sexta-feira, 23 de abril de 2010

Leitura essencial: A arte da peregrinação, by Phil Cousineau. Parte I

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De todos os livros que já li sobre viagem – e não foram poucos – A arte da peregrinação: para o viajante em busca do que lhe é sagrado, de Phil Cousineau, é de longe o que mais me encantou. É também o livro a que sempre recorro antes de empreender qualquer viagem um pouco mais elaborada, como meio de obter inspiração para a nova aventura.

O que faz dessa obra uma leitura indispensável é a maneira como Phil Cousineau tratou a questão da viagem, ou mais especificamente, da peregrinação. E é aqui que ele inovou: escreveu sobre o ato sagrado da peregrinação sem lhe dar necessariamente uma conotação religiosa; é necessário dizer que outros estudiosos já haviam trilhado o mesmo caminho de Cousineau, sendo um bom exemplo o renomado antropólogo Victor Turner, que produziu textos preciosos e fundamentais sobre peregrinação e ritos de passagem. Mas ao contrário de Turner, Cousineau não faz parte do ambiente acadêmico, o que dá ao seu texto uma amplitude e liberdade de abordagens muito maior, atingindo um público bem mais aberto do que o público acadêmico.

O livro de Cousineau é dividido em sete capítulos; a tradução e a apresentação à edição brasileira não poderiam ter sido feitas por alguém mais capacitado do que Luiz Carlos Lisboa, um autor muito procurado aqui no Odepórica, por conta de suas sábias palavras no cult Nova Era. Um trechinho do Lisboa só para matarmos saudades, que tal?

“A história cultural e religiosa dos diferentes povos do mundo – isso que chamam de história da humanidade – parece feita mais de travessias, perambulações e andanças de diversos tipos do que de qualquer outra coisa. Viagens longas e curtas, curtidas na realidade ou sonhadas, em busca de um tesouro ou, talvez, somente da esperada volta ao lar, fizeram em todos os tempos parte inseparável da existência daquele homem que, apesar de tudo o que experimentou e teve vida afora, nunca matou de fato sua fome interior.”


“Qual é o verdadeiro viajante?”, perguntava o persa Shabestari. “É aquele que viaja por si mesmo, esteja em casa repousando ou caminhando no deserto. O que suas pernas fazem pode ser maravilhoso”, prosseguia ele, “mas fundamental, de fato, é para onde sua alma está voltada”.

Essa bonita apresentação já serve para dar uma pista sobre aquilo que você irá encontrar adiante na obra do Cousineau, e a providencial passagem da sabedoria persa escolhida por Lisboa é um resumo perfeito da mensagem que esse livro tenta passar através de seus inúmeros relatos e imagens, pinçados a dedo pelo autor. Não pense que as viagens de Cousineau terão sempre como destino um lugar sagrado de alguma tradição religiosa. Nada disso, embora isso evidentemente faça parte do pacote.

Para isso temos que dar ao termo “sagrado” uma definição bastante abrangente, o que já vem acontecendo há muito tempo e o que, também, fez com que seu uso se tornasse tão banalizado a ponto de muitos evitarem seu uso. Mas como não estamos preocupados com essa discussão aqui, por hora proponho o seguinte: vamos entender como sagrado tudo aquilo que não é profano. Simples? Nem tanto, porque agora é preciso definir o real significado do profano, daí eu teria que pedir para você ler alguns textos do Mircea Eliade, um estudioso romeno que entende como ninguém do assunto, mas isso eu sei que você não fará agora. Então, por hora, entendamos assim: o sagrado é aquilo que, para você, tem o poder de tocar profundamente seu coração – ou sua alma, se você for do tipo mais transcendental. Resolvido? Ok, sigamos em frente que a estrada é longa.

No prefácio da obra, a cargo de Huston Smith, um professor de história da religião da Universidade de Berkeley, na Califórnia, temos uma introdução muito interessante sobre o objetivo das peregrinações, um texto que merece ser destacado aqui. Como tem muito a ver com a egrégora do Odepórica, faço questão de transcrever algumas passagens. Vamos lá:

“O objetivo da peregrinação não é o descanso e recreação – para descansar de tudo o mais. Empreender uma peregrinação é aceitar o desafio de deixar de lado a vida cotidiana. Nada mais interessa, então, a não ser essa aventura. Os viajantes se acotovelam no trem onde farão a jornada que pode durar vários dias. Depois dela, há uma estrada pedregosa a ser vencida a pé – um áspero e duro caminho numa paisagem em que tudo é novo. O brilho nu da montanha sagrada excita a imaginação; a aventura da autoconquista apenas começou. As condições podem variar, mas a essência é sempre a mesma.”

“Viajar traz consigo um tipo especial de sabedoria, se estamos abertos para isso. Em casa ou fora dela, as coisas do mundo nos empurram com tamanha força gravitacional que, se não estivermos alertas nossa vida inteira, poderemos ser tragados por sua força centrípeta. A viagem atenta nos permite perceber isso, porque o cenário constantemente mutável dessa força nos ajuda a ver por intermédio das pretensões do mundo. Com as suas características fantasmagóricas e caleidoscópicas reveladas, podemos vê-la como de fato é – maya se esvaecendo perpetuamente -, o que faz o mundo perder sua sedução. Compreendemos como a perambulação constante pode ser uma vocação espiritual para certos peregrinos dedicados e sannyasins.”

“O que podemos aprender com eles, com esses peregrinos que nos precederam? Muito, mas quero me contentar com uma ou duas coisas. Eles nos aconselham a estar preparados para descobrir que, do ponto de vista espiritual, uma jornada é sempre um pouco uma espada de dois gumes, devido à dispersão que resulta do contato com tanta coisa nova. Não podemos simplesmente nos fechar a essas novidades, ou seria melhor ficar em casa – se vamos viajar, vamos naturalmente aprender alguma coisa. Mas se as novidades ameaçam nos dominar, elas podem às vezes endurecer nosso ego, como se numa reação ao medo de perder a nós mesmos, em meio à dispersão, achássemos necessário reforçar nossa identidade. A pequenez dessa identidade, sem dúvida, traz sofrimento, que começa com sentimentos de impaciência e contrariedade. A arte consiste em aprender a dominar a situação hoje, inevitável, com tanta equanimidade quanta pudermos contar, preparando-nos para enfrentar suas conseqüências amanhã. Ao longo desse treinamento veremos muito claramente como é essencial adquirir um conhecimento da nossa vizinhança pela concentração em nós mesmos, não em algum lugar do mundo exterior.”

Beleza? Bueno. Com aperto no coração deixo de lado algumas páginas da introdução propriamente dita, feita pelo autor, antes dos capítulos iniciais. Gostaria de transcrever linha por linha, mas se agisse assim, acabaria por fazer o mesmo com todo o restante da obra, de modo que vou fazer um pequeno recorte, de um trecho em que Phil escreve sobre peregrinação.

“Ao longo dos anos, participei de muitas formas tradicionais de peregrinação religiosa, assim como das formas modernas e seculares, e segui as trilhas de uma série de viajantes através da história. Estou convencido de que a peregrinação é ainda um autêntico rito de renovação espiritual. Mas também acredito na peregrinação como uma poderosa metáfora de qualquer jornada feita com o propósito de encontrar alguma coisa de profunda importância para o viajante. Com um aprofundamento de foco, cuidadosa preparação, atenção voltada para a trilha sob nossos pés e respeito pelo destino da caminhada, é possível transformar até a viagem mais comum numa viagem sagrada, numa peregrinação. (...) O que os viajantes lendários nos ensinaram desde Pausânio e Marco Polo é que a arte da viagem é a arte de ver o que é sagrado.”

“Peregrinação é o tipo de jornada que estabelece a diferença entre o atento e o negligente, entre o banal e o inspirado. Essa diferença pode ser sutil ou dramática; por definição, ela é fundamental. Significa estar alerta para a ocasião, em que tudo o que se faz necessário numa viagem a um lugar remoto é tão-somente deixar-se perder a si próprio, e estar atento à ocasião, em que tudo o que é preciso é uma jornada a um lugar sagrado, como todos os seus aspectos gloriosos e temíveis para o encontro consigo mesmo.”

Creio que com isso já temos o suficiente sobre a parte mais teórica dessa obra no que concerne ao tema da peregrinação. Mais à frente veremos outros pontos de destaque sobre o tema, mas é chegada a hora da pergunta: a quem se destina “A arte da peregrinação” ? O próprio autor responde:

“Destina-se a viajantes ‘de encruzilhadas’ – aqueles que têm o desejo profundo de fazer uma significativa ou simbólica jornada e precisam de alguma inspiração e de umas poucas ferramentas espirituais para tomarem a estrada. É também para aqueles que, com freqüência, viajam a negócios ou nos feriados, que aproveitariam umas dicas para fazer suas viagens mais inesquecíveis. No âmago deste livro está a crença de que, virtualmente, cada viajante pode transformar qualquer jornada em peregrinação com o desejo de encontrar pessoalmente alguma coisa sagrada ao longo do caminho.”

“(...) A arte da peregrinação destina-se àqueles que desejam embarcar em alguma jornada com uma profunda finalidade em vista, mas estão inseguros sobre como se preparar ou fazê-la durar. Como o título sugere, o livro dá ênfase à arte da peregrinação, que para mim não é mais do que a habilidade para criar pessoalmente sua própria jornada, e a prática cotidiana de apreciar, degustar e absorver cada um dos seus estágios.”

Agora sim podemos, definitivamente, tratar dos capítulos que dão corpo à obra. Achei interessante colher pequenos trechos de cada um deles, para que você tenha uma noção ainda mais aprofundada do livro, embora tudo isso sirva apenas como um aperitivo, pois minha intenção é a de fazer com que você, depois de ler esses posts, saia correndo desesperadamente atrás dessa obra, que já aviso, é facinha, facinha de sebar.

Diz o Phil que os sete capítulos do livro seguem a “rodada” universal da jornada sacra, explorando os caminhos nos quais os ritos comuns da peregrinação podem inspirar os equivalentes modernos dos viajantes de hoje. Como o peregrino famoso de John Bunyan, o livro progride de O anseio para O chamado, que acena para que avancemos, e daí vai para o drama de A partida, O caminho do peregrino e, depois, para O labirinto e A chegada, fazendo antes o círculo completo do desafio de Trazendo de volta a benção. Interessante, não? Mas isso tudo fica para a segunda parte dessa matéria, a ser postada em breve. Enquanto isso, que tal conhecer um pouco melhor o Phil Cousineau? (esse aí da fotinho abaixo com cara de cansado)

Nascido em 1952, na Carolina do Sul, Phil Cousineau cresceu em Wayne, Michigan. Enquanto mantinha um segundo emprego numa fábrica de peças de automóveis, estudou jornalismo na Universidade de Detroit. Sua vida perambulante levou-o a trabalhar como comentarista esportivo, jogador de basquete na Europa, agricultor num kibutz de Israel, pintor de 44 casas vitorianas em São Francisco e guia de aventurosas excursões turísticas ao redor do mundo.

Cousineau é escritor, editor, fotógrafo, guia de viagens, professor e diretor de documentários cinematográficos. Seu fascínio por arte, literatura, história e cultura fez com que participasse de jornadas pelo mundo inteiro. Suas conferências abrangem uma gama variada de temas, da mitologia ao cinema, projetos de preservação do meio ambiente, trabalhos comunitários, criatividade, organização e espiritualidade.

No Brasil, além de A arte da peregrinação (1999) foram lançados somente outros dois títulos de Phil Cousineau: o indispensável A jornada do herói: o trabalho e a vida de Joseph Campbell (1994), biografia de um dos mais renomados mitólogos estadunidenses, de quem Cousineau foi discípulo e amigo, e O ideal olímpico e o herói de cada dia (2004), em que o autor resgata a essência do espírito olímpico. Se você quiser saber um pouco mais sobre o Phil Cousineau e suas obras, acesse o site do moço clicando aqui.
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Ah sim, vamos dar os créditos às fotos? Pois bem, de cima para baixo:
Foto 1: Old Torii Gate, Japan. Circa 1900. Autor desconhecido.
Foto 2: Pilgrim in a forest road. Circa 1900. Autor desconhecido.
Foto 3: Monk descending temple steps. Circa 1900. Autor: Kozaburo Tamamura.
Foto 4: Meandering monk moves through the morning mist. Circa 1900. Autor: Kozaburo Tamamura.
Foto 5: Basket-headed monks. Peregrinos da ordem zen budista Komuso. 1904. Autor: Julian Cochrane.
Foto 6: Peregrinos budistas. Circa 1900. Autor desconhecido.
Todas as imagens foram obtidas na Galeria de Okinawa Soba no Flickr.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, fiquei encantada com a biografia do Phil Cousineau. Que espirito livre! Beijocas, Pá

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  2. Cheguei aqui por acaso, não era o que eu estava procurando mas foi o que eu precisava! Excelente blog! Vou indicar aos amigos. Parabéns.

    Lisi.

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  3. Nada é por acaso, não é mesmo Lisi? Nem mesmo a sua visita, que me deixou todo contente. Apareça mesmo! Saludos, paulo

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