sábado, 25 de setembro de 2010

Odepórica oracular: O Hexagrama 56, O viajante.

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Às vezes somos atraídos para um determinado tipo de leitura. Uma intuição nos leva a comprar ou tomar emprestada uma obra que, sem sabermos explicar de maneira racional, sabemos que irá nos afetar de uma maneira bastante peculiar. Geralmente são textos de cunho filosófico ou espiritual, ou até mesmo – e imagino que muito frequentemente nos dias de hoje – os títulos da pouco prestigiada literatura de auto-ajuda.

Em meu estudo sobre os relatos de viagem de peregrinos brasileiros no Caminho de Santiago, menciono um acontecimento relativamente comum entre alguns caminhantes, que vem a ser o uso oracular de um livro, quase sempre a Bíblia. Funciona assim: o consulente formula uma questão, mental ou oralmente, e abre o livro ao acaso, de modo que a página aberta trará a (s) resposta (as) à questão previamente formulada. Muitas vezes o resultado surpreende o consulente por conta da sincronicidade entre aquilo que se perguntou e a resposta encontrada na página aberta aleatoriamente.

É esse mais ou menos o princípio do I ching, ou O Livro das mutações, um texto muito antigo escrito no período anterior à dinastia Chou (1150-249 a.C.); digo “mais ou menos” porque o I ching é muito mais do que um oráculo, ainda mais se formos compará-lo a outros oráculos conhecidos como o tarô ou as runas. Basta abrir uma boa edição que você logo percebe a diferença, já que trata-se igualmente de um complexo sistema filosófico. E aqui se nota uma dicotomia interessante: apesar de sua complexidade, o I ching é de uma simplicidade ímpar. Eu uso e indico com muita segurança a tradução do sinólogo Richard Wilhelm, com o providencial prefácio de Carl G. Jung, que em português é publicada pela Pensamento e de onde transcrevo o texto que você irá ler logo a seguir.

Muitas são as formas de se interpretar um hexagrama e é um fato que cada uma delas varia de acordo com quem consulta o livro. A interpretação, portanto, deve ser feita exclusivamente por quem formula a questão, já que a princípio a resposta se encontra diretamente relacionada ao plano inconsciente do consulente. Parece complicado, mas não é. Basta um pouco de atenção, um local sossegado e deixar a mente divagar sobre a leitura, agindo como um monge zen e seu koan. A resposta pode não aparecer na hora, às vezes chega assim de surpresa, no momento em que você estiver debaixo do chuveiro ou distraído na rotina do trabalho.

Quando pensei em postar esse texto tinha em mente desenvolver um raciocínio sobre o Hexagrama 56, ligando-o ao tema do blog. Mas acabei desistindo da ideia, justamente por conta do que acabei de escrever no parágrafo anterior.

Por isso, cabe a você, leitor (a) que chegou até aqui, quem sabe por acaso, fazer a sua própria interpretação do hexagrama. Se estiver com alguma viagem em mente, ou mesmo prestes a partir, tanto melhor: o texto que se segue pode ter sido, exclusivamente, transcrito para você. Coisas do acaso. Ou não. Namastê!


Hexagrama 56: O Viajante
Sucesso através do que é pequeno.
A perseverança traz boa fortuna ao viajante.

Quando um homem está viajando e é, portanto, estrangeiro, deve evitar ser rude ou arrogante. Ele não dispõe de um grande círculo de relações e não deve, portanto, se vangloriar. É necessário ser cauteloso e reservado; desse modo evitará o mal. Se ele for atencioso com os outros, terá sucesso.

O viajante não tem moradia fixa, seu lar é a estrada. Por isso ele deve procurar se manter íntegro e firme, detendo-se apenas em lugares apropriados e tendo contato somente com boas pessoas. Ele, então, encontrará boa fortuna e poderá seguir seu caminho sem problemas.

IMAGEM

Fogo sobre a montanha: a imagem do VIAJANTE.
Assim o homem superior é claro e cauteloso ao aplicar castigos, e não prolonga os litígios.

Quando o capim sobre a montanha queima, faz-se uma intensa claridade. Porém, o fogo não se demora num só lugar, mas segue adiante em sua procura de novo combustível. Ele é um fenômeno de curta duração. Assim também devem ser as penalidades e os processos; algo passageiro, que não se prolonga indefinidamente. Prisões devem ser lugares em que as pessoas sejam recolhidas só temporariamente, como se fossem hóspedes. Não devem se converter em moradia.

LINHAS

Seis na primeira posição significa:
Se o viajante se ocupa de coisas banais, atrai sobre si a desgraça.

“Um viajante não deve se rebaixar ocupando-se com vulgaridades que encontra em seu caminho. Quanto mais humilde e indefesa for sua situação externa, tanto mais deve ele preservar sua dignidade interior. Pois um estrangeiro se engana ao julgar que, prestando-se a brincadeiras e ao ridículo, encontrará acolhida amigável. Isso só pode lhe acarretar desprezo e tratamento ofensivo.”

Seis na segunda posição significa:
O viajante chega a uma hospedaria. Traz consigo seus pertences. Ele conquista a perseverança de um jovem servidor.

“O viajante aqui descrito é modesto e reservado. Ele não se aliena de sua essência interior e por isso encontra um lugar onde pode repousar. No plano exterior ele não perde a simpatia das pessoas e por isso todos o ajudam na aquisição de bens. Encontra ainda um servidor fiel e de confiança com o qual pode contar, o que é de inestimável valor para um viajante.”

Nove na terceira posição significa:
A hospedaria do viajante incendiou-se. Ele perde a perseverança de seu jovem servidor. Perigo.

“Um estrangeiro violento, que não sabe se comportar, se intromete em assuntos e controvérsias que não lhe dizem respeito. Com isso, perde seu lugar de repouso. Trata a seu servidor de modo distante a arrogante, perdendo assim sua lealdade. Quando um estrangeiro já não tem mais ninguém em que possa confiar, sua situação torna-se muito perigosa.”

Nove na quarta posição significa:
O viajante descansa num abrigo. Ele obtém sua propriedade e um machado. Meu coração não está contente.

“Aqui se descreve um viajante que sabe comportar-se com moderação, apesar de seu temperamento forte e intempestivo. Por isso ele encontra, pelo menos, um abrigo onde pode permanecer. Consegue também adquirir bens, mas mesmo possuindo-os ele não está seguro. Ele precisa estar sempre alerta, pronto para defender-se recorrendo às armas. Por isso ele não se sente à vontade. Está sempre consciente de ser um estrangeiro numa terra estranha.”

Seis na quinta posição significa:
Ele atira num faisão. Este cai à primeira flechada. Ao final isso lhe traz elogios e um cargo.

“Os estadistas que se encontravam de passagem num lugar tinham o hábito de se apresentar aos príncipes da região, oferecendo-lhes um faisão. Aqui o viajante deseja entrar para o serviço de um príncipe. Por esse motivo, ele atira num faisão, abatendo-o ao primeiro tiro. Com isso, encontra amigos que o elogiam e recomendam. Ao final o príncipe o acolhe e lhe confere um cargo. Muitas vezes há circunstâncias que levam um homem a buscar moradia no estrangeiro. Se ele sabe como fazer frente à situação, apresentando-se da maneira correta, poderá formar um círculo de amigos e encontrar uma esfera de atividades mesmo num país estrangeiro.”

Nove na sexta posição significa:
O ninho do pássaro é incendiado. Primeiro o viajante ri, mas depois há de lamentar-se e chorar. Por um descuido perde sua vaca. Infortúnio!

“A imagem de um pássaro cujo ninho se queima indica a perda do lugar de repouso. Esse infortúnio poderá ocorrer a um pássaro se, durante a construção do seu ninho, for descuidado e imprudente. O mesmo pode ocorrer a um viajante. Caso ele se deixe levar por brincadeiras e risos, esquecendo-se de sua condição de viajante, mais tarde terá motivos para chorar e lamentar. Pois se, devido à imprudência, um homem perde sua vaca, isto é, a modéstia e a capacidade de adaptação, as conseqüências serão nocivas.”


Transcrevo a seguir algumas passagens da obra Yin-Yang – polaridade e harmonia em nossa vida, de Christopher Markert (Editora Cultrix). Um texto interessante para quem quer se estender um pouquinho mais no assunto.

A filosofia-mãe de Lao-tsé

Lao-tsé

Confúcio assinalava frequentemente que os seus ensinamentos não eram novos e que se baseavam em grande parte no Livro das mutações. Seu contemporâneo Lao-tsé, fundador do taoísmo, também empregou a noção de equilíbrio cósmico entre yin e yang. Porém, enquanto Confúcio se inclinava mais para a direita, recomendando uma forma suave de patriarcado impregnado de autodisciplina, de etiqueta e hierarquia, o posicionamento de Lato-tsé era mais liberal. Suas concepções sobre o mundo e sobre o papel que nele desempenhamos são narradas em seu livro Tao-te king (O livro do sentido e da vida). Este contém apenas oitenta e um versos breves, e mesmo assim é um dos livros mais conhecidos da literatura mundial. Cada verso está cheio de observações profundas, e diz-se que o próprio Confúcio podia avaliar apenas parte da sabedoria contida no Tao-te king. O famoso sinólogo Joseph Needham o chamou de a mais profunda e bela obra da literatura chinesa.

Lao-tsé descreve a “Mãe Eterna” como a essência do universo inerente no fundo de todas as coisas, efetuando ao mesmo tempo ordem e mutação. Essa força misteriosa é invisível e não tem nome:

O Nome que pode ser pronunciado não é o verdadeiro nome. A Verdade que pode ser descrita com palavras não é a verdade eterna.

Não podemos descrever o começo do Céu e da Terra. As coisas relativas não podem ser definidas com palavras, qualquer descrição é mera comparação.

Quem compreende isso também compreenderá que o que é relativo forma uma Unidade com o Ser Absoluto de Tudo.

Quando reconhecemos uma coisa como bela, desta forma já achamos a outra feia ou má.

Quando consideramos fácil uma coisa, já definimos a outra como difícil.

O Alto e o Profundo são dois aspectos da mesma Harmonia. Portanto, o Sábio age em uníssono com as leis naturais e oculta o seu eu.

Visto de fora, o Tao parece vazio e, no entanto, está repleto de energia inesgotável. Essa energia está à disposição dos que lhe compreendem a essência. O Tao aponta o caminho e destrói a confusão interior e exterior. Ele não tem começo nem fim.


Lao-tsé deu o nome provisório de Tao à força cósmica original, que significa algo como “Caminho” e sugere movimento de seres e ocorrências através do tempo e do espaço. O Tao desenvolve-se de si mesmo, ordena a si mesmo e transforma-se incessantemente segundo leis eternas. É o fundamento de todas as coisas no céu e na terra. Sua força materna tem uma influência suave no curso das coisas, sem entretanto governar abertamente: “...é a mãe inconcebível, a raiz do Todo”. Ao traduzirmos literalmente do chinês os símbolos gráficos do sexto verso, obteremos mais ou menos o seguinte significado: “A vaca (o elemento feminino) misteriosa é imortal, sobre ela repousam o céu e a terra. Semelhante à nuvem, é isenta de forma, está incessantemente em mutação”.

Segundo Lao-tsé, a nossa meta deveria ser viver em sintonia com essa força. Devemos ser modestos, suaves e adaptáveis. Aquele que se intromete com violência no curso natural das coisas prejudica a si mesmo e causa o caos. Nossos pensamentos devem aproximar-se da realidade e ser flexíveis e, se preciso, nossas opiniões devem mudar tanto quanto a temperatura. Devemos nos sentir fortes por meio do nosso contato com o Tao e, no entanto, mostrar-nos interiormente fracos e insignificantes. A mania de buscar o poder, a posse e a fama não traz felicidade, pois essas coisas dependem da boa vontade de terceiros.
Lao-tsé fala dos seus antecessores, os quais conheciam o caminho correto e viviam em sintonia com o Tao. Viviam de modo simples, não precisavam de um governo dispendioso e dispunham de poucas armas. Não nutriam grandes ambições e é provável que não tivessem o progresso técnico em alta conta. Ao que tudo indica, essas culturas foram repelidas no decorrer dos séculos por patriarcados guerreiros, do mesmo modo como as culturas pré-históricas yin na Europa foram repelidas pela nossa atual cultura yang. Muito poucas descrições das antigas culturas e costumes foram preservadas, e no Tao-te king temos talvez o seu exemplo mais puro e abrangente.

O nome Lao-tsé é um título de nobreza cujo significado é “O Velho” ou “Criança Sábia”, pois seu verdadeiro nome é Li Pe-jang. Conta-se que Lao-tsé abandonou sua terra natal em idade avançada. Ao chegar à fronteira, um guarda pediu-lhe para deixar algumas palavras sábias para seus conterrâneos. Ele realizou esse desejo escrevendo, num só dia, a mais bela e profunda obra da literatura chinesa, o Tao-te king. Depois disso, ele se recolheu à sua tão amada solidão e nunca mais foi visto.

I Ching: a família cósmica

Muitos vêem no Livro das mutaçõesI ching, em chinês – um misterioso texto oracular. Outros o consideram uma fonte de profunda sabedoria psicológica e filosófica. Alguns reconhecem nele o modelo de uma ordem cósmica plena de sentido. Outros, ainda, o consideram como uma mistura de sabedoria e de superstições triviais sem muito sentido.


Em seu prefácio à versão traduzida de Richard Wilhelm, C. G. Jung descreve como às vezes ele passava horas debaixo de uma velha árvore, deixando que o livro respondesse a suas perguntas. Os resultados repetiam sempre conhecimentos surpreendentes, e conexões lógicas inesperadas esclareciam procedimentos duvidosos que antes lhe haviam parecido pouco claros. Por vezes, problemas difíceis e de longa data eram solucionados em minutos por intermédio de uma perspectiva obtida dessa forma. Jung explicava esse fenômeno por meio de certo “sincronismo” entre as ocorrências no mundo da matéria e no mundo do espírito. Portanto, se ele obtinha determinado oráculo nem determinado momento, essa determinada ocorrência simultânea correspondia a eventos que aconteceriam no mundo real.

O psicólogo inglês San Gooch menciona o Livro das mutações em vários de seus trabalhos, chegando à seguinte conclusão: “O I ching provavelmente nos possibilita um acesso à dimensão da eternidade, na qual são superadas as fronteiras do tempo e do espaço... Pessoalmente, não tenho a mais remota noção de como se poderia começar a escrever um livro como esse, e ninguém pode me dar essa resposta. O fato é que esse livro misterioso encerra resultados práticos”.

Os primórdios do I ching eram sinais de linhas riscadas em ossos, referentes ao tempo, à colheita, à caça e a outras atividades práticas. Esses ossos, de quatro a cinco mil anos atrás foram encontrados em escavações. Mais tarde, os textos foram apresentados em peles de animais, e o rei Wen deve ter-lhes conferido a versão atual por volta de 1200 a.C. As gerações que se seguiram acrescentaram comentários, e o texto foi reescrito diversas vezes. No decorrer do tempo foram acrescentadas citações das obras de duzentos e dezoito filósofos e eruditos. Atribui-se a Confúcio a redação de vários comentários. Conta-se que usava o seu exemplar com tanta frequência, que foi necessário reencaderná-lo várias vezes.

Confúcio

Seu contemporâneo, Lao-tsé, também encarava o Livro das mutações como o fundamento de sua filosofia, e o mesmo é válido para quase todos os outros filósofos chineses. De fato, todas as áreas da vida chinesa são influenciadas há milênios por esse livro, e, segundo a lenda, há um ser de força sobrenatural oculto entre suas páginas.

Aquele que deseja consultar o Livro das mutações em busca de conselho utiliza cinqüenta varetas ou três moedas para averiguar o hexagrama correspondente àquele momento. A pessoa recolhe-se a um lugar tranqüilo e se concentra alguns minutos na pergunta que deseja ver respondida. Quando se aborda o livro com o enfoque correto, obtém-se, quase sem exceção, uma resposta significativa. O mesmo se pode afirmar naturalmente a respeito dos horóscopos e dos presságios do tarô.


O Livro das mutações, porém, é construído de modo tão hábil e abrangente que produz uma mistura mais rica de interligações de pensamentos, concretizando pressentimentos que jaziam latentes no leitor. O espírito do consulente reconhece as próprias respostas no hexagrama; ele projeta sua verdadeira polaridade no livro. Encontra, em cada página, experiências humanas fundamentais, como amor e ódio, amizade e inimizade, vitória e derrota, revestidos de uma riqueza de símbolos, arquétipos e figuras míticas. O leitor relaciona os elementos dessa constelação de modo totalmente automático com o seu problema atual e com as possíveis respostas.

O livro se delineia através de sua faculdade de liberar temporariamente o consciente do leitor de suas perspectivas estreitas, servindo de mediador para uma experiência de dilatação da consciência, muitas vezes trazendo consigo vislumbres incríveis. É provável que esta seja a razão pela qual os intelectuais ou aqueles que se interessam pela arte encontrem nele mais clareza do que nos outros. Por um lado, enredam-se com maior frequência em construções mentais unilaterais e, por outro, divertem-se mais ocupando-se com os enigmas espirituais, em busca de novas perspectivas.

As respostas mais úteis do I ching são obtidas quando ele só é usado em certas ocasiões para se encontrar respostas a perguntas prementes a que o intelecto, por is só, não pode responder. O livro só foi utilizado na China nesse sentido, e para isso é que o texto foi composto.

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