quinta-feira, 17 de junho de 2010

Satori em Paris, by Jack Kerouac

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A editora L&PM presenteia mais uma vez os admiradores de Jack Kerouac com o recente lançamento de Satori em Paris, obra publicada originalmente em 1966 e inédita por aqui. Graças ao empenho da L&PM, aos poucos vemos crescer nossa coleção de obras da literatura beat, sobretudo os títulos do mestre Kerouac.

Tentarei ser imparcial aqui, e sinto que para isso terei que comentar Satori em Paris valendo-me de duas abordagens. Primeira delas: ler a obra sob a ótica de alguém que nunca leu Kerouac. Segunda: ler Satori sob a ótica de quem conhece a vida e a obra do autor.

Kerouac partiu para o andar de cima em 1969, aos 47 anos. Satori em Paris é um de seus últimos livros, já muito distante da euforia e vibração de On the road, seu trabalho mais conhecido. Encharcado de álcool, em Satori Jack pouco ou quase nada lembra o aventureiro jovem e inconseqüente que vagabundeava pelos Estados Unidos nas décadas anteriores, quando a estrada era o seu yoga, a sua união com a transcendência.

Pintura: Jack Kerouac, The Gary Buddha

Pode-se dizer que, até certo ponto, Satori em Paris não deixa de colher semelhanças com outras deambulações do escritor; até arrisco afirmar que nunca antes dessa viagem Kerouac havia definido tão objetivamente o motivo de sua partida. A história é simples: em 1965, contando com quarenta e três anos, Jack viaja à França com o intuito de colher informações sobre seus ancestrais, um homem na meia-idade em busca de suas origens, de seu próprio nome, Kerouac:

“Fui à França e à Bretanha apenas para olhar esse meu velho nome que tem cerca de trezentos anos e jamais mudou em todo esse tempo, pois quem mudaria um nome que significa simplesmente Casa (Ker), No Campo (Ouac) – ”

Dez dias é o tempo que dura a sua jornada; apenas dez dias, e pouca coisa realmente acontece nesse curto período de tempo. Por isso escrevi aquilo sobre a ótica de leitura de Satori pois, para um leitor ainda virgem na leitura de Kerouac (ou mesmo aquele que leu apenas On the road), não consigo imaginar sequer um único motivo para indicar essa leitura. Consigo inclusive enumerar alguns motivos para não indicá-la, fosse esse o caso.

O principal motivo para deixar essa obra de lado já aparece no título: Satori. Não se iluda: se houve algum satori nessa experiência de Kerouac em Paris, ele ficou de fora da história. Palavrinha bonita esta, Satori. No Zen, significa “percepção interior do ser em uma ordem mais elevada”. O satori implica numa expansão da consciência, um estado de iluminação espiritual, a mesma noção de samadhi, para o hinduísmo.

Desenho: Jack Kerouac, Face of the Buddha, 1956

Bom, nada disso acontece nesse relato de viagem. Pelo menos, não dessa forma. Por conta disso, se você não acompanha a trajetória kerouakiana vai achar esse relato uma perda de tempo, por isso deixe Satori em Paris de lado e tente Vagabundos iluminados, Viajante solitário ou Big Sur, três ótimas escolhas pós leitura On the road.

Muito bem. Agora vamos pensar em Satori em Paris de uma maneira diferente, supondo que você já conheça um pouco de literatura beat em geral e de Kerouac em particular. De primeira, um fato: duvido que esta obra esteja entre as mais queridas dos leitores de Kerouac, mas mesmo assim há alguns pontos em Satori que devem interessar a quem busca entender um pouco mais a personalidade desse grande escritor.

A viagem é um ponto relevante: Kerouac busca a estrada para encontrar respostas. Ainda que não tenha efetivamente seguido o curso completo do itinerário a que se havia proposto cumprir – por conta das bebedeiras constantes - parece que no final sentiu ter atingido seu objetivo. Até escreveu uma passagem bonita, que transcrevo abaixo:

“Eu já estava com saudade de casa. Contudo este livro é para provar que não importa como você viaje, quão ‘bem-sucedida’ seja sua jornada, ou abreviada, você sempre aprende alguma coisa e aprende a mudar seus pensamentos.”

A questão do satori. É preciso entendê-la dentro do contexto dessa narrativa. Kerouac aproximou-se do budismo em 1954, após uma fase de grande esgotamento intelectual e provavelmente psíquico também; sentindo-se sozinho e desamparado, encantou-se com uma máxima do budismo que afirma que “toda a vida é sofrimento”. Foi um gatilho que disparou na hora certa: o budismo, uma filosofia que, finalmente, era capaz de traduzir suas mais profundas questões interiores.

Jack começou a ler os grandes textos do budismo e também do hinduísmo e toda aquela sabedoria oriental lhe fazia muito sentido e, podemos supor, dava-lhe certo conforto espiritual. Traduziu do francês os sutras do budismo e chegou a escrever uma biografia do Buddha. Levou tudo aquilo muito a sério, ainda que jamais tenha deixado a birita de lado. O budismo, como não poderia deixar de ser, ainda mais em se tratando de um autor tão intenso quanto Kerouac, acabou entrando no corpo de sua obra, pelo que podemos afirmar que na bibliografia kerouakiana existe uma “fase (zen) budista”, tal como a fase azul ou rosa de um Picaso ou a fase católica de um Bob Dylan.

Entretanto, e isso é muito relevante, Jack jamais abandonou sua fé católica, por mais simpático que tenha sido à doutrina budista. Acredito que nesse ponto Jack não se diferencie em nada dos adeptos da Nova Era, onde a mistura de várias idéias, condutas e práticas espirituais não entram em conflito com a religião do praticante. Em outras palavras: pode-se ser católico, frequentar a missa aos domingos, mas isso não impede a pessoa de participar de outras práticas religiosas, como a umbanda o candomblé ou o kardecismo, fato tão corriqueiro aqui no Brasil. Acredito que Kerouac não via o budismo como uma outra religião (coisa que, teoricamente, não é mesmo), mas sim como uma sabedoria que vinha preencher um espaço que sua religião não era capaz de preencher.

E é isso o que justifica aquilo que eu estou tentando escrever aqui tomando certo cuidado com as palavras. Pois, a partir do momento em que você interpreta o conhecimento de uma tradição espiritual fora do contexto em que ele foi escrito, por exemplo, buscando idéias aleatórias fazendo-as se encaixar um sua própria linha de pensamento ou discurso (“toda a vida é sofrimento”), corre no mínimo dois grandes riscos: o primeiro, a deturpação do conhecimento, e o segundo, talvez menos perigoso, pecar pela superficialidade.

E Kerouac foi superficial em Satori em Paris? Absolutamente. Mas um leitor desavisado vai achar que sim. Só que, no contexto da obra e da vida de Jack (uma frase absurda já que em Kerouac a vida e a obra estão completamente conectadas), o uso dos termos budistas soam totalmente plausíveis, fazendo sentido onde aparentemente não há sentido algum.

E essa complexidade kerouakiana faz parte do jogo, meu amigo, por isso é que considero a leitura dos livros de Kerouac um desafio muito mais do que uma diversão. Daí que, para arrematar, dou a dica: o satori de Jack aconteceu sim, no contato dele com o outro (no caso, os outros). Uma questão, portanto, de alteridade, a mensagem que o filósofo Martin Buber nos deixou, a de que o ser humano só se realiza na relação com o outro. Pegou?

Por isso, se você gosta de Kerouac, experimente ler Satori em Paris como quem busca conhecer um pouco melhor a alma de um homem que apesar de haver sucumbido ao vício, conseguiu ser lúcido o suficiente para escrever sobre as condições mais profundas da alma humana. Finalizo com as palavras do escritor:

“Meus modos, por vezes abomináveis, podem ser meigos. Virei um bêbado enquanto envelhecia. Por quê? Porque gosto do êxtase da mente. Sou um Desgraçado. Mas amo o amor.”


Leia: Satori em Paris. Jack Kerouac. Tradução de Lúcia Brito. Coleção L&PM POCKET. Verão de 2010.
As fotos desse post foram tiradas de um blog bacaníssimo: http://rarerarefind.blogspot.com/






Um comentário :

  1. Oi Paulão, esqueceu de me comunicar sobre a nova postagem? Isso não se faz! Agora estou sem tempo de ler, mas amanhã devorarei esta matéria. De cara amei as fotos e o assunto. Beijocas, até mais! Pá

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