quarta-feira, 23 de junho de 2010

Viagem a Portugal. Homenagem a Saramago (1922-2010)

. Painting by John Lautermilch


Portugal tem tudo para ser o destino ideal de um bom viajante: uma história fascinante, um povo simpático e caloroso, paisagens belíssimas e diversificadas, mesa farta e saborosíssima... tudo de bom que se pode querer tem lá, dos peixes aos legumes frescos, os azeites e os embutidos, as castanhas saboreadas no inverno, as sardinhas no São João, e o vinho, maravilhoso, a qualquer momento.

Terra de grandes escritores, teve no passado lá longe Camões, que sempre tive vontade de ler mas ainda não o fiz; compensei com Fernando Pessoa, que veio bem depois, e que eu li, e li, e li, e continuo lendo hoje e sempre, porque Pessoa emociona, inspira e vicia. E depois do poeta lisboeta, temos José Saramago, que provavelmente foi o último dos gigantes da literatura portuguesa a ir para o andar de cima.

Confesso que Saramago não faz a minha cabeça, acho que não consigo me identificar com seu estilo pouco convencional de escrita sem pontuação e frases intermináveis. Um dia, quem sabe, eu mude de opinião (mudar é sempre bom). Por hora fico só na superfície e por isso vou postar uma reflexão do escritor que anda circulando bastante pela net a título de homenagem por conta de seu passamento. Chegou a mim através de um email. Não resisti e resolvi postar aqui no Odepórica.

“A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: “Não há mais que ver”, sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com Sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir. E para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já.”

[José Saramago, Viagem a Portugal, 1980]

Não é mesmo lindo? Se você se interessou, leia abaixo a sinopse da obra, lançada no Brasil em 1997 pela Companhia das Letras.


Em Viagem a Portugal, o pacto de Saramago com a língua se materializa com tanta clareza que chega a parecer um destino - é como se as coisas e as pessoas estivessem estado à espera de seu escritor. Um milhão de viajantes viram os rios, as encostas e as florestas que Saramago viu. Entraram nos mesmos castelos e igrejas. Pediram informação àquele pastor, à fiandeira e ao velho da encruzilhada. Todos deram pasto à vista e à imaginação. Nenhum deles, entretanto, teve como levar a viagem para casa, refazê-la por escrito e escolher que iria partilhá-la infinitamente.Conhecemos, neste livro, que nome se dá às coisas em Portugal, qual é a comida que vai para a mesa, quem pintou o teto daquela capelinha, quando é que chove, de que cor são os olhinhos de Nossa Senhora da Cabeça, o que aconteceu com as flores das amendoeiras que o rei mouro mandou plantar para a sua princesa nórdica, quanto custa passar o tempo nas ruas de Serpa, até que ponto são rápidas as águas do Pulo do Lobo, de que modo se conserva a seriedade perante o são Sebastião sorridente e orelhudo de Cidadelhe, por que morreu Inês, a amante de Pedro, o Cruel, o Cru, o Filho-Inimigo, o Tartamudo, o Dançarino, o Vingativo, o Até-Ao-Fim-do-Mundo-Apaixonado.

Boa Viagem, Saramago.

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