sexta-feira, 9 de abril de 2010

Clássicos da Literatura Odepórica: Marinheiro de primeira viagem, by Osman Lins

.(Imagem tirada do site www.osman.lins.nom.br)

.

Eis um relato de viagem diferente. Nada de roteiros previsíveis, narrativas lineares e visões manjadas do mundo. Osman Lins, esse viajante que por acaso também foi um homem das letras, escritor de prestígio, traduzido para o francês, alemão e o inglês, era culto, espirituoso e tinha uma alma poética, coisa que você percebe assim, quase sem querer, entre uma passagem e outra desse relato de viagem publicado originalmente em 1963.

Osman Lins nasceu em Pernambuco no ano de 1924 e faleceu em 1978. Não vou me ocupar de sua biografia aqui, mas indicarei no final desse post um site completo e gostoso de ler sobre a vida e a obra dele, e sugiro que o leitor e a leitora passem por lá depois de acabar aqui. Entretanto, posso adiantar que para Osman, o ano de 1961 foi um dos mais importantes de sua vida. Aos 36 anos de idade, esse escritor pernambucano ganhou uma bolsa de estudos da Aliança Francesa - a qual soube aproveitar muito bem, dando um giro pela Europa num período de seis meses. Visitou a França, Bélgica, Holanda, Suíça, Itália, Inglaterra, Espanha e Portugal, nessa ordem tal e qual.

Começa o seu relato pelo fim, escrevendo desde um velho quarto de hotel de Lisboa, nada mais melancólico. Melhor: agradavelmente melancólico. Talvez você estranhe, assim como eu, a narrativa em terceira pessoa, adotada pelo viajante:

“Acaba de chegar a Lisboa, está num velho hotel – cujo nome, por displicência ou fadiga, não reteve – e onde jamais voltará a hospedar-se, mesmo que um dia aqui regresse, pois virão em breve demoli-lo, por causa do metrô. Hotel condenado à morte. (Vibram, implacáveis, as perfuratrizes.) É um dos últimos homens a dormir neste quarto.”

Duas ou três páginas e você logo se acostuma ao detalhe da terceira pessoa. Os textos são curtinhos, impressões de uma viagem já guardada na memória, como num flashback cinematográfico cheio de atitude. O autor é muito estiloso, você irá notar logo nas primeiras páginas, e passada aquela estranheza inicial, tudo flui que é uma beleza. Coisa boa é ler um relato de viagem escrito por quem sabe escrever.

Gostei de muitas coisas desse livro do Osman Lins, e a principal delas foi a maneira como o autor expressou seus sentimentos durante o deslocamento pelas inúmeras cidades que visitou. Seus textos são sempre fragmentados, dando a impressão de serem reflexões sobre a vida mais do que especificamente sobre a viagem que está acontecendo, mas ao mesmo tempo, de um jeito simples e poético, entregam de maneira sui generis a alma dos lugares, a essência de uma cidade - o que quase sempre se encontra muito distante dos pontos turísticos obrigatórios. Esse tipo de percepção é comum na linguagem fotográfica e dou um exemplo: uma imagem do Pão de Açúcar ou do Corcovado nos remete a uma ideia bastante óbvia do Rio de Janeiro, certo? Mas uma foto da calçada de Copacabana, com seu peculiar desenho ondulado pode mostrar, de um modo insinuante, muito mais do “espírito” carioca do que o Corcovado, tão associado que está ao papel de cartão postal da cidade.

É isso o que Osman Lins apresenta, não sei se intencionalmente, em seu relato de viagem, o que resulta num texto encantador, como você irá notar em algumas passagens que irei transcrever abaixo, mas antes disso quero comentar sobre outra qualidade que prezo demais nesse relato, algo que o distingue das narrativas de viagem vulgares, dessas que se aproximam mais de um guia turístico do que de literatura propriamente dita: o foco no ser humano.

Poucas são as passagens em Marinheiro de primeira viagem em que o autor não reserva uma observação, por menor que seja, sobre alguma pessoa; pode ser uma criança brincando num parque, um casal de idosos atravessando uma rua, uma babá passeando com um carrinho de bebê, um mendigo pedindo esmolas, um turista atrapalhado com um mapa nas mãos, qualquer coisa parecida com isso, não importa. Há uma necessidade - isso se torna evidente ao longo da leitura - em se observar o comportamento humano, mas de maneira respeitosa, sem julgamentos, quase como se estivéssemos lendo o relato de um voyeur, só que sem a conotação sexual ligada ao termo. Agucei sua curiosidade? Então veja um exemplo do que acabo de escrever acima e diga se não tenho um pouquinho de razão. A cena se passa num museu em Amsterdã. (Môça Olhando Van Gogh)

Sapatos baixos, calças azuis, casaco de lã negro. Bolsa de vime. Um chapeuzinho branco, cônico, trançado. Na mão, um volume de Shelley. No Museu Municipal, vai de quadro em quadro, de sala em sala, senta-se, levanta-se. Contemplação solitária e evidentemente encantada. Até então, vira reproduções ou quadros isolados. Agora, como num gráfico, vê a trajetória do artista, sua busca, os espectros de Milet, Seurat, Cézanne. Vai de quadro em sala, senta-se, levanta-se. O chapeuzinho cônico. Estudo de mãos. (Suas mãos são finas.) Gestos. (Os seus são lentos.) Uma linha estridente, outra que se perde, frágil, num pulso nu. Placidez e crispação. Busca. Também ela, na vida... Gestos. Em sombras e traços. Lavradores. Comedores de batatas. O velho, seu rosto nas mãos, este sombrio e mudo desespero. Amplo, geral e tão familiar, tão o desespero dela mesma, com seu chapéu trançado. Metamorfoses. O ir da sombra para a claridade, nesta arte que aos poucos amanhece, com a luz dos girassóis e dos trigais em fogo. Amarelo, luz, laranja, cadeira vazia. A solidão do cachimbo esquecido junto a um punhado de fumo. O quarto e a intimidade do jarro, a bacia, o pedaço de pão, a toalha pendurada, a janela entreaberta. Um pequeno mundo iluminado, onde os olhos febris, durante inumeráveis noites, longas horas, viram vermelhos e sonhos, verdes espaços, nenhum vazio, o artista que não dorme, debatendo-se entre cores. Amaria este mundo, se dele participara?

Observa o pintor. O chapéu de palha, a barba descuidada. Sente seu olhar que oprime, é como um peso, dor de mão estendida, não para de pedir. Mão que sempre oferece. E as mãos abandonadas das mulheres. E os rostos sofridos. Doçura inicial, rústica e surpresa, angustiada nos últimos retratos. Não nas paisagens, cada vez mais fluidas. Assemelham-se a plantas estes barcos, plantas aquáticas, o bar é lírico, as árvores manchas que fogem. A silhueta da ponte imita a da contempladora. Nuvens. Fumaça. Campos de trigo girando em círculos quentes, céu e labaredas. Levar consigo uma reprodução. Fazer com que caminhe, a sua vida, para uma identificação com a bela verdade do quadro. Tê-lo à sua frente, ali onde bem longe, um dia, a claridade das manhãs encontre alguma paz adormecida, algum desejo satisfeito, um pouco de beleza conquistada.


Lentamente, afasta-se. Calças azuis, casaco de lã. Vai envolvida em céus iluminados, trigais e girassóis, barcos, árvores flamantes. Ecoam docemente, seus passos miúdos, nas largas tábuas do chão. Compra a reprodução, Praia de Saintes-Maries. Admira-se de que, lá fora, Amsterdam esteja fria e que seja tão pálido o seu ar. Lerá talvez em Shelley: “Quando as candeias se apagam, morre a luz desfeita em pó.” Não totalmente. Em parte, apenas. Muito ficará, numa clareira, lembrança cintilante.



Que lembranças mais belas podem haver de uma visita a um museu do que esta que acabamos de ler? Quantas memórias de viagem não guardamos de situações que, objetivamente, não possuem qualquer importância? Somos capazes de lembrar detalhadamente daquela cafeteria onde apenas entramos para beber um cappuccino e descansar as pernas, mas não temos a mínima lembrança de como era, em seu interior, a catedral gótica situada em frente ao estabelecimento, a mesma em que gastamos horas apreciando os vitrais, atentos às informações detalhadas de um prestativo guia bilíngue.

Por isso achei esse texto de Osman Lins tão interessante, por apresentar uma maneira instigante de observar cenas ou situações corriqueiras aparentemente sem nenhum atrativo, mas que em suas palavras se tornam momentos quase mágicos por conta de sua sensibilidade e da beleza de sua escrita. E há outros momentos como esse que acabamos de ler. Separei alguns para sua apreciação. Não deixe de reparar na linguagem poética de alguns deles, na riqueza das descrições, no estilo do autor (e no seu momento cômico na pequena passagem intitulada Chanson). Em sua totalidade, essa obra de Osman Lins serve como um excelente modelo para quem deseja fazer, de suas memórias de viagem, algo que definitivamente mereça ser lido por alguém.

Volendam

Está sentado no barco, ao sol matinal. Vibra um sino, o barco larga as amarras, dirige-se a Volendam, cidade de pescadores, onde, segundo o poético anúncio de viagens, “tudo continua como no tempo de Vermeer”.


Contempla, sentindo a alma leve, as pessoas num restaurante, à beira do cais, as velas dos minúsculos navios, uma igreja bizantina, pombos e gaivotas, a cidade que se afasta. E também ao lado do seu barco, aquela manhã de maio, que navega sobre o mar sereno como ó céu.

Desce do barco, apanha agora um ônibus. A seu lado, vai a moça holandesa. Saia comprida, de listas brancas e azuis, uma blusa negra, cachecol multicor, um xale azul aos ombros. E óculos.

Na paisagem verde e calma, nenhum cartaz de publicidade. Corvos. Vacas de colete vermelho. Por toda parte, gente de pincel na mão, pintando as esquadrias das casas. Como se o país fosse um navio. Associações inesperadas: gaivotas voando sobre um rebanho de ovelhas; vacas e bois deitados entre as tulipas.

Afinal, Volendam. Casas bem cuidadas, envidraçadas, cheias de jarros pesados e com tapetes cobrindo as mesas, como em certos quadros de Rembrandt. Os interiores são mais claros; os tapetes, os mesmos. Anda pelas ruas, sentindo penetrá-lo aquela ordem pacífica. Cruza com mulheres e homens, todas elas vestidas à maneira de sua vizinha de ônibus, e os homens de negro, boné de pala curta, calças balão.

Desce ao porto. Cheiro de peixe, panos secando, gritos de gaivotas. Bandeirolas nas extremidades dos mastros, redes de pescar estendidas, parecendo véus de gaze negra. Mulheres tricotando, à porta das lojas. Os pescadores, com seus sapatos de madeira e o andar bamboleante, seguem ao longo do porto, falam para outros, que respondem dos navios. Um jovem, da proa de um barco, grita para uma mulher que está no cais. Ela é moça, ergue o braço, dá um adeus, sorrindo. E o grito é como que uma âncora lançada. Para sempre.


Quadro

Era domingo e chovia em Antuérpia, mas não naquele instante, em Grote Market. Jorravam, no meio da praça, as águas do chafariz. Em torno, poucas pessoas, todas imóveis. Nas graves fachadas dos prédios, lampiões enormes. Brilhavam, na catedral, os ponteiros do relógio dourado e no extremo da torre a bandeira belga ondulava. No alto de uma casa havia um bergantim, noutra uma águia, um leão noutra, noutra um cão sentado. Então começaram a soar, melodiosos, os sinos da catedral, uma menina surgiu e atravessou a praça, vagarosamente, em trajes de Primeira Comunhão, segui-a um menino de cabeça baixa, seu bandolim às costas, como um anjo músico. Dir-se-ia que era exclusivamente para ela, para a feliz menina de branco, que cantavam os sinos, na manhã de maio.

Sono (em Nápoles)


Viu crianças dormindo sobre uma carroça em movimento, garções dormindo no fundo de um bar, mulheres dormindo na sala, com a porta aberta, homens dormindo nos ônibus. Em certa rua, afastada do centro, uma barraca ocupava toda a largura da calçada. Tinha mesinhas ao lado, era coberta de esteira, com jarros de flores nas mesas, também na coberta. Um menino, com um regador, molhava a calçada e a rua. Depois, molhou um pedaço de sombra, sob a coberta de esteira. Colheu, num jarro, uma flor vermelha, forrou na sombra úmida o jornal, espreguiçou-se e deitou-se, com a flor no peito.

Chanson (em Paris)

Era uma linda tarde de verão, larará-larará, pôs numa sacola sanduíches, La Jalouise, uma garrafa dágua, apanhou o metro, larari, foi para Vincennes, se deitou sob as árvores, ô-laraô, e leu, comeu, bebeu, dormiu e desdormiu, laraí-lararaí, e o parque era como os parques numa tarde estival, crianças brincando, tralalá, vendedores de gelados, tralali, grupos que conversam, lalá, namorados, lalaí-lari, passeantes solitários, lourourô. E luz e sombra entre as árvores, cheiro de folhagem. Et cet aprés-midi fut pour lui une joyeuse chanson. Larará…



*


Para conhecer melhor o autor e sua obra acesse o ótimo site da Profa. Dra. Ermelinda Ferreira, da Universidade de Pernambuco (UFPE) clicando bem aqui.
*
As obras mais conhecidas de Osman Lins são as seguintes: O visitante (1955), Os gestos (1957), O fiel e a pedra (1961), Lisbela e o prisioneiro (1964), Avalovara (1973).
*
Marinheiro de primeira viagem, esse delicioso relato de viagem de Osman Lins, está fora de catálogo. A última edição saiu em 1980, mas não é difícil encomendar um pelo site da Estante Virtual.
*
Em 1977, um ano antes de partir para o andar de cima, Osman Lins publicou um outro relato de viagem, intitulado La Paz existe? que foi escrito a quatro mãos com sua esposa Julieta de Godoy Ladeira. Fácil de sebar, paguei pelo meu o preço de um sanduíche de padaria e logo, logo vou falar dele aqui também.


*
Veja que cara simpática tinha o Osman:



.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, o Osman aparenta muita simpatia mesmo, tanto na escrita quanto na fisionomia. Beijos, Pá

    ResponderExcluir