sábado, 24 de julho de 2010

As viagens de Benjamin Franklin

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Todas as nações possuem seus representantes dignos o suficiente para serem destacados com orgulho na linha da história. O primeiro que me vem à mente, quase sempre, é Mohandas Gandhi, o Mahatma (grande alma) que fez pela Índia o que nenhum outro personagem daquele país ousou fazer. De quebra, ainda encantou o mundo com sua mensagem de paz e sua conduta de vida exemplar.

Aqui no Brasil também tivemos grandes homens e mulheres que fizeram muito por nós, alguns tidos por heróis, como é o caso do alferes Tiradentes e seus companheiros inconfidentes, da Princesa Isabel, que lutou pelo causa da abolição da escravidão, ou D.Pedro II, que acreditou no Brasil e o amou até o final de sua vida.

Nos Estados Unidos, país que sempre teve importantes figuras no cenário político nacional e internacional, um nome é sempre aclamado, seja pela sua inteligência e cultura singulares, ou pelo fato de haver conseguido conquistar enorme simpatia além-mar: Benjamin Franklin.

Encontrei um texto num blog de viagem (
http://www.gadling.com/) que me surpreendeu pela interessante maneira de apresentar uma personalidade histórica a partir de suas viagens. Um texto leve e ágil, escrito para o público americano (chamam-no de “nosso pai fundador”) e que me fez ficar com muita vontade de conhecer melhor esse “Mahatma” que ajudou a fundar a grande nação dos Estados Unidos da América.

O interessante é que, ao lermos sobre as viagens de Benjamin Franklin, vamos sendo informados sobre diversas passagens históricas importantes que mudaram não só a vida dos norte-americanos como a de todos nós. Você entenderá o que isso quer dizer ao ler o texto completo. Eu gostei muito, e acho que você também irá se encantar com a leitura. Namastê.


Benjamin Franklin, Traveler.

"Viajar é uma forma de alongar a vida", comentou Benjamin Franklin, após voltar de sua primeira visita à França. O cavalheiro da Pensilvânia havia viajado somente por duas semanas, mas sentia que sua temporada em Paris fora tão agradável e enriquecedora que parecia que tinha passado seis meses fora. É assim que deve ser uma boa viagem.

Para Benjamin Franklin , Paris era "como um sonho agradável do qual eu estava arrependido de ser despertado por me encontrar de novo em Londres". Ele achava a Inglaterra "uma pequena ilha" cheia de pobreza e sempre "úmida", mas com “mentes muito mais sensatas, virtuosas e elegantes" do que as que encontraria de volta a casa. Como companhia, preferia os franceses - "Eu não sei quais são os mais ardilosos, os ingleses ou os franceses, mas estes últimos têm, com suas trapaças, mais polidez." Tal polidez tal não foi devolvida por Franklin, que descreveu o Palácio de Versalhes como mal-conservado e surrado: "As fontes não funcionam."

Pode-se dizer que Benjamin Franklin era um pouco obstinado? Talvez, e felizmente esse é um valor americano que sobreviveu. Ele também foi um poliglota que estudou italiano, francês, espanhol e alemão. Infelizmente, esse é um valor americano que não sobreviveu. O jovem Ben Franklin começou sua carreira de viajante aos 17 anos, ao largar um emprego sem futuro fugindo para Nova York, criando um precedente para várias gerações de norte-americanos (Madonna, por exemplo). Isso serviu como um tipo de aprendizagem no exterior que acabou levando-o a fazer sua primeira viagem real – a Londres.


A viagem de retorno foi mais vagarosa - ele já estava com quase 20 anos de idade quando finalmente voltou para casa, descrevendo assim o que viu, "Do lado esquerdo aparece a costa da França ao longe, e à direita está a vila e castelo de Dover, com as colinas verdejantes e os penhascos calcários da Inglaterra." Lutou contra o tédio da longa viagem marítima através da leitura, de longas conversas, jogando damas ou cartas, e bebendo muito; testemunhou seu primeiro eclipse solar e viu um ajudante de cozinha ser chicoteado por haver utilizado demasiada farinha no preparo de uma sobremesa. Apostou com seus companheiros de viagem uma “bowl of punch" (o equivalente, no século 18, a uma rodada de cerveja) que estariam de volta à Filadélfia numa determinada data.... e perdeu. Quando um dos companheiros de viagem de Ben foi pego trapaceando nas cartas, os outros o castigaram amarrando uma corda em volta de sua cintura, e o içaram, deixando-o pendurado “por um quarto de hora”.
Daquele ponto em diante, Benjamin Franklin tornou-se um viajante, correndo para cima e para baixo através das colônias americanas e cruzando o Atlântico, pelo menos, uma dúzia de vezes. Na verdade, ele foi provavelmente o político americano mais viajado naquele tempo - admitiu estar acostumado a pelo menos uma viagem por ano, chegando a se sentir doente por conta do único ano em que havia deixado de viajar.

O pai fundador da nação acreditava veementemente que a viagem melhorava sua saúde e seu espírito, apesar das condições ásperas daqueles tempos. Como postmaster dos Estados Unidos (encarregado dos correios), viajou cerca de 1.600 milhas a cavalo, de carro e a pé, inspecionando as estações de correio da Virgínia do Sul à Nova Inglaterra. Chegou a cair de seu cavalo duas vezes – arranjando uma lesão que se prolongou por toda a vida. A caminho do Canadá (às vésperas da Revolução Americana), atrasou-se por conta do gelo e da nevasca de abril ocorrida ao norte de Nova York. Na Inglaterra e na França, ele geralmente viajava de post-chaise, uma carruagem leve, onde o condutor montava um cavalo atrelado a uma carroça.


Às vezes reclamava; a chuva Escócia o deixou esgotado: "Cheguei aqui enfrentando tempestades e inundações num sábado tarde da noite, e fui alojado numa pousada miserável”. Mas como um bom viajante, lidou de maneira leve com uma situação assustadora, comentando com sarcasmo: "A carruagem era do tipo miserável, com cavalos cansados, numa noite escura, somente nós na estrada; para tornar o percurso mais confortável, o motorista parou perto de um bosque que iríamos atravessar para nos dizer que havia ali uma gangue de dezoito bandidos que, há duas semanas, havia assassinado alguns viajantes naquele exato local em que nos encontrávamos”.

Como viajante, foi muito atento - ele observou que o tráfego em Londres era pior do que em Paris, que os norte-americanos falam muito mais alto quando se dirigem a pessoas que não falam Inglês (como se elas fossem surdas), que os viajantes pegam resfriados "uns dos outros porque respiram o ar alheio ao sentarem-se juntos nas carruagens", que uma certa corrente do Atlântico (a Corrente do Golfo) faz com que a navegação seja muito mais rápida, e que a Inglaterra era muito, muito cara (escreveu à esposa, desde Londres: "Minha despesas aqui me surpreendem").

Franklin era fascinado por tudo o que ele presenciava em suas viagens, dos tipos estranhos de algas que colheu no meio do oceano até a maneira que as senhoras francesas aplicavam seu rouge. Gostava de música escocesa e coletava partituras como se fossem CDs recém-lançados, e cantava aquelas canções no decorrer da viagem ao lado de sua filha. De lembranças, Benjamin comprava livros – possuindo uma vasta coleção, de obras compradas na Alemanha, Holanda e França, livros que “continham um conhecimento que poderia vir a ser útil na América." De regalo a seus anfitriões estrangeiros, oferecia pacotes de maçãs desidratadas da América.


No exterior, Ben Franklin era um apaixonado pela cozinha, dando mais valor à culinária local do que aos enfadonhos monumentos históricos."Se eu pudesse encontrar em qualquer viagem pela Itália uma receita para fazer queijo parmesão, isso me traria mais satisfação do que uma transcrição de qualquer inscrição a partir de qualquer pedra antiga que fosse", escreveu. Quando era embaixador, manteve uma adega particular na França, onde um funcionário contou exatamente 1.203 garrafas – mais de Bordeaux, menos de Burgundy - e várias garrafas de espumantes brancos franceses.

Ben Franklin apreciava o anonimato da viagem – no sentido de que, dessa maneira, um homem ou uma mulher poderiam se libertar das obrigações culturais, desfrutando da liberdade de um outsider. Em 1776, após a América ter sido declarada independente da Grã-Bretanha, Benjamin Franklin foi enviado a Paris como "ministro da França". Viveu na Europa nos oito anos seguintes, forjando tratados importantes, levantando dinheiro para os recém-nascidos Estados Unidos da América, e fazendo o trabalho mundano de um embaixador (como a emissão de um passaporte para o grande explorador Capitão Cook, que precisava passar por um bloqueio armado de navios norte-americanos).

Como um americano novato no estrangeiro, Benjamin Franklin sentiu que era seu dever vender a América para o resto do mundo; falou do milho norte-americano que "encanta os olhos de qualquer viajante observador" e bancou inúmeros jantares onde as novas filosofias americanas eram discutidas. Em 04 de julho de 1778, Franklin comemorou o aniversário da Declaração da Independência convidando seu “frenemy” (amigo-inimigo) John Adams para jantar em sua casa francesa, juntamente com 50 amigos franceses. A mesa contava com abundantes bandeiras americanas. Franklin era famoso na França - muito famoso. Houve uma época em que medalhões e gravuras do busto de Franklin adornavam desde abóbadas sobre lareiras a caixas de rapé em Paris. Foi introduzido em vários clubes particulares e sociedades acadêmicas e convidado a testemunhar as grandes invenções daqueles dias.

Em 1783, Franklin viu o primeiro vôo de um balão de hidrogênio no Champ de Mars, em Paris. Pouco depois, chegaria a investir seu próprio dinheiro em um vôo de balão tripulado, e foi a primeira pessoa beneficiada com uma encomenda via-aérea quando o legalista americano John Jeffries transportou uma carta para ele através do Canal da Mancha a bordo de um balão. O conceito aeroviário deixou Franklin maravilhado e fez com que ele sonhasse com o seu balão privado, que o levaria de um lugar a outro poupando-lhe do cansaço nas pernas.


Com muita frequência, os políticos de hoje sentem a necessidade de exumar e abusar dos nossos pobres pais fundadores, a fim de promoverem suas próprias agendas políticas. Pregam o "patriotismo", esquecendo-se do amplo espectro de patriotas que vieram antes deles, com distintas vidas e opiniões. (Para que fique registrado, Benjamin Franklin foi o único pai fundador que assinou os quatro principais documentos comprovativos da Independência Americana: a Declaração da Independência, o Tratado de Paris, o Tratado de Aliança com a França, e a Constituição dos Estados Unidos. Além disso, John Adams detestava radicalmente Ben Franklin, por achá-lo demasiadamente admirável para ser admirado). Qualquer que seja a convicção política de uma pessoa, se formos confiar no exemplo de Benjamin Franklin, um valor é certo: um patriota é alguém que viaja e amplia sua mente através das viagens.

Sacou? Os verdadeiros patriotas são os que viajam (Real patriots travel, um ditado utilizado pelos norte-americanos que viajam ao exterior). Nada mais apropriado, então, de que seja de Benjamin Franklin, o pai fundador da nação americana que mais viajou, a face representada na nota de 100 dólares.


Quando Franklin finalmente deixou a França, viajou em uma liteira privada e com uma grande caravana suficiente para carregar todas as 128 peças da sua bagagem despachada. Também carregou, em algum lugar de sua bagagem de mão, o seu presente de despedida do rei Louis XVI - um "set" modesto de jóias contendo 408 diamantes.

Em seu diário, Franklin alegremente relata que naquela última viagem de volta à América, ele foi a única pessoa da embarcação a não enjoar.



(Citações retiradas de Autobiografia de Benjamin Franklin, 1791)


Leia o texto original clicando aqui.

9 comentários :

  1. Obrigada, adorei sua maneira de escrever. Foi muito interessante ler sobre Benjamin Franklin, e segui sua dica de ver o site adicional. Visitarei as outras paginas agora do seu blog. Bom dia à voce, Eliana

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  2. Eu que agradeço, Eliana. Apareça sempre! Saludos, paulo

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  3. Por favor me de responda porque benjamin franklin aparece na nota de 100 dolares

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  4. Hey, Anônimo, isso nem o US Treasury sabe informar! Pelo que li em alguns sites, à época em que postei esse artigo,a escolha de Benjamin foi de caráter puramente subjetivo. Em outras palavras, uma homenagem mais do que merecida ao homem que tanto fez pela nação americana. Saludos, paulo

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  5. Ta,mas voce poderia me ajudar a responder essa pergunta???é para um trabalho em grupo e eu fiquei com essa parte da nota de 100 dolares ,por favor resuma o que ele fez pelos EUA,como ele ajudou na independencia dos EUA(foi por isso?).Obrigado!!!

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  6. Hey, Anônimo, eu não sou historiador e nada sei de Benjamin Franklin além do que você mesmo pode pesquisar. Para uma consulta rápida, em português, acho que esses links abaixo resolvem o seu problema:

    http://www.culturabrasil.org/indepeua.htm

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Benjamin_Franklin

    http://pt.wikipedia.org/wiki/Autobiografia_de_Benjamin_Franklin

    http://guerras.brasilescola.com/seculo-xvi-xix/guerra-independencia-dos-estados-unidos.htm

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  7. Oi,p.césare! Muito interessante sua postagem sobre Benjamin Franklin. Falou em viagem, é comigo mesma. Circulava pela Internet para acrescentar algum comentário sobre este americano incrível, cuja estátua encontra-se em destaque em Passy - 16éme Arr./Paris,quando esbarrei com seu blog. Muito bom. Parabéns!

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  8. Hey, Iolanda!Obrigado pela visita e pelo elogio! Namastê!

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