quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Vivekananda, um sábio peregrino indiano. Parte 1

.Grandes almas viajam longe. Narendranath Dutt – ou Swami Vivekananda – um dos sábios indianos mais conhecidos fora de seu país, percorreu boa parte do planeta para divulgar seus conhecimentos e sua herança espiritual. A trajetória de Vivekananda em muitos aspectos lembra a de um outro grande sábio indiano, Paramahansa Yogananda, que também saiu da Índia em direção aos Estados Unidos para levar a sabedoria do oriente à gente do Novo Mundo.

Vivekananda nasceu em Calcutá, a 12 de janeiro de 1863. Seu pai, que era advogado notável e político influente, deu-lhe a melhor educação possível, de acordo com os princípios modernos.

Desde muito jovem, Vivekananda foi atraído pela religião e a filosofia; devido, porém, à sua cultura ocidental, tinha o espírito cheio de dúvidas. Há um Deus? É este mundo todo ilusão ou realidade? Estas perguntas oprimiam seu cérebro, sem poder alcançar uma resposta satisfatória. A incredulidade e a sede do divino, alternativamente, tomavam posse de seu intelecto.

Foi neste período de sua vida que um amigo o levou a Sri Ramakrishna, que reconheceu de momento o futuro grande homem que iria comover o mundo. Em tom sarcástico, perguntou o jovem: “Há um Deus?” – “Sim, meu filho”, respondeu Ramakrishna, colocando seus dedos sobre o coração do jovem; e, com isto, desapareceu o jovem cético Narendra e nasceu Vivekananda, o sacerdote e profeta da humanidade. O tumulto de seu coração se havia acalmado.
Vivekananda graduou-se aos 19 anos e se destinava a seguir a carreira da advocacia; porém Ramakrishna o dissuadiu disso. Por morte do seu pai, viveu com seu mestre até o falecimento deste, submetendo-se às severas disciplinas das diferentes Yogas.

Em 1893, como Delegado ao Congresso das Religiões, em Chicago, apareceu, pela primeira vez, ante um público ocidental, empregando, daí por diante, seu tempo a ensinar no Ocidente a verdadeira filosofia oriental. Como fruto de suas conferências, nasceu o extraordinário movimento espiritualista que se nota nas Américas do Norte e do Sul.

Vivekananda passou os últimos dias de sua vida num mosteiro de Calcutá e morreu a 4 de julho de 1902. (notas biográficas retiradas do livro Karma Yoga, Ed. Pensamento).

Já havia escrito uma resenha sobre Yogananda em um artigo acadêmico, retratando o grande mestre indiano como um peregrino yogue, com a intenção de mostrar como as viagens e as deambulações ocupam uma grande parte da vida dos notáveis homens e mulheres que passaram por esse planeta (vide o texto sobre Madame Blavatsky postado aqui). Com Vivekananda não foi diferente; numa época em que o conhecimento não era difundido tão facilmente como nos dias de hoje, o jeito era por os pés na estrada e seguir a linha do horizonte.

Encontrei em um sebo um antigo exemplar da Revista Planeta, de 1975, do tempo em que ela saia no formato quadradinho e quando a maioria de seus artigos ainda prestigiava, diferentemente do que ocorre hoje, textos de cunho esotérico e espiritualista, uma grande reportagem sobre Vivekananda que mostra muito bem a relevância das viagens na vida desse sábio mestre indiano.

Adorei o artigo e não cedi ao impulso de divulgá-lo na íntegra aqui no Odepórica, por considerá-lo um documento essencial àqueles que pesquisam ou se interessam pelo orientalismo. Escrito por José Maria Brandão, o texto que você irá ler em três partes foi condensado do livro de Romain Rolland (A vida de Vivekananda, disponível em formato pdf no ótimo site http://www.estudantedavedanta.net/ ). Boa leitura e Namastê!



O misticismo e a religiosidade na Índia, através dos tempos, têm repercutido no mundo e algumas figuras místicas, dotadas de profundo espírito religioso, conseguem adeptos e seguidores por todas as partes. Nesse particular, talvez, muitos poucos tenham alcançado a projeção de Narendranath Dutt, nascido a 13 de janeiro de 1863 e que mais tarde adotou o nome de Vivekananda.

Descendente de tártaros, se orgulhava tanto disso que muitas vezes afirmou: “os tártaros, na Índia, são o vinho da raça. Tinha constituição atlética e praticava todos os esportes. O brilho dos seus olhos, escuros e profundos, penetrava no íntimo das consciências, seduzindo a todos. Nada escapava à sua visão e aguda perspicácia, captando prontamente os menores gestos ou meias palavras. Onde quer que estivesse, sua figura majestosa pairava acima de qualquer outra. Tinha nascido rei.
Dileto e extraordinário discípulo, tinha recebido a herança espiritual de Rmamakrishna para difundi-la por todo o mundo. Narém, como o chamava carinhosamente Ramakrishna, estava preparado para essa missão. Em sua fé inabalável, impunha a si mesmo duas condições: independência e trabalho. Livre de qualquer injunção e permanecendo só com Deus, socorria os miseráveis, combatia permanentemente a injustiça e o abuso, compartilhando sensivelmente das dores alheias.

O encontro com a miséria humana, principalmente de seus irmãos indianos, provocava em seu íntimo terríveis choques entre o amor, a fé, o orgulho e a ciência. Paralelamente, entretanto, essas convulsões interiores fortaleciam ainda mais o seu ânimo para prosseguir na sublime missão de amparar os desgraçados.

O peregrino da Índia

Em 1888, partindo de Calcutá, iniciou sua primeira viagem através da Índia. Passou por Benares, Daiyodia, Lucnow, Agra, Brindaban, Índia do Norte e Himalaia. Os objetivos dessa e de outras viagens não seriam conhecidos se não fossem relatados por alguns de seus discípulos. Vivekananda tinha o hábito de guardar segredo de suas experiências religiosas adquiridas junto ao povo.

No curso dessa peregrinação conseguiu logo no início a conversão de Sarat Chendra Gupta que passou a ser o primeiro de seus discípulos. Sarat ocupava na época o cargo de chefe da estação ferroviária de Hatras, situada perto de Brindaban. Fascinado pelos ensinamentos de Vivekananda, não teve dúvida em abandonar todos os bens terrenos para acompanhá-lo, fielmente, até a morte, com o nome de Sadananda.
Menos inteligente que Narém, possuía entretanto relativa cultura. Dominava o persa e tinha estudado as influências do sufismo. Alma de artista e de poeta, tanto quanto Vivekananda, tentava penetrar no mais íntimo dos pensamentos do mestre, buscando assimilar com perfeição seus ensinamentos.

Extremamente sensível, lembrava, às vezes, Paramahans, que, vendo um búfalo ser fustigado, viam surgir em seu corpo, imediatamente, as marcas do látego. Era dotado, também, de apurado sentido democrático, resultante, em parte, das influências maometanas. Exercia extraordinário poder sobre os jovens que o adoravam.
Caminhando juntos, Vivekananda e Sadananda, muitas vezes pareciam mendigos. Passaram fome e sede e em algumas ocasiões foram tomados por malfeitores e perseguidos. Certo dia, Sadananda ficou doente e foi carregado às costas pelo mestre através das selvas brutas e perigosas. Logo depois o próprio Vivekananda adoeceu e tiveram que retornar a Calcutá.

Nessa primeira viagem, Vivekananda teve a oportunidade de sentir e de viver a Índia eterna, a terra dos vedas com seus heróis, lendas e glórias. Conseguiu também a unidade espiritual dos árias, mongóis e drávidas.

Frustrado o desejo de solidão

Empreendeu inúmeras viagens ao interior da Índia, pregando, lutando a favor dos fracos e humildes e demonstrando, na prática, a beleza da fraternidade. Procurou incutir na mente de cada um o verdadeiro espírito cristão, fosse qual fosse a religião adotada. O importante é Deus em toda a sua plenitude e magnanimidade.

Vivia em constante luta interior, tentando sufocar as forças malignas que procuravam impedir seus impulsos de bondade. Dentro de si trazia uma avalancha de ambição e sede de domínio como se fosse um novo Napoleão, voltado inteiramente ao trabalho de humanização da Índia e do mundo.

O primeiro ano de Baranagor foi destinado à instrução mútua dos discípulos, que não estavam preparados convenientemente para falar aos humanos. Necessitavam, além do mais, de concentração espiritual para alcançar a realização mística, pois só assim estariam imunizados contra os perigos da vida material. Narém, conhecendo bem a natureza humana, exigia deles intensos momentos de meditação e não admitia qualquer demonstração de preguiça ou de fraqueza.
Tendo alcançado excelentes resultados e consciente da continuação de sua obra, decidiu deixar Baranagor, em julho de 1890, a fim de praticar somente o recolhimento. Antes, porém, foi solicitar a benção e a permissão de Sarada Devi, viúva de Ramakrishna, mulher sensata e nobre, venerada e admirada por todos. Autorizado, seguiu sozinho para o Himalaia onde desejava permanecer indefinidamente, em retiro, renunciando assim a quaisquer sujeições mundanas. Contudo, o mundo aqui fora não permitiu a realização dessa vontade. A notícia da morte de uma irmã, em circunstâncias trágicas, fê-lo voltar à realidade.

Lembrou-se do imenso sacrifício das mulheres indianas, vítimas, como sua irmã, de uma sociedade cruel e desumana, e entendeu que pretender se afastar dos problemas de seus compatriotas era crime imperdoável.

Desaparecem os preconceitos

Vivekananda não parava de trabalhar um instante, buscando sempre o aperfeiçoamento das idéias e experiências através de estudos contínuos. Tanto assim que em Khetri foi aluno do principal gramático em sânscrito, completando sua cultura maometana e jainista em Ahmedabad. Já em Porbandar permaneceu três meses aprofundando-se em filosofia e sânscrito, com pandits sábios e trabalhando com Trigunakita, tradutor dos Vedas.

Nunca estava satisfeito e exigia sempre mais de si mesmo e dos outros. Levava a todas as partes a Imitação de Cristo e com o Bhagavad difundia o pensamento de Cristo, não aceitando os que não perdoavam. O Cristo de suas pregações tinha os braços abertos a toda a humanidade.
Aos 20 anos ele era um fanático desprovido de simpatia e incapaz de qualquer concessão. Evitava passar pelas ruas de Calcutá, próximas ao teatro, com receio de se contaminar espiritualmente. Certa vez, estando hospedado na casa de um marajá de Khetri, foi-lhe apresentada uma cantora. Ele, sem nenhuma humildade e mesmo desdenhoso, fez menção de sair, todavia a pedido do príncipe acedeu em ficar para ouvi-la e um dos versos da canção dizia: “Oh Senhor! Não olheis apenas meus defeitos, pois vós mesmo dissestes: a meus olhos todos são iguais!” Narém ficou transtornado e nunca mais se esqueceu disso. Alguns anos depois, escrevendo a um discípulo, ele dizia que aos 33 anos estava vivendo na mesma casa que abrigava prostitutas.

Seus preconceitos tinham desaparecido totalmente. No Himalaia conviveu entre raças de tibetanos que praticavam a poliandria e quando procurou explicar-lhes a imoralidade daquela prática, eles, revoltados, entenderam que Vivekananda desejava a mulher, exclusivamente, para si. Teve também a companhia de malfeitores, malandros e salteadores, descobrindo entre alguns deles verdadeiros santos em potencial. Um ladrão que havia furtado seu santo “guru”, Pavhari Baba, tocado pelo arrependimento, mais tarde tornou-se monge.
Na Índia Central viveu com uma família de varredores, ficando extasiado ante os tesouros escondidos na alma daquela gente esmagada pela sociedade, e sentiu quanto tinha a aprender para fazer algo de bom. Ao saber que alguns homens morreram de fome, em Calcutá, exclamou: “que temos feito pelos chamados homens de Deus, os sannyasins? Que temos feito?” E deu razão a Ramakrishna quando disse rudemente: “a religião não foi feita para os estômagos vazios”.

As especulações da fé egoísta o irritavam e, segundo seus princípios, o amor ao próximo e a prática de boas ações surtiam melhor efeito que a leitura do Vedanta. “Oxalá pudesse eu viver mil vezes para, através dos homens, servir ao Deus único, soma total de todas as almas. Deus dos malvados, dos humildes, dos perseguidos e dos injustiçados, o Deus infinitamente bom para todas as raças.”

A maioria das fotos foram retiradas do site Vivekananda.net

2 comentários :

  1. Oi Paulo, espero que tudo esteja bem com vc. Bacana esta matéria, que enfatiza alguns dos momentos de expansão do Vivekananda. Situações simples e iluminadas.Beijocas, Pá

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  2. Oi Pá! Pois é, foge um pouquinho do estilo das outras matérias, mas não é sempre que temos tempo- e vontade- para parar e ler um pouco sobre a vida desses grandes seres. Logo, logo posto a continuação. BeijOM, pc

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