quarta-feira, 9 de junho de 2010

Teoria da viagem: poética da geografia, by Michel Onfray

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Quer ler um livro excepcional sobre a arte de viajar? Pois então não perca tempo e corra atrás desse pequenino ensaio que é uma jóia: Teoria da viagem: poética da geografia. O autor é um jovem filósofo francês cinqüentenário, Michel Onfray, que escreve como ninguém sobre as sutilezas da experiência mágica da viagem.

O Michel tem tanta coisa boa escrita nesse livro de cento e onze páginas que nem sei por onde começar. Mais uma vez me sinto frustrado por ter que deixar muitas passagens geniais de uma obra de lado, mas a concisão é uma necessidade, de modo que tentarei selecionar aquilo que imagino irá inspirar os leitores e as leitoras do Odepórica a comprar o livrinho do filósofo francês (como sempre, não estou lucrando nada com isso, palavra).

Os sete tópicos desse estudo são diretos e instigantes; leitura agradável, consegue a proeza de equilibrar o discurso acadêmico com o popular, sem nunca parecer pedante ou superficial. Vamos ler a seguir algumas passagens, na verdade insights cheios de sabedoria e atitude. Veja o que pensa Onfray sobre:

A escolha de uma destinação:

“Cada corpo busca reencontrar o elemento no qual se sente mais à vontade e que foi outrora, nas horas placentárias ou primeiras, o provedor de sensações e de prazeres confusos, mas memoráveis. Existe sempre uma geografia que corresponde a um temperamento. Resta descobri-la.”

“Uma palavra, um lugar legíveis no mapa retêm, então, a atenção. Nome de um país, de um curso de água, de uma montanha, de um vulcão, de um continente, de uma ilha ou de uma cidade. O indistinto, o visceral, se reconhecem de súbito numa emoção desencadeada por um nome guardado na memória: ir ao tibete, ver o rio Amur, escalar o monte Fuji ou o Etna, caminhar nas colinas de N´Gong, nadar no oceano Pacífico (...) cada um dispõe de uma mitologia antiga fabricada com leituras de infância, filmes, fotos, imagens escolares memorizadas a partir de um mapa-múndi, numdia melancólico ao fundo da classe.”

Os livros:

“A viagem começa numa biblioteca. Ou numa livraria. Misteriosamente, ela tem lugar ali, na claridade de razões antes escondidas no corpo. No começo do nomadismo, encontramos assim o sedentarismo das prateleiras e das salas de leitura, ou mesmo do domicílio onde se acumulam os livros, os atlas, os romances, os poemas, todas aquelas obras que, de perto ou de longe, contribuem para a formulação, a realização, a concretização de uma escolha do destino.”

“Toda documentação alimenta a iconografia mental de cada um. A riqueza de uma viagem requer, a montante, a densidade de uma preparação – assim como as experiências espirituais convidam a alma à abertura, ao acolhimento de uma verdade capaz de infundir. A leitura age como rito iniciático, revela uma mística pagã. (...) Na viagem, descobre-se apenas aquilo de que se é portador. O vazio do viajante gera a vacuidade da viagem; sua riqueza produz a excelência dela.”

O começo da viagem:

“Em que momento começa realmente a viagem? A vontade, o desejo, a leitura, certamente tudo isso define o projeto; mas a viagem mesma, quando se pode dizer que começou? É quando decidimos partir para um lugar e não um outro? Quando fechamos a mala, afivelamos a mochila? Não. Pois há um momento singular, identificável, uma data de nascimento evidente, um gesto signatário do começo: é quando giramos a chave na fechadura da porta de casa, quando fechamos e deixamos para trás nosso domicílio, nosso porto de matrícula. Nesse instante preciso começa a viagem propriamente dita.”

A amizade:

“Nem a sós, nem com vários: circular com o amigo permite evitar a angústia multiplicada do trajeto solitário, da barreira das línguas estrangeiras, dos incômodos burocráticos nas fronteiras com funcionários e policiais de todo o mundo. O estrangeiro que circula livremente num país inquieta as autoridades, sobretudo onde não reina a democracia, isto é, na maioria dos lugares do planeta. A amizade serve de tônico necessário para a conjuração do estado de fragilidade consubstancial ao afastamento do domicílio, longe das referências habitualmente tranqüilizadoras do animal em nós. No exercício da amizade, o outro é o estranho menos estranho possível. (...) No detalhe da viagem, a amizade permite a descoberta de si e do outro.”

A memória da viagem:

“Pouco importa o suporte, desde que a memória produza lembranças, extraia quintessências, elabore referências com as quais organizar mais tarde o conjunto da viagem. No amontoado e na balbúrdia da experiência vivida, o vestígio cartografa e permite o levantamento de uma geografia sentimental. Mais tarde, quando o tempo do acontecimento estiver longe de nós, restam instantes congelados em formas capazes de reativação imediata.”

“(...) um poema bem-sucedido, uma foto expressiva, uma página que fica supõem a coincidência absoluta entre a experiência vivida, realizada, e a recordação reativada, sempre disponível não obstante o passar do tempo. De uma viagem só deveriam restar uns três ou quatro sinais, cinco ou sei, não mais que isso. Na verdade, não mais que os pontos cardeais necessários à orientação.”

A diferença entre viajantes e turistas:

“Viajar supõe menos o espírito missionário, nacionalista, eurocêntrico e estreito, do que a vontade etnológica, cosmopolita, descentrada e aberta. O turista compara, o viajante separa. O primeiro permanece à porta de uma civilização, toca de leve uma cultura e se contenta em perceber sua espuma, em apreender seus epifenômenos, de longe, como espectador engajado, militante de seu próprio enraizamento; o segundo procura entrar num mundo desconhecido, sem intenções prévias, como espectador desengajado, buscando nem rir nem chorar, nem julgar nem condenar, nem absolver nem lançar anátemas, mas pegar pelo interior, que é compreender, segundo a etimologia. O comparatista designa sempre o turista, o anatomista indica o viajante.”

A busca:

“Nós mesmos, eis a grande questão da viagem. Nós mesmos e nada mais. Ou pouco mais. Certamente há muitos pretextos, ocasiões e justificativas, mas em realidade só pegamos a estrada movidos pelo desejo de partir em nossa própria busca com o propósito, muito hipotético, de nos reencontrarmos ou, quem sabe, de nos encontrarmos. A volta ao planeta nem sempre é suficiente para obter esse encontro. Tampouco uma existência inteira, às vezes. Quantos desvios, e por quantos lugares, antes de nos sabermos em presença do que levanta um pouco o véu do ser.”

O nomadismo:

“Não há viagem sem reencontro com Ítaca, que dá sentido ao deslocamento. Um exercício perpétuo de nomadismo sairia dos limites da viagem para entrar na errância permanente, na vagabundagem. Os próprios nômades praticam um tipo de sedentarismo, pois percorrem trajetos habituais, se instalam na rotina de um deslocamento, sempre o mesmo, servem-se das mesmas referências, ramagens secas, montes de pedras, linhas e rastros feitos por animais, leem sempre do mesmo modo o mapa das estrelas ou dos movimentos do sol, mas também porque vão a lugares onde têm seus hábitos, suas práticas tribais e rituais na arte de ocupar os solos.”

“Assim como o sedentarismo contínuo não me agradaria, o nomadismo permanente não me seduz: as raízes, o local, a vida há muito tempo num lugar idêntico não podem ser consideradas sem um recurso regular a deslocamentos ao redor do planeta (...) entendo a viagem como um momento num movimento mais geral – não como um movimento por si só. Tanto mais porque o reencontro com o domicílio dá um sentido, o seu sentido, ao nomadismo – e vice-versa.”

Leia: Teoria da viagem: poética da geografia. Michel Onfray. Trad. De Paulo Neves. Porto Alegre, RS: L&PM, 2009.

2 comentários :

  1. Vc viu? estou me informatizando tbm. Como estou mudando, resolvi mudar isso tbm. O problema é a falta de tempo pra escrever. Mas vamos ver no que dá.

    Vc hein... sabe incrementar mesmo um blog.
    Parabéns, tá muito bom
    abç

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  2. vc não deu o crédito das fotos. a da moça da mala, olhando a estrada, é cena de algum filme? e a foto da sombra dos camelos, foi tirada por quem?

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