sábado, 4 de setembro de 2010

A literatura odepórica nos anos 30 - texto da Revista Brasil-Europa

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Repasso aqui um texto sobre a literatura de viagem produzida no período de 1930. Vai interessar em particular aqueles que chegam aqui no Odepórica buscando posts com um aprofundamento mais acadêmico sobre a temática do blog.






Diferenças e conotações político-culturais: literatura de viagens nos anos 30

Um problema na consideração de textos de relevância para os estudos euro-brasileiros, em particular da década de 30 do século XX, reside no necessário discernimento do tipo de literatura e da qualificação de seus autores.

Não é suficiente, para estudos culturais mais aprofundados, que se considere indiferentemente textos impressos, apenas dando atenção à quantidade de dados informativos que oferecem. Esses textos não representam apenas "minas de achados", mas oferecem testemunhos do desenvolvimento de determinadas áreas disciplinares ou da imprensa de divulgação, de informação de atualidades ou de entretenimento.

Esse discernimento, porém, indispensável para leituras mais cuidadosas e para a apreciação adequada das fontes, não é sempre fácil e exige formação adequada, especificamente teórico-cultural. Nem todos os textos de pesquisadores legitimamente formados em determinadas áreas dos estudos culturais se caracterizam por linguagem técnica ou pouco acessível, e nem todos os textos de uma literatura de cunho popularizante ou jornalístico oferecem dados pouco fidedignos ou não os interpretam de forma contextualizada e diferenciada.

Houve e há, assim, entre alguns pesquisadores, sobretudo aqueles de formação filosófica, o cuidado de manter a simplicidade na forma de expressão e na exposição dos resultados de suas investigações, evitando um academicismo formal e de linguagem que, em alguns círculos seria recebido como manifestação de pedantismo. Um exemplo que poderia ser citado seria Therese da Baviera que, ao escrever o seu relato de uma viagem que fora verdadeiramente de pesquisa, foi aconselhada a escrevê-lo na forma amena de um diário, o que posteriormente lamentou, uma vez que prejudicou a sua exposição e relativou o valor científico da sua obra (Therese Prinzessin von Bayern, Meine Reise in den Brasilianischen Tropen, Berlin: Dietrich Reimer, 1897, Prefácio).

Por outro lado, escritores não vindos primordialmente de uma formação específica em etnologia, folclore, geografia, história cultural ou de outra área dos estudos culturais passaram, com conhecimentos ganhos através de leituras e estudos posteriores, a publicar obras nas quais preocupações literárias se mesclam com intuitos de difusão de conhecimentos e de interpretações de fatos e ocorrências.

O surgimento desse tipo de literatura tornou-se particularmente evidente na década de 30 do século XX. Veio de encontro, também, a uma tendência político-cultural que se caracterizou pela procura de tomada de posse de esferas sociais e sócio-culturais por caminhos dos fatos, através de relações individuais em determinados grupos e independentemente de vias mais circunstanciosas, ou seja, pelo caminho de instituições legítimas e personalidades devidamente habilitadas.

O "globo como grande aldeia" já na década de 30

Na Semana do Livro Alemão de 1936, o tema particularmente considerado foi o do jornalismo de viagens. A julgar por comentários, essa semana serviu para salientar o significado dos relatos de viagem para a informação e formação dos leitores.

Partia-se da constatação de que toda a terra havia sido descoberta, quase já não havendo regiões desconhecidas. Apesar de o mundo ter-se tornado pequeno através dos meios de transporte e comunicação, nem todos tinham a possibilidade de visitar países distantes. A ampla literatura de viagens podia, porém, trazer a todos informações das mais recônditas regiões. O mundo, trazido para o homem do povo, tornava-se ao mesmo tempo mágico ou encantado.


Os continentes estão desvendados, as manchas das terras incógnitas nos mapas se tornam cada vez menores e em menor número. Os meios modernos de transporte levam o viajante até o interior de terras longínquas, que até há poucas décadas apenas eram alcançáveis pelo pesquisador, e isso com grandes fadigas e pesados riscos. A rede das linhas aéreas abrange todo o globo de forma cada vez mais densa e as gigantescas distâncias parecem diluir-se gradualmente num nada.

E nós? - Maravilhados contemplamos o espírito do homem ousado, que com a sua força mágica da técnica transformou os conceitos de espaço e tempo e reduziu o globo sob as suas mãos. A nossa ânsia acompanha o descobridor pacífico da era moderna, que cruza voando os oceanos do ar. Nas horas calmas sonhamos no mundo maravilhoso, distante da Índia, que hoje se pode conhecer confortavelmente de ônibus, assim como com a gigantesca silhueta dos arranha-céus norte-americanos, aos quais o moderno viajante pode chegar em poucos dias em hotéis flutuantes.

Vamos, porém, querer afirmar que estamos destinados a nunca viajar na nossa vida às regiões distantes, até os fins do mundo? Em nenhuma época ofereceram-se ao homem tantas ocasiões de deixar atrás de si o seu quotidiano e de se lançar nas suas horas de folga na vastidão do desconhecido que o atrai. Apenas estende a mão, pega um livro e se deixa levar a um mundo encantado." (H.W.Ludwig, "Die ferne Welt - uns nahegerückt", Durch alle Welt 43, 1936, 31)

Diferença entre relatos de pesquisadores e jornalismo cultural



Esses testemunhos da época salientam a extraordinária expansão que então experimentava a literatura de viagens e o correspondente aumento de interesse por esse tipo de publicações.

Na Semana de 1936, tornou-se evidente que a esse crescimento era acompanhado por uma diversificação de tipos literários. Os comentários salientam aqui a diferença entre os relatos escritos por pesquisadores e aqueles textos produzidos por jornalistas.

Segundo esses comentaristas, o jornalismo cultural representava o principal desenvolvimento dos anos 30 na área da literatura de viagens. Diferentemente dos textos de pesquisadores, os jornalistas procuravam descrever situações e fatos comparando-os com os do país natal, ou melhor, vendo-os sob os critérios de seu Estado, mantendo, porém, sempre um tom coloquial e bem humorado.

"O livro de viagem é aquele que deve ser louvado por possibilitar uma abertura do mundo àquela grande parte da humanidade que é presa a seu lar. Desde o início da literatura de viagens, o círculo de leitores cresceu imensamente. Ao mesmo tempo, cresceu o número dos livros de viagem, até então pouco numerosos. E assim como o seu volume, também mudou-se o seu tipo. Pode-se afirmar que hoje há escritores de viagem de todos os tipos.

Apenas uma pequena parte deles escreve como profissão exclusiva. Justamente por isso é que tantos livros de viagem adquirem a sua nota particular. Na obra do pesquisador, o leitor aprende a ver o mundo pelos olhos do investigador e aprende ao mesmo tempo coisas interessantes dessa difícil profissão, o que contribui para enriquecer os seus conhecimentos gerais. Tais leituras, que não precisam ser áridas, são adequadas sobretudo para o leitor que está interessado na exatidão e na objetividade do relatado.



O jornalista está acostumado a ver por assim dizer o seu público diante de si, ele se esforça, através de comparações e cotejos com o mundo da terra natal de expor da forma tão plástica quanto possível o exotismo do visto e vivenciado. A sua descrição, leve, não deve abandonar um tom divertido, tal qual como um velho conhecido que fala coloquialmente sobre as suas impressões de viagem."

Novo tipo do jornalista viajante e "a visão clara do mundo"



Os comentários da Semana do Livro de 1936 salientam o surgimento de um novo tipo de jornalista viajante. Seria aquele que procuraria expor contextos dos países visitados. Os trabalhos aproximar-se-iam dos relatos de pesquisadores, diferenciavam-se porém desses pelo fato de constituirem ainda fundamentalmente produtos de jornalismo, ou seja, tecendo comparações e mantendo um tom divertido.

"Apenas há pouco tempo surgiu um tipo especial de jornalista viajante, que não dirige o seu olhar apenas para aquilo que se encontra à direita ou à esquerda do seu caminho. Como observador atento, possuindo o necessário preparo, procura expor contextos dos países visitados. Aqui, o livro de viagens supera o seu objetivo original e se transforma em exposição de situações populares, políticas e econômicas, além de desenvolvimentos."

Outros tipos de literatura de viagens



Dessas palavras, compreende-se que os produtos desse mais recente jornalismo de viagens transformaram-se em importantes apoios na difusão de visões do mundo e do homem de natureza política.

Comparando situações observadas com as do país natal, onde havia um alinhamento de conceitos e visões, sob o primado da ideologia do partido e do Estado, os relatos adquiriam quase que necessariamente um cunho instrutivo ou "esclarecedor", uma vez que situações que contradiziam aquelas do país natal não poderiam ser apresentadas a partir de seus próprios critérios, mas sim à distância possibilitada pelo tom de humor que caracterizava o jornalismo.

Para os comentaristas, a diversidade que se constatava na literatura de viagens já não era tão relevante; o principal era o surgimento desse novo tipo de jornalismo, caracterizado por uma aparência de objetividade científica.

Os outros tipos de literatura representariam, segundo esses comentários, apenas algumas pedras de mosaico numa obra maior, num quadro panorâmico que se oferecia aos leitores.

"Naturalmente, o amigo da aventura e da sensação na literatura de viagens encontra também o que lhe satisfaz. O caçador o atrai com as suas estórias de proezas, o navegador vivencia temporais perigosos, o voador conta como viu o nosso planeta da perspectiva dos pássaros. Ao lado de todos esses conversadores, contistas e pensadores aparecem também irregularmente livros que não podem ser classificados. Ali é um homem que passou décadas de sua vida entre povos estranhos, ou solitariamente como fazendeiro, até que sentiu o desejo ardente de comunicar as suas impressões ao mundo. Como pedras reluzentes, esses escritos singulares mas nascidos da própria vida introduzem-se num mosaico colorido que nos traz para perto o distante mundo e que nos apresenta como uma imagem que eternamente se renova e nos atrai."

Possíveis lições para o presente



Desse relato pode-se tirar alguns subsídios para a consideração teórico-cultural das revistas da época, sobretudo daquelas de interesse para os estudos referentes ao mundo de língua portuguesa. Dele se apreende que a literatura de viagens, apesar de sua diversidade, passou a ser marcada por um novo tipo de publicações, escritas por viajantes que procuravam dar a seus textos um cunho especializado, aproximando-os daqueles de pesquisadores devidamente formados e que realizavam viagens primordialmente com o escopo de realização de pesquisas.

Para o estudioso de hoje, a distinção nem sempre é fácil, mas necessária. A primeira, um resultado da época totalitária e a serviço do sistema, era escrita sobretudo segundo preceitos dele originados, caracterizados basicamente por humor, leitura divertida ou amena, referenciada segundo com o contexto cultural do leitor. O segundo, poderia ser antes considerado como expressão de uma democratização de conhecimentos.



Essa distinção, a ser ganha de estudos de um desenvolvimento do passado, pode contribuir a um aguçamento da percepção para possíveis problemas do presente. Assim, seria inadequado, e até mesmo inadmissível que uma área designada como "Turismo Cultural", em alguns países até mesmo com posição universitária, fosse confundida com Estudos Culturais no sentido estrito do termo, mesmo que estes tenham uma orientação baseada na observação empírica e em viagens de estudos e pesquisas.
(...)


(Grupo redatorial sob a direção de A.A.Bispo)

FONTE
http://www.revista.brasil-europa.eu/124/Literatura_de_viagens.html


Imagem: Revista Ilustração, no.109, July 1 1930-7. Do blog http://oldadvertising.blogspot.com/

2 comentários :

  1. Oi Paulo, este texto não foi voltado ao público-massa, mas é interessante lê-lo. Beijos, Pá

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  2. Oi Pá! Também acho, mas sou suspeito, né? BeijOM, pc

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