sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 2

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Consagração em Chicago

Tendo percorrido a Índia toda, foi um tormento deparar com a pobreza e a miséria daquela gente. Diante desse quadro tão desolador, ficou mais convencido da inutilidade da pregação aos desgraçados, sem antes aliviar seus sofrimentos. E pensando mais seriamente na salvação do povo indiano, decidiu buscar recursos em outras plagas, possivelmente na América.

Ouvindo falar sobre um Congresso de Religiões a ser realizado em alguma parte da América, tomou a resolução de participar dele. Dispondo de informações muito vagas, partiu de Bombaim no dia 31 de maio de 1893 e, por mar e terra, com a maior dificuldade, chegou a Chicago onde se inteirou de que o congresso seria realizado ali, depois de 10 de setembro. Todavia, o prazo para inscrições já estava vencido e além disso, nenhuma inscrição poderia ser aceita sem a apresentação de referências oficiais. Abalado, sem saber o que fazer por ser desconhecido naquela terra, não via solução. Tratou de telegrafar a seus amigos de Madras, solicitando a intercessão deles junto às Sociedades Religiosas a fim de conseguir alguma subvenção e as indispensáveis referências. As entidades oficiais, porém, não perdoavam os elementos independentes, tanto que um dos chefes vociferou: “Que esse diabo morra de frio!”.
Contudo o diabo não se rendeu e nem morreu. Com os poucos recursos que lhe restavam, embarcou para Boston e na viagem conheceu uma senhora de Massachusetts que, interessando-se por ele, o conduziu à sua casa e o apresentou ao helenista, J.M. Wright, professor da Universidade de Harvard; impressionado com o talento do indiano, custeou-lhe a viagem de volta a Chicago e providenciou as recomendações à comissão organizadora do congresso, garantindo, inclusive, alojamento. Com essas medidas, Vivekananda teve condições para representar o hinduísmo.

Em 11 de setembro o congresso foi inaugurado sob a presidência do cardeal Gibbons. Ao seu lado, assentava-se o delegado oriental, Protap Chumder Mazumdar, chefe do Brahmosamaj e antigo amigo de Narém. No plenário permaneciam os representantes das mais diversas seitas e religiões. Todos discursavam e, pela ordem, Vivekananda foi o último orador. Era a primeira vez que enfrentava uma assembléia dessa grandeza e mal iniciou seu discurso, saudando os irmãos norte-americanos, centenas de pessoas, de pé, irromperam em calorosos aplausos. Restabelecido o silêncio ele prosseguiu falando de um Deus universal, enquanto os que o antecederam falaram do Deus de suas seitas. Quando terminou foi ovacionado consagradoramente.
Voltou a ocupar a tribuna inúmeras vezes crescendo sempre o seu conceito e popularidade. Sabendo que ele falava por último o público aguardava paciente até o fim da sessão. Os jornais, New York Herald e Boston Evening Transncript, enalteciam a figura do jovem indiano. De um instante para outro estava célebre e isso poderia resultar em benefício para a Índia.

América, estranha e paradoxal

As influências hindus que, direta ou indiretamente, penetraram no espírito norte-americano, no século 19, deve ter contribuído para a formação da estranha mentalidade moral e religiosa dos Estados Unidos, na época de Vivekananda. Para um estrangeiro é difícil compreender a mescla de puritanismo anglo-saxão, de otimismo ianque, de pragmatismo de ciência e do pseudovedantismo. O problema deve envolver aspectos psicológicos que cabe à história da civilização analisar.

Segundo consta, o principal introdutor do pensamento hindu nos Estados Unidos foi Emerson, sob a influência de Thoreau. Outros como Edgard Poe e o poeta Walt Whitman também se inspiraram intensamente nesse espírito. Na realidade, existia na América, antes da chegada de Vivekananda, exemplos patentes de predisposição ao vedantismo.

Vivekananda aprendera a admirar Whitman, através de suas obras e mais tarde teve a oportunidade de conhecer melhor a vida do poeta, tornando-se amigo do famoso orador agnóstico e materialista, Roberto Ingersoll, íntimo de Whitman. Essa amizade significava a penetração de Vivekananda nos círculos mais livres e avançados do pensamento norte-americano. Ainda por intermédio de Ingersoll ficou sabendo que o fanatismo oculto persistia na América.

Esse conjunto de manifestações espirituais reinantes nos Estados Unidos, em ebulição no decorrer do século 19, explicava as reações positivas do povo norte-americano em torno de Vivekananda. Iniciando a série de pregações, acorriam para ouvi-lo centenas de homens e mulheres de todas as classes – gente das universidades e da sociedade, livres pensadores, agnósticos e até mesmo cristãos sinceros.

Vivekananda ficou surpreso – e muitos ficam até hoje – ao verificar que, paradoxalmente, naquela terra “jovem e velha” a esperança e o medo do futuro caminhavam juntos. Penetravam na verdade, participando da falsidade. Demonstravam, de um lado, o desinteresse total e, de outro, se entregavam ao imundo culto ao ouro. Ingenuidade de criança e maldade de fera. Apesar disso, Narém com muita prudência mantinha o fiel da balança conciliando as simpatias e antipatias e reconhecendo, constantemente, as virtudes e energias efetivas dessa América espetacular e estranha.

Encontrando apoio, fundou obras maravilhosas que permaneceram muito mais sólidas que as de outros países. Vivekananda ficava espantado com a facilidade com que os poderes constituídos destinavam verbas para todo tipo de serviço público e social. Na Índia, muito pouco se fazia para solucionar os problemas sociais; e ele, que vinha disposto a condenar o orgulho do Ocidente, rendia-se humilhado e confundido diante dos modelos de obras assistenciais mantidos nesse mesmo Ocidente.

Visitando uma prisão de mulheres observou o tratamento humano dispensado às prisioneiras e lembrou da indiferença dos indianos em relação aos seus presidiários. Nenhuma sociedade esmaga os infelizes, tão desapiedadamente, quanto a sociedade da Índia. A culpa não é da religião mas, sim, dos fariseus e saduceus hipócritas.

No Ocidente, as riquezas materiais deslumbravam Vivekananda, porém o que o embevecia realmente eram os bens sociais e morais. Admirava, também, a aparente igualdade democrática vistas nas menores coisas, como por exemplo, uma pessoa rica e nobre e outra do povo, viajando juntas no mesmo veículo. Isso tinha significação muito maior quando sabia dos preconceitos de castas existentes na Índia. Fazia ainda comparações entre a liberdade de muitas mulheres intelectuais, norte-americanas, e a vida de cativeiro das mulheres indianas. Deixava de lado o amor pátrio para reconhecer a superioridade do Ocidente, em todos os pontos, desejando apenas que essa superioridade pudesse levar benefícios ao seu povo.

Empreendeu na América uma série de campanhas apostólicas visando a propagação das sementes vedânticas e dos impulsos de amor de Ramakrishna. Conseguiu inúmeros adeptos e dentre eles destacou-se o jovem inglês, J.J. Goodwin, cuja conversão ocorreu a partir de 1895, que se dedicou inteiramente a Vivekananda como secretário e principal divulgador do pensamento do mestre.

Os três anos de viagem através do Novo Mundo, em contato permanente com o pensamento e a crença do Ocidente, amadureceram em Vivekananda a ideia de uma religião universal. Tinha pretendido escrever o Maximum Testamentum, o Evangelho Universal, porém para um espírito como o dele, a religião não deve ser firmada eternamente, em textos ou formas, mas deve, isso sim, acompanhar a evolução dos povos e dos tempos. O seu ideal de universalidade preconizava a união do Oriente e do Ocidente, independente de uma doutrina ou de um período. Sonhava com uma união viva e avançada e para isso foi organizada em Nova York a Vedanta Society sob a presidência de Sir Francis Legget. Essa entidade deveria ser o centro de irradiação do movimento vedantista na América e tinha por lema: “Tolerância e universalismo religioso”.

No ambiente frenético de Nova York, o gênio de Vivekananda ardia como tocha. Sua força física, porém, vinha se consumindo no trabalho estafante, comprometendo seriamente sua saúde já relativamente abalada desde a adolescência, quando passou a sofrer de diabete.

Tinha sofrido com o impaludismo (malária) e quase morrera, tempos antes, de difteria. Sem se abater, ele dizia: “minha vida se acaba”. Entretanto, prosseguia teimosamente em sua missão heróica. Acreditava que uma viagem à Europa faria bem. Para onde quer que fosse, continuaria se consumindo no trabalho.

Raça digna de inveja

Esteve na Inglaterra três vezes e numa dessas vezes, em 1895, passou por Paris antes de ir a Londres. A visita foi rápida e viu apenas algumas catedrais, museus e o túmulo de Napoleão. Mesmo assim, teve a impressão dominante de que a França tinha um povo privilegiado, cercado de artistas extraordinários. Voltou à França somente cinco anos depois.

Os efeitos dessas viagens foram muito mais profundos e inesperados do que os alcançados na América. Na Europa encontrou os mestres Max Muller e Pablo Deussen. A grandeza da ciência filosófica e filológica se identificava bastante com o seu gênio e probidade.

A Inglaterra proporcionou-lhe outra grande emoção: chegava como inimigo e se rendia ante a diferente realidade encontrada. Tanto assim que ao regressar à Índia proclamou com toda a lealdade: “ao desembarcar na Inglaterra eu trazia na alma todo o ódio contra a raça inglesa. Agora, porém, duvido que outros possam estimá-la tanto quanto eu”. A um discípulo norte-americano ele também confirmou ter modificado completamente sua opinião a respeito do povo inglês e não cansava de dizer: “raça digna de inveja! Impõe o respeito até mesmo àqueles a quem oprime”. Outras vezes dizia que o Império britânico, com todos os seus defeitos, era a maior de todas as máquinas para a propagação de idéias. Por essa razão tinha certeza de que o seu pensamento transmitido ali seria difundido pelo mundo inteiro.
Na Inglaterra fez amizade com Margaret Noble e com os senhores de Sevier. Margaret tinha 28 anos quando, aceitando as idéias de Vivekananda, seguiu com ele para a Índia a fim de se dedicar à instrução das mulheres. Naturalizou-se hindu e pronunciou os votos de Brahmacharya. Foi a primeira mulher do Ocidente admitida numa ordem monástica indiana e tomou o nome de Sister Nivedita.
Extremamente cansado e com a saúde mais abalada, foi obrigado pelos amigos a uma viagem de repouso na Suíça, onde permaneceu durante todo o verão de 1896. Aparentemente restabelecido, retornou à Inglaterra.

Deixou a Grã-Bretanha em 16 de dezembro de 1896, passando por Dover, Calais e Monte Cenis, dando por encerrada sua estada na Europa com uma rápida excursão pela Itália. Foi a Milão para contemplar a Ceia de Da Vinci e seguiu para Roma que considerava uma espécie de Delhi. Ficou espantado com a semelhança existente entre as liturgias católicas e as cerimônias hindus.

Fracasso no plano material

Impressionou-se vivamente diante das recordações dos primeiros cristãos e mártires, compartilhando da veneração do povo italiano pelas figuras de Jesus Cristo e da virgem Maria e jamais esqueceu desses fatos. Certa noite, num navio, sonhou com um ancião que lhe dizia: “Veja bem este lugar. É a terra onde começou o cristianismo e eu sou um dos que viviam aqui. As verdades que pregamos têm sido apresentadas como ensinamentos de Cristo, porém Ele nunca nasceu e quando fizerem escavações aqui, virão à luz as provas desta afirmação”.

Vivekananda acordou sobressaltado, querendo saber onde estavam e foi informado de que navegavam a 50 milhas da ilha de Creta. Até então ele nunca havia duvidado da autenticidade de Jesus, embora para um espírito como o dele, a realidade histórica de um Deus fosse a menor de todas as realidades. “O Deus que é fruto da alma de um povo é mais real que o nascido do ventre de uma virgem.”

Quando recapitulava os acontecimentos vividos nesse período de quatro anos, ficava convicto de que tinha adquirido enorme tesouro espiritual do qual seu povo iria participar. Contudo, seria isso o que a miséria de seus patrícios reclamava com mais urgência? Positivamente não. Nessas condições, materialmente, a viagem redundara em fracasso.

Necessitava reativar a luta sobre novas bases e refazer a Índia pela Índia. A solução devia sair de si mesmo, tendo que enfrentar um trabalho quase insano. Agora, porém, estava investido da autoridade que não possuía antes de viajar e isso o ajudaria bastante.

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