sábado, 1 de janeiro de 2011

Jornadas de simplicidade, by Philip Harnden

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Ganhei de natal um livro simplesmente encantador: Journeys of Simplicity: Traveling Light. Simples no tamanho, simples na proposta, simples em tudo. Mas, alto lá: nem sempre as coisas simples são banais ou superficiais, pelo contrário; nos dias que correm, a simplicidade é algo que se conquista com alguma dificuldade, e é esse paradoxo que torna a leitura de Jornadas da Simplicidade uma curtição.

O autor, Philip Harnden, que vive lá pela fronteira entre os Estados Unidos e o Canadá, pertence à religião dos
Quakers e escreve artigos de conteúdo religioso/espiritual. Isso de certa forma explica a presença marcante de algumas personalidade relacionadas ao universo espiritual: Thomas Merton, Bashô, Gandhi, Jesus de Nazaré e Peregrina da Paz, só para citar os mais conhecidos.

Mas o sagrado se mistura deliciosamente ao profano, e daí que aparecem por lá o Werner Herzog, o Marcel Duchamp, o Robert Pirsig e junto com eles gente que só existe nas páginas dos livros, como o Bilbo (do Senhor dos Anéis), o Padre Zossima (Irmãos Karamazov) e o Japhy, o vagabundo iluminado de Kerouac. Uma salada interessante de personagens reais e fictícios que dão à essa pequena coletânea de textos um tempero especial.

E o livro se apresenta assim: para cada personagem, duas páginas; na esquerda uma breve, brevíssima apresentação do fulano ou da fulana, e na página da direita uma lista daquilo que essas pessoas carregaram em suas viagens ou em suas vidas, o que dá quase no mesmo, porque aqui a metáfora da viagem se mistura à realidade da vida (ou seria a realidade da viagem que se mistura à metáfora da vida?).
Jornadas da Simplicidade é um livro que se lê em trinta minutos, não mais do que isso. Mas sua leitura não se aproveita assim, da mesma forma que não se lê um punhado de boas poesias em meia hora e pronto. É preciso ritualizar a leitura, ler e deixar a mente vagar, traçando paralelos com sua própria história de vida. As listas que Philip teve o cuidado de garimpar dizem muito, às vezes quase tudo, sobre a vida e sobre quem foi o personagem ali retratado de maneira tão frugal. O que carregaram os grandes exploradores em suas viagens fantásticas? O que deixaram após sua partida aqueles que pregaram uma vida simples e livre de excessos?

A questão primordial dessa leitura, que parece inspirar uma filosofia da simplicidade, é a de nos fazer refletir sobre o peso que carregamos em nossas viagens e em nossas vidas. Lembro-me sempre de um peregrino jacobeo que certa vez afirmou que a aventura do Caminho de Santiago é proporcional à quantidade de dinheiro que se carrega na carteira; menos grana significa mais aventura, mais emoção e, claro, provavelmente mais provações também. Mas daí a pergunta: quem terá mais histórias para contar, o viajante que caminhou com o mínimo e contando com a ajuda de outras pessoas ou aquele que no final de cada dia relaxava na banheira de uma confortável pousada? Como tudo na vida, uma questão de opção. E viva o “caminho do meio”, certo? Certo.
Mas vamos simplificar esse post. Das quarenta personagens citadas na obra, escolhi meia dúzia. Nem todos os que apareceram na lista do autor são interessantes, (alguns são até bem insossos) mas no fundo todas as listas pecam pelo excesso de subjetividade nelas contidas. Então, que cada um faça a sua, certo? E deixo contigo, leitor e leitora do Odepórica, quatro perguntinhas capciosas que o editor botou na contracapa do livro e que servem de ponto de partida para a próxima viagem que você for empreender em sua vida: Para onde nossas jornadas nos levam? O que deixamos para trás? O que carregamos conosco? Como podemos encontrar o nosso caminho? Boas questões para se iniciar um ano novo, não? Feliz 2011 e Namastê!

Viajando com leveza



Há mil e duzentos anos na China um homem de meia idade chamado P’ang Yün carregou todos os seus pertences em um barco e afundou tudo no lago Tung-t’ing. Depois disso, ficamos sabendo, “ele viveu como uma simples folha”.

Imagine-o lá numa manhã bem cedinho, com os pés mergulhados na água no meio do lago, observando as últimas bolhas subindo das profundezas. O ar fresco e calmo. O lago enevoado e tranqüilo assim como o céu. Depois veja-o partir, dando as costas às margens do lago.

Justine Dalencourt, uma Quaker francesa, foi forçada a abandonar sua casa em Fontaine-Lavaganne quando o exército alemão invadiu a França em 1914. Mas antes de partir ela cultivou a sua horta, dizendo: “Prefiro que eles encontrem algo de comer em minha casa a vê-los roubar dos outros.”
Imagine-a de joelhos, cobrindo com terra a última semente, afofando o solo úmido. O sol caloroso da primavera. O perfume intenso da terra sob suas narinas. Um trovão iluminando o céu ao longe. Depois veja-a, em pé, virando-se e indo embora.

Viajar de maneira leve – imagine o significado disso: uma jornada sem sobrecarga, uma maneira graciosa de viajar pela vida tal como uma simples folha. Agora imagine outra coisa: a luz pela qual nós viajamos, a luz que indica o caminho. A luz da nossa jornada.

O que significa viver como uma simples folha? Uma jornada sem sobrecargas, sem tumultos, sem distrações – uma jornada com foco e intenção? Uma jornada de leveza e luz?
Os Quakers dizem que uma chama brilha dentro de cada um dos seres. De cada ser. Todos os seres. Será que essa Luz seria capaz de fazer-nos lembrar que, após roubarem nossas casas, os soldados estarão famintos? E que para ver essa Luz Profunda – em nós mesmos e nos outros - devemos antes afundar o barco?

Em 1889, aos dezessete anos, meu avô deixou sua família e amigos na Suécia e navegou para a América. Ele empacotou todos os seus bens num pequeno baú de madeira. Hoje eu guardo esse baú próximo à minha escrivaninha. Suas ripas de madeira entrelaçam-se numa moldura retangular; sua tampa faz uma curva ascendente. A madeira, agora quebrada em algumas partes, escureceu com o tempo.
Ponderando sobre esse velho baú, vejo um jovem garoto de fazenda, o medo e a aventura em seus olhos, deixando tudo de lado exceto o essencial ao fazer a mala para sua viagem, vivendo em si uma simplicidade quieta. Vejo-o embarcando num barco nas primeiras horas de uma manhã nublada e rumando em direção às profundezas do oceano.

Eu mesmo não tenho viajado muito, embora guarde algumas belas bagagens em meu sótão. E também duas mochilas cargueiras, uma sacola de tecido, uma maleta, vários sacos de transporte, três sacos de dormir, uma mochila de alpinismo de lona, outra feita de lã e uma ou duas barracas de camping. Olhando para o velho baú de meu avô, percebo que eu mal conseguiria usá-lo para levar o que necessitaria para um pic-nic de verão. E ao contrário de P’ang Yün, não posso imaginar onde encontraria um barco grande o suficiente para acomodar tudo o que possuo no meio de um lago qualquer. Evidentemente, pretendo manter todos os meus bens deste mundo à tona. Por que? Será que me falta a leveza necessária? A Luz necessária?

Há vários anos venho coletando listas sobre viagens leves, triviais. A maior parte originárias de viagens feitas por pessoas de um lugar a outro, de um dia a outro, do nascimento à morte. Cada lista descreve aquilo que foi carregado, às vezes em uma mochila, às vezes no lugar mais íntimo de um viajante. Comecei a coletar essas listas, suponho, porque eu vi a mim mesmo refletido em sua vaga poesia – a poesia do vazio. Eu ainda não compreendo muito bem porque as acho convincente. Será que ouço a voz do meu avô?



Em tempo: depois de afundar todos os seus pertences desse mundo, P’ang Yün devotou o resto de sua vida ao Zen, à poesia e à deambulação. Como uma singela folha.



THOMAS MERTON (1915-1968)


Padre Louis, como Thomas Merton era conhecido pelos seus companheiros monges, viveu seus últimos anos como um ermitão nos bosques próximos à sua abadia cisterciense. Seu eremitério era pequeno e sem adorno, um prédio com blocos de concreto e chão de cimento. Ele cortava sua própria lenha para a lareira, pegava a água da abadia, cozinhava num pequeno fogareiro e lia sob a luz de um lampião a querosene. Mais tarde, quando sua saúde se deteriorou, foi instalada a eletricidade. Despertava tipicamente às 3:15am para o início das orações do dia.

Foi talvez o primeiro ermitão trapista da era moderna. Praticou o voto do silêncio e foi conhecido em todo o mundo pelas suas palavras. Enclausurado com seus irmãos em Kentucky por 27 anos, veio a falecer do outro lado do mundo, em Bancoc, sozinho. Crítico eloqüente da guerra no sudeste da Ásia, seu corpo foi levado de volta a casa desde o Vietnã no compartimento de um jato da Força Aérea Americana.

Entre os pertences de Thomas Merton foram encontrados:

Um relógio Timex,
Um par de óculos escuros com armação de tartaruga;
Dois pares de óculos bifocais com armação de plástico;
Dois breviários cistercienses com capa de couro;
Um rosário (quebrado);
Um pequeno ícone de madeira com a Virgem e o Menino.

JOHN MUIR (1838-1914)
John Muir foi um eterno pacifista que mudou-se para o Canadá durante a Guerra Civil Americana. Foi um mago da mecânica que se recusou a patentear suas invenções porque “todo o progresso e invenções deveriam ser de propriedade da raça humana”. Quando um acidente de fábrica deixou-o temporariamente cego, o jovem Muir resolveu devotar o resto da sua vida ao “estudo das invenções de Deus”. Ao recuperar a visão, ele partiu sozinho numa longa jornada botânica de mil milhas, indo a pé desde o estado de Indiana até o Golfo do México.

“Somente estando sozinho e em silêncio, sem bagagem, é possível de fato entrar no coração da vida selvagem”, ele escreveu. “Qualquer outra viagem é mera poeira e hotéis e bagagem e conversa fiada”.

A caminhada de mil milhas de John Muir ao Golfo do México:

Numa sacola emborrachada

Pente
Escova
Toalha
Sabão
Muda de roupa íntima

Cópia dos poemas de Burn
A obra Paraíso Perdido, de Milton
A obra
Wood’s Botany
Um pequeno Novo Testamento
Um diário
Mapa
Uma prensa de plantas

MARCEL DUCHAMP (1887-1968)
Pintor francês do movimento Dadaísta.

Sua esposa, Teeny Matisse, afirmou certa vez ter ficado perplexa ao perceber “como ele foi capaz de ter ocupado tão pouco espaço em sua vida”.

Viagens de final de semana de Marcel Duchamp

Sem mala.

Duas camisetas, uma vestida sobre a outra
Uma escova de dentes – no bolso de sua jaqueta

WILL BAKER (1935-)

Cineasta, fotógrafo e escritor norte-amerciano

Em 1979 Baker partiu para o Peru com o intuito de conhecer a etnia dos Asháninka, num remoto território da zona central do país. A primeira vez em que ouviu falar deles foi numa velha edição da National Geographic. As fotografias o capturaram.

Um dia, durante a trilha, ele fez uma pausa para comparar a si mesmo com os viajantes locais.

Will Baker na trilha rumo a Puerto Ocopa:

Equipamento do gringo:

Sleeping bag
Rede de mosquitos
Corda de nylon
Fósforos e vela
Facão
Canivete suíço
Calças extras, camisa, meias
Kit de cozinha
Câmera, caderno de anotação
Filme, canetas
Dicionário, mapas
Creme dental, escova, escova de cabelo, barbeador, sabão, toalha, poncho, kit de primeiros socorros, mix de frutas secas, chá, sombreiro.

Equipamento do índio:

Garrafa d’água
Facão

WERNER HERZOG (1942-)
Cineasta alemão cuja obra pouco convencional mistura espiritualidade e pesadelo, ternura e demência épica.

Bruce Chatwin disse certa vez que Werner Herzog era “a única pessoa com a qual eu poderia manter uma conversa sobre aquilo que eu chamaria de aspecto sacramental da caminhada. Tanto eu quanto ele compartilhamos a crença de que andar não é simplesmente uma atividade terapêutica mas uma atividade poética capaz de curar as doenças do mundo.”

Por volta de 1974, Herzog recebeu a notícia de que uma das mais importantes críticas do cinema alemão, Lotte Eisner, estava à beira da morte em Paris. Herzog mais tarde escreveu: “eu disse que isso não poderia ser, não nesse momento, o cinema alemão não poderia continuar existindo sem ela, nós não podíamos permitir a sua morte... eu tracei a rota mais direta a Paris, cheio de fé, acreditando que ela ficaria bem se eu chegasse a Paris com meus próprios pés.

Na pressa, Herzog deixou Munique sem levar roupa de frio ou mesmo um mapa apropriado. Por 21 dias, com chuva e neve constantes, caminhou com muita dificuldade por acostamentos de estradas sombrias, através de campos lamacentos. À noite dormia em hotéis baratos de beira de estrada ou em celeiros e a dor de seus pés cheios de bolhas dentro das botas novas logo foi suplantado pela dor dos tendões e tornozelos inchados.

Quando ele finalmente chegou ao lado da cama onde se encontrava Lotte Eisner, ele a encontrou muito cansada mas em estado de recuperação. Ela ainda viveu por mais nove anos.

“Eu lhe disse: abra a janela, pois por conta destes últimos dias, daqui em diante eu posso voar”.

A caminhada de Herzog de Munique a Paris:

Botas, novas e resistentes
Bússola
Jaqueta
Blusa e cachecol
Um poncho fino de plástico
Um nécessaire

Adquirido ao longo do caminho:

Gorro
Minhocão
Lanterna
Curativos para bolhas
Um mapa Shell de estradas

JAPHET M. RYDER

Bondoso “vagabundo do dharma”- inspirado no poeta Gary Snyder - de uma das mais populares obras de Jack Kerouac.

“Eu admito, tenho medo dessa opulência norte americana, eu sou apenas um velho bhikku e não tenho nada a ver com esse alto padrão de vida, por Deus!, tenho sido um cara pobre toda a minha vida e simplesmente não consigo me acostumar com certas coisas.”

A cabana de Japhy Ryder próximo a Corte Madera:

Uma jarra de barro explodindo com flores colhidas no campo
Esteiras de palha no chão
Sem sapatos
Sem cadeiras
Paredes forradas com sacos de estopa
Gravuras de pinturas chinesas em seda
Mapas
Poemas pregados pelos cantos
No armário: mochila e roupas de segunda mão

Um colchonete fininho
Xale estampado
Saco de dormir, enrolado
Livros em engradados laranja
Sutras budistas,
Suzuki, haiku, poesia
Forno a lenha


Inspire-se: leia Journeys of SimplicityTraveling Light. Philip Harnden. Skylight Paths Publishing, 2003
























5 comentários :

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Dia de Reis, um bom dia para esta leitura!
    Obrigada!
    Como é difícil o desapego!
    Dias felizes e iluminados em 2011!
    Abraço!

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  3. E é mesmo! Mas uma vez que você começa a trabalhar com isso, saindo do campo da ideia para o campo da ação, tudo começa a fluir que é uma beleza. Como numa longa jornada, basta dar o primeiro passo, não é mesmo? Dias felizes e iluminados prá você também, Lisi! AbraçOM, pc

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  4. Que blog denso, rico de ideias e meditações; de formatação gráfica bela, excelente !- parabéns!
    E parabéns também para mim por ter te descoberto neste mar da web.

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    1. Parabéns prá você, Tula! Abraço peregrino, pc.

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