domingo, 28 de março de 2010

Viagens fantásticas: a Expedição Langsdorff

.

Do diário de viagem de Georf Heinrich von Langsdorff:

18 de Maio de 1825

Na manhã seguinte, apesar de o tropeiro ainda não ter voltado do Paraíba, dei ordens para selarem e carregarem os animais, para partirmos, ainda hoje, para o Paraibuna e Vargem, a 3 boas léguas daqui.

Por volta das 9h, estávamos todos prontos. Todavia, mal havíamos deixado o rancho, novamente os animais causaram confusão e tumulto. Alguns galoparam na frente, dando coices para trás e para frente; outros se embrenharam na mata; alguns correram para frente, outros para trás. Mesmo com todo o pessoal da tropa (cerca de 5 negros), sem o tropeiro, não tínhamos mãos suficientes para controlar os animais. Conseguiram juntar, às pressas, as caixas quebradas e a bagagem espalhada. Os animais foram recapturados e recarregados; os mais selvagens foram conduzidos com rédeas; e assim prosseguimos viagem.

Neste ponto, alguns de meus leitores certamente me diriam que eu não tinha necessidade de vir para o Brasil para presenciar essas cenas no dia-a-dia. A eles eu responderia que, na pátria européia, seria possível evitar cenas desse tipo. Mas quero, com ênfase e insistência, alertar os futuros viajantes para as inúmeras dificuldades a que, inevitavelmente, terão que se sujeitar no Brasil.

A propósito, é bem mais fácil e muito menos cansativo para um leitor, sentado em sua poltrona, ler superficialmente algumas observações, que, quem sabe, até lhe pareçam supérfluas, do que para um viajante no Brasil ter que esperar dias a fio a volta de animais perdidos e fujões, passar por todo tipo de incômodo, ficar sob um sol escaldante, transpirando constantemente e se desidratando, e ainda sujeito a passar fome e sede. Muitas vezes, na melhor das hipóteses, o que se consegue é uma refeição fibrosa, composta de feijão seco, toucinho e farinha de pão – diferente da farinha de mandioca, na medida em que esta é produzida a partir da tapioca ou amido que se obtém espremendo-se fortemente a raiz da mandioca.

Freqüentemente, nem por todo dinheiro do mundo se consegue a mais ordinária das cachaças. Não é raro o viajante ter que deitar seu corpo cansado sobre peles de boi duras, ao invés de sofás macios, sempre correndo o risco de ver destruída, dispersada ou perdida toda a sua bagagem, instrumentos valiosos e material de História Natural colhido.

É impossível fazer uma viagem confortável neste país (
p. 372 de "Os diários de Langsdorff", 1997).

Se você nunca ouviu falar da Expedição Langsdorff, aproveite a oportunidade para conhecer uma das mais extraordinárias viagens de expedição científica já realizadas ao mundo hispano-americano.

O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo apresenta e patrocina a sensacional exposição Expedição Langsdorff onde você terá o privilégio de apreciar um rico material iconográfico sobre a população indígena brasileira além de estudos sobre a flora e a fauna do país tal como observadas pelos expedicionários no século XIX. Eu fui à exposição e voltei empolgado para compartilhar um pouco com você, leitor(a), dessa história fascinante. Vou transcrever algumas passagens tiradas de um jornalzinho e de um folder encantador distribuídos gratuitamente aos visitantes (completando com outras informações que encontrei pesquisando na internet). Vamos lá?

Introdução

Com o apoio do czar russo Alexander I e de autoridades brasileiras, o naturalista alemão Georg Heinrich von Langsdorff (naturalizado russo), médico, botânico, zoólogo e antropólogo (1774-1852), então cônsul da Rússia no Rio de Janeiro, iniciou, em 1821, uma grande expedição de reconhecimento do interior do Brasil.

Imagem: O Barão Langsdorff

Artistas, botânicos, naturalistas e cientistas fizeram parte da empreitada – conhecida como expedição Langsdorff -, que, em oito anos, cruzou o país, partindo da Fazenda Mandioca, no Rio de Janeiro, e chegando até Belém, no Pará. Nesse período, de 1821 a 1829, os expedicionários percorreram cerca de 17 mil quilômetros do território brasileiro, a maior parte por rios, atravessando as províncias de São Paulo (um vilarejo de 15 mil habitantes), Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso, Amazonas e Pará.

As vicissitudes encontradas, especialmente doenças tropicais e mortes, não impediram a produção de mais de duas mil páginas de anotações manuscritas, além de diários, desenhos, aquarelas e registros cartográficos, nesta que é internacionalmente considerada como uma das mais importantes expedições científicas do século XIX.

Toda a produção foi encaminhada à Rússia e ficou desaparecida até 1930, quando foi encontrada nos porões do Museu do Jardim Botânico de São Petesburgo. A exposição Expedição Langsdorff oferece ao público brasileiro o contato com parte desse material, que traz aspectos da natureza e da sociedade de nosso país, sob a forma de desenhos e aquarelas, pouco conhecidos e em sua maioria inéditos, de Johann Moritz Rugendas (1802-1858), Aimé-Adrien Taunay (1803-1828), que morreu afogado no rio Guaporé, e Hercules Florence (1804-1879), um dos pais da fotografia no Brasil.

Imagem: Hercule Florence

No mundo contemporâneo é muito fácil registrar imagens, sons e textos. Celulares, internet, câmeras digitais e computadores tornaram nossas vidas cheias de informação. Será que podemos imaginar qual era a emoção de ver, no início do século XIX, um desenho de uma paisagem do novo continente? A importância do artista nesta época era diferente? E hoje, o que há de realmente novo para ser registrado?

Impressões de viagem

O ato de viajar comporta duas dimensões opostas, mas diretamente relacionadas: o olhar do viajante que se depara com o novo, e o olhar do morador local. O viajante se perde em paisagens, gestos, gostos, cores, cheiros e roupas diferentes ou estranhas, proporcionando aos sentidos uma multiplicidade de sensações. O residente segue a sua vida cotidiana, alheio ao seu papel de personagem integrante do imaginário do viajante.

Aquarela de Aimé-Adrien Taunay

Desde a abertura dos portos às nações amigas, o Brasil se tornou objeto de desejo dos pesquisadores europeus, muito por ser um lugar quase desconhecido pela Ciência. O alemão Langsdorff, integrante de uma expedição russa, se encantou com a promissora contribuição da exuberante natureza tropical, a ponto de quase se tornar um morador. Além de sua casa no Rio de Janeiro, ele adquiriu uma fazenda para criação de um centro de estudos, visitado, inclusive, por D. Pedro I.

No seu papel de viajante, Langsdorff desbravou matas, colheu amostras e registrou conhecimento. Como um quase residente, buscou melhorias para o Brasil, como o incentivo à proteção da fauna e da flora, a melhor relação com os índios e o desenvolvimento do transporte fluvial. Percorrendo o limite entre o estrangeiro e o morador, Langsdorff mostrou ao olhar do nativo a importância do patrimônio natural, às vezes esquecido por ser tão familiar. (Gustavo Gavião)

O artista viajante

Contando com apoio financeiro do governo russo, em 1821, Langsdorff dá início a sua expedição, tendo entre seus objetivos a realização de pesquisas científicas e a descoberta e estudo de produtos ainda desconhecidos no comércio europeu.

Serra dos Órgãos, de Johann Moritz Rugendas

Com ele viajavam pesquisadores de diversas áreas, como botânica, zoologia e cartografia. Além de anotações e catalogação de espécies da fauna e flora locais, foram realizados registros em desenho e aquarela. A princípio, o artistas Johann Moritz Rugendas é incubido de retratar paisagens, seus habitantes e costumes. No entanto, devido a divergências com o chefe da expedição, Rugendas abandona precocemente o grupo; seu posto é assumido por Aimé-Adrien Taunay que se destaca pela aguda observação dos povos indígenas, retratando-os em seus hábitos e transformações diante do contato com outros povos. Em seguida, Hercules Florence é contratado como segundo desenhista, vindo a produzir os registros de maior precisão e rigor científico. Sem grandes liberdades acerca dos temas que poderiam pintar ou desenhar, esses artistas viajantes seguiam, além dos apontamentos dos cientistas, as indicações de Langsdorff, que determinava o que deveria ser retratado e de que modo fazê-lo.

Resultados da Expedição Langsdorff

Da experiência dessa viagem são produzidos inúmeros relatos acerca da economia e dos costumes locais, tal como estudos da fauna e flora típicas. Além de registrar as informações recolhida com os habitantes das regiões, os participantes da expedição reúnem um incrível acervo botânico e zoológico reconhecido internacionalmente como representativo de regiões tropicais.

Do conjunto das obras produzidas pelos artistas, 358 aquarelas e desenhos encontram-se conservados no Arquivo da Academia de Ciências de São Petesburgo, além de cerca de 700 obras de Rugendas, Taunay e Florence, atualmente sob posse de coleções estatais e particulares. No total, foram confeccionados mais de 1000 desenhos e aquarelas durante a expedição Langsdorff.

Pintura de Johann Moritz Rugendas

Os resultados dos estudos cartográficos possibilitaram a produção de 36 mapas e plantas das cidades por Néster Rubtsov. Este acervo está conservado no Arquivo Naval Russo, em São Petesburgo, e estão apresentados na íntegra nesta exposição.

Os esforços da caça e da taxidermia por Langsdorff, Ménétriès e os caçadores que acompanhavam o grupo propiciaram a reunião de grandes coleções zoológicas, nas quais se incluem mamíferos, aves, peixes, répteis e insetos. No acervo ornitológico encontram-se quase 1000 aves empalhadas contendo o nome de Langsdorff. Este material encontra-se hoje conservado no Instituto de Zoologia da Academia de Ciências em São Petesburgo.

O herbário – com quase 100 mil exemplares e 12 mil espécies – e as coleções dendrológica (estudo de madeiras de plantas lenhosas) e de frutos e sementes – com 5 mil objetos organizados por Langsdorff e Riedel – são considerados únicos no gênero e de imprescindível valor científico. A partir deste acervo, foi possível determinar cerca de 15% das espécies botânicas da flora brasileira. Em homenagem aos pesquisadores, alguns gêneros e quase 30 espécies receberam o nome de Langsdorff; um gênero e seis espécies foram dedicados a Riedel. Tudo isso está conservado no Instituto de Botânica da Academia de Ciências em São Petesburgo.

O estudo das etnias indígenas com as quais se deparam ao longo do percurso é de amplo interesse. A realização de estudos lingüísticos também abrange dialetos, organizando registros de vocabulários indígenas. Foram reunidos cerca de 100 objetos etnográficos da cultura e dos costumes de tribos indígenas. Tal coleção está conservada no Museu de Antropologia e Etnografia da Academia de Ciências, o Kunstkamera, em São Petesburgo.

Aquarela de Hercules Florence

Mais de 4000 páginas de manuscritos incluem dados valiosos para estudo nas áreas de geografia, botânica, zoologia, medicina, economia, estatística, história, etnografia e linguística. Este acervo encontra-se agora conservado no Arquivo da Academia de Ciências em São Petesburgo.

Como você já deve ter percebido, há um material gigantesco para ser explorado sobre o tema, desde os diários de viagem às belíssimas aquarelas e o bom é que parte disso está disponível em livros, alguns esgotados, mas para isso servem as boas bibliotecas, certo? OK. Por isso, uma boa imersão nessa aventura exploratória, que muito acrescenta à nossa história brasileira pode ser feita gratuitamente na exposição Expedição Langsdorff no CCBB de São Paulo até 25 de abril. Após essa data a exposição seguirá para Brasília (11 de maio a 18 de julho) e Rio De Janeiro (03 de agosto a 26 de setembro). Uma dica: antes de percorrer a exposição veja o documentário No caminho da expedição Langsdorff (lá na própria exposição), de Maurício Dias, sobre a viagem que refez a Expedição em 1999, com a presença da simpática artista plástica Adriana Florence, tataraneta de Hercules Florence, o próprio.

Sugestões de leitura:

Expedição Langsdorff: acervo e fontes históricas. Boris Komissarov. Editora Unesp. 1ª edição 1994.

A Expedição do Acadêmico Langsdorff ao Brasil. G.G. Manizer. Editora Nacional. 1967.

Os Diários de Langsdorff. Vols. I, II e III. Danuzio Gil Bernardino da Silva (org). Editora Fiocruz. 1997.

Viagem fluvial do Tietê ao Amazonas: de 1825 a 1829. Hercules Florence. Edições Melhoramentos. 2ª edição. 1948.

No Caminho da Expedição Langsdorff. Adriana Florence. Ed. Melhoramentos. 2000.

O viajante Hércules Florence: Águas, Guanás e Guaranás. Dayz Peixoto Fonseca. Editora Pontes. 2007.

3 comentários :

  1. Oi Paulo, belo texto. Deu vontade de fazer uma viagem rápida apenas para apreciar esta exposição. Imperdível! Beijocas, Pá

    ResponderExcluir
  2. Vengas! Merece la pena...
    besito, pc

    ResponderExcluir
  3. Parabens pela divulgação de Langsdorff o " PAI DA ECOLOGIA MUNDIAL" SERGIO

    ResponderExcluir