quarta-feira, 10 de março de 2010

Peregrinos de inverno

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Há quinze anos eu completava pela primeira vez a peregrinação a Santiago de Compostela. Foi um inverno razoável o de 1995, alguns poucos dias chuvosos e neve em apenas duas ou três ocasiões. O frio incomodava muito à noite, nas regiões montanhosas, e quase sempre no momento de abandonar o saco de dormir. Hábitos corriqueiros como escovar os dentes e lavar o rosto pela manhã pediam uma certa dose de coragem e, em algumas ocasiões, que não foram poucas, amarrar as botas era tarefa difícil, por causa do tremor das mãos, que não obedeciam o comando da cabeça. Parte dessas e de outras dificuldades foram ocasionadas pela absoluta falta de preparo e material adequado à empreitada.

Hoje é fácil, mas em 1995 poucos brasileiros haviam feito o Caminho de Santiago. Meu único referencial eram os artigos de jornais e revistas que fui colecionando ao longo dos anos, lidos e relidos até quase decorá-los. Embora já existisse para o resto do planeta, a internet ainda não era uma realidade na minha vida; para se ter uma ideia, eu era estudante de jornalismo, e a sala de redação da Cásper ainda era na base da datilografia e no currículo ainda tínhamos que aprender taquigrafia. Na marra.

Bons tempos. Alguns meses antes da viagem consegui ler quatro livros sobre o CS, relatos de viagem de Anna Sharp, Máqui, Lizia Azevedo e Baby do Brasil, todos eles influenciados fortemente pela peregrinação do Paulo Coelho. Esses primeiros viajantes-escritores iriam mais tarde influenciar toda uma geração de peregrinos, sendo chamados jocosamente pelos espanhóis de peregrinos coelhistas. Eu também, admito, fui um deles.

Volto à questão do meu despreparo. Parti do Brasil com uma mochila pesando dezessete quilos, algo totalmente insano se você for levar em consideração que, para uma viagem desse porte, a mochila não deve ultrapassar dez por cento do seu peso corporal. Posso garantir que eu não pesava cento e setenta quilos, a foto está aí em cima para comprovar. Dentro da mochila um absurdo de elementos logo abandonados numa estrada, no segundo dia de caminhada: doze pares de meias, seis cuecas (sete, com a do corpo), seis camisas de manga comprida, um sleeping de dois quilos e meio, um par de tênis, uma nécessaire pesada com artigos de higiene e outra igual com artigos de farmácia, pedras (!) para regalar pessoas, blusa de lã, cachecol e luvas e outras coisas das quais nem me lembro mais.

As botas. Não poderia ter escolhido nada pior para calçar. Botas de couro, tipo coturno do exército, sabe como é? Sem amaciar. Tem idéia do estrago? Bolhas. Muitas bolhas do primeiro ao último quilômetro. E dor nas costas, nos joelhos e as temidas e assustadoras tendinites. O estrago em mim foi grande, ao ponto de, no último terço da viagem, eu só conseguir caminhar com a coluna paralela ao solo, numa média de quatro quilômetros por hora - em terreno plano. Houve um dia em que, ao ver o meu estado ao entrar num pueblo, uma velhinha chegou a chorar, e me levou de mãos dadas até a porta do refúgio.

Naquela época os refúgios no inverno quase nunca tinham água caliente. Ficar sem banho, portanto, era frequente, e meu recorde foi de seis dias. As roupas não secavam, por isso não eram lavadas. Usei a mesma calça (de moletom, vale registrar) trinta dias seguidos. Só trocava as cuecas e as meias, pelo menos a cada dois dias. Hoje penso que minha figura naqueles dias devia ser algo bem patética. Um cara usando um conjunto de moletom vermelho (a ideia era a de chamar a atenção caso eu me perdesse em alguma trilha) e botas pretas, barbudo e magrelo, era uma espécie de papai-noel mendigo e esfomeado, algo assim. Não foi à toa o choro da velhinha.

Mas tudo isso são detalhes, apenas detalhes de uma grande aventura. Fiz o caminho com um amigo e, apesar das brigas (acho que sempre são inevitáveis quando o convívio é longo), a amizade permanece até os dias de hoje. Fizemos a rota completa, desde Roncesvalles até Santiago, em 28 dias. Um grande feito, em que pese a minha condição deteriorada ao extremo.

Iniciávamos a caminhada tarde para os padrões dos peregrinos jacobeos, sempre por volta das nove horas da manhã, porque em muitas regiões, antes desse horário, ainda estava escuro. Em compensação, dificilmente chegávamos ao destino do dia antes das sete horas da noite, algumas vezes bem mais tarde do que isso. Essa rotina nos obrigava, portanto, a carregar um peso extra com alimentos, porque o comércio dos pueblos nunca estava aberto quando chegávamos. Lembro de uma vez em que nosso jantar foi pão seco com fatias de alho cortadas, como aperitivo. Mas o vinho nunca faltava, e era meu combustível até no desjejum. Nunca passei mal por isso e também não fiquei viciado, garanto.

Companhia nos refúgios só em três ou quatro ocasiões; um bêbado, desses que fazem o Caminho ad infinitum, em busca de abrigo e, quem sabe, algo de comer, nos acompanhou duas vezes, depois demos um jeito de despistá-lo. Era poeta, lembro bem disso, e quando lia seus poemas, com sua boca banguela, eu não entendia nada. Aliás, eu sequer arranhava um portunhol e isso irritava o velho, que achava, no devaneio de sua bebedeira, que eu fingia não entende-lo só para me livrar dele. Não era isso, mas devo admitir que usei algumas vezes desse recurso (ainda hoje o faço) para me livrar de pessoas inconvenientes em minhas viagens. Nesse ponto falar português é uma grande vantagem.

Depois do poeta beberrão encontramos dois outros peregrinos. Eram dois judeus estadunidenses estudantes de filosofia em Madrid. Descobriram o CS por acaso e não tinham nenhuma ideia do que estavam fazendo ali. Foram pela aventura e pela economia da viagem, que lhes garantiria abrigo gratuito, embora jamais se permitissem pernoitar nas pocilgas que nós com muito orgulho encarávamos (com inveja, claro, do conforto gozado pelos americanos). No começo não íamos para um lugar melhor para dormir por querer economizar ao máximo, mas depois resolvemos que privação material também fazia parte de nossa aventura.

Agora cheguei onde queria: privação material. Sabe o que é isso? Eu só fui descobrir o real sentido quando senti na pele o desafio. É preciso dizer que existem muitos tipos de peregrinos, assim como também de viajantes. Há os mais aventureiros que encaram qualquer parada, e há os que buscam sempre o conforto e a segurança. E há, também, os que se enquadram entre esses dois extremos, nem muito doidos, nem folgados demais. Acho que nos caso dos peregrinos compostelanos esses são a maioria. Mas naquela viagem de 95, eu e meu amigo nos enquadrávamos no primeiro grupo.


Como disse, no começo a preocupação era com a grana, que tinha que ser esticada ao máximo já que esse tipo de viagem é sujeita a muitos imprevistos. Mas algo em nós foi mudando conforme avançávamos, como se em um momento mágico um arquétipo desse passagem a outro: saía de cena o viajante aventureiro e em seu lugar assumia o peregrino. Mais humilde, mais calado e muito mais contemplativo.

Hoje sei que o fato de caminhar sozinho, sem a presença de outros peregrinos para compartilhar a experiência deambulatória foi decisivo para a profunda e involuntária imersão interior. O clima, por sua vez, também teve um papel fundamental nessa história. Há uma gigantesca diferença entre peregrinar no verão ou na primavera e peregrinar no inverno. Sei disso porque já fiz essa peregrinação nas quatro estações e nenhuma das outras três é tão marcante quanto a do inverno. O verde e o colorido das flores dão lugar a uma vegetação seca, as mesetas se transformam em paisagens desérticas, a relva cede lugar à lama, os pueblos parecem abandonados e o frio pode se transformar em inimigo mortal.

Por outro lado, isso tudo agrega ao Caminho uma dimensão mais mágica, e concordo com o que li certa vez em algum lugar: o peregrino do inverno é o que mais se aproxima do peregrino medieval; nas igrejas, quase sempre vazias nas missas vespertinas, o ritual parece dirigir-se a você, e é impossível não se emocionar quando um pároco lhe chama ao altar e lhe apresenta aos outros como “um verdadeiro peregrino”. E quando perguntam de onde você vem, então, a reação de espanto te enche de orgulho e satisfação: Brasil????? Sim, meu senhor, minha senhora, mas a pé apenas desde os Pirineus, claro...

Quanto às dificuldades, muitos peregrinos discordam do que vou afirmar: a dor física da caminhada potencializa muito o processo de transformação interior. Mas calma lá: não se trata de masoquismo e sim de aceitação, porque de certa maneira a dor nos faz crescer. Há quem fuja da dor e do sofrimento (no Caminho e na vida), de modo que tudo é desculpa para pular uma etapa ou outra (por outros meios que não seja caminhar com os próprios pés) para “poupar” o corpo, afinal peregrinação não é expiação e como sempre a sabedoria está em usar o bom censo.

O lado positivo do sofrimento é que ele, como tudo na vida, um dia passa; isso faz parte desse tipo de jornada, sobretudo se você acredita que a peregrinação é um rito de passagem, e por isso aquele que parte, é sabido, nunca é o mesmo que regressa. Pode procurar: você nunca irá encontrar, em qualquer cultura que seja, um rito de passagem onde não haja uma mínima dose que seja de dor, de sofrimento ou de privação, seja no aspecto físico, emocional ou espiritual. Pois é dessa experiência que o ser humano adquire o poder necessário para superar todos os futuros obstáculos de sua existência nesse plano.

Por isso, quando me perguntam qual a melhor época para se fazer o Caminho de Santiago, fico sempre tentado a responder: depende de quanto você está disposto a pagar; se optar pelo inverno o preço será alto, mas em compensação a recompensa virá em dobro.




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Quer ler outra opinião sobre a experiência de peregrinar no inverno? Então clique
aqui. (em inglês)




2 comentários :

  1. Oi Paulo, uma pena que este texto foi curto. Fiquei com vontade de ler muito, muito mais. Obrigada por compartilhar suas experiências, amei! Beijocas, Pá

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  2. Curto? Só você mesma, há há há! E eu que acho que esse blog é o número 1 em postagens longas, que bom que você não se assusta com isso, já deve estar acostuamada, né? Valeu, apareça sempre.beijins, pc

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