quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Passado selado, by J.R.Duran

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Vou postar um artigo que li na Audi Magazine número 79. Nem é o tipo de publicação que me interessa, já que não ligo para automóveis, mas essa edição me chamou a atenção. Na capa, a foto de um tabuleiro de jogo retratando países, do tipo do War, joguinho chato e interminável das tardes chuvosas de infância. O título desse número aparece assim: Movimento - De Moscou a Tóquio, via Vladivostok, por terra e mar.


Hum... já achei interessante. Sem culpa na consciência afanei a revista (não posso dizer de onde senão meu dentista me mata) e li todos os artigos na volta à casa; um deles, em particular, achei a cara do Odepórica e resolvi transcrevê-lo. Bom para vocês, leitores/as, bom para mim também, pois assim alivio um pouco o bad karma ao dividir o fruto do meu afano com outras pessoas. Não podemos ser egoístas, certo?


Pois bem. Quem assina a matéria é o fotógrafo catalão J.R. Duran, famoso por fotografar as peladonas da Playboy. Deve fotografar outras coisas, claro, mas agora só me lembro dele associado à Playboy mesmo. E já não está bom?


O texto é leve, leve, você mal começa e já acaba, o que é uma pena, porque o assunto é muito interessante. Fala das cartas, do ato de escrever durante as viagens, agora cambiado pelo ato de digitar. Não quero parecer tiozinho, mas nunca será a mesma coisa teclar numa LAN house e escrever em qualquer lugar... mas não dá para juntar as duas coisas? Claro que dá, por que não? O bom é deixar para escrever num momento mais contemplativo, entende? Quase como se fosse uma prática de meditação, a postura, a caligrafia, o ritmo, o tempo, as pausas, um trago de cigarro pra quem fuma, um gole de vinho ou café pra quem bebe... e aí é deixar rolar o que vier, cabeça e coração em sintonia. E o punho pra funcionar.


O Duran, fotógrafo, diz que faz isso. O barato dele é escrever cartas em papéis timbrados dos hotéis em que se hospeda, que não devem ser poucos. Segue um ritual - que você lerá no texto dele; sai à caça de selos pelas cidades, pois qualquer selo não serve, tem que ser o mais especial em circulação. E no final, selos lambidos e cartas fechadas, envia tudo para sua casa, em nome de si mesmo, veja só que interessante isso.


Não abre nunca as cartas, as tais que chegam de todas as partes do planeta. Um dia, quem sabe, as lerá. Mas não agora, quando a vida ainda lhe parece infinita. Estão todas lá, como diz, a prender o passado entre folhas de papel.


Gostei disso. E você, não? Namastê.


Passado selado



O filósofo e utópico renascentista Francis Bacon fez uma lista das que seriam, desde seu ponto de vista, as três descobertas mecânicas que tinham “changed the whole face and state of things troughout the world” (“Novum Organum”,1620). Seriam elas: a bússola magnética, a pólvora e o papel. De acordo com ele nenhuma estrela, nação ou seita conseguiu – conseguiria – exercer influência igual na vida das pessoas.
Dificilmente uso uma bússola, apesar de que, confesso, levo sempre uma no fundo da minha mochila, acho que algum dia ainda vai me tirar de alguma enrascada. A segunda descoberta – a pólvora – não me é de grande utilidade direta, penso que serve mais aos exércitos. Já com a terceira descoberta é diferente. Essa é fundamental para mim também. Porque não saio de casa sem um papel e uma caneta. Tenho a memória dispersa, e tanto ideias quanto lembranças de coisas para fazer, me aparecem nas horas mais estranhas. Uma anotação rápida – contanto que legível – resolve o problema.
Bacon não o mencionou em seu tratado, mas os três inventos que ele achou fundamentais são chineses. E é com paciência oriental que venho guardando durante os últimos tempos – na verdade anos – uma série de cartas especiais. São cartas que escrevo para mim mesmo nos hotéis em que tenho me hospedando, seja a trabalho ou de férias.


O conhecimento das reentrâncias e saliências da fotografia me servem para várias coisas profissionalmente, mas, pessoalmente, as utilizo como artimanha para congelar o tempo que, às vezes, parece passar rápido demais. Uma maneira de fixar na memória os detalhes que semanas, anos depois, vão se tornar imperceptíveis.

Pode ser a imagem de um lugar confortável, de um objeto que nunca terei, um sorriso, o prato de um almoço, a sombra que uma árvore projeta na parede. Cenas cotidianas que se repetem, aparentemente iguais – e não se engane, não o são – e que serão, sempre, as primeiras a desaparecer, enterradas na quantidade de informações arquivadas no labirinto da memória.


Alguém me disse que escrevia para não morrer. Ao escrever as cartas não chego a tanto. A razão pela qual escrevo é menos dramática, mais prática e simples. Escrevo, assim como fotografo, para guardar o tempo. Conto nelas como está meu estado de espírito naquele instante e isto se torna o registro de um momento impresso em um papel que, anos depois, funcionará como uma janela aberta capaz de iluminar um pedaço do passado.

Para isso sigo algumas regras que com o tempo fui estabelecendo. Um procedimento mais ou menos comum. Uma delas é a de que as cartas só podem ser escritas em papel timbrado. Ou seja, se o hotel não tiver um logotipo e endereço impresso em papel e envelope, nada feito. Outra é a de que elas têm de ser escritas com caneta na cor preta. Confesso que durante algum tempo as escrevi em tinta verde, como Pablo Neruda. Mas, como o conteúdo das cartas sempre foi mais existencial do que poético, decidi voltar ao preto sobre o branco.


Outra regra é a de, sempre que o tempo permitir, ir até o posto do correio mais próximo, pegar a fila, e pedir para escolher um selo. Grande e bonito. Em alguns lugares é fácil. Em Hong Kong, por exemplo, um dos postos fica a poucos metros do Hotel Intercontinental. Em outros, é mais complicado, mas isso faz parte do ritual.


Em Los Angeles, tive que pedir ao motorista do táxi, a caminho do aeroporto, que parasse um instante na frente de um posto de correios que surgiu no meio da corrida. Felizmente a carta estava à mão. De qualquer maneira, é uma experiência curiosa. Os funcionários dos correios estão acostumados a ter clientes que se preocupam apenas com a urgência das encomendas e ficam radiantes e iluminados ao descobrir que alguém pede para eles o selo mais interessante que estiver em circulação no dia.


As reações são sempre divertidas. Em Asmará, a capital da Eritreia, a mulher saiu de trás do guichê e me convidou para um café enquanto me contava das dificuldades do país. Em Macau, o atendente deixou uma fila esperando atrás de mim e me levou a uma salinha para me mostrar por que os correios da ilha são famosos por produzir selos belos e elaborados.

Às vezes peço a um concierge do hotel em quem confio para colocar as cartas no correio (Durante estes anos todos apenas três cartas não chegaram. Foram as escritas na Índia e entregues nas mãos de três concierges de hotéis luxuosos – da mesma cadeia – ostentando belos turbantes. Não adiantou muito.). Em alguns lugares isso é comum. Em outros, nem tanto. Em Iquique, no Chile, a moça ficou surpresa. Ninguém antes tinha feito uma solicitação como aquela.
Uma outra regra é colocar alguma coisa junto com a carta dentro do envelope. O recibo de um restaurante, o ticket de um filme que assisti ou o ingresso de algum museu que dificilmente voltarei a visitar. Durante alguns anos, antes da fotografia se tornar totalmente digital, polaroids (alguém lembra o que era isso?) serviam como uma espécie de reforço visual para estas cápsulas de memória.


Mas uma coisa as cartas têm, rigorosamente, em comum. Nunca, até agora, elas foram abertas. Enquanto o passado escorre entre os dedos e os neurônios do cérebro, uma parte dele está presa, para sempre, entre duas folhas de papel.









2 comentários :

  1. Deu vontade de ler mais (principalmente as cartas seladas). As imagens, escolhidas a dedo, estão super bacanas. Bom trabalho Césare! Inté, Pá

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  2. Também achei, há! A do gatinho foi em sua homenagem, claro...bjs, pc

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