sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O país inventado de Isabel Allende

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Bom demais! Assim começo esse post, pelo entusiasmo que sinto cada vez que leio um texto de Isabel Allende. Aliás, comecei a ler a obra dessa premiada autora chilena (bueno, uma chilena nascida no Peru...) esse ano e quase que não me perdôo pelo atraso da descoberta. O único contato que tive com a obra de Isabel Allende foi através do filme baseado em seu romance mais famoso, A casa dos espíritos. Muitos anos depois cai em minhas mãos Mi país inventado, que devorei de um fôlego só e de quem vamos falar daqui a pouco.

Li em seguida Paula, um relato emocionante de Isabel sobre o tempo em que passou ao lado da filha, a Paula do título, durante os meses em que ela lutou para sobreviver aos efeitos nefastos da rara doença que a levou embora. Agora estou lendo A soma dos dias, mas deste ainda não posso escrever uma linha porque apenas comecei a leitura. Mas já vi que vou gostar bastante.

Essas três obras têm uma característica comum: são relatos de cunho biográfico, memórias de uma escritora cuja vida realmente merece ser contada e recontada.

Meu país inventado (Mi país inventado, no original) é um livro de memórias onde a autora tenta, como se conversasse consigo mesma, construir a imagem do país em que estão guardadas suas lembranças afetivas mais significativas. Isabel Allende tem um senso de observação bastante apurado, que aliado à facilidade que demonstra ter em contar histórias (reais e inventadas) resulta numa escrita fluida e cheia de vigor. E é de se observar que grande parte desse vigor surge como conseqüência das inúmeras viagens empreendidas por Isabel desde seus primeiros anos de vida. São suas as palavras:

Ser estrangeira, como quase sempre tenho sido, significa que devo esforçar-me muito mais que os nativos, o que sempre me manteve alerta e me obrigou a desenvolver flexibilidade a fim de adaptar-me a ambientes diversos. Essa condição tem algumas vantagens para aqueles que ganham a vida observando: nada me parece natural, quase tudo me surpreende. Faço perguntas absurdas, mas às vezes faço-as à pessoa certa, e assim vou reunindo temas para o meu romance.

Isabel Allende morou em diversos lugares: Bolívia, Chile, Líbano, Venezuela e Bélgica são alguns citados por ela; na meia-idade casou-se pela segunda vez com William Gordon, também escritor, e hoje vivem juntos numa bela casa californiana. Viaja à terra natal pelo menos uma vez ao ano e embora tenha deixado o país diversas vezes, o Chile jamais saiu de dentro dela. Eu diria que Isabel está para o Chile assim como Clarice, Lygia, e Cora estão para o Brasil. E isso não é pouco.

A ideia de escrever Meu país inventado nasceu em parte por conta da necessidade em responder a uma questão que um dia lhe foi formulada por um desconhecido durante uma conferência de escritores especializados em viagens: que papel a nostalgia desempenha em seus romances?

A pergunta tirou-me o fôlego, pois até aquele momento não havia me dado conta de que escrevo como um exercício constante de saudade. Tenho sido forasteira durante quase toda a minha vida, condição que aceito por não dispor de alternativa. Várias vezes vi-me forçada a partir, rompendo laços e deixando tudo para trás, a fim de recomeçar em outra parte do mundo; tenho peregrinado por mais caminhos do que sou capaz de recordar. De tanto despedir-me, secaram minhas raízes e tive de criar outras, que, à falta de um lugar geográfico no qual aprofundar-se, foi na memória que se fincaram; mas, cuidado!, a memória é um labirinto dentro do qual minotauros nos espreitam.

E esse é o fio condutor do relato de Isabel: a nostalgia, as lembranças do passado, as histórias que ouviu e soube guardar na memória, e quando não soube tratou de inventar ela mesma os encaixes necessários para trazer à vida aquilo que considerasse importante documentar para continuar vestindo a alma de sua existência. Uma outra leitura, de cunho mais social, é a questão da busca da identidade (talvez sua principal busca), da vida vivida no exílio e de como reagem os imigrantes ao se depararem com uma nova cultura. Um tema atualíssimo, por sinal.
De tudo o que há de bom em Meu país inventado, talvez o melhor seja mesmo a qualidade da escritora em transformar temas comuns da vida em acontecimentos instigantes: sua relação com a família, os avós cheios de personalidade a quem tanto amou, a mãe e o padrasto por ela tão admirados, sua juventude no Chile, o abandono da pátria nos tristes anos de ditadura, essas coisas que nós brasileiros/as conhecemos tão bem. E é divertido notar que, à parte as diferenças culturais entre o Brasil e o Chile, há muita coisa em comum (tomando por base o que se lê na obra) entre os povos dessas duas nações que não dividem fronteiras, coisas das quais nos orgulhamos, como nosso reconhecido caráter de povo hospitaleiro e nossas belas mulheres, e outras das quais não nos orgulhamos, mas destas é melhor nem perdermos tempo.

A narrativa de Meu país inventado segue mais ou menos uma linha cronológica linear: vai da Isabel menina à Isabel avó, mas com muitas idas e voltas nesse percurso. O tom do livro é o de um humor constantemente sutil e você se pega muitas vezes sorrindo durante a leitura. Não há como negar: a chilena é boa de prosa.

Escolhi para esse post uma passagem da obra que considero bastante reveladora no tocante ao papel da memória, de como nossas lembranças do passado, de quem fomos um dia, afeta nossa condição presente e ajuda a construir quem somos. Realidade ou imaginação? Faz mesmo tanta diferença assim? Particularmente acho que há algo de saudável em fazer uso da imaginação em alguns momentos da vida, sejam eles bons ou ruins, não importa.



E as lembranças de nossas viagens, terão mesmo acontecido da maneira tal como as imaginamos hoje, depois de tanto tempo? Será que temos controle total sobre nossas lembranças afetivas? Difícil saber, levando-se em consideração o enorme peso que o inconsciente tem sobre nós. Mesmo assim, em meio a toda essa complexidade, a verdade é que imaginar, sonhar, alimentar desejos e lembranças boas, inventar descaradamente ou não uma vida mais criativa do que a que foi vivida – e a que ainda será – torna todo esse jogo um fenômeno muito mais interessante e divertido. Namastê!


O Chile de Isabel



(...) Há um certo frescor e inocência na pessoa que sempre esteve no mesmo lugar e tem testemunhas de sua passagem pelo mundo. Em compensação, aqueles como nós, que partimos muitas vezes, foram obrigados, pela necessidade, a curtir o próprio couro. Como carecemos de raízes e de testemunhos do passado, devemos confiar na memória para dar continuidade às nossas vidas; mas a memória é sempre confusa, não podemos confiar nela. Os acontecimentos de meu passado não têm contornos precisos, estão esfumaçados, como se minha vida não tivesse passado de uma sucessão de ilusões, de imagens fugazes, de assuntos que não compreendo ou que compreendo apenas pela metade. Não tenho nenhum tipo de certeza. Também não consigo sentir o Chile como um lugar geográfico com certas características precisas, um lugar definido e real. Vejo-o como vemos os caminhos do campo ao entardecer, quando as sombras dos álamos enganam a vista, e a paisagem parece apenas um sonho.

(...) Tenho uma imagem romântica de um Chile congelado no começo da década de 1970. Durante anos acreditei que quando a democracia voltasse tudo seria como antes, mas mesmo essa imagem congelada era ilusória. Talvez o lugar de que me sinto saudosa jamais tenha existido. Quando o visito, tenho de confrontar o Chile verdadeiro com a imagem sentimental que levei comigo durante vinte e cinco anos.

Como vivi muito tempo fora, tenho tendência a exagerar as virtudes e a esquecer os traços desagradáveis do caráter nacional. Esqueço o classicismo e a hipocrisia da classe alta; esqueço o quanto é conservadora e machista a maior parte da sociedade; esqueço a esmagadora autoridade da Igreja Católica; espantam-me a violência e o rancor alimentados pela desigualdade; mas também me comovem as coisas boas, que apesar de tudo não desapareceram, como essa familiaridade imediata com a qual nos relacionamos, a forma carinhosa de nos saudarmos com beijos, o humor oblíquo que sempre me faz rir, a amizade, a esperança, a simplicidade, a solidariedade na desgraça, a simpatia, a coragem indomável das mães, a paciência dos pobres.

Construí a idéia de meu país como um quebra-cabeças, selecionando as peças ajustáveis ao meu desenho e ignorando as demais. Meu Chile é poético e pobretão; por isso descarto as evidências dessa sociedade moderna e materialista, para a qual o valor das pessoas é medido pela riqueza bem ou mal adquirida, e insisto em ver por toda parte os sinais de meu país de antigamente.
Criei também uma versão de mim mesma sem nacionalidade ou, melhor, com múltiplas nacionalidades. Não pertenço a um território, mas a vários, ou talvez só pertença ao âmbito da ficção que escrevo. Não pretendo saber o quanto de minha memória são fatos verdadeiros e o quanto foi inventado por mim, pois não me cabe a obrigação de traçar a linha entre uma coisa e a outra.

Andréa, minha neta, escreveu uma composição escolar na qual declara: “Gosto da imaginação de minha avó.” Perguntei-lhe a que se referia e ela replicou sem vacilar: “Você se lembra das coisas que nunca aconteceram.” Mas não fazemos todos o mesmo? Dizem que o processo cerebral de imaginar e o de recordar parecem tanto que são quase inseparáveis. Quem pode definir a realidade? Tudo não é subjetivo?

Se você e eu presenciamos o mesmo acontecimento, iremos recordá-lo e contá-lo de modo diverso. Quando meus irmãos contam nossa infância, é como se cada um de nós tivesse crescido em um planeta diferente. A memória está condicionada pela emoção; recordamos mais e melhor os eventos que nos comovem, como a alegria de um nascimento, o prazer de uma noite de amor, a dor de uma morte próxima de nós, o trauma de uma ferida. Quando contamos o passado, referimo-nos aos seus momentos febris – bons ou maus – e omitimos a imensa zona cinzenta de cada dia.

Se eu nunca tivesse viajado, se tivesse permanecido ancorada e segura em minha família, se houvesse aceitado as regras e a visão de mundo de minha avó, teria sido impossível recriar ou enfeitar minha própria existência, pois outros a teriam definido e eu seria apenas um elo a mais na longa cadeia familiar. Mudar-me de lugar obrigou-me a reajustar várias vezes minha história, e isso eu fiz de maneira atoleimada, pelo fato de estar demasiado envolvida com a tarefa de sobreviver. Quase todas as vidas se parecem e podem ser contadas com o tom de quem lê a lista telefônica, a menos que alguém resolva dar-lhes ênfase e cor. Em meu caso, tenho procurado polir os detalhes para ir criando minha legenda privada, de modo que, quando eu estiver em uma instituição geriátrica, esperando a morte, possa ter material para entreter os outros hóspedes, velhinhos e senis.



(...) o mais importante de minha viagem por este mundo não aparece em minha biografia ou em meus livros de ficção, mas aconteceu de forma quase imperceptível nas câmaras secretas do coração. Sou escritora porque nasci com um bom ouvido para as histórias e tive a sorte de contar com uma família excêntrica e um destino de peregrina errante. O ofício da literatura definiu-me: de palavra em palavra criei a pessoa que sou e o país inventado em que vivo.



Leia: Meu país inventado. Isabel Allende. Ed. Bertrand Brasil, 2003.

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