domingo, 20 de fevereiro de 2011

Vagamundos, by Rolf Potts

.
Esse post vai agradar aqueles que sonham em um dia sair pelo mundo e perambular pelos quatro cantos do globo sem pressa nenhuma de voltar para casa. Rolf Potts, um norte-americano que escreve sobre viagens independentes para a National Geographic viajou muito pelo planeta e decidiu escrever um guia para ajudar futuros vagamundos na arte do que ele chama de “Long-term world travel”, ou “viagem de longa duração pelo mundo”.

Eu disse vagamundos? Sim, vagamundos, que é como ele denomina esses tipos de aventureiros e aventureiras descolados. Preferi usar o termo vagamundo a vagabundo (na tradução de vagabond) porque este último carrega um sentido muito pejorativo na nossa língua.

O Rolf diz que vagabond é um termo derivado do latim para wanderer, substantivo que em inglês se utiliza para se referir ao viajante que não tem residência fixa. Já o Aurélio é muito mais criativo em sua definição de vagabundo; além de explicar que o vagabundo é aquele (a) que leva uma vida errante, que vagueia, ele arruma uns sinônimos cheios de graça: vadio, inconstante, nômade, andejo, mundeiro, volúvel, leviano, velhaco, pilantra, canalha, biltre, reles, ordinário, desocupado, ocioso, vagamundo, troca-pernas, valdevino, caça-fecho, cafumango, calaveira, calça-fecho, calça-foice, lustra, lustroso, ximbo.
Dessas palavras todas considero vagamundagem a mais apropriada à tradução que fiz para Vagabonding, que é o título da obra do Rolf Potts. Agora chega de explicações e vamos ao que interessa. A obra possui duzentas páginas e o sumário divide-se assim: I) Vagamundagem; II) O começo; III) Pé na estrada; IV) A longa jornada e V) Voltando para casa.

Claro que, num trabalho desse porte, há toneladas de conselhos e dicas de gente experiente. Alguns úteis, outros nem tanto, alguns que a gente lê e pensa com maldade que “é coisa de americano”, e por aí vai. Mas de um modo geral eu gostei do livro do Rolf e também de seu estilo despretensioso e bem-humorado.

Uma ideia bacana do Rolf, que já vi funcionar igualmente bem em outras obras, foi a de colocar no final de cada tópico entre os capítulos de cada uma das cinco seções um pequeno e simpático Vagabonding Profile, ou seja, o perfil de algum vagamundo tomado como modelo ou inspiração (não se esquecendo das pioneiras mulheres vagamundas). E desses perfis surgem nomes de bom quilate: Walt Whitman, Thoreau, Bayard Taylor, John Muir, John Ledyard, Ed Buryn e Annie Dillard, entre outros.

Citações, opiniões de gente desconhecida que caiu na estrada, dicas de leitura e sites de interesse ajudam a enriquecer o trabalho do Rolf, que por sinal mantém um blog bacana criado evidentemente para vender seu peixe – certo está o moço.

Escolhi para o Odepórica o capítulo 5 intitulado “Não estabeleça limites” (Don’t set limits), da seção Pé na estrada. Tomei a liberdade de excluir alguns parágrafos, com o cuidado de não alterar a mensagem e o sentido do texto. Boa viagem e Namastê!


Não estabeleça limites

Os budistas acreditam que nós levamos nossas vidas como se vivêssemos dentro de uma casca de ovo. Assim como uma galinha que ainda não saiu do ovo possui poucas pistas sobre o sentido da vida, a maioria de nós possui apenas uma vaga noção do enorme mundo que nos rodeia.

“Excitação e depressão, fortuna e desventura, prazer e dor,” escreveu Dhammapada Eknath Easwaran, “são tempestades em um pequenino e individual reino de casca de ovo – no qual tendemos a passar toda uma existência. Ainda assim, podemos quebrar essa casca e ingressar em um novo mundo.”
Vagamundagem não é o Nirvana, claro, mas a analogia com o ovo pode ser aplicada aqui. Ao deixar as rotinas e obrigações do lar para trás – tomando aquele resoluto primeiro passo em direção ao mundo – você se verá lançado a um paradigma muito maior e menos constritivo.

Nos estágios de planejamento de suas viagens, esta ideia pode parecer assustadora. Mas uma vez que você entra de cabeça e cai na estrada, logo percebe como tudo rola fácil e de maneira eletrizante. Experiências comuns (como pedir uma comida ou tomar um ônibus) irão de repente parecer extraordinárias e cheias de possibilidades. Todos os detalhes da vida diária que você ignorava quando estava em casa – o sabor de um refresco, o som de um rádio, o cheiro do ambiente – vão repentinamente parecer ricos e exóticos.

Comida, moda e entretenimento irão parecer deliciosamente peculiares e absurdamente baratos. À parte todos os seus preparativos, você invariavelmente se pegará querendo saber mais sobre as histórias e as culturas que o cercam. O tênue murmúrio do desconhecido, assustador a princípio, logo se mostrará viciante: simples incursões ao mercado ou uma ida ao banheiro podem transformar-se em uma aventura; conversas banais podem criar agradáveis laços de amizade. A vida na estrada, você logo descobrirá, é muito menos complicada do que você poderia imaginar, embora intrigantemente mais complexa.
“Viajar, em geral, e vagamundear, em particular, resulta numa enorme experiência de vida”, escreveu Ed Buryn, “...uma provação de incidentes, impressões e detalhes de vida que são ao mesmo tempo estimulantes e exaustivos. Tantas coisas novas e diferentes acontecem com você de maneira tão freqüente, justamente quando você se encontra mais sensível a elas... Você pode ficar excitado, chateado, confuso, desesperado e surpreso, tudo isso num único e alegre dia.”

Se há alguma coisa a ser lembrada e posta em prática em meio à excitação dos seus primeiros dias na estrada, é esta: vá devagar. Para os vagamundos de primeira viagem, essa pode ser a lição mais dura de compreender, já que sempre parecerá que há muito que se ver e experimentar. Entretanto, você tem que ter em mente que o ponto principal de uma viagem de longa duração é ter o tempo para mover-se deliberadamente pelo mundo.
Vagamundear não trata apenas de escolher um período mais ou menos longo de sua vida para viajar, mas sim de redescobrir inteiramente o conceito de tempo. Em sua vida rotineira, você é condicionado a executar seus afazeres, atingir seus objetivos e mostrar sua eficiência a cada momento do dia. Na estrada você aprende a improvisar seus dias, a dar uma segunda olhada em tudo aquilo que vê, e não fica obcecado com os seus horários.
O lance é facilitar sua vida no período da vagamundagem. Aclimate-se primeiro, relaxando em algum lugar mais centralizado. Não tente querer conhecer todos os pontos turísticos locais e nem formule uma lista de “coisas para fazer”. Olhe e escute atentamente o ambiente. Perceba o prazer contido nos pequenos detalhes e diferenças. Veja mais e analise menos; aceite as coisas como elas são. Pratique a sua flexibilidade e paciência – e não decida antecipadamente quanto tempo irá permanecer em um local ou em outro.

Em muitos sentidos, essa transição no contexto da viagem pode ser comparada à infância: tudo aquilo que se vê é novo e mexe com o estado emocional; tarefas básicas como comer e dormir passam a ter um significado potencializado e o entretenimento pode ser encontrado nas mais simples curiosidades e novidades. “De repente você volta a ter cinco anos novamente”, diz Bill Brysson. “Você não consegue ler nada, e apenas possui o mais rudimentar senso de como as coisas funcionam; você nem mesmo pode atravessar uma rua com segurança sem o perigo de perder a vida. Toda a sua existência se transforma numa série de conjecturas interessantes.”
De certo modo, caminhar por lugares novos com os instintos de uma criança de cinco anos é libertador. Você não se encontra mais ligado ao seu passado. Ao viver tão afastado do seu lar, você logo se verá segurando um livro com páginas em branco. Não há melhor oportunidade para livrar-se de velhos hábitos, encarar medos latentes e testar as facetas reprimidas da sua personalidade.

Socialmente, você verá que é fácil se entrosar com as pessoas e manter a mente aberta. Mentalmente, você se sentirá engajado e otimista, pronto pela primeira vez a ouvir e aprender. E, mais do que tudo, você vai encontrar-se alvoroçado com aquele sentimento peculiar de ter o poder de escolher seguir (literal e figurativamente) para qualquer direção no momento que você mesmo determinar.

No início, é claro, você irá cometer erros de viagem. Comerciantes duvidosos podem te burlar, o desconhecimento dos costumes locais pode fazer com que você ofenda as pessoas, e você sempre se encontrará vagando perdido pelas mais estranhas redondezas. Alguns viajantes fazem um esforço enorme para evitar essas mancadas próprias dos neófitos, mas na verdade elas são uma parte importante do processo de aprendizagem. Como diz o Corão Sagrado, “Você achou que poderia entrar no Jardim da Felicidade sem passar pelos mesmos caminhos trilhados por aqueles que caminharam antes de você?” De fato, todo mundo começa como um vagamundo novato, e não há razão para supor que será diferente contigo.

Gafes e decepções


Uma das minhas primeiras gafes como vagamundo aconteceu em Macau, quando encontrei uma pequena inclinação gramada durante uma caminhada debaixo da muralha do forte português daquela localidade. Por ter passado a maior parte da semana pelos confins de concreto de Hong Kong, aquela faixa de grama verde era muito tentadora para passar despercebida.

Joguei minha pequena mochila de lado e me esparramei na grama ainda úmida sob o sol da tarde. Eventualmente, percebi que uma multidão de gente local estava me olhando. Eu acenei, e eles riram. Num primeiro momento eu imaginei que eles estavam encantados com a minha alegre informalidade, até que um estudante que falava inglês se aproximou educadamente de mim.

“Desculpe”, ele disse, “mas não é saudável sentar-se nessa grama”.
“Tudo bem”, respondi. “De onde eu venho nós fazemos isso o tempo todo. É para isso que são feitos os parques; alguns insetos e um pouco de pólen nunca machucou ninguém.”
“Sim”, disse o jovem, ruborizado com minha estupidez, “mas de onde eu venho, a grama serve apenas como banheiro de cachorro.”
Já não me lembro o que respondi depois de ouvir aquela revelação surpreendente, mas o ponto é que todo vagamundo acaba, numa hora ou outra, agindo como um turista idiota.

“Uma das habilidades essenciais para um viajante”, observou o jornalista John Flinn, “é encarar a si mesmo como um tolo extravagante”. Em assim sendo, permita-se rir e aprender com os seus infortúnios. Você não só aprenderá coisas novas sobre si e sobre quem o cerca nesse processo, mas também irá fazer um curso intensivo sobre como funciona a vida de um viajante (que inclui rituais mundanos tais como barganhar por legumes, perambular por lugares desconhecidos com um mapa de guia de viagem, e lavar as suas roupas na pia do hotel). Agindo de maneira apropriada, em poucos dias você estará sintonizado com a vida de vagamundagem.

De maneira geral, você sempre inicia suas viagens fazendo as coisas que sempre sonhou enquanto planejava sua visita. Mas, infelizmente, a vida no circuito das viagens não é uma sucessão interminável de momentos mágicos e de experiências fenomenais – e algumas atrações e atividades acabam tornando-se redundantes depois de um tempo. Além disso, as principais atrações de uma viagem (dos templos de Luxor às festas das praias caribenhas) podem estar tão abarrotadas de gente por conta de sua própria popularidade que fica até difícil poder curtir alguma coisa.
De fato, um dos maiores clichês da viagem moderna é o medo de se decepcionar em um lugar que você sempre sonhou em conhecer. Lembro-me de uma tira de jornal que mostrava um homem numa agência de turismo admirando os pôsteres dos destinos mais famosos do mundo. “Todos esse lugares me parecem demais”, ele diz, “Não vejo a hora de me desapontar!”
Em outras palavras, as atrações turísticas são definidas pela sua popularidade coletiva – a mesma popularidade que tende a desvalorizar a experiência individual dessas atrações.

Mas esse sentimento de desapontamento pouco afeta a estrada; a razão pela qual muitos viajantes se sentem frustrados enquanto visitam os destinos mais famosos do mundo se encontra no fato de que essas pessoas continuam jogando de acordo com as regras de casa, buscando recompensas que só chegam através da velha conduta rotineira e cheia de protocolos. Portanto, na estrada, você jamais deve se esquecer que só a você cabe o controle exclusivo de sua agenda.
Neste sentido, vagamundagem é como uma peregrinação sem um destino ou objetivo específico – não uma busca de respostas, mas uma celebração das questões, um abraço do ambíguo, e uma abertura a tudo o que aparece no seu caminho.

Se você cair na estrada com agendas e metas específicas a serem cumpridas, na melhor das hipóteses você irá descobrir o prazer de realizá-las.

Mas se você viajar com os olhos abertos com uma atitude simples e de curiosidade, você descobrirá um prazer muito mais gratificante – aquele sentimento simples de possibilidade que sussurra em cada direção enquanto você se move de um lugar a outro.




Leia: VagabondingAn uncommon guide to the art of long-term world travel. Rolf Potts. Villard: New York. 2003.

Visite o site do Rolf Potts.
http://www.vagablogging.net/

Outros sites que recomendo com louvor:

Do vagamundo Wade Shepard:
http://www.vagabondjourney.com/travelogue/

E o portal
http://www.vagobond.com/ em especial o tópico Extraordinary Vagabonds , que merece demais uma leitura atenta.

4 comentários :

  1. Oi Paulo, gostei do que vi. Estou com vontade de vagabundear. :-)
    Beijinho, Pá

    ResponderExcluir
  2. Paulo, obrigado pelo blog, demais, muito bem feito. On The Road Forever. Abraços. Manoel - Piraju - SP

    ResponderExcluir
  3. On the road forever, Manoel! AbraçOM, paulo

    ResponderExcluir
  4. Olá Paulo! Gostei bastante do seu post... Eu também, esses dias escrevi um post sobre o Vagabonding no meu blog, e resolvi dar uma pesquisada em outros blogs se alguém já tinha comentado a respeito. Aí achei o seu!

    Gostei da "solução" que você encontrou, de chamar os vagabonds de "vagamundos", hehe... Eu também fiquei nessa dúvida na hora de escrever meu post.

    Mas enfim, também gostei muito do livro, e já vou colocar alguns dos conceitos em prática na minha próxima viagem... No meu blog vou contar as minhas aventuras!

    Valeu!

    http://apenasmenos.com/rolf-potts-vagabonding/

    ResponderExcluir