domingo, 31 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 3, final

.

A seguir você irá ler a terceira e última parte do post sobre a vida de Vivekananda, transcrição de uma matéria de 1975 da Revista Planeta. Com essas postagens tive a intenção de apresentar ao leitor/leitora do Odepórica uma breve introdução à vida de Vivekananda, um dos mais respeitados homens santos da Índia, ao lado de tantos outros já bem conhecidos aqui no Ocidente, como Paramahansa Yogananda, Sri Aurobindo, Krishnamurti, Osho, Sivananda, Ramakrishna, Mahatma Gandhi, Satya Sai Baba, só para citar alguns e sem nos esquecermos, evidentemente, das mulheres santas que também – ainda que menos alardeadas – têm deixado um forte legado espiritual ao longo dos anos. (sobre as mulheres santas da Índia, sugiro a leitura de duas obra cativantes: Filhas de Deusa: as mulheres santas na Índia de hoje, de Linda Johnson, Ed. Nova Era, e a pequena biografia de Sarada Devi, a Santa Mãe, que foi a esposa de Ramakrishna, mestre de Vivekananda como vimos nos textos aqui postados. Esta última publicada pela Lótus do Saber).

Não somente, devo lembrar, quis trazer ao conhecimento dos leitores/as do Odepórica a vida de Vivekananda, já que para isso poderia ter buscado outras fontes biográficas que certamente enriqueceriam o texto publicado na revista; a intenção, como sempre, foi a de mostrar o papel fundamental das viagens no processo de transformação daquele/a que viaja. No caso dessas grandes figuras, como Vivekananda, as viagens tiveram uma importância tão grande em sua vida que não só mudaram o seu destino, como o de milhares de pessoas em todas as partes do mundo onde suas mensagens chegaram – e continuam chegando - mesmo após um século de sua passagem pelo planeta.

Se Vivekananda não tivesse se deslocado tanto, muito provavelmente seus ensinamentos não teriam sido conhecidos fora de seu país. Sua própria obra, aliás, não teria sido tão rica e cheia de sabedoria caso não houvesse visitado outras culturas, pois foi o fato de observar o outro que deu a ele o material para compreender efetivamente, ainda que à custa de muita dor e sofrimento, a alma de seu povo. Essa troca é o que faz das viagens algo especial e transformador.

Antes de terminar essa introdução, gostaria de pedir a você, que topou a leitura dessas três longas postagens, para tomar cuidado antes de julgar algumas passagens da vida de Vivekananda. Muito do que o pensador declarou tem que ser lido contextualmente, e nisso o autor do texto foi feliz em esclarecer, quando da passagem em que Vivekananda afirma que “a virilidade é a base de tudo”, fazendo alusão à maneira violenta de agir frente às adversidades.

Vivekananda jamais teria simpatizado com qualquer ato de violência; sua conduta, pelo que se sabe de sua vida e obra, sempre foi a de buscar a realização espiritual e a de ajudar ao próximo nessa jornada. Quando fala em um “mal necessário”, quer deixar claro, assim como se lê no Bhagavad-Gita, livro sagrado do hinduísmo, que a inércia, a falta de ação, é pior do que ir à luta, mesmo que isso implique em uma posição de violência. Essa luta faz parte do Karma-Yoga, o yoga da ação, sem o qual o ser não tem acesso ao conhecimento. Diz Vivekananda que “o conhecimento está na mente como o fogo está na pedra; é a fricção que o faz brotar.”

Paro por aqui. No final da matéria indico algumas obras publicadas pelo Vivekananda em português, fáceis de serem encontradas em sebos a preços muito camaradas. Em tempo: Vivekananda, o nome sânscrito que Narendranath Dutt recebeu quando ingressou na ordem dos Swamis tem um significado muito inspirador: Viveka significa “discernimento”, e Ananda, “alegria, felicidade”. A felicidade suprema que só se atinge através do discernimento. Bonito, não? Namastê.


A Índia demorou muito para saber do êxito de Vivekananda no Congresso de Chicago e quando soube, ocorreu verdadeira explosão de júbilo e orgulho nacional. Seis meses depois é que os monges de Baranagor tiveram a notícia. Quase não podiam crer que um de seus irmãos fosse o triunfador tão famoso e em suas comemorações evocavam a profecia de Ramakrishna: “Barém abalará o mundo até seus alicerces”.

Algumas facções políticas pretendiam tirar partido do sucesso de Vivekananda que protestou energicamente, pois jamais desejou tomar parte em movimentos de interesse pessoal e dizia: “pouco me importa a vitória ou o fracasso. Devo conservar a pureza do meu trabalho ou não o faço”. Nada queria com a política e considerava como únicas no mundo, as políticas originárias de Deus e da verdade. As demais não existiam.

Ao contrário do que tinha acontecido em outras peregrinações pela Índia – quando mendigava e muitas vezes era até perseguido – agora ele recebia estrondosas manifestações populares. Por onde passava atiravam-lhe flores e regavam seus caminhos com a água sagrada vinda do Ganges. Aceitava essas honrarias pensando exclusivamente nos bens que poderiam trazer à causa a que se propunha.

Contra seus princípios, precisava participar muitas vezes dos movimentos de caráter nacionalista e tratava, por isso, intensa luta interior. Quando da crise ocorrida nos primeiros dias de outubro de 1898, ele seguiu sozinho para o santuário da mãe Kali, em Cachemira. Ficou horrorizado diante das ruínas e dos sofrimentos decorrentes da guerra. Encontrou também o santuário depredado. Como puderam ter feito aquilo?

Se ele estivesse ali, teria dado a vida para defender a madre (mãe Kali). Regressou transtornado e disse a Nivedita: “desapareceu em mim todo o patriotismo. Tenho sido muito enganado! Ouvi a repreensão da mãe Kali dizendo que alguns incrédulos entraram em seu templo e macularam sua imagem. – O que tem você a ver com eles? – perguntou-me ela. – Acaso é você meu protetor ou sou eu quem o protege? Estava profundamente abatido, e ainda muito mais porque dias antes havia ocorrido brutal abuso de poder por parte da Inglaterra, em relação à Índia. Em seus discursos, entretanto, não deixava transparecer a amargura e as angústias recalcadas em seu coração.

Segunda viagem ao Ocidente


Partindo de Calcutá no dia 2 de junho de 1899, Vivekananda passou por Madras, Colombo, Aden, Nápoles e Marselha, chegando a Londres no dia 31 de julho. Um dia após seguiu de Glascow para Nova York, permanecendo nos Estados Unidos até 20 de julho de 1900, onde percorreu toda a Califórnia. De 1º de agosto a 24 de outubro viajou por Paris, Bretanha, Luego, Viena, os Bálcãs, Constantinopla, Grécia e Egito, regressando à Índia nos princípios de dezembro.

O objetivo principal dessa viagem era o de inspecionar as obras fundadas por ele e ao mesmo tempo ativar o trabalho dessas organizações. Estava acompanhado por Nivedita e Turyananda. Em seu corpo enfraquecido mantinha uma energia incomum e redobrada disposição para a luta, todavia demonstrava profundo desgosto por sentir a despersonalização de seu povo, sempre abatido e desanimado.

Estava arrebatado pelas epopéias históricas da Europa. Em Gibraltar veio à sua lembrança a invasão árabe. Tinha tanto desprezo pela covardia a ponto de admitir o crime, e quando ouvia falar do baixo índice criminal da Índia, exclamava: “oxalá ocorresse o contrário. Quanto mais envelheço, mais cresce minha convicção de que a virilidade é a base de tudo e este é o meu novo evangelho”. Chegou mesmo a dizer que devia ser praticado o mal contra o homem, e, se necessário, que se cometessem crimes em benefício da grandeza e da virilidade. Revoltado pela inércia de seu povo, dizia essas coisas a pessoas de absoluta confiança, pois gente maldosa poderia interpretar diferente, desvirtuar e provocar escândalos.
Quando regressou à Índia, entretanto, estava desapegado da vida e chocado com a violência existente no imperialismo ocidental. Não podia esquecer aquela gente de fisionomias rancorosas, lembrando aves de rapina. Na primeira viagem ficou excessivamente impressionado com o poderio, organização e aparente democracia, tanto da América quanto da Europa. Entretanto, agora, mais afeito aos costumes e linguagem, tinha outra visão. Observou espíritos negocistas e avarentos que colocavam o “deus dinheiro” acima de qualquer coisa e promoviam lutas ferozes e combinações infames para alcançarem o predomínio. “A vida no Ocidente é parecida com o inferno.”

Tinha descoberto a tragédia oculta suportada por aquele povo e disfarçada sob o colorido da frivolidade. Para ele a vida social no Ocidente se comparava a uma gargalhada que tem início num sorriso natural que vai crescendo e acaba num soluço. O entusiasmo e os gestos de cortesia demonstrados, para Vivekananda, estavam apenas na superfície. Já na Índia a aparência é triste e melancólica, porém o interior é vibrante e despreocupado.

Morte física de Vivekananda


Quanto mais analisava o avanço das ciências e da civilização, maior consistência adquiriam suas próprias profecias: “a próxima revolução que dará origem a uma nova era, virá da Rússia ou da China. Não vejo exatamente qual delas... O mundo está em sua terceira etapa, sob o domínio de vaisya (o mercador, o estado livre). A quarta será a de sudra (o proletário)”.

Em determinado instante de sua viagem de volta, teve o pressentimento de que seu velho e fiel amigo, senhor de Sevier, tinha falecido no Ashram do Himalaia. Recebeu a confirmação na chegada. Sem pensar em descanso, seguiu para lá, apesar de todas dificuldades representadas pelo acesso ao Himalaia naquela época do ano, e mais ainda pelo seu estado de saúde. Venceu a tudo e dia 3 de janeiro de 1901 estava cumprimentando e prestando seu conforto moral e espiritual à viúva de Sevier.
Permaneceu ali alguns dias, comemorando inclusive seu aniversário no dia 13 de janeiro (38 anos). Retornou ao mosteiro de Belur no dia 24. Fez a que seria a última peregrinação aos lugares santos de Bengala Oriental, Ossam, Dakka e Shillong, realizando uma série de conferências. Essa excursão por lugares de espírito conservador fanático trouxe à luz, com maior intensidade, suas concepções religiosas, fazendo-o lembrar aos hindus beatos que a verdadeira forma de se ver a Deus é enxergá-lo através dos próprios homens, sendo totalmente inútil a fixação no passado, por mais glorioso que tenha sido.

A cada dia mais enfraquecido, voltou a Belur para levar uma vida de frade franciscano, em contato com a natureza. Ficava pouco tempo no quarto, apenas para escrever e meditar. Raramente dormia na cama, preferindo deitar no chão. Acompanhado do cão Bagha, da cabra Hansi e de um cabritinho, caminhava pelos campos, quase em êxtase, a cantar sua extraordinária e doce voz. Mesmo assim, encontrava tempo para desempenhar suas funções de reitor e com pulso firme dirigia o mosteiro, a despeito dos terríveis sofrimentos físicos.
A doença avançava e a diabete se transformou em hidropisia. Não conseguia dormir e o médico o proibiu de qualquer esforço, prescrevendo rigoroso regime que o impedia de tomar água. Resignado, suportou esse duro regime durante 21 dias.

Quando pressentiu a morte, chamou a todos os discípulos – até os do outro lado do mar. A tranqüilidade que aparentava enganou a todos, pois acreditavam que ele pudesse viver mais alguns anos. No dia 4 de julho de 1902, sentindo-se mais forte, levantou e foi à capela. Contra seus hábitos, fechou as janelas e a porta, ficando ali desde oito horas até às 11 da manhã.

Quando saiu estava transfigurado, falando sozinho e cantando o hino a Kali. Almoçou com apetite, acompanhado dos discípulos e depois ministrou aulas de sânscrito aos noviços, durante três horas. Posteriormente andou com Premananda cerca de duas milhas, pelos caminhos de Belur, falando do projeto de criação de um colégio para o ensino do Veda.

Às 19 horas as sinetas do convento chamaram para o Avati (culto). Vivekananda voltou ao quarto, contemplou o Ganges e dispensou o noviço que o acompanhava. A seguir mandou chamar os monges, pediu que abrissem todas as janelas e se estendeu no chão, permanecendo imóvel. Acreditavam que meditava. Uma hora depois, emitindo profundo suspiro, morria, fisicamente, o grande Vivekananda. Tinha pouco mais de 39 anos e confirmava assim sua profecia: “Não vou alcançar os 40 anos”.


Vivekananda Rock and Temple in Kanyakumari, Índia

Obras de Swami Vivekananda publicadas no Brasil:
O que é religião – Ed. Lótus do Saber;
Epopéias da Índia Antiga – Ed. Lorenz;
Quatro yogas de auto-realização – Ed. Pensamento;
Karma yoga: a educação da vontade – Ed. Pensamento

Sites que merecem a visita:

Vivekananda.net
Vivekananda.org

Vedanta.org.br
Ramakrishna.org


AGI! DESPERTAI! E NÃO VOS DETENHAIS ATÉ ALCANÇAR A META.
Swami Vivekanandají


Um comentário :

  1. Oi Paulo, esta leitura não foi pequena, e é apenas uma introdução da vida do Vivekananda. Quanto aprendizado em uma existência tão curta. Vamos aprender um pouco com ele! Beijins, Pá

    ResponderExcluir