domingo, 29 de agosto de 2010

La Paz existe? By Osman Lins y Julieta de Godoy Ladeira

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Sabe aquela viagem, aquela em que nada dá certo, ou quase tudo sai errado, em que desgraça pouca é bobagem? Já passou por isso? Pois quem viaja muito certamente deve colecionar alguns episódios, senão uma viagem inteira em que nada do que havia sido previsto saiu da forma tal como imaginada ou sonhada.

O interessante é que quase sempre aqueles “programas de índio” acabam se tornando seus melhores relatos de viagem, aqueles que os amigos sempre pedem para você repetir numa roda de papo descontraído entre um chope e outro. A bem da verdade, ninguém está interessado naquela sua viagem interessantíssima a Manaus ou a qualquer capital de estado, muito menos nas suas impressões sobre determinado museu, estádio de futebol, ruína arqueológica de nome impronunciável, nem mesmo de seus mergulhos fantásticos nas águas claras das Antilhas ou de Fernando de Noronha. Todos fingimos interesse, essa é a verdade.

Em contrapartida, todo mundo quer saber daquele fora que você deu na casa de um parente que mora no exterior, do medo que sentiu ao se meter numa favela mexicana, das bizarrices que testemunhou no submundo de um inferninho qualquer de um país do leste europeu, da roubada em que se meteu quando achou que era tudo de bom passar um mês entre os habitantes de uma tribo no Pará, e por aí vai. Estou mentindo? Claro que não, exagerando um pouco, talvez.

Já li muitos relatos de viagem em que a narrativa ganha fôlego quando o viajante consegue descrever com emoção uma das etapas duras do caminho; quanto mais o fulano ou a fulana sofrem no percurso, mais a gente tem vontade de saber como se dará o desfecho, via de regra torcendo para que tudo termine bem. Essa atração que temos em ler ou ouvir a respeito dos perigos e percalços de uma viagem alheia não é masoquismo nem sadismo, mas um sentimento de empatia que tem origem em camadas profundas do nosso inconsciente.

Rites of passage. By Pauline Murray

De um modo geral, toda viagem possui uma dinâmica básica que obedece às estruturas de um rito de passagem: a partida, o período limiar e a chegada. Na partida percebe-se o momento da separação, quando aquele que viaja abandona temporariamente seu lar, sua família e tudo o que faz parte de sua vida cotidiana; o período limiar, ou a liminaridade, é aquele em que a viagem de fato acontece, a fase intermediária entre a partida e a volta ao lar; finalmente, temos a chegada, o período de agregação, quando aquele que partiu volta transformado após a experiência vivida na liminaridade. A viagem, portanto, é uma facilitadora desse processo de transformação.

É claro que nem toda viagem se enquadra nesse esquema, proposto de maneira singular por Victor Turner, um antropólogo muito bacana que publicou um estudo fantástico sobre o tema, O processo ritual, infelizmente fora de catálogo e difícil de achar em sebos. Se antropologia é sua praia, essa obra é um must.

Quando falamos de ritos de passagem, ou ritos de transformação, podemos relacionar o processo à ideia da jornada do herói, tema magistralmente abordado pelo mitólogo norte-americano mais extraordinário de todos os tempos, o Joseph Campbell, autor que deveria ser lido e estudado em todas as escolas desde os primeiros anos da adolescência.

O herói, (sempre alguém que viaja!), parte em busca de um tesouro e tem como objetivo principal o de estabelecer a ordem (simbolicamente, a ordem interior – seus conflitos, e a exterior, que ocorre geralmente como conseqüência); durante a jornada, muitas dificuldades irão aparecer, dragões simbólicos que devem ser enfrentados para que o ciclo se complete. Vencendo os dragões, o herói volta ao lar fortalecido e transformado, daí a ideia de que aquele que parte nunca é o mesmo que retorna.
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Isso tudo explica, ou tenta explicar, o porquê de nossa atração pelas narrativas de viagem cheias de situações de risco e de obstáculos a serem superados; inconscientemente, colocamo-nos no lugar do herói ou da heroína e torcemos para que consigam enfrentar e vencer os dragões que vez ou outra surgem pelos caminhos vida afora. Uma delícia poder sacar essas metáforas...

Em La Paz existe?, pequeno e divertido relato de viagem escrito a quatro mãos por Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira temos um exemplo clássico de uma viagem que saiu totalmente do controle, apesar de toda a programação antecipada do casal junto a um agente de turismo.

O título do livro, um trocadilho genial, entrega o destino: La Paz, Bolívia. A história, um arraso, literal e metaforicamente falando: um casal de escritores decide visitar a capital da Bolívia, La Paz, depois de uma rápida excursão cheia de contratempos ao Peru. Corria o ano de 1977, de modo que você já pode ir imaginando o que deveria ser uma viagem, de ônibus, há mais de trinta anos, pelas estradas montanhosas de países pobres como o Peru e a Bolívia.

Excursão paga, saem da cidade de Cuzco em direção a La Paz:


“Tínhamos pago, em Cuzco, uma excursão através do lago Titicaca, coordenada com transporte terrestre e assistência até La Paz, incluindo condução para o hotel. Mas para que tudo desse certo era preciso estar no embarcadouro, em Juli, antes das nove e meia, quando saía o hydrofoil.”

Tudo teria corrido bem se (sempre há um “se”) de fato o casal conseguisse chegar a tempo de embarcar no hydrofoil (sabe-se lá o que é isso!), a embarcação que faria a travessia do sagrado Lago Titicaca.

Daí que surge a surpresa dessa narrativa, ora contada por Osman, ora por sua mulher, Jul, cujas reflexões vão pontuando oportunamente o texto, num ying/yang literário cheio de frescor. A viagem, enfim, acontece num outro plano de ação, onde o turismo empacotado dá lugar a uma aventura quase agoniante; o casal de escritores, como que querendo exorcizar a malfadada viagem, surpreende seus leitores com uma narrativa anti-viagem, retratando um episódio que de certa maneira não passaria de uma banalidade, o que só não acontece porque ambos dominam muito bem a arte da escrita. São de Jul as palavras transcritas abaixo, que bem servem como amostra:

Família de qarwas. By Roberto Mamani

“Volto o rosto. Não quero que se saiba até que ponto minha resistência cede. A resistência, como um balão, pode ir sendo mantida com sopros até certo ponto. Nunca se sabe qual. Recordo um filme onde o encontro desse ponto obsedava um homem até a loucura. A fraqueza tem escalas, oscilações. O ponto extremo flutua. O barco se aproxima do pontão.”

O primeiro entrave na viagem acontece quando chegam ao povoado de Puno e descobrem que deveriam haver obtido, em escala anterior, um visto para poderem atravessar o lago. Sem o visto, nada feito. O jeito era voltar todo o caminho outrora percorrido com muito desconforto. Jul não se conforma em recuar, e afinal de contas, qual viajante não se sente extremamente frustrado em ter que refazer, por conta de alguma adversidade, um trecho não prazeroso de uma etapa de viagem?

“O que vejo, à minha frente, são estradas de ir. Não sei se existirão, mas cada instante aqui parece-me perdido, temos que ir, o dia avança, devemos avançar com ele. Para mim, todo caminho de volta é como se tivesse deixado de existir.”

A solução aparece de maneira incerta numa viagem de táxi a Desaguadero, rumo à fronteira. O dinheiro, assim como o tempo de que dispõem para as formalidades burocráticas, é bastante curto. Ainda assim, sobram momentos para reflexões, e algumas cenas, percebidas da janela de um velho automóvel, ajudam a dar um pouco de cor à narrativa. São de Osman as palavras que se seguem:

“Mal saíramos, vimos um grupo de índios, mulheres e homens, que dançavam ao ar livre. Chegava à estrada o som dos instrumentos, flautas, pandeiros, tambores, um som campestre, fresco, antigo, os dançarinos erguiam pernas e braços, batiam com os pés, saltavam, meneavam o corpo, todos de roupas novas, o chão de barro e as paredes de adobe realçavam o colorido das vestes, todos agitavam borlas e bastões de cor, as saias enfunavam-se, fitas ondulavam no ar, era uma cena virgem e que evocava – nas cores, no movimento, na força – as que vemos em certos quadros de Bruegel, como a Dança de Camponeses ou a Dança Nupcial.”

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The wedding dance. By Pieter Bruegel

“O que agora recordo aconteceu a seguir? Antes? Mais tarde? Acreditei ver nuvens muito altas, sobrepostas, de formas singulares. Logo supus que me enganava e que as nuvens, de fato, eram uma alta montanha. Enganava-me ainda: eu via o Titicaca, que, de certo nível e por um efeito ótico, uma insólita incidência da luz, parecia, dada a sua extensão, erguer-se, voar sobre si mesmo. A visão do lago, aliás, naquela rota que em grande parte o contornava, mudava a cada instante, de modo que qualquer descrição, aqui, estaria sempre muito aquém da verdade. Posso dizer apenas que eram visões grandiosas, nas quais a superfície lacustre e cumes elevados trespassavam-se; e que, apesar da grandeza, essas visões confrangiam pela ausência de vida e movimento: o que se movia era a paisagem mesma.”

Lake Titicaca. By Martin Gray

O interessante nessa narrativa é que a viagem, tal como deveria ter acontecido, não se realiza; por conta dos contratempos, do tempo curto de que dispunham para visitar os locais agendados na excursão, da falta de dinheiro, nada mais importava a não ser chegar ao destino final da jornada, a capital La Paz.

Ainda assim, com a habilidade de quem sabe observar e narrar os acontecimentos que se sucedem, Osman consegue a proeza de transmitir com muita clareza e senso crítico a realidade de uma gente sofrida, que em muito se assemelha à nossa, visto na obra pelas comparações que faz entre o povo andino e o brasileiro. Numa dessas passagens, porém, o autor comenta que das inevitáveis diferenças existentes entre os dois, não chegou a presenciar, em nenhum momento, gente pedindo esmolas, como se por lá não existisse o triste e comum hábito da mendicância tão presente na cultura brasileira.

Tanto Osman quanto Jul percebem no povo andino uma dignidade ímpar, proporcional talvez à sofrida realidade de sua vida; as mulheres nunca pedem dinheiro ou qualquer tipo de ajuda nesse sentindo, embora oportunamente insistam para que os turistas lhes comprem seu artesanato típico, única maneira de arrumar algum capital para obter aquilo que não conseguem produzir.
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Bolivian woman. By Clarke Spin

“Desço o vidro do carro. Ar de chuva, cheiro de lama. E elas passando, centenas, com seu andar lento e certo. As índias: bonitas, em geral com boa pele, aspecto saudável. Nada do raquitismo, do corpo judiado, do rosto prematuramente gasto do brasileiro pobre. Nenhum defeito físico, nenhuma face cavada, nenhum olhar de fome. Imagino que todo o dinheiro ganho seja para a comida. Mas ainda assim. Como conseguirão? Não se deve pensar em termos de todo o dinheiro, mas do pouco dinheiro, entre nós sempre insuficiente para a manutenção, para a preservação de um mínimo de saúde. Tipo de alimentação mais forte? É possível.”

Woman of La Paz. By Clarke Spin

“Parecem distante e salvas (até quando?) da febre consumista. A moda não afeta nem altera suas roupas. Pouco se distingue do corpo de cada uma. As pernas, hastes frágeis, surgem de muitas saias como de um grande e crespo repolho. Essas pernas curtas e finas não combinam com o rosto nem com a imponência do corpo – mas dão caráter à figura, um traço de Goya quebrando todo o equilíbrio do que seria quase um Da Vinci. Os rostos ovalados. Todos.”
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Boliviana mucho lôca

E assim vai transcorrendo a viagem que parece nunca terminar. Nos dois últimos capítulos dessa breve narrativa, o casal passa apuros numa longa jornada de ônibus, que em determinado momento, após sucessivas travessias perigosas pelos Andes, resolve não mais prosseguir: acabara o combustível. A esperança de chegar a La Paz ainda naquela noite já estava quase perdida até que um outro carro aparece para salvá-los do pesadelo. Algumas horas depois, chegavam ao final da viagem. Depois do banho tomado e da fome saciada, Osman, já estirado na cama do hotel diz a Jul que assim que chegar a casa irá escrever um relato sobre a viagem dos dois.

“Eu pensei ainda que afinal havíamos chegado, que estávamos na cidade, uma cidade para nós desconhecida, cujo nome expressava o que o homem sempre busca e nunca, nunca chega a conquistar: La Paz.”

Salt Lake. Uyuni. Bolívia


Leia: La Paz existe?. Osman Lins e Julieta de Godoy Ladeira. 116 págs. Editora Summus, 1977. Está fora de catálogo, mas no site da Estante Virtual há vários exemplares disponíveis.

Mais de Osman Lins? Postei aqui no blog um outro relato de viagem desse maravilhoso autor pernambucano. Para ir direto ao outro post, clique bem aqui.

Mais sobre Bolívia? Vale visitar o blog http://brokeinbolivia.blogspot.com/ - é de lá a linda foto do Salt Lake aí de cima.





2 comentários :

  1. Oi Paulo, vc deu um show de bola tanto no texto como na escolha das fotos. Beijocas, Pá

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