segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, by Cesar Augusto de Carvalho

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Tive uma grata surpresa ao deparar-me com a obra Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80, fruto de um longo trabalho de pesquisa de Cesar Augusto de Carvalho, sociólogo e professor da Universidade Estadual de Londrina. Primeiro, porque o tema me fascina e depois porque o autor teve muita coragem em defender sua tese de doutorado valendo-se, na escrita, de uma linguagem distante das amarras do modelo acadêmico com sua formalidade que muitas vezes (nem sempre, claro) encobre um desenvolvimento intelectual confuso e isento de grandes novidades.

Duas grandes sacadas aqui: a primeira delas foi que, ao optar por uma escrita clara e objetiva, o pesquisador conseguiu ir além da banca de defesa da tese, levando assim o resultado de sua pesquisa a um público muito mais amplo do que o do limitado espaço acadêmico; a outra foi o fato de que, ao agir dessa maneira, o autor se relacionou com seu objeto de igual para igual, pois não há nada mais distante do universo da contracultura do que atitudes formais e caretas, sobretudo no âmbito da comunicação. Aliás, como bem lembra o autor, nem sempre a linguagem científica e racional consegue explicar tudo:

“Não me oponho às metodologias científicas estabelecidas. Dou-me ao direito de propor uma narrativa que pratique a tolerância discursiva, a pluralidade e a relatividade do conhecimento. (...) Se quiser pode chamar minha proposta de rebelde, mas não entenda essa rebeldia no sentido convencional de recusa ou rejeição. Não nego, nem tenho como o fazer, que toda a história da contracultura foi movida por rebeldes. Mas eram rebeldes que radicalizavam sua oposição ao mundo, rejeitando-o, negando-o e procurando viver à margem. A rebeldia proposta é de outra ordem.”

Uma rápida passada d’olhos no sumário da obra adianta um pouco aquilo que você irá encontrar no transcorrer da leitura: antes da viagem, em direção ao centro, a linguagem do silêncio, drogas, dietas e relacionamentos, vida natural, encontrando um rumo.... não entrega muito, é verdade, mas já serve para podermos imaginar do que se trata.

Um resumo da obra vai bem: na segunda metade dos anos 1980 um professor universitário, cheio de questionamentos, interessou-se pela pesquisa sobre os paradigmas do conhecimento e tinha um grande interesse em “pensar alternativas aos dispositivos científicos que pudessem ser criados sem que houvesse o predomínio da lógica racional.” Matutando essa ideia, achou que seria interessante encontrar respostas às suas indagações intelectuais se conhecesse de perto o universo dos jovens que estavam indo morar nos lugares mais distantes do país com a proposta de criar uma sociedade alternativa (inspirados, quem sabe, pela famosa canção de Raul Seixas).

Daí para por os pés na estrada não demorou muito. Grana curta, o lance era traçar um destino easy rider montado numa nada endiabrada motoca 125 cc. Hum, atrevido esse professor. O roteiro foi construído de maneira quase ingênua, confiando numa desatualizada (o que ele só se daria conta depois) edição do Guia do peregrino, lançado pela Editora Três em 1985. Tudo bem, temos que nos atentar ao fato de que naquele período ainda não existia a poderosa ferramenta da internet.

A viagem tinha uma duração pré-determinada de seis meses e em algumas localidades o professor aventureiro poderia contar com a ajuda de colegas quanto à estadia e contatos relacionados com seu objeto de pesquisa. O resto o acaso daria conta.

Os principais lugares visitados foram os seguintes: Campo Grande, Corumbá, Cuiabá, Chapada dos Guimarães, Porto Velho, Rio Branco e Manaus. Praticamente toda a viagem pode ser enquadrada em dois grandes blocos de acontecimentos: o primeiro, que marca a fase inicial, o “centro” na Chapada, é dedicado ao contato com os remanescentes de comunidades alternativas; o segundo, contemplado com mais intensidade pelo pesquisador, dedica-se ao contato com integrantes de seitas que cultuam o Santo Daime. São essas duas perspectivas que irão nortear toda a narrativa da obra.

Como leitor comum e interessado na temática da contracultura, gostei muito do resultado da obra como um todo. Mas numa visão mais crítica, enquanto pesquisador, achei que a pesquisa teve algumas falhas e que, de certo modo, foi pouco calçada bibliograficamente, levando-se em conta que estamos diante de uma tese de doutorado. Acredito que o autor poderia ter explorado muito mais o seu objeto se contasse com uma orientação mais exigente, causando-me estranheza, nas referências bibliográficas, a quase total ausência de textos estrangeiros.

Mas aqui nada disso tem muita importância, o que nos interessa neste blog são as narrativas de viagem e as reflexões dos autores a respeito da arte de viajar. Nesse ponto gostei do que li e dou nota dez ao Cesar pela sua posição de abertura frente ao novo, ao desconhecido; em muitos aspectos o professor/escritor/pesquisador Cesar Augusto de Carvalho pareceu seguir as diretrizes de um bom trabalho etnográfico, fazendo-me lembrar um pouco da dinâmica do trabalho de campo tal como proposta por Hans-Jürgen Greschat, fantástico pesquisador alemão que se dedica ao estudo das religiões, já citado aqui no blog em um post anterior.

Feita a introdução, vamos agora curtir alguns trechos de Viagem ao mundo alternativo. Como de hábito, escolhi as passagens nas quais o tema da viagem aparece mais evidenciado. Boa leitura e Namastê!

Com o pé na estrada – notas do autor


“A viagem, portanto, seria uma oportunidade única para conhecer as comunidades alternativas, cujas imagens foram formadas pelas informações midiáticas à época. Seria, também, a possibilidade de levantar informações para responder às angústias teóricas e existenciais que me assaltavam. Como todo viajante otimista, isso me possibilitaria dar novo significado ao sentido da vida.”

“Mas nenhuma viagem transcorre sem, pelo menos, a possibilidade de perigos. E o perigo maior não é o que está ligado a eventuais acidentes, mas sim aquele que coloca o viajante em uma rota sem destino, que o faz se perder. E a razão é simples. Em uma viagem excessivamente longa, como a proposta, o meu lar seria a própria estrada. Por mais tempo que permanecesse aqui ou ali, seria impossível o apego a objetos ou pessoas. Estaria em constante deslocamento, exatamente como o fogo que arde rapidamente e consome o mato seco.”


“O fogo não é apenas uma figura de linguagem, é o próprio comportamento do viajante. E a razão disso, hoje, parece fácil compreender. Enquanto se vive em um cotidiano rotineiro, objetos, hábitos e coisas ganham uma significação precisa, ainda que muitas vezes sem vida. Já o constante deslocamento do viajante obriga-o a passar pelas coisas sem lhes dar muita importância. À medida que esses deslocamentos se intensificam, o risco de o viajante não chegar ao seu destino é cada vez maior. E isso só não acontece quando ele encontra o que busca.”

“Acredito ser esta a principal razão que transforma o ato de viajar em um símbolo mítico, porque é constante o processo de mudança de valores. Só o cansaço pode levá-lo a prender-se a algo: ‘ Viajo constantemente, o que significa que não tenho apego a nada nem a ninguém’ (Pedro Almodóvar, 1998)”.

“A própria viagem física, que ocorre entre diferentes pontos geográficos, serve para redimensionar o sentido da vida quando as experiências do viajante o levam a importantes mudanças de mentalidade.”

A temática

Até o final do século XIX, os relatos descrevem de forma objetiva as cenas e objetos que o viajante encontra em seu deslocamento temporal e espacial; no século XX os relatos mudam o foco para os mapas dos conflitos, angústias e dramas que se desenham durante a jornada interior do viajante. Nesta acepção, os deslocamentos não são condições necessárias para produzir mudanças significativas na estrutura de personalidade. Muitas vezes, sem sair de seu quarto, o adolescente se redefine: “Ah... que viagem, estar aqui, parada”, diria Alice Ruiz sobre esse mergulho interior.


Jornada, a viagem é rito de iniciação responsável pela mudança de percepção e de vida do indivíduo. A partir da década de 50, quando ganha amplitude e importância jamais vistas, torna-se marco importante da juventude do pós-guerra. On the road (Pé na estrada), de Jack Kerouac é exemplo clássico: no romance, dois personagens cruzam os Estados Unidos, do Leste ao Oeste. Vagões de trens de carga, motos, carros, ônibus, não importa o veículo a ser utilizado, nem o destino, importa o movimento. O movimento incessante dos personagens, de um lugar a outro, sem parada.

Nos anos 60, a viagem consolidou-se estilo de vida, marca. Cair na estrada era um desejo de qualquer jovem. Receptiva ao novo segmento de mercado, a indústria fonográfica soube aproveitar-se. O sonho de uma Califórnia aconchegante cantado pelos The Mamas and the Papas na música “California Dreamin’” foi sucesso imediato ao ser lançada no Verão do Amor, em 1966.


O universo simbólico apontava para a prática recorrente da juventude: mochila nas costas e o compromisso de estar em movimento. Muitas vezes, o final da viagem se revela surpreendente ao redefinir os rumos de vida e história do viajante. É quando a viagem revela-se rito de iniciação da jornada do herói, o viajante. A viagem de Che Guevara pela América Latina no início dos anos 50 enquadra-se na narrativa típica de construção do herói mítico. Quando Che Guevara, depois de viajar oito meses, separa-se de seu companheiro, reconhecendo a necessidade de manter-se afastado por um tempo, pois precisava assimilar tudo o que havia vivenciado. Sete anos depois ele seria um dos guerrilheiros comandados por Fidel Castro que tomaria o poder em Cuba, e transformaria a ilha no primeiro país socialista da América Latina.


(...) Os diários de viagens de Che Guevara só foram publicados depois de sua morte, mas permitem a compreensão do processo de mudança pelo qual passou em sua busca, em princípio uma simples aventura – “coisa de jovem” -, no final, a construção de um personagem redefinido, com um novo papel no mundo. Antes mesmo de ser morto, Che Guevara já era um modelo de herói a alimentar o imaginário da juventude mundial. E muitos jovens sentiram-se motivados a perseguir sua trilha, que coincidia com o auge do movimento hippie nos anos 60.

Viagem, uma lição ambígua


“A viagem pode começar como uma fuga declarada, movida pela profunda necessidade de mudança interior; o indivíduo vê, como única saída, o cair na estrada, o perder-se, o fugir...”

“Perder-se é uma possibilidade real que o viajante encontra em seu percurso. Sempre em movimento, vivendo como estrangeiro em terras estranhas, com gente estranha, só tem a si próprio como referência. É uma situação perigosa, pois a pior batalha a ser travada é contra si mesmo, segundo os ensinamentos de Buda. Insatisfeito consigo próprio, o objeto de valor a ser encontrado é o desconhecido, o inacessível, o impossível de ser alcançado, e o indivíduo torna-se outsider, o marginal por excelência da literatura existencialista: ‘Eu vi os expoentes da minha geração destruídos pela loucura, morrendo de fome, histéricos, nus’ (Ginsberg).”

Drogas e viagens


“Viajar tem também o significado de estar sob o efeito de drogas. E, nesse caso, a jornada interior pode produzir ilusões que, longe de fazer o viajante enfrentar a si mesmo, transformam-se em caminhos de fuga. As drogas alucinógenas, todavia, não foram compreendidas nesse contexto na sociedade pós-guerra. Elas eram muito mais uma possibilidade de abrir as portas da percepção para outros horizontes e, com isso, ajudar o usuário a redefinir seu self. As drogas serviram, assim, para romper os rígidos paradigmas mentais estruturados com base na racionalidade dominante, constituindo-se numa alternativa, não isenta de riscos, de integração social.”



Leia: Viagem ao mundo alternativo: a contracultura nos anos 80. Cesar Augusto de Carvalho. Editora Unesp. 2008.

Um comentário :

  1. Oi Paulinho, tudo beleza pura? :-)
    Achei esta matéria curta mas com bastante informação. Mexeu com a minha cabeça. Deve ser por causa da data! Beijinhos, Inté!

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