quarta-feira, 14 de abril de 2010

Sabedoria do deserto: Você tem o relógio, eu tenho o tempo

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Li no blog do Luis Pellegrini um texto que me encantou e que gostaria de compartilhar com os leitores e as leitoras do Odepórica. Trata-se de uma entrevista concedida ao jornalista do periódico espanhol La Vanguardia (em 01/02/2007), Victor M. Amela, pelo escritor tuareg Moussa Ag Assarid. O título original em espanhol, Tú tienes reloj, yo tengo tiempo, já dá uma chacoalhada na gente, não? E é mesmo isso, leitura leve e profunda, faz a gente pensar no rumo que temos dado às nossas vidas nessa passagem pelo planeta azul. Leia e reserve um tempinho para refletir.


Você tem o relógio, eu tenho o tempo.

(tradução: Luis Pellegrini)




- Não conheço minha idade: nasci no deserto do Saara, sem endereço nem documentos…! Nasci num acampamento nômade tuareg entre Timbuctú e Gao, ao norte do Mali. Fui pastor dos camelos, cabras, cordeiros e vacas que pertenciam a meu pai. Hoje, estudo Administração na Universidade de Montpellier, no sul da França. Estou solteiro. Defendo os pastores tuaregs. Sou muçulmano, mas sem fanatismo.
- Que turbante bonito!
- É apenas um tecido fino de algodão: permite cobrir o rosto no deserto quando a areia se levanta e, ao mesmo tempo, você pode continuar vendo e respirando através dele.
- Sua cor azul é belíssima…
- Ela é a razão pela qual chamam a nós, tuaregs, de homens-azuis: o tecido aos poucos desbota e tinge nossa pele com tons azulados.
- Como vocês produzem esse intenso azul anil?
- Com uma planta chamada índigo, misturada a outros pigmentos naturais. O azul, para os tuaregs, é a cor do mundo.
- Por que?
- É a cor dominante: a do céu, a do teto da nossa casa.
- Quem são os tuaregs?
- Tuareg significa “abandonado”, porque somos um velho povo nômade do deserto, um povo orgulhoso: “Senhores do Deserto”, nos chamam. Nossa etnia é a amazigh (berbere), e nosso alfabeto, o tifinagh.
- Quantos vocês são?


- Cerca de três milhões, a maioria ainda nômades. Mas a população diminui… “É preciso que um povo desapareça para que percebamos que ele existia!” denunciou certa vez um sábio: eu luto para preservar o meu povo.
- A que ele se dedica?
- Ao pastoreio de rebanhos de camelos, cabras, cordeiros, vacas e asnos, num reino feito de infinito e de silêncio.
- O deserto é mesmo tão silencioso?
- Quando se está sozinho naquele silêncio, ouve-se as batidas do próprio coração. Não existe melhor lugar para quem deseja encontrar a si mesmo.
- Que recordações da sua infância no deserto você conserva com maior nitidez?
- Acordo com o sol. Perto de mim estão as cabras de meu pai. Elas nos dão leite e carne, nós as conduzimos onde existe água e grama… Assim fez meu bisavô, meu avô e meu pai… E eu. No mundo não havia nada além disso, e eu era muito feliz assim!
- Bem, isso não parece muito estimulante…
- Mas é, e muito. Aos sete anos de idade, já permitem que você se afaste do acampamento e descubra o mundo sozinho, e para isso lhe ensinam coisas importantes: a cheirar o ar, a escutar e ouvir, a aguçar a visão, a se orientar pelo sol e as estrelas… E a se deixar conduzir pelo camelo; se você se perde, ele lhe conduzirá onde existe água.
- Esse é um conhecimento muito valioso, não há dúvida…
- Lá tudo é simples e profundo. Existem poucas coisas no deserto, e cada uma delas possui grande valor.
- Assim sendo, este mundo e aquele são bem diferentes, não é mesmo?
- Lá, cada pequena coisa proporciona felicidade. Cada roçar é valioso. Sentimos uma enorme alegria pelo simples fato de nos tocarmos, de estarmos juntos! Lá ninguém sonha com chegar a ser, porque cada um já é.

- O que mais o chocou ao chegar pela primeira vez na Europa?
- Ver a gente correr nos aeroportos. No deserto, só corremos quando uma tempestade de areia se aproxima. Fiquei assustado, é claro…
- Corriam para buscar suas bagagens…
- Sim, devia ser isso. Também vi cartazes mostrando moças nuas: por que essa falta de respeito para com a mulher?, Perguntei-me… Depois, no Hotel Íbis, vi uma torneira pela primeira vez em minha vida: vi a água correr… e tive vontade de chorar.
- Que abundancia, que desperdício, não é mesmo?
- Até então, todos os dias da minha vida tinham sido dedicados à procura d’água. Até hoje, quando vejo as fontes e chafarizes decorativos que existem aqui, sinto uma dor imensa dentro de mim.
- E por quê?
- No começo dos anos 90 houve uma grande seca, os animais morreram, nós adoecemos… Eu tinha uns doze anos, e minha mãe morreu… Ela era tudo para mim. Contava-me histórias e ensinou-me a contá-las bem. Ensinou-me a ser eu mesmo.
- Que aconteceu com sua família?
- Convenci meu pai a deixar-me frequentar a escola. Todos os dias eu caminhava quinze quilômetros para chegar até ela. Até que um professor arrumou uma cama para eu dormir, e uma senhora me dava comida quando eu passava em frente à sua casa. Entendi: era minha mãe que me ajudava…
- De onde veio essa paixão pelos estudos?
- Dois anos antes, o rally Paris-Dakar passou pelo nosso acampamento, e caiu um livro da mochila de uma jornalista. Eu o apanhei e devolvi a ela. Mas ela me deu o livro de presente e disse que ele se chamava “O Pequeno Príncipe”. Naquele instante prometi a mim mesmo que um dia seria capaz de lê-lo…
- E você conseguiu…
- Sim. Foi assim que consegui uma bolsa para estudar na França…
- Um tuareg na universidade!
- Do que mais tenho saudade é do leite de camela. E do fogo de madeira. E de caminhar descalço sobre a areia tépida. E das estrelas: lá, nós as admiramos todas as noites, e cada estrela é diversa da outra, como cada cabra é diversa da outra. Aqui, à noite, vocês ficam vendo televisão.
- Sim. Na sua opinião, qual é a pior coisa que existe aqui?
- A insatisfação. Vocês têm tudo, mas nada lhes é suficiente. Vivem se queixando. Na França, passam a vida queixando-se. Vocês se acorrentam por toda a vida a um banco por causa de um empréstimo, e existe essa ânsia de possuir, essa correria, essa pressa. No deserto não existem engarrafamentos, sabe por que? Porque lá ninguém quer passar à frente de ninguém!
- Relate um momento de felicidade intensa que você viveu no seu distante deserto.
- Esse momento ali se repete a cada dia, duas horas antes do pôr-do-sol: o calor diminui, o frio da noite ainda não chegou, homens e animais retornam lentamente ao acampamento e seus perfis aparecem como recortes contra o céu que se tinge de rosa, azul, vermelho, amarelo, verde…
- É fascinante. E então…
- Esse é um momento mágico… Entramos todos na tenda e fervemos a água para o chá. Sentados, em silêncio, escutamos o barulho da água que ferve… A calma toma conta de nós… As batidas do coração entram no mesmo compasso dos gluglus da fervura…
- Que paz…
- Aqui vocês têm o relógio; lá, temos o tempo.



*
Se você se interessou pelo escritor tuareg, saiba que há um livro dele publicado em espanhol que deve ser muito interessante, quem sabe teremos a sorte de vê-lo publicado por aqui. Achei num site espanhol uma pequena resenha da obra. (A tradução do título para o português é “No deserto não há congestionamentos”)

En el desierto no hay atascos
Un tuareg en la ciudad. 3ª Edición ampliada con mapas
Moussa Ag Assarid
Travesías / Editorial Sirpus


Alberto de Satrústegui

Moussa Ag Assarid lleva el viajar en la sangre. Nacido en el norte de Mali hacia 1975, hijo de padres nómadas y primogénito de una familia de trece hijos. Con 23 años, el joven tuareg llega a Francia y cambia los dromedarios de su infancia por el TGV y el metro. Siempre en movimiento e interesado en conocer a los demás, Moussa describe en esta obra su fascinación y perplejidad ante el mundo occidental que va descubriendo: su naturaleza, sus habitantes, sus costumbres y todo aquello que no percibimos porque nos hemos acostumbrado a verlo. Las anécdotas y comentarios que cuenta, como la cama del hotel, tan grande que podrían dormir en ella todos los niños de su jaima, el milagro del agua que sale de los grifos, la magia de las escaleras mecánicas y las puertas automáticas... son a un tiempo divertidos y enternecedores, y además muy lúcidos, sin ocultar a veces la decepción por cosas como la falta de tiempo y de calor humano. Su texto, siempre impregnado por su cultura y por su arte de vivir nómada, constituye para los occidentales una ocasión de sonreír pensando en nosotros mismos.

11 comentários :

  1. Oi Paulo, amei o texto e as fotos! Beijos, Pá

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  2. El contenido es espectacular,para el mundo en que estamos viviendo,se ha
    perdido el convivir de las personas,la naturaleza.

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  3. Verdad...aunque así, me gusta saber que todavía hay mucha gente que piensa y actúa de manera distinta a los demás. Saludos, pc

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  4. Adorei sua publicação...

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  5. Ola, meu avô nascido em Damasco costumava contar histórias do deserto, era eximio contador.
    Visto estar familiarisado com essa cultura, me emocionei bastante com tal sabedoria que fluiu de dentro de um jovem.
    Quem lhe ensinou? Acho que deve ter sido o deserto, o silêncio, a alegria em viver.
    Lição de vida, coração que transborda, sentir a natureza em cada particula que lhe surge, ter o ceu como telhado, ter uma gota dágua como uma fonte, poder tocar alguem como sinomimo de querer, abraçar as estrelas como se as tivesse nas mãos
    Lindo

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  6. Que bonito, Anônimo. Obrigado por compartilhar!

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  7. Realmente é um texto bem legal.

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