quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Leitura Essencial: A arte de viajar, by Alain de Botton

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Rooms by the sea. 1955
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Dos livros já publicados, entre aqueles que contemplam a viagem como um processo de transformação interior, A arte de viajar, escrito pelo filósofo inglês Alain de Botton, figura entre os mais instigantes e inovadores dos últimos anos.

Leitura aprazível, oferece insights memoráveis que o ajudarão a repensar até as pequenas atitudes vividas no dia a dia rotineiro pelas quais todos passamos. Não que isso fará muita diferença em sua vida, mas serve bem para fazê-lo notar que momentos simples, atitudes corriqueiras que acontecem a todo instante, quando bem observados, podem dar um significado especial à sua própria existência.

E o que isso tem a ver com as viagens? Bom, te respondo aquilo que já comentei em outras oportunidades aqui no blog, que é o fato de estarmos mais abertos ao novo quando nos desligamos, ainda que momentaneamente, da rotina da vida cotidiana, quando muitas vezes agimos ligando nosso piloto automático assim que saímos da cama.

Muito do que de Botton escreveu nessa obra irá tratar da maneira como o viajante interage com o seu entorno enquanto se desloca, mas um olhar mais apurado saberá interpretar esse deslocamento como um processo natural da própria existência, retomando a velha, embora sempre adequada, noção da viagem como metáfora da vida.

Talvez, ao examinar o que nos inspira a sair de casa e por os pés na estrada, o autor tenha buscado uma resposta que explique a tese de que nossas vidas são dominadas pela busca de um sentimento de felicidade; à viagem cabe o mérito de facilitar esse processo, porque talvez seja essa uma das poucas experiências capazes de aproximar alguém desse estado ilusório de felicidade, por conta do afastamento da vida ordinária.

A arte de viajar é uma obra que reúne 9 ensaios em 5 temas principais: Partida, Motivos, Paisagens, Arte e Retorno. De Botton une a filosofia com a arte e a literatura juntamente com anedotas de suas próprias deambulações pelo planeta. O resultado dessa mistura certamente vai lhe agradar se você gostar de uma leitura inteligente, escrita por um homem culto e bem humorado, pois é essa a imagem que se tem do Alain de Botton. Há um equilíbrio saudável na sua escrita, que é o de tratar a filosofia como algo acessível a qualquer um, mas sem parecer didático ou superficial demais.

Ao examinar os nossos motivos para viajar e as nossas expectativas em relação ao desconhecido, de Botton vem acompanhado com uma trupe das boas para ajudar a construir seus ensaios, de poetas e pintores a exploradores e naturalistas, de tudo um pouco: Baudelaire, Edward Hopper, Gustave Flaubert, Alexander von Humboldt, van Gogh, só para citar alguns.

Para esse post, optei por transcrever trechos de um capítulo que o Alain de Botton escreveu num momento de muita inspiração, “Dos locais dedicados aos viajantes”. Os companheiros dele nessa jornada foram o poeta francês Charles Baudelaire (que, para T.S. Eliot, foi o primeiro artista do século XIX a dar expressão à beleza dos lugares e máquinas da viagem moderna, “um novo tipo de nostalgia romântica”) e o pintor norte-americano Edward Hopper (1882-1967), cujas telas me fascinaram desde que as vi, pela primeira vez, numa visita ao Instituto de Arte de Chicago, há alguns anos (e que você irá apreciar em meio à leitura desse post, todas elas obras de Hopper ).

Achei que de Botton foi muito feliz ao usar a arte de Hopper para divagar sobre os lugares que ele acredita são dedicados aos viajantes, em particular aos que seguem suas jornadas de maneira solitária. Repare como a arte desse genial pintor norte-americano toca fundo na sensibilidade do observador. Sua obra, como um todo, dialoga profundamente com a questão da solidão, mas de uma maneira tão poética - e por vezes sutil, que faz com que nos esqueçamos de seus aspectos mais aflitivos; a solidão, quando não imposta, é uma experiência que enriquece a vida.

Enfim, deixo-o (a) com a leitura encantadora dessa obra a que sempre irei buscar inspiração quando dela precisar. Tenho convicção que irá lhe agradar também. Namastê!



(Excertos do Cap. II: Dos lugares dedicados aos viajantes)

Nighthawk. 1942

Além da auto-estrada, não havia mais nenhuma rodovia que ligasse o posto de combustível a outros lugares, nem mesmo uma trilha para pedestres. Ela parecia não pertencer nem à cidade nem ao campo mas, sim, a alguma terceira esfera, como um farol à beira do oceano.

Esse isolamento geográfico reforçava a atmosfera de solidão no restaurante do posto. A luz era impiedosa, realçando a palidez e imperfeições da pele. As cadeiras e bancos, pintados de cores de uma vivacidade infantil, tinham a alegria forçada de um sorriso amarelo. Ninguém falava; ninguém admitia sentir curiosidade ou simpatia. Passávamos nosso olhar vazio, indiferente aos outros, até o balcão de servir ou até a escuridão lá fora. Poderíamos estar sentados em meio a rochas.

Fiquei num canto, comendo palitos de chocolate e tomando eventuais golinhos de suco de laranja. Estava me sentindo só mas, pelo menos dessa vez, era uma solidão de um tipo delicado, até mesmo agradável porque, em vez de se desenrolar diante de um cenário de risos e camaradagem, no qual eu sofreria com o contraste entre meu estado de humor e o ambiente, ela estava ocorrendo num local em que todos eram desconhecidos, em que as dificuldades de comunicação e o anseio frustrado por amor parecem ser reconhecidos e brutalmente celebrados pela arquitetura e pela iluminação.

Hotel Room. 1931

A solidão coletiva trouxe-me à lembrança certas telas de Edward Hopper que, apesar da desolação retratada, não eram elas mesmas de aparência desolada. Pelo contrário, permitiam ao observador presenciar um eco de sua própria dor e, com isso, sentir-se menos perseguido e assolado por ela em termos pessoais. Talvez sejam os livros tristes, que mais nos consolem quando estamos tristes; e talvez seja para os solitários postos de combustível que nos devamos dirigir quando não houver ninguém para abraçar ou amar.

Em 1906, aos vinte e quatro anos de idade, Hopper foi a Paris e descobriu a poesia de Baudelaire, cuja obra haveria de ler e recitar pelo resto da vida. Não é difícil entender a atração: havia um interesse comum pela solidão, pela vida urbana, pela modernidade, pelo alívio proporcionado pela noite e pelos lugares dedicados ao viajante. Em 1925, Hopper comprou seu primeiro carro, um Dodge de segunda mão, e saiu de casa em Nova York para ir até o Novo México. Daí em diante, passou alguns meses na estrada a cada ano, fazendo esboços e pintando no caminho, em quartos de hotéis de beira de estrada, no banco traseiro de automóveis, ao ar livre e em lanchonetes.

Self-portrait, Edward Hopper. 1903-1906

Entre 1941 e 1955, ele cruzou os Estados Unidos cinco vezes. Hospedava-se em hotéis de beira de estrada da Best Western, Del Haven Cabins, Álamo Plaza Courts e Blue Top Lodges. Era atraído pelos letreiros em néon que piscam “Quartos, TV, Banho” da beira da estrada, pelas camas com seus colchões finos e lençóis engomados, pelas janelas amplas que dão para estacionamentos ou para pequenos trechos de gramados bem tratado, pelo mistério dos hóspedes que chegam tarde e partem ao amanhecer, pelos folhetos com as atrações locais na recepção e pelos carrinhos das arrumadeiras estacionados em corredores silenciosos.

Para suas refeições, Hopper costumava parar em lanchonetes, em Hot Shoppe Mighty Mo Drive-Ins, Steak ‘N’ Shakes ou Dog ‘N’ Sudds – e abastecia o carro em postos com os logos da Móbil, Standard Oil, Gulf e Blue Sunoco.

Compartment C, Car 293. 1938

E nessas paisagens esquecidas, geralmente desprezadas, Hopper encontrava poesia: a póesie des motels, a póesie des petits restaurants au bord d’ une route. Seus quadros (e seus títulos repetitivos) sugerem um interesse constante em cinco tipos diferentes de lugares dedicados ao viajante: hotéis, estradas e postos de combustível, lanchonetes e restaurantes de auto-serviço, vistas de trens, vistas do interior de trens e de equipamento rodante.

A solidão é o tema dominante. As figuras de Hopper parecem estar longe de casa. Estão sentadas ou em pé, sozinhas, olhando para uma carta na beira de uma cama de hotel ou bebendo num bar; com o olhar perdido na janela de um trem em movimento ou lendo um livro num saguão de hotel. Suas expressões são vulneráveis e introspectivas. Talvez tenham acabado de deixar alguém ou talvez tenham sido abandonadas. Estão à procura de trabalho, sexo ou companhia, à deriva em locais transitórios. Com frequência é noite, e de outro lado da janela estão a escuridão e a ameaça dos grandes espaços abertos ou de uma cidade desconhecida.

Automat. 1927

Em Automat (1927), uma mulher está sentada sozinha tomando uma xícara de café. É tarde e, a julgar pelo chapéu e pelo casaco, faz frio lá fora. O salão parece amplo, bem iluminado e vazio. A decoração é funcional, com uma mesa com tampo de pedra, cadeiras pretas de madeira e paredes brancas. A mulher parece constrangida e ligeiramente receosa, pouco acostumada a ficar sentada sozinha num local público. Parece que algo deu errado. Involuntariamente ela convida o observador a imaginar histórias para ela, histórias de traição ou perda. Ela está tentando não deixar a mão tremer ao levar a xícara de café à boca. Podem ser onze da noite, em fevereiro, numa grande cidade da América do Norte.


Automat é um quadro de tristeza – e no entanto não é um quadro triste. Ele tem o vigor de uma admirável peça musical melancólica. Apesar da aridez da mobília, o local em si não parece desolado. Outras pessoas no salão podem também estar sozinhas, homens e mulheres tomando café sem companhia, ensimesmados da mesma forma, da mesma forma distanciados da sociedade: um isolamento comum com o efeito benéfico de reduzir a opressiva sensação no íntimo de cada pessoa de que somente ela estaria só. Em lanchonetes de beira de estrada, em restaurantes de auto-serviço, tarde da noite, em saguões de hotel e bares de estação, podemos diluir a sensação de estar isolados num local público solitário e com isso redescobrir uma nítida noção de comunidade.

A inexistência do calor doméstico, as luzes fortes e a mobília anônima podem acabar sendo um alívio em relação ao que costuma constituir os falsos confortos do lar. Pode ser mais fácil entregar-se à tristeza aqui do que numa sala de estar com papel de parede e fotos em molduras, a decoração de um refúgio que nos decepcionou.

Hopper convida-nos a sentir empatia pela mulher em seu isolamento. Ela parece digna e generosa, só talvez um pouco confiante demais, um pouco ingênua – como se tivesse inesperadamente se defrontando com uma situação difícil no mundo. Hopper alicia-nos para o lado dela, o lado do desconhecido em contraste com os conhecidos. As figuras na arte de Hopper não são adversárias do lar per se. Trata-se simplesmente de que, sob uma variedade de aspectos indefinidos, parece que o lar as teria traído, forçando-as a sair pela noite adentro ou a por o pé na estrada. A lanchonete aberta vinte e quatro horas, a sala de espera da estação e o hotel de beira de estrada são refúgios para aqueles a quem Baudelaire poderia ter conferido a distinção de chamar de “poetas”.


Railroad Sunset. 1929

Enquanto o carro segue por uma estrada sinuosa através de bosques ao entardecer, seus faróis fortes iluminam momentaneamente trechos inteiros de prado e de troncos de árvores, e de forma tão intensa que a textura da casca de árvores e os talos separados de capim podem ser discernidos numa luz branca, mais adequada numa enfermaria de hospital que numa região de bosques, e então os mergulham de volta na obscuridade indiscriminada, quando o carro faz uma curva e os faróis voltam sua atenção para outro trecho de terreno sonolento.

Há poucos outros automóveis na estrada, só um ocasional par de luzes que se movem no sentido contrário, afastando-se da noite. O painel de instrumentos do carro lança um fulgor arroxeado sobre a escuridão interior. De repente, numa clareira mais adiante, aparece um espaço iluminado: um posto de gasolina, o último antes que a estrada avance por seu trecho mais longo e mais denso de florestas, e a noite acabe de encobrir a terra – Gasolina (1940).


Gas. 1940

O encarregado saiu de seu posto para verificar o nível de uma bomba. Faz calor lá dentro, e uma luz brilhante como a do sol do meio-dia se espalha pelo pátio da frente. Um rádio pode estar tocando. Pode haver latas de óleo arrumadas com perfeição numa parede, além de doces, revistas, mapas e flanelas.

Como Automat, pintada treze anos antes, Gasolina é um quadro sobre o isolamento. Um posto de gasolina sozinho na escuridão iminente. Nas mãos de Hopper, no entanto, o isolamento mais uma vez torna-se pungente e sedutor. A escuridão que se espalha como um nevoeiro a partir da direita da tela, um arauto do medo, contrasta com a segurança do posto. Com o pano de fundo da noite e de bosques ermos, nesse último posto avançado da humanidade, pode ser mais fácil surgir uma sensação de afinidade que nos locais iluminados da cidade. A máquina de café e as revistas, símbolos de pequenos desejos e vaidade humanas, opõem-se ao vasto mundo não-humano lá fora, aos quilômetros de florestas nos quais galhos estalam de vez em quando, pisados por ursos e raposas. Há algo de comovente na sugestão – feita num cor-de-rosa gritante na capa de uma revista – de que pintemos as unhas de roxo nesse verão, bem como no apelo acima da máquina de café para que provemos o aroma do café recém-torrado. Nessa última parada, antes que a estrada penetre na floresta interminável, é o que temos em comum com os outros que se avulta mais do que o que nos separa.


As viagens são parteiras do pensamento. Poucos locais são mais propícios a conversas do que um avião, um navio ou um trem em movimento. Há uma correlação quase estranha entre o que está diante de nossos olhos e os pensamentos que nos podem ocorrer: grandes pensamentos à s vezes exigem grandes panoramas, novos pensamentos, novos lugares. Reflexões introspectivas que têm a propensão a bloquear-se recebem ajuda para prosseguir, com a passagem ininterrupta da paisagem. A mente pode relutar em pensar direito, quando pensar é tudo o que é preciso que faça. A tarefa pode ser tão paralisante como ter de contar uma piada ou imitar um sotaque a pedidos.

Morning Sun. 1952

O pensamento melhora quando se atribuem outras tarefas a partes da mente; quando elas são encarregadas de ouvir música ou de acompanhar uma fileira de árvores. A música, ou a paisagem, distrai por um tempo aquele setor nervoso, crítico e prático da mente que tem uma tendência a se trancar, quando percebe que algo difícil está vindo à tona na consciência, e que foge apavorado de lembranças, anseios, idéias introspectivas ou originais, preferindo, em vez disso, o aspecto administrativo e impessoal.

De todos os meios de transporte, talvez o trem seja o que mais auxilia o pensamento. As paisagens não têm sinal da monotonia em potencial das paisagens de navios ou aviões. Passam com rapidez suficiente para que não nos exasperemos, mas com a lentidão necessária para que identifiquemos objetos. Elas nos oferecem vislumbres breves e inspiradores de propriedades particulares, permitindo que vejamos uma mulher no exato momento em que tira uma xícara de uma prateleira na cozinha, para então nos levar a um pátio, em que um homem está dormindo, e em seguida a um parque, onde uma criança está apanhando uma bola jogada por alguém que não conseguimos ver.

Numa viagem por terreno plano, penso com uma rara falta de inibição na morte de meu pai, num ensaio que estou escrevendo sobre Stendhal e numa falta de confiança que surgiu entre dois amigos. Cada vez que minha cabeça se esvazia, tendo atingido uma ideia difícil, o fluxo de minha consciência é auxiliado pela possibilidade de olhar pela janela, agarrando-se a um objeto e o acompanhando por alguns segundos, até que uma nova espiral de pensamento esteja pronta para se formar e possa desenrolar sem pressões.

A fim de horas de devaneios num trem, podemos ter a sensação de termos sido devolvidos a nós mesmos – ou seja, trazidos de volta ao contato com emoções e idéias de importância para nós. Não é necessariamente em casa o melhor lugar para encontrar nosso verdadeiro eu. A mobília insiste em que não podemos mudar porque ela não muda; o cenário doméstico mantém-nos atrelados à pessoa que somos na vida comum, mas que pode não ser quem somos na essência.

Leia: A arte de viajar. Alain de Botton. Ed. Rocco, 2003.

9 comentários :

  1. Oi Paulão, tudo bem? Nossa, este texto veio de encontro com a minha fase atual. Pode adiciona-lo na lista dos livros para você me presentear :)
    XOX, Pá

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  2. Pode sim, claro. Quem sabe vc não o leve pessoalmente no final do ano, né? beijOM, pc

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  3. estava pesquisando a respeito desse livro a caí aqui no seu blog e nesse texto. Me interessei mais ainda por lê-lo, bela narrativa a sua.

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  4. Valeu, Ana! Com certeza irá aproveitar muito bem a leitura dessa obra. Saludos, paulo.

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  5. Cara, li esse livro no começo desse ano, mas só agora vi esse seu post. Muito legal mesmo. Gostei bastante da ideia do livro e do "não-lugar" onde o viajante parece sempre se encontrar, em trânsito. Do Hopper são todas belas imagens, principalmente o quadro Automat, que o o Botton descreve no livro. Depois desse acabei comprando o "Uma semana no aeroporto" dele também. Um livro menos interessante que o "A arte de viajar", mas também tem seu valor.
    abraço Césare e mantenha-se viajando nas palavras e no mundo real.

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  6. Claro, 3F! Como diz aquela propaganda de birita, "Keep on walking"...AbraçOM!

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  7. Parabéns pelo post! Vim de encontro a este livro no decorrer de um projeto artístico chamado Freeway, realizado em parceria com outro artista. Realmente imperdível, tanto pelo texto fluido de Boton, como pelos diálogos cruzados com figuras inquietantes e pela própria estrutura do livro, desafiante pelo tema ser tão revisitado. Adorei sua resenha! Lilian Maus.

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    1. Valeu, Lilian, agradeço o elogio! Bons caminhos e boas inspirações para 2013! Namastê!

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  8. alguém me passa o resumo desse livro´
    por favor
    é que estou sem tempo de fazer um.

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