terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mongólia, by Bernardo Carvalho

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Minha última leitura revelou-se uma grata surpresa: Mongólia, de Bernardo Carvalho, brasileiro do Rio de Janeiro que vem produzindo uma respeitada carreira literária. Já de cara adorei a capa do livro: fotos em p&b do próprio autor, dá vontade de ver o que tem dentro; um mapa da Mongólia nas páginas 7 e 8 entrega: temos relato de viagem pela frente. E dos bons.

A narrativa de Mongólia é muito interessante: um diplomata carioca aposentado recebe uma missão especial do Itamaraty. Um jovem fotógrafo havia viajado para a Mongólia há muitos meses e ninguém mais sabia do seu paradeiro. Ao diplomata coube a tarefa de enviar alguém à Mongólia em busca do rapaz aventureiro, um subordinado (também ele diplomata) que, assim que descobre de quem se trata, recusa o trabalho. Mas não era um caso a que se pudesse recusar, de modo que o enviado, chamado pelos mongóis de Ocidental, vai a contragosto cumprir sua missão, relatando os acontecimentos de sua viagem em um diário.

A partir desse ponto o leitor conhecerá a Mongólia através de duas fontes narrativas: o diário do Ocidental, lido pelo narrador principal, e o diário que o rapaz sumido escreveu, lido pelo diplomata que parte ao encontro dele. É através do diário do fotógrafo que o Ocidental tenta buscar as pistas que o levarão ao encontro do rapaz. E é pelo olhar dos dois que o leitor irá conhecer um pouco da cultura e da tradição mongol.

No que se refere às pistas deixadas pelo diário do Ocidental, dos lugares por onde andou, há uma passagem muito interessante em que o autor coloca, na boca de um personagem mongol (Purevbaatar) encarregado de guiar o Ocidental pelas estepes, o significado do termo ‘lugar’, que no contexto da cultura nômade ganha uma dimensão diferente quando comparado com a nossa compreensão da mesma palavra:

“Talvez você não tenha entendido o meu trabalho quando me contratou. Não brinco em serviço. Você me pediu para fazer o mesmo percurso que fiz com ele há seis meses. Acontece que esse percurso depende das pessoas que encontramos no caminho. Num país de nômades, por definição, as pessoas nunca estão no mesmo lugar. Mudam conforme as estações. Os lugares são as pessoas. Você não está procurando um lugar. Está procurando uma pessoa. Pois é atrás dela que eu estou indo.”

O mérito de Bernardo Carvalho reside na maneira como ele constrói o diálogo entre as personagens através de seus diários de viagem, numa linguagem simples e bastante descritiva. Vale a pena saber que o autor efetivamente viajou pela Mongólia (como bolsista, em 2002), o que de fato acrescenta à narrativa uma sensação de realidade factual que dá à história um frescor cativante.

Não posso dizer muito mais sobre o enredo sem correr o risco de entregar a surpresa guardada para o final. Por isso, vamos analisar algumas passagens que me pareceram interessantes sob o ponto de vista da literatura odepórica. O que nos revela o olhar do Ocidental? Quais foram as impressões anotadas em seu diário pelo jovem fotógrafo? Como a cultura ocidental dialoga com a cultura dos nômades? Respostas a essas questões vão surgindo aos poucos durante a leitura. Provocação, preconceito, curiosidade, temor, julgamento, tudo isso afeta e ao mesmo tempo constrói o olhar do estrangeiro. Lições que podemos aprender, nós que também adoramos viajar. Mais um motivo para encarar, com prazer, as 185 páginas de Mongólia.


Do diário do desaparecido (pág.38)

5 de julho. Voamos de Ulaanbaatar para Khatgal, na região de Khövsgöl, terra de xamãs na fronteira com a Rússia. O Antonov aterrisa aos sacolejos na pista de terra mal nivelada. Os passageiros pulam em suas cadeiras. Alguns estrangeiros se entreolham e riem. É como pousar num campo esburacado. Batnasan, nosso motorista, um homem grande e boa-pinta, nos espera com seu furgão russo ao lado da pista. Vamos para Tsagaannuur, ao contrário dos outros passageiros, que vieram passar o fim de semana às margens do lago Khövsgöl, na tranqüilidade de um campo turístico com uma paisagem alpina e familiar ao fundo. É o começo da minha viagem.

Meu objetivo é fotografar os tsaatan, criadores de renas que vivem isolados na fronteira com a Rússia, entre a taiga e as montanhas. Estão em vias de extinção. Abastecemos em Khatgal. O vilarejo tem jeito siberiano. Não há um bairro de iurtas, como na maioria das cidades da Mongólia. As iurtas – ou gers, em mongol – são tendas circulares, com estrutura de hastes de madeira, cobertas por uma camada de feltro no interior, outra intermediária de tecido impermeável ou plástico e por último uma lona branca, que funcionam como isolantes no calor ou no frio. Mantêm o frescor no verão de trinta graus e o calor no inverno de menos trinta.

A fenda redonda no topo serve tanto de saída para a chaminé do fogareiro central como de ventilação, e é de especial utilidade durante as tempestades de areia mo deserto. Serve também de relógio de sol, deixando entrar os raios que, ao iluminarem progressivamente diferentes pontos, marcam as horas do dia. A porta, de madeira, fica sempre virada para o sul, por causa do sol provavelmente.

Há todo um cerimonial e uma série de regras de comportamento para quem entra numa iurta, a começar pela interdição de bater na porta, que é sagrada. Bater indica hesitação do viajante e, por conseguinte, constitui uma ofensa aos moradores, como se ele não os considerasse dignos de recebê-lo. Fáceis de montar, as iurtas são ideais para os nômades. Não poderia haver arquitetura mais adequada a um país sem árvores, castigado pelo vento e por oscilações extremas de temperatura.

Já nos vilarejos do norte, como em Khatgal, as casas são de madeira, barracões com telhados de chapas metálicas pintados de verde ou vermelho. É uma região de florestas. A população local não é formada pela maioria étnica mongol, os khalk, mas pelos darkhad, que têm um sotaque forte e são orgulhosos de sua identidade, como o nosso motorista. A viagem até Tsagaannuur deve levar dois dias. O terreno é especialmente ruim e acidentado. Quando não são os buracos e as montanhas, são os pântanos. (...)

Geou pela manhã. Chegamos a Tsagaannuur no final da tarde. É um vilarejo conhecido pelos bêbados, perdido às margens de um pequeno lago. Precisamos pegar uma autorização na polícia de fronteira para visitarmos os tsaatan. A polícia fica num barracão de madeira. No interior do barracão, um grande mapa da região ocupa toda uma parede coberta por uma cortina de cetim vermelho. O delegado é um sujeito gordo, sempre acompanhado por dois soldados simpáticos. Toda a situação tem um quê de peça de Gogol. Seguimos viagem à procura do guia que poderá nos levar a cavalo até os tsaatan, pelas montanhas e pela taiga. (...)

Seguimos de carro à procura de um lugar protegido onde armar as barracas. O terreno é pantanoso. Somos devorados pelos mosquitos. Quando finalmente surge um canto que me parece adequado, Batnasan se recusa a se aproximar com o furgão. Diz que ali é impossível, diz que é proibido e aponta para um pinheiro em que está amarrada uma faixa azul. O local é sagrado, está povoado de espíritos. Alguém pode ter morrido ali.

Estamos em terra de xamãs. Quem viaja por toda a Mongólia vai encontrando pelo caminho amontoados de pedras, como pequenas pirâmides com faixas e estandartes azuis fincados no topo. São os ovoos, que marcam os locais onde há maior proximidade entre o céu e a terra e maior facilidade de comunicação com os espíritos. Designados pelos xamãs, em geral ficam em pontos altos da paisagem, mas nem sempre. E é de bom agouro para o viajante jogar uma pedra e dar três voltas em torno do ovoo, em sentido horário, sempre que depara com um. Na Mongólia, a terra reflete o céu. A sombra das nuvens corre pelo deserto e pelas estepes. O céu está sempre tão perto. A paisagem não se entrega. O que você vê não se fotografa.


Reflexões sobre o nomadismo (do diário do Ocidental, pág 137)

As estradas da Mongólia na realidade são pistas que o motorista tem que decifrar entre dezenas de outras, são marcas de pneus em campos de pedras, desertos e estepes. Marcas deixadas por pneus que, de tanto incidirem sobre o mesmo caminho, acabam criando uma posta. Muitas vezes, no deserto, por exemplo, não há nenhum ponto de referência além das trilhas deixadas pelos pneus de outros carros. Os motoristas insistem em segui-las, como quem toma o caminho seguro, tradicional. O bom motorista é aquele que sabe achar a sua pista no deserto. A boa pista. A repetição é a condição de sobrevivência.

É essa também a cultura dos nômades. Apesar da aparência de deslocamento e de uma vida em movimento, fazem sempre os mesmos percursos, voltam sempre aos mesmos lugares, repetem sempre os mesmos hábitos. O apego à tradição só pode ser explicado como forma de sobrevivência em condições extremas. A ideia de ruptura não passa pela cabeça de ninguém. As estradas só se tornam estradas pela força do hábito. O caminho só existe pela tradição. É isso na realidade o que define o nomadismo mongol, uma cultura em que não há criação, só repetição. Decidir-se por um caminho novo ou por um desvio é o mesmo que se extraviar. E, no deserto ou na neve, esse é um risco mortal. Daí a imobilidade de costumes.
Os dois motivos (losangos ou círculos entrelaçados) que sempre se repetem na decoração das portas, portões, móveis, tapetes, etc., por toda a Mongólia, representam o infinito e o casamento, o que só confirma a obsessão pela estabilidade e pela tradição numa sociedade que em aparência é completamente móvel, a ponto de não haver espaço para nenhum outro movimento.

Entre os nômades, o interessante não é o sistema e os costumes, que são sempre os mesmos, mas os indivíduos. A graça de visitar as iurtas é a surpresa do que se vai encontrar, a diversidade dos indivíduos que ali estão fazendo as mesmas coisas. O nomadismo em si não tem nenhuma graça. A mobilidade é só aparente, obedece a regras imutáveis e a um sistema e a uma estrutura fixos. São as pessoas. Talvez por causa da vida dura e isolada, sem surpresas ou novidades, as visitas em geral sejam tão bem-vindas. O nomadismo é uma estrutura regulada pela necessidade e pela sobrevivência nos seus fundamentos mais essenciais.
Não há liberdade, pois não é possível escapar a essa regra (em última instância, poderia dizer isso de qualquer outra cultura). É uma vida regrada pelas necessidades básicas da natureza. Uma vida simples, reduzida ao essencial para a sobrevivência. O que conta são os indivíduos, quando não sobra mais nada.

Leia:

Mongólia. Bernardo Carvalho. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

6 comentários :

  1. Oi Paulo, que bacana esta leitura. Beijocas, Pá

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. muito bom o seu trabalho gostei ...tenho feito algumas leituras sobre o autor em especial desse mesmo livro mongólia os contrastes de culturas é muito interessante o enredo do livro nos leva a cada lugar,que nos dá esse gosto "quero saber mais sobre a mongólia" ... muito bom ;)

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  4. Valeu, AndeR$on! Boa literatura é assim mesmo, faz a gente viajar junto...

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  5. Gostei muito do pouco que se falou do livro, onde acho, mais dados completo. Pois vim descobrir que meu lado xamanico e todo siberiano.
    Um abraço.

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