que nada mais poderia ter qualquer consequência.
E deste ponto em diante, o que se segue é uma verdadeira aula de tauromaquia. Hemingway foi um grande entusiasta das touradas, “único espetáculo artístico no qual o artista corre o risco de morrer”, teria dito.

A mensagem, afinal, talvez venha daí, da dicotomia entre a vida e a morte, da celebração e do lamento, porque tudo não passa de uma ilusão, porque tudo é transitório. Um dia somos touros, outra toureiros. Mesmo o sol, com toda a sua magnitude, morre todos os dias e volta a nascer, é o que sugere o título dessa obra, evocando uma passagem bíblica.
Mas isso são apenas considerações gerais, até mesmo vazias se comparadas à rica dimensão psicológica da obra, que é afinal a compreensão do ser humano que narra a aventura toda, Jake Barnes. E tentar compreender o outro, vale ressaltar, é o primeiro passo na árdua tarefa de compreender a si mesmo com mais clareza.

Leia: O sol também se levanta. Ernest Hemingway. A edição que usei aqui é a da Abril Cultural, de 1982. Tradução de Berenice Xavier.

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