domingo, 1 de agosto de 2010

O Caminho do Xamã, by Michael Harner

. Peyote prayer. By Beatin Yazz aka: Jimmy Toddy, Navajo, s/d


Em minha recente viagem ao Canadá, onde fui visitar minha irmã que vive em Vancouver, tive o prazer de visitar o MOA, o Museu de Antropologia da Universidade da Colúmbia Britânica. Não tínhamos ideia da grande surpresa que nos aguardava: foi um dos programas mais interessantes de nossas férias, num mês de maio nublado e chuvoso, por isso mesmo bom para passeios indoor.

Se um dia você se encontrar em Vancouver não deixe de reservar uma tarde inteira para visitar o museu. Inteira mesmo, porque há muito o que se ver e fotografar (liberadíssimo). O acervo contempla peças, obras de arte, máscaras e indumentárias do mundo todo, com ênfase na arte nativa canadense, belíssima por sinal.

Bueno, mas não usarei este espaço para falar do MOA – para isso há a página do museu na internet,
www.moa.ubc.ca , mas de um tema que sempre me fascinou e o qual voltei a pesquisar depois da visita ao museu: o xamanismo.

Tenho algumas obras sobre xamanismo em casa e outro dia me deu vontade de reler A Erva do Diabo, de Carlos Castañeda. Fui todo empenhado buscar o livro na prateleira e para minha tristeza não o encontrei (tenho o péssimo hábito de manter amigos que não devolvem livros emprestados!). Daí que fiquei com mais vontade ainda de reler essa obra clássica que mexeu com a cabecinha de muita moçada na época de seu lançamento, incluindo a minha. Fiquei tão alucinado com aquela história toda que quis me tornar um xamã antes mesmo de acabar a leitura da obra. Só desisti porque tenho verdadeiro pavor de répteis e se meu animal de poder fosse um sapo ou um jacaré eu estaria perdido de verdade.

Enfim, desisti da prática (nenhum esforço para quem vive em Sampa afinal) e me consolei com a teoria e com a arte, pois com o tempo montei uma pequena e boa coleção de música nativa e xamânica (não resisto: ouça qualquer trabalho do R. Carlos Nakai e corra o risco de “viajar” no primeiro sopro de flauta).

E como não achei por aqui o meu Castañeda, reli outros títulos com a mesma sintonia, um deles que novamente me encantou: O Caminho do Xamã, de Michael Harner. O resumo dessa pequena obra inspiradora copio da sobrecapa:

“O antropólogo Michael Harner leva-nos com este livro a viver uma odisséia pessoal até a fonte da cura xamânica, o nosso eu mais profundo. Passo a passo, ele ensina ao leitor técnicas e exercícios simples para alcançar os estados alterados de consciência sem drogas – o caminho do xamã para a integridade psicofísica e a cura. No xamanismo, antigo sistema pouco conhecido no Ocidente, está um auxiliar inestimável da medicina moderna, e um trabalho cativante de investigação psicológica e espiritual.”

Morning Vision. By Tennyson Eckiwaudah, Comanche. 1912.

A proposta de Michael Harner é muito interessante por conta, principalmente, de iniciar (nos pontos fundamentais da prática, como sugere o estudioso) a pessoa comum no mundo mágico do xamanismo sem o uso de substâncias alucinógenas, quase sempre presentes nos rituais xamânicos de qualquer cultura que seja. Por aqui, só para citar um exemplo, ficou comum o uso do Daime, bebida feita à base um cipó (ayahuasca) com propriedades alucinógenas, conhecido pelos índios há centenas de anos e que hoje é tomado por pessoas de diversas partes do país, incluindo centros urbanos como São Paulo, Belo Horizonte ou Rio de Janeiro. Particularmente, nunca tive vontade de me aventurar no Daime (por temer os prováveis efeitos colaterais), mas conheci várias pessoas que embarcaram nessa e sempre ouvi relatos interessantíssimos de suas experiências. Quem sabe um dia.

Da obra de Harner, quero destacar uma passagem do Capítulo I, intitulado “A descoberta do Caminho”. Nela você irá ler a experiência de um homem, acadêmico, em sua primeira viagem xamânica (ocorrida no ano de 1961), uma viagem transcendental rica em simbolismos e contada com muito detalhe por alguém que sabia muito bem onde estava se metendo – mas que não poderia imaginar até onde essa iniciação o levaria.

Em tempo: me empolguei e não escrevi sobre o significado de xamã. Arrumo minha falha agora, com as palavras do próprio autor, Mr. Harner:

“Xamã é uma palavra da língua dos povos Tungus da Sibéria e foi adotada amplamente pelos antropólogos para se referirem a pessoas de uma grande variedade de culturas não-ocidentais, que antes eram conhecidas como ‘bruxo’, ‘feiticeiro’, ‘curandeiro’, ‘mago’, ‘mágico’ e ‘vidente’. (...) O xamã é um homem ou uma mulher que entra em estado alterado de consciência – quando quer – para ter contato com uma realidade habitualmente oculta, usando-a para adquirir conhecimento e poder e, com isso, ajudar outras pessoas. O xamã costuma ter, pelo menos, um – quase sempre mais de um – ‘espírito’ a seu serviço pessoa.”

Com essa introdução ao tema, já podemos encarar a leitura desse emocionante relato de ‘viagem’. Namastê!


A descoberta do caminho

Morning peyote. By Rance Hood, Comanche. 1969


Entre os Conibo e os Jivaro, tive duas experiências que foram fundamentais para que eu descobrisse a arte do xamã nessas duas culturas, e eu gostaria de partilhá-las com vocês. Talvez elas transmitam algo do incrível mundo oculto que é aberto ao explorador xamânico.

Vivi a maior parte do ano numa aldeia dos índios Conibo, ao lado de um lago afastado, à direita de um afluente do rio Ucayali. Minhas pesquisas antropológicas sobre a cultura dos Conibo tinham ido bem, mas as tentativas de obtenção de informações sobre a sua religião não tiveram sucesso. O povo era amistoso, mas relutante em falar no sobrenatural. Finalmente, disseram-me que se eu quisesse de fato aprender, devia beber da bebida sagrada dos xamãs, feita de ayahuasca, o “vinho da alma”. Concordei, com curiosidade, e também com certa apreensão, porque eles me avisaram que a experiência seria muito assustadora.

Na manhã seguinte, meu amigo Tomás, o bondoso chefe da aldeia, foi para a floresta a fim de cortar raízes de determinada planta. Antes de partir disse-me que jejuasse: um desjejum leve e nada de almoço. Voltou ao meio-dia com raízes de ayahuasca e folhas de cawa, suficientes para encher uma bacia de quinze galões. Cozinhou essas raízes e plantas durante toda a tarde, até que apenas um quarto de líquido escuro remanesceu. Esse líquido foi transferido para uma velha garrafa, e o chefe deixou que ele esfriasse até o pôr-do-sol quando, segundo ele, poderíamos beber.

Os índios puseram açamo nos cães da aldeia para que não latissem. O ruído dos cães poderia enlouquecer um homem que tivesse bebido a ayahuasca, foi o que me disseram. As crianças tiveram a recomendação de se manterem quietas, e o silêncio se fez sobre a pequena comunidade, com o pôr-do-sol.

Mother´s prayer. By Archie Blackowl, Cheyenne. 1965

Quando o breve crepúsculo equatoriano foi substituído pela escuridão, Tomás pôs um quarto do líquido numa cabaça e disse-me que bebesse. Todos os índios observavam. Senti-me como Sócrates entre os compatriotas atenienses, aceitando a cicuta – pois me ocorrera que um dos nomes alternativos que o povo do Amazonas peruano dava à ayahuasca era “a pequena morte”. Bebi a poção rapidamente. Tinha um sabor estranho, ligeiramente amargo. Então, esperei que Tomás também bebesse, mas ele disse que afinal resolvera não participar.

Amarraram-me na plataforma de bambu, sob o grande teto feito de colmo da casa comunal. A aldeia estava silenciosa, exceto pelo cricrilar dos grilos e os guinchos do macaco ruivo, nas profundezas da selva.

Enquanto olhava para cima, na escuridão, tênues linhas de luz apareceram. Tornaram-se mais nítidas, mais intricadas e explodiram em cores brilhantes. De muito longe vieram sons, como os de uma cascata, e foram se fazendo cada vez mais fortes, até encherem meus ouvidos.

Peyote Vision. By Doc Tate Nevaquaya, Comanche. 1973

Minutos antes eu me sentira desapontado, certo de que a ayahuasca não ia ter efeito sobre mim. Agora, o som da água em movimento inundava meu cérebro. Meu maxilar começou a ficar entorpecido, e aquele entorpecimento ia subindo para as têmporas.

Sobre a minha cabeça, as linhas indistintas formavam um dossel que se parecia um mosaico geométrico de vidro pintado. A brilhante tonalidade violeta formava um teto que se expandia sem cessar sobre mim. Dentro daquela caverna celestial, ouvi o som da água aumentar e pude ver figuras nebulosas, que faziam movimentos espectrais. Quando meus olhos se ajustaram ao escuro, a cena movimentada reduziu-se a algo que se assemelhava a um imenso parque de diversões, a uma orgia sobrenatural de demônios. Ao centro, presidindo as atividades, e olhando diretamente para mim, havia uma gigantesca cabeça de crocodilo mostrando os dentes, de cujas mandíbulas cavernosas jorrava uma enxurrada torrencial de água. Lentamente, a água foi subindo, até que a cena transformou-se em simples dualidade de céu azul sobre o mar. Todas as criaturas se haviam desvanecido.

Night of a Spiritual Vision. By Tennyson Eckiwaudah, Comanche. 1964

Então, da posição onde eu estava, próximo à superfície da água, comecei a ver dois barcos estranhos, vagando de cá para lá, flutuando no ar em minha direção e aproximando-se cada vez mais. Lentamente, juntaram-se, formando uma só embarcação, com imensa cabeça de dragão na proa, não muito diferente de um barco viking. No meio do navio erguia-se uma vela quadrada. Aos poucos, enquanto o barco serenamente flutuava de cá para lá sobre mim, ouvi um som rítmico sibilante e vi que se tratava de uma galera gigantesca, com centenas de remos, movendo-se em cadência com o som.

Tornei-me consciente, então, do mais belo cântico que tinha ouvido em minha vida, em alto som, e etéreo, emanando de miríades de vozes a bordo da galera. Olhando com mais atenção para o convés, pude distinguir grande número de seres com cabeça de gaio azul e corpo de homem, bastante parecidos com deuses do antigo Egito, com cabeça de pássaro, que eram pintados nas sepulturas. Ao mesmo tempo, uma essência de energia, advinda do navio, começou a flutuar em meu peito. Embora eu pensasse que era ateu, fiquei inteiramente certo de que estava morrendo, e de que aquelas cabeças de pássaro tinham vindo buscar a minha alma para leva-la ao barco. Enquanto o fluxo da alma continuava a sair do meu peito, percebi que as extremidades do meu corpo iam fazendo-se entorpecidas.

Começando pelos braços e pelas pernas, vagarosamente, tive a impressão de meu corpo estar se tornando de concreto. Eu não podia me mover, nem falar. Aos poucos, esse entorpecimento fechou-se sobre o meu peito, na direção do coração, e tentei usar a boca para pedir ajuda, para pedir um antídoto aos índios. Por mais que tentasse, entretanto, não conseguia dominar a minha força o bastante para pronunciar uma palavra. Simultaneamente, meu abdômen parecia se tornar de pedra, e tive de fazer um tremendo esforço para manter meu coração batendo.

Comecei a chamar meu coração de amigo, meu mais querido amigo, a falar com ele, a encorajá-lo a bater, com toda a força que ainda me restava.


Peyote Ceremony. by Fred Cleveland, Navajo, s/d

Fiz-me consciente do meu cérebro. Senti – fisicamente – que ele tinha sido dividido em quatro níveis distintos. Na superfície superior estava o observador, o comandante, consciente da condição do meu corpo e responsável pela tentativa de manter o coração funcionando. Percebi, mas apenas como espectador, a visão que emanava do que pareciam ser as partes mais profundas do cérebro. Imediatamente abaixo do nível mais alto, senti uma camada entorpecida, que parecia ter sido posta para fora de ação pela droga, e ali não estava. O nível seguinte era a fonte de minhas visões, inclusive a do barco da alma.

Agora, eu me sentia virtualmente certo de que estava para morrer. Enquanto tentava avaliar meu destino, uma parte ainda inferior do meu cérebro começou a transmitir mais visões e informações – “disseram-me” que esse novo material me estava sendo apresentado porque eu ia morrer e, portanto, estava “pronto” para receber aquelas revelações. Informaram-me que se tratava de segredos reservados aos agonizantes e aos mortos. Apenas vagamente, pude perceber os que me transmitiam esses pensamentos: répteis gigantes, repousando apaticamente na mais ínfima região da parte de trás do meu cérebro, no ponto onde ele encontra a parte superior da coluna espinhal. Eu só podia vê-los de forma nebulosa e, assim, pareciam-me profundezas sombrias, tenebrosas.

Depois, eles projetaram uma cena diante de mim. Primeiro, mostraram-me o planeta Terra tal como era há uma eternidade atrás, antes que nele houvesse vida. Vi o oceano, a terra nua e o brilhante céu azul. Então, flocos pretos caíram do céu, às centenas, e pousaram diante de mim, na paisagem nua. Pude ver que esses “flocos” eram, na verdade, grandes e brilhantes criaturas negras, com reforçadas asas que assemelhavam-se às dos pterodáctilos e imensos corpos como o da baleia. Suas cabeças não eram visíveis a mim. Tombaram pesadamente, mais do que exaustas pela viagem feita, que durara épocas infinitas. Explicaram-me, numa espécie de linguagem mental, que estavam fugindo de alguma coisa, no espaço. Tinham vindo ao planeta Terra a fim de escapar desse inimigo.



Peyote Dream. By Lee Monett Tsaloke, Kiowa, s/d


Essas criaturas mostraram-se, então, como haviam criado a vida sobre o planeta, com o intuito de se ocultarem sob diversas formas e assim disfarçar sua presença. Diante de mim, a magnificente criação e a especificação das plantas e dos animais – centenas de anos de atividade – foram feitas em tal escala, e com tamanha intensidade, que me é impossível descrever. Aprendi que essas criaturas semelhantes a dragões estavam, assim, dentro de todas as formas de vida, inclusive no homem. Eram elas os verdadeiros senhores da humanidade e de todo o planeta, foi o que me disseram. Nós, humanos, não passávamos de seus receptáculos e servos. Por isso é que podiam falar comigo de dentro de mim.

Surgindo a partir das profundezas da minha mente, essas revelações alternavam-se com as visões da galera flutuante que quase terminara por levar minha alma para bordo. O barco, com sua tripulação de cabeças de gaio azul no convés, ia aos poucos se afastando, puxando minha força de vida com ele, enquanto seguia em direção a um grande fiorde, flanqueado por algumas colinas erodidas e áridas. Eu sabia que tinha apenas um momento para viver e, estranhamente, não sentia medo daquele povo de cabeças de pássaro, não me importava ceder-lhe a minha alma, se a pudesse manter. Receava, entretanto, que de alguma forma a minha alma não pudesse se manter no plano horizontal do fiorde, mas, por meio de processos desconhecidos, embora sentidos e temidos, fosse capturada, ou recapturada pelos alienígenas das profundezas, com seu aspecto de dragões.


Peyote Chief. By Alfred Whiteman Jr., Cheyenne. 1969

Subitamente senti, de maneira clara, a minha condição de homem, o contraste entre a minha espécie e os antigos répteis ancestrais. Desatei a lutar contra a volta dos antigos, que começavam a parecer cada vez mais alienígenas, e que seriam, possivelmente, perversos. Voltei-me para o auxílio humano.

Com um último esforço, que não pode sequer ser imaginado, mal pude balbuciar uma palavra para os índios: “Remédio!”; vi que corriam para preparar o antídoto e senti que não conseguiriam prepará-lo a tempo. Eu precisava de um guardião que pudesse derrotar os dragões e, desesperadamente, procurei evocar um ser poderoso para proteger-me contra aqueles répteis alienígenas. Um deles apareceu diante de mim e, nesse momento, os índios abriram à força minha boca e nela derramaram o antídoto. Aos poucos, os dragões desapareceram, recuando para as profundezas. O barco das almas e o fiorde já não existiam. Eu, aliviado, relaxei.

Peyote People. By Jeff Yellowhair, Kiowa, s/d

O antídoto melhorou radicalmente o meu estado, mas não evitou que viessem novas visões, de natureza mais superficial. Com estas podíamos lidar, eram agradáveis. Fiz viagens fabulosas, à vontade, através de regiões distantes, mesmo para fora da Galáxia, criei arquiteturas incríveis, usei demônios de sorrisos sardônicos para realizar as minhas fantasias. Muitas vezes, dei comigo rindo alto, pelas incongruências das minhas aventuras. Finalmente, adormeci.


Se você quiser saber como essa viagem toda irá acabar, terá que ir atrás da fonte: O Caminho do Xamãum guia de poder e cura. Michael Harner. Editora Cultrix, 1989.

As pinturas destacadas nesse post foram todas elas retiradas de um site que recomendo de verdade, o do Native American Church Art.


Para saber mais sobre o xamanismo, indico um portal bacana em português: http://www.xamanismo.com.br/



Um comentário :

  1. Oi Paulo, esta leitura é tão fascinante que entramos no transe junto com o autor. Beleza pura! Beijocas, Pá

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