sábado, 2 de outubro de 2010

Cartas do yage, by William Burroughs & Allen Ginsberg

.

Estou todo contente, só porque acabei de ler uma recente publicação sobre a literatura beat. Trata-se de uma pequena e deliciosa coletânea de entrevistas com os mais conhecidos nomes da cena beat, editada pela Azougue Editorial na coleção Encontros (a arte da entrevista). O título, óbvio e básico: Geração Beat, organização de Sergio Cohn. O conteúdo da pequena coletânea de entrevistas não deixa nenhum fã da literatura beat desapontado, bastando dar uma olhada nos entrevistados para saber que o lance é bom: Allen Ginsberg, Gary Snyder, Jack Kerouac, Gregory Corso, Lawrence Ferlinghetti, Neal Cassady, Will Burroughs, Michael McClure e até Bukowski, que nem era beat mas que sempre aparece no meio dos malucos todos da época.

Cada uma das entrevistas é uma pequena jóia, um documento valioso para quem curte os beats e quer saber um pouco mais de seus escritores favoritos. Para mim, que sou suspeito, Kerouac sempre brilha mais, e a entrevista intitulada “Santo Jack” (1959) é uma curtição só, você se sente ali ao lado dele e do entrevistado, e de sua mãe Gabrielle, que vira e mexe aparece para dar uns pitacos, enquanto Jack entorna uma lata de cerveja atrás da outra (mas sem nunca perder a pose e a lucidez). Vou dizer uma coisa: nas mãos de um autor competente, só essa entrevista renderia uma boa montagem teatral.
Gary Snyder é outro que me surpreendeu; sua entrevista, publicada originalmente em 1977 na revista East West tem o sugestivo título de “Meditar e varrer o jardim”. Para quem não conhece a turma, Snyder (que completou 80 esse ano) é o beat zen da galera, um poeta prestigiado que passou anos no Japão, com formação em antropologia e cultura oriental. Meditou pacas, influenciou Kerouac de montão em sua fase budista e nunca deixou a peteca cair. Embora nem se considere um beat – e de certa forma estava mesmo distante daquela parada toda – foi sempre tratado como tal. Eu diria que a seu modo Snyder foi uma alternativa zen em meio a tantas doideiras praticadas pelos outros, sobretudo no que diz respeito ao uso de drogas, hábito comum a todos, mas incompatível com a proposta espiritual dele. Por essas e outras, Snyder é um homem que brilhou - que ainda brilha, por ter vivido de acordo com suas crenças de forma honesta, sem nenhum tipo de hipocrisia. A entrevista dele faz com que você perceba isso com muita facilidade.
Outro poeta e nome chave da cena beat, Allen Ginsberg, é mais um que merece destaque na coletânea. Assim como Snyder, Ginsberg também foi um homem que viveu de maneira honesta aquilo que acreditava, mas seu barato era outro, e só quem já leu seus escritos e poemas sabe a dimensão porralouquice de sua obra. No bom sentido, sempre. Allen Ginsberg foi genial, de uma cultura e inteligência acima da média e não se pode negar o papel de destaque que as drogas sempre tiveram em sua vida. E também na de William Burroughs, seu grande amigo e outro nome fundamental na história do movimento beat.
E é desses dois camaradas de quem vou agora tratar, só que deixando de lado o Geração Beat (leia, leia, leia!) e tomando nas mãos o pequenino livro intitulado Cartas do yage, que tem a ver com viagem, afinal, e cujo resumo copio descaradamente da capa posterior:

“Em 1953, logo após a controversa morte acidental de sua mulher, William Burroughs (1914-1997) se lançou em uma viagem à América do Sul. Mais especificamente ao Peru e à Colômbia, na busca pelo yage, ou ayahuasca, droga usada pelos índios da nascente do rio Amazonas à qual se atribuem poderes sensoriais e anestésicos. (...) um pouco diário de viagem, um pouco relato ficcionalizado, contém as cartas escritas ao amigo, amante e poeta Allen Ginsberg (1926-1997) sobre a experiência. Traz também as cartas que este enviou a Burroughs sete anos mais tarde, ao fazer uma jornada similar.”

Simples assim. A obra (lançada originalmente pela mítica City Lights, em 1963) como consta no resumo acima, trata da troca de correspondência entre Allen e Will Burroughs contando suas experiências com o yage no Peru e na Colômbia amazônica. Primeiro foi um, WB em 1953; sete anos depois, é Allen quem vai e daí você que nem leu já pode imaginar o que os dois devem ter aprontado no meio do mato pra poder garantir um barato alucinógeno. Diz o Will (em sua obra Junkie):
"Andei lendo sobre uma droga chamada yage, usada pelos índios da nascente do Amazonas. Dizem que ela aumenta a sensibilidade telepática. Portanto, resolvi me mandar pra Colômbia em busca do puro barato que expande a mente, ao contrário da heroína, que a estreita. Talvez eu descubra no yage o que andava procurando na heroína, na maconha, na coca. Yage talvez me dê o barato definitivo.”

O yage, do título, é a conhecida ayahuasca, o cipó de onde se produz a mesma bebida que ingerem os membros do Santo Daime, de quem já falamos aqui no Odepórica outras vezes. A diferença entre a experiência destes (Will e Allen) com a dos praticantes dos grupos religiosos é a conduta espiritualmente pouco ortodoxa dos dois escritores; ainda que possa parecer haver algo de espiritual na busca de ambos, por conta do desejo em experimentar uma expansão da mente, fica a noção de que o que buscavam de fato era a pura fruição alucinógena (em particular no caso de Burroughs), sem qualquer preocupação com a sacralidade. A bem da verdade, Burroughs sempre foi um junkie inveterado, tendo feito de seu próprio corpo um templo para todos os tipos de experiências com drogas (ainda assim, apesar de todos os excessos nessa área, o homem teve a proeza de viver 83 anos, um verdadeiro antecessor de Ozzy Ousborne). Allen Ginsberg, diferente de Will, sempre viveu uma profunda - e aparentemente legítima- busca espiritual, o que se nota com clareza ao se comparar os relatos de ambos ao descreverem suas experiências com o yage numa comunidade peruana.
Enfim, não resta muito a ser dito. O livro é curto, as cartas idem. Escolho apenas duas amostras, a título de curiosidade. A primeira missiva escrita por William Burroughs, a outra pelo Ginsberg. Apenas um recorte, bastante superficial, de duas viagens empreendidas por homens que nunca tiveram medo de viver seus sonhos e loucuras - loucuras estas muitas vezes praticadas até o limite no qual a maioria das pessoas jamais ousaria se aproximar.



Lima, 10 de julho de 1953

Querido Allen:

Ontem à noite, tomei o resto da mistura de yage que trouxe de Puccalpa. Não adianta levá-la para os Estados Unidos. Não se conserva por mais do que alguns dias. Esta manhã, ainda viajando. Foi isso que aconteceu comigo. Yage é uma viagem espaço-tempo. O quarto parece sacudir e vibrar com movimento. O sangue e a essência de muitas raças: negros, polinésios, mongóis da montanha, nômades do deserto, poligotes do Oriente Próximo, índios, novas raças ainda não determinadas e por nascer e combinações ainda não descobertas passam através do meu corpo. Migrações, incríveis viagens através de desertos, florestas e montanhas (marasmo e morte em estreitos vales montanhosos onde plantas brotam da pedra e enormes crustáceos eclodem e quebram a concha do corpo), através do Pacífico num catamarã para a Ilha da Páscoa. A Cidade Composta onde todos os potenciais humanos estão espalhados num vasto e silencioso mercado.

Minaretes, palmeiras, montanhas, florestas. Um lento rio onde pulam peixes defeituosos, enormes parques tomados pelo mato onde os meninos deitam na grama ou jogam. Nenhuma porta trancada na cidade. Qualquer um entra no seu quarto a qualquer hora. O chefe de polícia é chinês, palita os dentes e escuta as denúncias de um louco. Hipsters com os rostos macilentos e flácidos recostam-se nas portas, revirando cabeças encolhidas nas correntes de ouro, rostos inexpressivos com uma calma insetívora jamais vista.

Atrás deles, através da porta aberta, mesas e reservados, bares e quartos, cozinhas e banheiros, casais copulando em fila nas camas de latão, ziguezague de milhares de redes, junkies se picando, fumantes de ópio, fumantes de haxixe, pessoas comendo, falando, tomando banho, cagando numa névoa de fumaça e vapor.

Mesas de jogo onde são feitos jogos com apostas incríveis. De vez em quando, um jogador pula dando um grito inumano e desesperado por ter perdido a juventude para um velho ou por tornar-se latah para seu adversário. Mas há apostas mais altas que a juventude ou o latah. Jogos em que apenas dois jogadores no mundo sabem qual é a aposta.

Todas as casas da cidade são geminadas. Casas de barro com mongóis da montanha piscando nas portas enfumaçadas, casas de bambu e de teça, casas de adobe, pedra e tijolo aparente, casas do Pacífico Sul e de Maori, casas em árvores e casas em barcos, casas de trezentos metros de comprimento que abrigam tribos inteiras, casas de caixas velhas e ferro enferrujado onde os velhos vestidos de farrapos podres sentam falando sozinhos e cozinhando calor enlatado, grandes e enferrujadas bastes erguendo-se trinta metros no ar, saindo dos pântanos e do lixo com perigosas repartições construídas sobre plataformas de vários níveis e redes balançando no vazio.

Expedições partem para lugares desconhecidos, com propósitos desconhecidos. Estranhos chegam em balsas de caixotes velhos amarrados com corda podre. Cambaleiam para fora da floresta, os olhos inchados das picadas de insetos. Descem pela trilha da montanha com os pés quebrados e sangrando através dos poeirentos e ventosos arredores da cidade, onde as pessoas cagam em fila ao longo das paredes de adobe e urubus brigam por cabeças de peixe; caem nos parques com pára-quedas remendados. São escoltados por um policial bêbado para se registrarem num enorme banheiro público. Os dados tomados são pendurados por um prendedor e usados como papel higiênico.

Os cheiros da cozinha de todos os países pairam sobre a cidade, uma névoa de ópio, haxixe, a fumaça sinuosa e vermelha do cheiro de comida da floresta, sal, o rio podre, excremento seco, suor e genitais. Floresta de altas montanhas, jazz, bebop, instrumentos mongóis de uma corda, xilofones ciganos e gaitas árabes.

A cidade é visitada por epidemias de violência, e os mortos abandonados são comidos por urubus nas ruas. Não são permitidos funerais nem cemitérios.

Albinos piscam ao sol, garotos sentam-se nas árvores masturbando-se languidamente, pessoas atacadas por doenças desconhecidas cospem nos passantes, mordem-nos, jogam pus, cascas e vários tipos de vetores (insetos suspeitos de transmitir doenças), esperando infectar alguém.

Quando você fica completamente bêbado, acorda com um desses cidadãos doentes na sua cama, que passou a noite exaurindo sua ingenuidade tentando se infectar. Mas ninguém sabe como as doenças são transmitidas ou se são realmente contagiosas. Esses mendigos doentes vivem num labirinto de tocas sob a cidade e surgem de lugar nenhum, quase sempre se arrastando pelo chão de um bar lotado.

Seguidores de ocupações inimagináveis e obsoletas rabiscam em etrusco, viciados em drogas ainda não sintetizadas, traficantes de harmina ensopada, junk reduzida ao simples vício de oferecer uma serenidade vegetal precária, líquidos para induzir o latah, antibióticos cortados, soro da longevidade titoniano, negociantes do mercado negro da Terceira Guerra Mundial, vendedores de remédios para a doença da radiação nuclear, investidores de infrações denunciadas por calmos e panorâmicos jogadores de xadrez, executores de ordens fragmentárias determinando inomináveis mutilações de espírito anotadas – em taquigrafia hebefrênica, burocratas de espectrais repartições, oficiais de estados policiais não-constituídos, uma anã lésbica que foi recém-operada, a ereção pulmonar que estrangula um inimigo adormecido; vendedores de cilindros de orgônio (*energia vital perceptível sobretudo durante o orgasmo sexual) e máquinas de relaxamento, corretores de sonhos fantásticos e memórias testadas em células sensibilizadas pela fissura e permutados pelos materiais crus da vontade; médicos treinados no tratamento de doenças dormentes na poeira negra das cidades em ruínas, acumulando virulência no sangue branco dos vermes sem olhos, sentindo vagarosamente a superfície e os hospedeiros humanos, enfermidades do fundo do oceano e da estratosfera, enfermidades de laboratório e da guerra atômica, eliminadores da sensibilidade telepática, osteopatas do espírito.

Um lugar onde o passado desconhecido e o futuro emergente se encontram num zumbido vibrante e sem som. Entidades larvais aguardando algo vivo.
William Lee

Trechos de uma carta escrita por Allen Ginsberg a William Burroughs, contando sua experiência com o yage. (Desenhos de Allen)

Pucallpa, 10 de junho de 1960

(...) A primeira vez foi muito mais forte que a bebida que tomei em Lima; Ayahuasca pode ser engarrafada e transportada e mantém-se forte, se não fermentar – a garrafa precisa estar bem fechada. Tomei uma xícara: a mistura estava um pouco velha, tinha sido feita há muitos dias e um pouco fermentada também; deite-me e depois de uma hora (numa choça de bambu, fora de sua cabana, onde ele cozinha) comecei a ver ou sentir o que pensei ser o Grande Ser, ou alguma de suas manifestações, aproximando-se de minha mente como uma grande e úmida vagina, onde fiquei por um tempo, a única imagem que posso recriar é de um grande buraco negro do Deus-Nariz, através do qual vi um mistério – e o buraco negro cercado por toda a criação, especialmente cobras coloridas – tudo real.
Me senti um pouco como o que esta imagem representa, a sensação é tão real.

O olho é uma imagem imaginária, que dá vida ao quadro. Também há uma sensação corporal de grande satisfação, nenhuma náusea. Durou, em fases distintas, umas duas horas – os efeitos desapareceram em três horas – a fantasia durou três quartos de hora depois de beber até mais ou menos duas horas depois.

(...) fui a uma sessão de grupo formal ontem à noite – dessa vez a mistura estava fresca e apresentada com todo o cerimonial, ele cantarolava (e assoprava fumaça de cigarro ou cachimbo) docemente sobre a xícara alguns minutos antes (xícara esmaltada, lembrei-me da tua xícara de plástico), então acendi um cigarro, dei uma baforada sobre a xícara e bebi.

Vi uma estrela cadente – aerólito -, antes de entrar, e a lua cheia, e me serviu primeiro. Então deitei-me esperando sabe Deus que outra visão agradável, então começou a bater e então toda essa porra de cosmos desprendeu-se à minha volta, acho que foi a coisa mais forte e pior que já me aconteceu ... No início, comecei a me dar conta que a minha preocupação com os mosquitos e o vômito era idiota, já que era uma questão de vida ou Morte – Senti-me encarado pela Morte, minha caveira na minha barba num catre num pórtico, rolando para frente e para trás e finalmente parando, como que reproduzindo o último movimento que faço antes de estabelecer a morte real – senti náusea, corri para fora e comecei a vomitar, todo coberto de cobras, como um Serafim-Cobra, serpentes coloridas numa auréola ao redor do meu corpo, senti-me como uma cobra vomitando o universo, ou um jívaro de cocar com dentes de cobra vomitando ao empreender o Assassinato do Universo – minha morte por vir – a morte de todos por vir – ninguém está preparado – eu não estou preparado – ao meu redor, nas árvores, o barulho desses animais espectrais, os outros bebedores vomitando (parte normal das sessões de Cura) na noite de sua horrível solidão no universo – vomitando sua vontade de viver, de ser preservado neste corpo, quase – Voltei e me deitei – Ramon veio suavemente como uma enfermeira (ele não tinha bebido, é uma espécie de ajudante para auxiliar os sofredores) e perguntou-me se estava bem e “bien mareado” (bem bêbado) – eu disse “bastante” e voltei para ouvir o espectro que se aproximava da minha mente.
(...) lembro-me que você disse para tomar cuidado com a visão de quem se tem – mas Deus sabe eu não sei a quem me voltar quando finalmente a Sorte tiver baixado espiritualmente e eu tiver que depender da minha própria memória de Ser-Serpente das Alegres Visões de Blake – ou depender de nada e entrar de vez – mas entrar no quê? – Morte? – e naquele momento – vomitando, sentindo-me ainda como um Grande e perdido Anjo-serpente vomitando na consciência da Transfiguração por vir – com o senso radiotelepático de um Ser cuja presença ainda não senti completamente – tão terrível para mim, ainda aceitar o fato da comunicação total com, digamos, qualquer serafim eterno, macho e fêmea ao mesmo tempo – e eu, uma pobre alma perdida buscando ajuda – bem, vagarosamente a intensidade começou a diminuir, fiquei incapaz de me mover em qualquer direção, espiritualmente – sem saber quem procurar – sem confiança para perguntar ao Maestro – apesar de que, na visão da cena, dentre todos era ele o guia espiritual local lógico a quem recorrer – levantei e sentei a seu lado (como Ramon sugeriu suavemente) para ser “assoprado” – isto é, ele cantarola para curar a tua alma e assopra fumaça – uma presença bastante confortadora, apesar de que agora o medo mais profundo tenha passado – ao passar de todo, levantei-me, peguei um mosquiteiro que tinha trazido e fui para casa ao luar, com o gordo Ramon – que disse que quanto mais se satura de ayahuasca, mais fundo se vai – visitar a lua, ver os mortos, ver Deus – ver os espíritos das árvores etc.
Allen Ginsberg

Leia:
Geração Beat. Azougue Editorial, 2010.

Cartas do Yage. William Burroughs & Allen Ginsberg. L&PM, 2a edição, 2008.


3 comentários :

  1. Oi Paulo, beleza? Que viagem estas pessoas faziam. Tomara que ninguém fique motivado a experimentar este tipo de chá. Beijinhos, Pá

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi paula! não por eles ficaram motivados. Estes sim que procuraram.

      Excluir
  2. Baixar o Documentário - William Burroughs: Um Homem Dentro - http://mcaf.ee/90yuc

    ResponderExcluir