domingo, 6 de fevereiro de 2011

Andanças e visões de Miguel de Unamuno

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Miguel de Unamuno, um dos grandes autores da literatura espanhola, nasceu em 1864 num pequeno povoado de Bilbao. Escreveu poesias, romances, artigos, ensaios e dois relatos de viagem: Por tierras de Portugal y de España (1911) e Andanzas y visiones españolas (1920). É deste último que vamos tratar daqui a pouco.

Unamuno formou-se em filosofia em Madrid e sua carreira acadêmica o levou a lecionar língua e literatura grega na Universidade de Salamanca. Deve ter sido um homem muito inteligente, pois em 1901 já havia se tornado reitor da mais prestigiada Universidade espanhola.



Mas Miguel de Unamuno não era apenas um intelectual, era também um homem muito cheio de atitude. Não deixava nada barato e fazia questão de afirmar suas posições políticas, o que lhe causou alguns desgostos durante a vida, entre eles o de ser afastado diversas ocasiões de seu cargo de reitor, e também da vida pública, tendo sido deportado para as ilhas Canárias em 1924. Dois anos depois exilou-se na França, onde permaneceu até o ano de 1930. Seus últimos anos de vida foram passados em prisão domiciliar na cidade que tanto amou, Salamanca, onde veio a falecer, em 31 de dezembro de 1936.

Essa sucinta biografia serve apenas para contextualizar o que você irá ler nos próximos parágrafos. Unamuno gostava imensamente de viajar e desconfio que suas escapadas – ele as chama de excursões – eram a melhor maneira de fugir da insatisfação política que pesava sobre a Espanha naquele período histórico tão conturbado, às vésperas da ditadura de Francisco Franco. Viajar também é fugir e as fugas muitas vezes são estratégias necessárias para poder ganhar força para continuar as batalhas que surgem ao longo da vida.


Andanzas y visiones españolas não foi publicado no Brasil e o volume que estou usando data de 1941, editado em Buenos Aires. A obra é composta de 40 relatos relativamente curtos, de viagens empreendidas pelo autor num período que vai de 1911 a 1921. Em alguns momentos, poucos, sente-se o peso da I Guerra na narrativa do viajante, mas de um modo geral ele preferiu adotar uma postura mais poética, reflexiva e filosófica em seus relatos.

Miguel de Unamuno passa a imagem de um homem nostálgico, desencantado com o ritmo da vida da época em que viveu, o que se percebe ao vê-lo falar do passado. Fico imaginando o que o autor pensaria da Espanha atual, passados já cem anos de suas primeiras excursões pelo interior do país. Mas acho que esse desencanto faz parte um pouco da personalidade das mentes filosóficas, o que não deixa de ser charmoso às vezes - para quem tem estilo, é claro, e Miguel o tem de sobra. Darei um exemplo, de uma passagem em que o autor se encontra no alto de uma montanha, próximo ao santuário de Nossa Senhora de la Peña, na França:



“Ali em cima, envolto pelo silêncio, sonhava com todos os que, havendo podido ser, não fui para poder ser o que hoje sou”.

Bonito isso, não? Coisa de filósofo viajante, que adorava perambular, principalmente para o campo e para as regiões montanhosas, de onde pudesse, desde o alto, contemplar o mundo silencioso logo abaixo; Unamuno, ele mesmo afirma, diz que se nutria dessas paisagens e eu achei essa imagem genial, porque de fato é possível imaginar a força dessa metáfora, nutrir-se de uma paisagem, como quem absorve um alimento para a alma.


“Aquelas paisagens que foram o primeiro leite de nossa alma, aquelas montanhas, vales ou planícies em que se amamentou nosso espírito quando este ainda não falava, tudo isso nos acompanha até a morte e forma como o cerne, o tutano dos ossos da própria alma. Porque a alma possui seu esqueleto, exceto naqueles desgraçados que a têm mucilaginosa, invertebrada, como o polvo ou a esponja marinha. Mas para quem tem alma vertebrada, com ossos que a mantém em pé e mirando o horizonte, esses ossos se nutrem de um tutano que foi feito com as nobres e serenas visões da infância distante.”

Viajar era algo levado a sério por Unamuno, talvez até demais, como se pode notar na posição por ele adotada na passagem abaixo:

Viajar, sim, viajar, mas não somente para poder contar sobre a viagem no sossego de casa aos filhos, aos amigos: “Eu também estive ali!”, pois isso na maioria das vezes não passa de vaidade, como a dos novos-ricos norte-americanos, mas também, sobretudo, para recordar e saborear a sós e para acalentar com a recordação dessas viagens às terras distantes o prazer do apego ao local de nascimento ou de onde se ergue o próprio ninho.


Mas, para que viajam a maioria dos que viajam? Há algo mais atrapalhado, mais molesto, mais prosaico do que o turista? O inimigo de quem viaja por paixão, por alegria ou por tristeza, para recordar ou para esquecer, é o que viaja por vaidade ou por modismo, é esse horrível e insuportável turista que se prende ao asfaltado das ruas, nas maiores ou menores comodidades do hotel e na comida deste.



Porque há quem viaja, me horroriza ter que dizê-lo, para provar das distintas cozinhas. E outros para visitar teatros, cafés, cassinos, salas de espetáculos, que são em todas as partes a mesma coisa e em todas igualmente infectas e horrendas. E há quem viaja, já o disse em outra ocasião, por topofobia, para fugir de cada lugar, não em busca de onde se vai, senão em fuga de onde se parte.

Bom, não vamos julgar o homem, pois não podemos nos esquecer que num relato de viagem tem muito peso o contexto da época em que foi escrito. E não eram tempos fáceis aqueles, como já vimos, lembrando que o turismo, tão desprezado pelo autor na passagem acima, ainda era coisa para pouquíssimos privilegiados no começo do século passado.


Mas os turistas não são as únicas vítimas de Unamuno, que também desce a lenha nos conterrâneos espanhóis, a quem chama muito pejorativamente de “pordioseros”, vocábulo proveniente da típica expressão espanhola “Por Dios”. Nada muito diferente do que ocorre por aqui, veja só:

A pobre gente falava de suas vidas mansas, humilde, resignadamente. Fiquei na dúvida se as queixas eram rituais, eco daquilo que ouviram por toda a vida, ou mais uma forma de nossa característica choramingação espanhola, desta detestável mania de pordioseros de estarem sempre se lamentando de sua sorte e de sua pátria. Fiquei na dúvida de que se tudo isso não era senão a volúpia da queixa.


Fácil perceber que Unamuno tem um olhar crítico sobre tudo, ou quase tudo aquilo que observa em suas andanças: pessoas, lugares, a literatura, a arte, a política, mas isso nem de longe faz dele um ser amargurado, pelo contrário; sua erudição e sua escrita poética tornam sua leitura um prazer. Poucos são os que conseguem narrar a natureza como Miguel, que gosta das alturas e do silêncio.


Ali, no topo, ali sim se parece a vida um sonho e um sopro. (...) Ali em cima, no cume da Peña de Francia (montanha que se localiza a 1723m, ao sul da província de Salamanca), sentia cair as horas, fio a fio, gota a gota, na eternidade, como a chuva sobre o mar. Melhor do que gota eu diria floco a floco, pois caíam silenciosas, como cai a neve, e brancas. É sobretudo do silêncio o que ali se goza.

(...) Me ponho de cara à cidade, que está ali, por sobre aquele pequeno pico escuro. À minha direita, ao nascente, o maciço da serra de Béjar, o Calvitero, com a forma de um gigantesco monte de feno. Brilham algumas casas em Béjar. Cumprimento a montanha irmã, mais alta do que esta na qual me encontro, e onde uma vez, antes de raiar o dia, deitado sobre a terra e sem mais teto que não o céu, vi-me envolto em uma nuvem de tormenta. E foi então quando compreendi ao Deus do Sinai.

(...) Partimos ao amanhecer de Las Erías, subindo em direção a Horcajo. Que panorama estupendo! Lembrei-me da frase de Obermann, de que o sentimento da montanha jamais poderá ser expresso em uma língua criada pelos homens das planícies.

Bacana, não? E é assim que o Miguel vai excursionando pelas terras de Espanha, às vezes até atravessando a fronteira com Portugal, onde guarda boas lembranças e amigos. Não se espera daquelas paisagens nada mais do que a simplicidade e o silêncio, a beleza natural e a ternura dos campesinos, porque isso, somente isso, e um pedaço de pão e de queijo, e um gole de vinho, e talvez um bom livro, são suficientes para alegrar a existência de qualquer pessoa.


Essa Espanha de Unamuno, com certo esforço, ainda pode ser encontrada em algumas paragens mais remotas, nos pequenos pueblos mais afastados das estradas de alto tráfego e de grandes núcleos urbanos. É difícil dizer, sem parecer saudosista ou simplista demais, o que esses lugares têm de especial. Provavelmente, para muitos, para a grande maioria, não haja nada de interessante a ser observado nesses locais. Ruínas seculares? Restos de civilização? Gente velha e abandonada esperando a morte chegar? Isso tudo faz parte do pacote, é verdade.

Mas a poesia está mais no olhar do que no objeto. Daí a beleza de textos como os de Unamuno, pois foram escritos por alguém que sabia exercitar o olhar do viajante. Percebi isso muito claramente quando li o último relato de Andanzas, “Junto à velha igreja”. É curtinho, e vou postá-lo na íntegra, quem sabe você também consiga captar a sutileza – em parte perdida por conta da tradução – da linguagem poética, com um toque de Augusto dos Anjos, desse grande escritor e viajante espanhol. Namastê!



Junto a la vieja Colegiata


Um morcego rondava a cúpula daquele templo românico onde já não mais ressoavam preces nem ardiam os círios. Solitário em seu nicho escuro, um Cristo lívido, sem as almas que outrora sob seus pés lhe suplicavam perdão; do céu fechado do templo – as bóvedas – pareciam gotejar pelas tardes, remotas lendas, filhas da negra angústia apocalíptica dos mais bárbaros séculos, quando a alma tremia, com as asas quebradas, no cárcere da carne, aguardando a morte numa tortura mística, para ver-se assim livre do mundo de odiosas histórias; e na paz do sepulcro do tétrico recinto - de uma fé morta no túmulo - um silêncio de pedra envolvia as velhas memórias.

Do lado de fora do templo, sob o sol vivífico, a abside arredondada coberta por um manto de hera, que ampara os ninhos onde a cada ano ágeis andorinhas nidificam suas crias e, partindo, as levam a alguma mesquita nos limites do Saara. Na torre em ruína uma cegonha hierática, com os olhos sonâmbulos, cochila em pé, e ao cair da tarde, em posição de sentinela, com seu vôo eurrítmico vai da poça às margens do rio buscar a caça que no ninho sua cria devora.

E o Cristo solitário, preso naquele lúgubre interior, entedia-se, e ouve lá de fora o alegre pio das andorinhas e o bater dos dentes das cegonhas, feito prece litúrgica, contando os dias que faltam para o êxodo, aves peregrinas!

ANDANZAS Y VISIONES ESPAÑOLAS. MIGUEL DE UNAMUNO, 1920

2 comentários :

  1. essa historia esta muito massa com essa imagens . vc vai na gabi . vosse ten multa imaginassom tem e msn e tuitter
    beloz

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  2. Valeu, Beloz! (não tenho msn nem tuíter, mas vc me acha fácil por aqui...). Namastê!

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